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Yetkili ve Görevli Mahkeme (TTK m 561)

Neste capítulo abordaremos a fundamentação teórica que norteou esta pesquisa. Inicialmente, discorremos sobre a semântica da enunciação de Guimarães (1989, 2002, 2005, 2008) e sobre a sintaxe em bases enunciativas proposta por Dias (2002, 2009a, 2012b, 2013a, 2013d), à qual nos filiamos. Em seguida, faremos uma reflexão sobre os autores que representaram fontes de âncora de grande relevância para os nossos estudos, como as propostas de estudo sobre a subjetividade de Benveniste (2005, 2006), Breal (1999) e Bally (1932), a macrossintaxe de Milner (1989) e as noções de apontamento propostas por Berrendonner (1990, 2002).

Os estudos da semântica da enunciação têm nos permitido uma análise mais refinada de aspectos do funcionamento da língua que merecem ser explorados. No âmbito da gramática, há vastos terrenos profícuos a serem observados, para que se possa entender com mais profundidade o papel de fatores enunciativos na constituição das articulações sintáticas. Este é um dos objetivos precípuos do nosso estudo. Na percepção que ora desenvolvemos, a enunciação e a materialidade da língua se imbricam naturalmente na construção de uma identidade para o fenômeno da significação.

Para Benveniste (2006), as especificidades enunciativas se dão por meio da relação locutor/língua, enquanto para a perspectiva à qual nos filiamos é o acontecimento que vai configurar a estruturação linguística.

A enunciação é um acontecimento no qual se instala uma temporalidade própria. No presente da enunciação, convergem um passado e um futuro: uma memória histórico-social corroborada por enunciações anteriores revela-se na constituição dos sentidos configurados no presente do acontecimento, e essa configuração produz uma latência de futuro que constituirá, sob o signo da regularidade, o corpo memorável de outras enunciações (LACERDA, 2013, p. 30).

Assim, seguindo a abordagem que norteia nossa pesquisa, a noção de enunciação como “acontecimento sócio-histórico da produção do enunciado” (GUIMARÃES, 1989, p. 78), tal como ela é compreendida dentro da semântica da enunciação com a qual dialogamos, propicia a reflexão sobre as diretrizes que norteiam o estudo de uma sintaxe de bases enunciativas, o que suscita a reformulação na concepção de histórico, cuja pontualidade tem sido marcada no tempo cronológico. Compreendemos o histórico por uma perspectiva que o coloca na relação constitutiva entre memória e devir, relação essa que passa pelo social. Portanto, quando analisamos uma formulação presente, ela já está constituída pela memória de um passado, como também pelas direções de futuro. Por isso, dizemos que há uma conviviabilidade de tempos na enunciação. Acreditamos que a relação entre sujeito e sentido perpassa um conjunto de conformações imaginárias que passam a relação estabelecida entre um enunciado e a memória de outros anteriores, que só é possível porque o enunciado constitui os signos linguísticos, que se definem de forma relacional (GUIMARÃES, 1989, p. 76).

Nesse caso, o acontecimento, ao mesmo tempo em que se vincula à regularidade histórica que o produz, é também passível de reformulação sobre essa regularidade. E isso se dá no acontecimento enunciativo em que o repetível e o novo se expõem, que, no nosso entendimento, dar-se-á na materialidade da sentença.

O tempo linguístico, portanto, não pode ser confundido com o tempo crônico. No tempo linguístico somente o presente existiria organizando os acontecimentos em função da intersubjetividade. O fator temporal tem por eixo o locutor e o interlocutor, é em torno do sujeito e para quem ele enuncia, que o tempo presente é definido (MACHADO, 2012, p. 10).

Retomemos o que disse Guimarães sobre a textualidade. Esta "diz respeito à posição- autor”, aqui considerada como fundamental à operação enunciativa. Nessa perspectiva, o texto fica aberto à interpretação que percorre as linhas da dispersão, da memória. E analisado enunciativamente, não diz respeito à situação, não pode ser considerado no momento e no lugar em que se deu, mas como a memória do discurso, o interdiscurso que faz funcionar a língua em um presente, isto é, a análise da enunciação está relacionada a algo fora da situação, à memória do dizer à língua.

sentidos da língua, mas como o exterior da enunciação constitui sentidos no

acontecimento” (GUIMARÃES, 2012), ou seja, como a memória interdiscursiva e a

língua significam no presente da história dos sentidos. Observar o acontecimento é, portanto, o objeto específico a ser analisado no processo de funcionamento da linguagem.

