Como descrito anteriormente, as leituras do material discursivo, sua transcrição temático-seqüencial, categorização e transposição para mapas dialógicos, além de garantirem rigor e visibilidade à pesquisa, possibilitaram a emersão dos sentidos e orientaram o processo de análise. Desse modo, a seguir, serão apresentadas as categorias abordadas pelos participantes, buscando ilustrá-las com trechos de seus discursos, sendo que, para não fragmentar estes últimos, muitas vezes, um trecho transcrito em uma categoria também se refere à outra. Vale lembrar que não é nossa intenção, nesta pesquisa, esgotar os temas levantados pelos participantes, somente tratar dos mais pertinentes a fim de responder ao objetivo desta investigação.
4.2.1. Categoria Definições
Todos os participantes produziram segmentos discursivos nos quais procuraram definir e explicar a deficiência auditiva. Tais segmentos foram agrupados nesta categoria, sendo possível encontrar sentidos relativos à limitação do contato com o outro, além do sentido negativo do ser deficiente auditivo.
O sentido da limitação do contato com o outro foi determinado porque pudemos observar que todos os participantes definiram a deficiência auditiva por meio das dificuldades comunicativas dela decorrentes. Os termos utilizados com mais freqüência foram o “não ouvir” ou “não escutar”, o “não entender” e o “ouvir/escutar, mas não entender” o que foi dito pelo outro, sendo estes utilizados por todos os participantes.
P1: A pessoa falar, conversar, ela (sobrinha) não escuta. Mas ela escuta uma buzina
de carro, assim. Então, ela tem muita pouca sensibilidade.
P2: E a gente fica até chateado porque num tá ouvindo o que ele fala, então num
pode responder.
P3: A perda auditiva, que a gente pensa, né? É a surdez mesmo, né? Não ouvir o que
P3: Porque eu tiro o aparelho e não ouço praticamente quase nada. E lá, por
exemplo, a televisão tá ligada, né? Eu já fiz bastante experiência lá. Então, eu tiro o aparelho e aí a voz some.
P3: Tiro o aparelho e eu já perco o que as pessoas tão falando na televisão. Eu
escuto, né? Mas não dá pra saber o que as pessoas tão falando.
P3: Telefone... No telefone falava, gritava também, né? (...) Só pensava que tava
muito baixinho e que não tava ouvindo, né? Televisão, rádio, qualquer coisa, né?
P3: É, de não entender o que as pessoas falam e estar sempre perguntando, né? P3: E era aquilo que eu falei: problema no telefone, televisão, tudo... Tudo alto, né? P3: Não entendia o que as pessoas falavam, né?
P4: Não sei, não entendo.
P5: Eles, às vezes, até evitavam de falar algumas palavras porque a gente tinha
dificuldade de entender.
P5: A gente tem dificuldade de explicar que não tá ouvindo direito.
P5: Evitavam até de conversar com a gente sabendo que a gente não tem uma
audição boa.
P6: (...) porque as pessoas falam com a gente e a gente não ouve direito.
P7: Sem o aparelho... Eu tava assim: eu tava escutando mais do esquerdo, né? Acho
que no exame acusou, né? (...) No direito tava com bem mais perda. Não escutava quase, né?
P7: Era justamente pra conversar com ele que eu não escutava. P7: Sem o aparelho? Sem o aparelho não escuta nem entende.
P7: Eu tava sempre recebendo telefonema, às vezes, né? E às vezes eu ficava
preocupado porque eu não entendia... Não escutava.
P8: É, porque não entende as coisas... Num determinado local você não... A pessoa
P8: No meu ponto de vista fica com dificuldade de entender as coisas, de ouvir, em
determinados momentos, locais, né?
P9: (...) porque não tava ouvindo bem. E eu queria saber porque eu não tava ouvindo
bem...
Os dados relativos às dificuldades de compreensão de fala apresentadas pelos participantes concordam com o que relataram Russo, Almeida (1996) a respeito da deficiência auditiva nos idosos. Segundo as autoras, essas dificuldades comunicativas se devem ao fato de que a perda auditiva na população idosa acarreta, além da diminuição da sensibilidade auditiva, grandes dificuldades de compreensão da fala em níveis supraliminares, o que prejudica significativamente o processo de comunicação. Tais dificuldades seriam agravadas, pois são comuns, nesta população, alterações do Sistema Auditivo Central, responsável pela interpretação do que a pessoa ouve, havendo maior prejuízo do processo de comunicação (Hull, 1997a).
Um fator que agravaria as dificuldades de compreensão de fala seria, segundo P1, a presença de ruído competitivo. Esta participante comenta que quando há mais de uma pessoa falando ou a “interferência”, por exemplo, do som da televisão ou de algum outro barulho, a inteligibilidade de fala e, assim, a comunicação, ficam prejudicadas.
P1: Pra conversar tinha que ser assim, só eu e você, sem ter outras pessoas
conversando perto.
P1: Quando a gente tá conversando, assim... Sem outra interferência... Outro
barulho... Aí tudo bem. Eu entendo ele bem, ele também, né? (...) Por exemplo: se a televisão tá ligada, mesmo que esteja baixo, mesmo que não esteja muito alto, já atrapalha. Quando a gente tá sentado numa distância assim (mostra a distância), então ai dá um probleminha... Ai tem que falar... Eu ouço a voz dele... Se ele fala alto me incomoda. Se ele fala muito baixo...
A piora da compreensão de fala na presença de ruído competitivo foi relatada por Russo, Almeida (1996). Para as autoras, tal piora ocorre porque o ruído prejudica a percepção dos sons consonantais, já em déficit em função da perda auditiva nas freqüências altas, tão comum na população idosa.
Dadas as dificuldades de compreensão de fala, P1 e P3 ressaltaram o uso da leitura oro-facial como importante estratégia de comunicação. Isso porque ela possibilita uma melhor compreensão da mensagem, pois é crucial para a detecção dos índices contextuais que auxiliam na interpretação da situação e acesso ao significado (Mansur, Viúde, 1996).
P1: Ele tem que falar olhando para mim. Porque se fala virado pro outro lado até com
aparelho eu tenho essa dificuldade.
P3: Tudo que falava tinha que perguntar o quê que era. Então pra entender o que as
pessoas diziam não podia desviar o olho, né? Tinha que olhar e muitas vezes tava vendo o que as pessoas tavam falando. Então ai eu entendia...