4. TÜRKİYE’DE İŞ VE İNŞAAT MAKİNELERİ SEKTÖRÜ
4.4 YERLİLEŞTİRME VE KRİTİK AKSAMLAR
Não resta dúvida que, desde sua chegada ao Brasil, os missionários foram vistos como novos pajés ou novos karaíba, e como tais, aglutinavam uma população indígena em torno deles. Esta adesão era conseqüência da percepção que estes povos de cultura tupi- guarani tinham destes xamãs, sobretudo, dos karaíba.
Karaíba, que foi traduzido por “santidade” ou “coisa santa”658, eram os pajés ambulantes, que iam de aldeia em aldeia, fazendo rituais de cura, sendo muito bem acolhidos e sustentados pela comunidade:
Não se fixam em um determinado lugar. Tornam-se vagabundos [andarilhos], errando aqui e ali pelas matas ou onde quer que seja, nunca regressando à aldeia junto com o restante da tribo, mas só fazendo de raro em raro e em determinados horários. (...) Por causa disto, são acolhidos pela aldeia com toda honra e consideração, sendo alimentados e sustentados de tudo, sem que tenham de fazer qualquer outra coisa além disso. Os selvagens sentem-se bastante felizes quando conseguem cair nas boas graças do pajé e quando este lhe concede o privilégio de aceitar um de seus presentes.659.
Podiam pertencer a povos contrários, mas por seu papel religioso, era-lhes franqueada a entrada em todas as aldeias660.
A cada três ou quatro anos, os karaíba passavam por determinadas aldeias para realizar rituais de exorcismo e cura. Havia também cerimônias públicas, com uma grande concentração de povo, chegando até 600 pessoas. Os homens, devidamente enfeitados,
658 VLB, v. 2, p. 112.
659THEVET, Singularidades da França Antártica, [1565] 1978, p. 117-118.
faziam enormes círculos, cantando cadenciadamente, enquanto que os karaíba, vestidos com o famoso manto tupinambá, e com seus maracás e charutos, sopravam sobre as pessoas, dizendo: “Para que vençais vossos inimigos recebei o espírito da força”. Os cantos, ali executados, celebravam a morte dos inimigos, a destruição da terra pelas águas ou outros feitos heróicos661.
Nos momentos de crise, estes karaíba tinham também um discurso milenarista, prometendo um paraíso na terra, como foi o caso de um deles, que se dizia a encarnação de um importante líder falecido, conseguiu convencer toda uma província de Pernambuco em segui-lo. Estimava-se em 60 mil pessoas, sendo que a maior parte morreu na travessia do rio Paraíba e nas áridas regiões do sertão nordestino, tendo poucos chegado até o Maranhão662.
Na “terra boa” tupi era descrita por eles de várias maneiras. Como escreveu Anchieta,
[alguns] vem dizendo que o mantimento há de crescer por si, sem serem plantados, e juntamente com as caças do mato se lhes hão de vir a meter em casa. Outros dizem que as velhas se hão de tornar moças e para isso fazem lavatórios de algumas ervas com que lavam. Outros dizem que os que os não crerem se hão de tornar em pássaros 663.
Muitas atitudes dos Tupi frente aos missionários revelam que eram vistos como verdadeiros karaíba. Na Bahia os padres atraíram muitos indígenas664.
A chegada dos jesuítas ao planalto deve ter provocado igualmente um forte impacto que resultou no deslocamento de famílias para o entorno do colégio.
661 LÉRY, Viagem à terra do Brasil, [1578] 1972, p. 162-166. 662 D’ABGEVILLE, História da missão..., 1975, p. 252-253. 663
Informação do Brasil..., TH, p. 61-62.
664 “Os Gentios aqui vêm de muito longe a ver-nos pela fama, e todos mostram grandes desejos. É muito para
folgar de os ver na doutrina [catequese], e, não contentes com a geral, sempre nos estão pedindo em casa que os ensinemos, e muitos delle com lágrimas nos olhos” (NÓBREGA, Carta aos Padres e Irmãos de
O próprio Nóbrega relatava um fato ocorrido com os Guarani dos Patos, a partir de um trabalho de catequese cristã realizado por dois clérigos (talvez padres diocesanos) que lá viviam. Quando navios portugueses ali aportaram em busca de escravos, convidaram os padres para retornar com eles para o Rio de Janeiro, junto a uma comunidade cristã. Surpresos, os indígenas disseram que se “levavam a seu padre, que levassem também a elles”665.
Neste trajeto de leitura e tradução das novas realidades, como observa Pompa, há sempre “uma construção do ‘outro’, a partir do ‘eu’ e de modificação do ‘eu’ na relação com o ‘outro’, que não envolveu apenas os indígenas, mas também os colonos e, sobretudo, os evangelizadores”666.
Por isso, muitas práticas religiosas realizadas pelos pajés foram identificadas com ações e rituais católicos realizados pelos jesuítas, sendo estes quase sempre recebidos com festa, com pedidos de cura e pessoas colocando-se ao serviço deles667.
Para serem diferenciados dos pajés e karaíba tupis, os missionários passaram a ser chamados de abaré ou abarê668. A descrição deixada por Vasconcelos, quando os jesuítas chegaram a Pernambuco, é significativa:
soando por seus arredores, que eram chegados à terra dois daqueles Abaré-guaçu (que assim chamam os padres) dos quais eles tinham por fama, que na Bahia e em São Vicente, eram pais e protetores dos índios, e lhes ensinavam os meios de sua salvação, desceram logo de suas aldeias a dar-lhes boas-vindas, carregados de caça, legumes, beijus, farinhas, ofertas de sua possibilidade 669.