Analisar os elementos que recebem determinado sentido por sua relação com o que representam no momento em que são enunciados na sentença, o pronome na enunciação, em consonância com o verbo na forma imperativa, como lugar de instauração do sujeito, representa o ponto de partida para entendermos essa mulher a quem o locutor se dirige em tempos e contextos distintos.

Adotaremos aqui a enunciação como acontecimento de linguagem que se faz pelo funcionamento da língua. Dois elementos são decisivos para a constituição desse acontecimento de linguagem: a língua e o sujeito que se constitui pelo funcionamento da língua por meio da qual se enuncia algo. Outro elemento importante na constituição do acontecimento é a temporalidade, não se tratando de contexto, situação, mas de uma materialidade histórica do real. O tempo não está num presente de um antes e de um depois. O acontecimento instala sua própria temporalidade (GUIMARÃES, 2002).

Para nós, não é o sujeito que temporaliza, mas o acontecimento. O tempo da linguagem não é, portanto, originado do sujeito. Este é tomado na temporalidade do acontecimento, “a qual se configura por um presente que abre em si uma latência de futuro, sem a qual não há acontecimento de linguagem ou significação, nada há aí de

projeção ou de interpretável” (GUIMARÃES, 2008). Para que signifique, o

acontecimento de linguagem projeta em si mesmo um futuro. A temporalidade constitui o presente e um depois que abre espaço aos sentidos e um passado que não é concebido como lembrança ou recordação pessoal de fatos anteriores, mas no acontecimento que representa memória de enunciações, abrindo a perspectiva de

“uma nova temporalização, tal como a latência de futuro” (GUIMARÃES, 2008, p.

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política e não individual ou subjetiva, nem uma distribuição estratificada de características. Falar é assumir a palavra nesse espaço dividido de línguas e falantes. Enunciar é estar na língua em funcionamento. E a língua não funciona no tempo, mas pelas relações semiológicas que tem. No acontecimento, o que se dá é o agenciamento político da enunciação, ou melhor, é o efeito do cruzamento de discursos diferentes no acontecimento.

Segundo Orlandi (1996, p. 68), “um acontecimento enunciativo cruza enunciados de discursos diferentes em um texto”. Assim, a enunciação funciona como um acontecimento de linguagem perpassado pelo interdiscurso (p. 70). A posição do sujeito, a posição de onde se fala é o argumento decisivo na concepção de sentido. A apropriação do conceito de interdiscurso na semântica da enunciação, concomitantemente à apropriação de outros conceitos da análise de discurso, possibilitou instalar um lugar para a semântica, considerando a história. Ao mesmo tempo, produziu uma ruptura na filiação ducrotiana em que a história não era considerada. Portanto, a semântica histórica da enunciação possibilitou um trabalho com o conceito de interdiscurso.

A modalidade da ordem marcada pelo uso de sentenças imperativas é assinalada não apenas pelos verbos, mas também pela força persuasiva inerente ao gênero música, expressa por meio do enunciado. Essa força persuasiva não depende exclusivamente da relação que existe no enunciado entre locutor e interlocutor. O critério de seleção lexical na assunção das palavras se dá em cenas enunciativas. Uma cena enunciativa caracteriza-se por constituir modos distintos de apropriação da palavra, dadas as relações entre os sujeitos da enunciação e as formas linguísticas. A cena enunciativa é, então, um espaço particularizado por uma deontologia específica de distribuição de lugares de enunciação no acontecimento.

Na cena enunciativa aquele que fala ou aquele para quem se fala não são pessoas, mas uma configuração do agenciamento enunciativo. São lugares constituídos pelos dizeres e não pessoas donas de seu dizer. Assim estudá-la é necessariamente considerar o próprio modo de constituição destes lugares pelo funcionamento da língua. Esta distribuição de lugares se faz pela temporalização própria do acontecimento. Neste sentido, a temporalidade específica do acontecimento é fundamento da cena enunciativa (GUIMARÃES, 2002b, p. 23).

Podemos verificar pelo uso de verbos, conforme asseveramos anteriormente, que por meio das marcas de modalidade é possível depreender não apenas conotações de ordens ou instruções, em certas passagens elas podem ser tomadas como sugestões, convites ou opiniões do enunciador. Observemos as passagens:

(62) Deixe que ela se vá. Não lhe diga que não. Deixe que ela se vá procurar outro amor em vão. Mas, um dia, se ela se cansar e pensar na maldade que fez, certamente ela há de voltar pro meu lado outra vez (GOUVEIA; FERRAZ, 1958).

(63) Hum! Mas se um dia eu chegar muito estranho, deixa essa água no corpo lembrar nosso banho. Hum! Mas se um dia eu chegar muito louco, deixa essa noite saber que um dia foi pouco. Cuida bem de mim, então misture tudo dentro de nós. (RABELO; DALTO, 1982)

(64) Bota o teu vestido longo, nega, venha antes de chover, bota o teu vestido novo, nega, se tirar me dar prazer (PEDRINHO et al., 2008).

Os espaços que vão preencher o lugar do sujeito em (62), (63) e (64) não aparecem materializados nas sentenças, funcionam como personagens da cena, pois atuam como indicadores de referência em cenas variadas. No entanto, a recuperação dessas personagens aparece, muitas vezes, de modo difuso, dando margem ao equívoco. Neste caso, a pessoalidade se instala na possibilidade de recuperarmos a participação

de um “você/tu”, isto é, de uma segunda pessoa a quem o texto musical está sendo

direcionado.

Os espaços de enunciação são espaços de funcionamento da língua que se dividem, redividem, se misturam, desfazem, transformam por uma disputa incessante. São espaços habitados por falantes, ou seja, por sujeitos divididos por seus direitos ao dizer e aos modos de dizer. São espaços constituídos pela equivocidade própria do acontecimento: da deontologia que organiza e distribui papéis, e do conflito, indissociado desta deontologia, que redivide o sensível, os papéis sociais. O espaço de enunciação é um espaço político (GUIMARAES, 2005, p. 3).

Assumir a palavra, portanto, é estar no lugar de enunciador/locutor, sendo este o lugar que se representa no próprio dizer como fonte desse dizer e o tempo como

contemporâneo desse locutor. Teoricamente, para esse deslocamento Guimarães (2005, p. 18) conduz a uma redefinição das figuras enunciativas, sobretudo a do locutor e a do enunciador, bem como uma nova configuração de falante. Além disso, ele também dá um novo estatuto à figura do falante. Diferentemente de Ducrot, para Guimarães o falante não é considerado empírico em seu aspecto físico, biológico ou psicológico, mas constitui uma figura política constituída pelos espaços de enunciação. E é nessa medida que ele deve ser incluído entre as figuras de enunciação.

Do trecho (62) subtende-se que o locutor32 tem a intenção de sugerir/aconselhar, não ordenar, trazendo algumas marcas da modalidade deôntica por meio do uso dos advérbios e dos termos um dia e certamente. A presença desses elementos, de acordo com Bally (1932), acentua a subjetividade presente nas construções. A concordância com a segunda pessoa observada por meio da alternância no tratamento tu/você é fato que evidencia a relação de intersubjetividade. Nas músicas, esse uso serve para aproximar o locutor do seu interlocutor, permitindo-lhes compartilhar o mesmo espaço discursivo, reconhecendo aqui o Locutor como lugar afetado pelos lugares sociais autorizados a falar, pois de acordo com as ideias de Guimarães (2005, p. 24) para o Locutor se manifestar como origem do que se enuncia é necessário que ele se represente ou seja predicado por um lugar social.

Segundo o autor, esses enunciados possuem especificidades em que o Locutor se representa de forma dúbia: assumindo o lugar social de amigo e, simultaneamente, do próprio aconselhado. Ambos, enunciador e interlocutor, se fundem. Na composição (62) em questão, o Locutor aconselha seu interlocutor a deixar que a companheira se vá. Curiosamente, locutor e interlocutor se confundem, constituindo o mesmo elemento enunciativo. É como se a modalidade expressa pela forma imperativa funcionasse como um conselho para si próprio; neste caso, a priori, podemos depreender da forma a modalidade como dirigida para a primeira pessoa, o que contraria o princípio da GT (gramática tradicional), que desconsidera a

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O Locutor (maiúscula), para Guimarães, só pode falar, enquanto predicado por um lugar social, representado pelo autor como locutor-x (o x representa presidente, governador, padre, etc.). Portanto é importante estabelecer essa distinção entre Locutor e locutor-x. Dessa forma, o Locutor só se configura a partir de um lugar social (2005, p.23).

possibilidade de a primeira pessoa dar ordem, sugestão, conselho a si mesma, acarretando a inexistência na gramática de uma forma imperativa relacionada a ela.

O locutor manifesta a possibilidade de retorno da amada como algo certo e já com resposta de repúdio a essa possibilidade. Isso mostra que o Locutor fala do lugar social do sujeito que foi injustamente abandonado pela companheira. Essa prerrogativa torna-se clara quando, ao retornarmos ao texto musical, observamos o desfecho: E quando ela voltar, eu então a sorrir lhe direi que me cansei de esperar e que não posso aceitá-la outra vez.