665 NÓBREGA, Carta ao Pe. Simão Rodrigues, CPJ, v. 1, p. 122. 666
Religião como tradução, 2003, p. 135.
667 CARDIM, Informação da missão, 1585. In: Tratado da terra e gente do Brasil, 1978, p. 204-205.
668 O VLB registra em “padre por ordens (diocesano) ou hábito (religioso)” com a versão tupi de abarê, pajé (v. 2, p. 62).
Ao contrário de muitas regiões hispânicas, onde os termos sacerdote e igreja (templo) não foram traduzidos670, aqui no Brasil os jesuítas perceberam que a tradução ajudaria a compreensão da nova doutrina, e aceitaram este nome dado pelos Tupi.
A etimologia deste vocábulo não é consensual. Sampaio traduz abarê como “amigo da gente, dedicado ao homem” e abaré como “pessoa diferente, sobrenatural”671, sendo repetido por outros pesquisadores672. Tal etimologia não se sustenta, embora tenha sido bastante difundida. É possível que fosse formado pelo vocábulo abá (=gente) e are (=santo?). Embora no tupi esta última palavra seja de difícil tradução, parece ser um vocábulo arcaico, tendo havido um possível cognato na língua maromomi, e designava o missionário673. Na hipótese de significar “homem santo”, abarê teria o mesmo significado que o vocábulo karaíba.
Por sua vez, os próprios jesuítas se apresentavam como pessoas santas (karaíba) e se referiam ao bispo como Pajé-guaçu674. Anchieta, por sua vez, foi chamado pajé-guaçu, certamente por ser destacar como “realizador de milagres”675.
O Pe. Leonardo Nunes, o primeiro missionário a chegar a São Vicente, pelo empenho que demonstrou nos trabalhos de catequese pelas aldeias do litoral, foi chamado de Abarebebê, “o padre que voa”676.
Não somente os Tupi, como também os Guarani denominavam os missionários de “santidade”. Ansiosos, eles esperaram a chegada do Pe. Nóbrega em suas terras, tendo dado-lhe o título de Barbaclué, que, segundo Vasconcelos, significaria “homem santo”677.
670 ESTENSORO, O símio de Deus (In: NOVAES, A. A outra margem do ocidente, 1999, p. 186). 671O tupi na geografia nacional, 1987, p. 188.
672
BUENO, Vocabulário tupi-guarani-português..., 1987, p. 27.
673 “(…) já tem conhecimento e notícia dos padres, a quem eles chamam arê” (VIEGAS, M. In: HCJB, v. 9, apênd., p. 542).
674 “(…) tivemos nossos sermões e falas de Nosso Senhor, dizendo-lhes o Padre [Francisco Pires] que aquela
era verdadeira santidade (santidade chamam a seus músicos e tocadores) e dizendo aos principais que se parelhassem para as coisas de Nosso Senhor, de parte do Bispo, que era o verdadeiro Pagé-Guaçu, que quer dizer Padre grande e que se aparelhassem para ser cristãos” (PIRES, Francisco, carta de 5.08.1552, NCJ, p. 150).
675 VASCONCELOS, CCJ, L. III, 25, v. 2, p. 94. 676
CCJ, L. I, n. 68, v. 1, p. 209.
677 Id., L.I, 131, v. 1, p. 243. Este vocábulo gerou muita controvérsia. É possível que haja um erro de grafia, tendo sido sugerido por Valle Cabral a forma Abaré-catueté (sacerdote muito bom) ou como propõe Macedo Soares, abaré-eté -- padre de verdade (ver Esclarecimentos. In: CN, p. 248). Na realidade pode ter havido um erro de grafia neste vocábulo, cometido pelo próprio Vasconcelos ou por algum copista, como ocorreu com
Este nome, que na realidade deveria ser Baréaxu ou Abaré-axu, na variante dialetal guarani, já havia sido dado anteriormente ao Pe. Leonardo Nunes678.
Mesmo o celibato, praticado temporariamente por alguns pajés Guarani679, foi um elemento a mais para credenciá-los junto à comunidade, embora nem sempre esta condição pessoal fosse compreendida por outros povos Tupi. Japi-açu, cacique Tupinambá de Juniparã, na ilha do Maranhão, questionava este tipo de vida, praticada pelos capuchinhos franceses: “Mas admira-me muito que vós outros, paí [sacerdote], não desejeis mulheres. Descestes do Céu? Nascestes de pai e mãe? Não sois homens como nós?” 680.
Mas, quando Anchieta e Nóbrega recusaram as mulheres oferecidas pelos Tupinambá de Iperoig, durante a Guerra dos Tamoios, ao ficarem como reféns, escutou destes indígenas que eles eram “tão sofridos e continentes”. E ao invés de espantá-los, esta postura dava-lhes “muito maior crédito e reverência”, observava Anchieta681.
O contingente que aderiu à Casa de Piratininga no seu início foi numeroso, pois, segundo Anchieta, os que haviam se mudado para lá eram em torno de 200 pessoas, entre os alunos da Casa de São Paulo e os grupos familiares indígenas682.