Mas esta representação de origem do dizer, na sua própria representação de unidade e de parâmetro do tempo se divide porque para se estar no lugar de L é necessário estar afetado pelos lugares sociais autorizados a falar, e de que modo, e em que língua enquanto falantes. Ou seja, para o Locutor se representar como origem do que se enuncia, é preciso que ele não seja ele próprio, mas um lugar social de locutor (GUIMARAES, 2005, p. 24).

Já no exemplo (63), por meio do uso das formas deixa, cuida e misture, podemos inferir que o Locutor fala do lugar social do amante/companheiro que mantém um relacionamento cuja liberdade conota laços estreitos entre o casal, demonstrando certa intimidade e segurança. Desse excerto pode-se abstrair uma conotação de ordem. A tessitura do trecho em (63) possibilita a apreensão de uma situação menos tensa, e um relacionamento mais livre, o que pode ser observado por meio do uso de termos como nosso banho e muito louco. Essa construção ocasionalmente ocorre na década de 1980, como é o caso de:

(65) Quem vem com tudo não cansa, Bete, balança, meu amor. Me avise quando for a hora. Não ligue pra essas caras tristes, fingindo que a gente não existe (CAZUZA; FREJAT, 1984), como também em:

(66) Me dá um beijo, então, aperta minha mão. Tolice é viver a vida assim sem aventura. Deixa ser pelo coração. Se é loucura, então, melhor não ter razão (SANTOS; SOUZA, 1984)

Diferentemente dos textos dos meados do século XX, em que certas categorias eram improváveis de ocorrer, como em Bete balança (65), por exemplo. No caso de haver

uma designação como essa, a personagem seria inserida em outro perfil que certamente não mereceria destaque em uma composição musical. Isso permite afirmar que, assim como existe uma discrepância na utilização das formas imperativas na construção da modalidade entre as décadas de 1950 e 1980, é certo que novas possibilidades apareceram em 2000.

Vejamos o termo bota no exemplo (64) e a perspectiva de ordenação onde as formas imperativas vão se tornando cada vez mais livres, sem que se perca sua essência, como podemos observar em Calma, exemplo (46), ou:

(67) Só as cachorras, as preparadas, as popozudas, o baile todo (TIGRÃO, 2001).

Ao considerar os períodos em que foram constituídas as músicas (62), (63) e (67), podemos observar pela própria construção sintática uma distinção no uso dos termos. Como podemos observar, de um período a outro as formas vão se modificando: ora tornam-se rijas, ora mais tênues, ora se dispersam. Parece haver um continuum na diluição/condensação das formas verbais imperativas: cuida/misture (63) e calma (46).

Embora os três períodos constituam um amplo escopo de referência, é possível escalonar os elementos ocupantes do lugar de sujeito segundo o modo como produzem tal referência. Tanto em (62) como em (63) e (67), temos a projeção de um você/tu como sujeito da forma verbal imperativa. As FNs constituem um parâmetro de referência associado a um (pré)conceito em relação ao perfil da mulher.

Chamamos atenção, portanto, para três modos distintos de configuração da referência o escopo do lugar de sujeito que respaldam a construção do perfil da mulher dos anos de 1950, 1980 e 2000: a projeção de interlocutores, a constituição de parâmetros e a constituição de perfis ajustados a cada período proposto. À medida que esses modos de configuração da referência no domínio do lugar de sujeito produzem efeitos, acreditamos que as sentenças que os abrigam podem ser distribuídas, mantendo, assim, uma regularidade que associa a configuração do lugar de sujeito ao modo de enunciação da sentença.

De um lado, teríamos nas sentenças onde são utilizadas as formas imperativas um efeito de interlocução, indicando as possibilidades de ocupação do lugar de sujeito. Ainda que o pronome possa indicar uma referência a uma pessoa, seja qual for, esse pronome não se desprende por completo da identidade linguística que o constitui como forma de pessoa envolvida no discurso (no caso do referente você/tu). A distribuição das sentenças na escala registra esses traços de referência que derivam da pertinência categorial das unidades linguísticas que estão no domínio do lugar de sujeito. Ao associarmos a composição da referência a cada período distintamente na constituição do lugar de sujeito, estamos observando as coordenadas enunciativas de construção dessa identidade na configuração desse lugar sintático, ou seja, estamos observando traços de regularidade. À medida que o pronome sobre cuja materialidade se inscrevem as coordenadas enunciativas restringe o lugar de sujeito da sentença, lidamos com uma regularidade que proporciona mudanças na constituição da organicidade da língua.