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1. SEKTÖRE GENEL BAKIŞ

1.7 SWOT ANALİZİ

1.7.4 TEHDİTLER

Devido às leis que regiam as capitanias, os empreendimentos na vila vicentina eram pequenos. Segundo a Carta de Doação dada por Dom João III, lê-se que

pessoa alguma nam possa fazer ditas moendas, marinhas, nem engenhos, senam o dito Capitam [da Capitania], e o Governador, ou aquelle a quem elle para isso der licença, de que lhe pagaram aquelle foro, ou tributo, que com elle se concertar 478.

Isto se explica porque o primeiro engenho de São Vicente foi o de Martim Afonso, que o mandara edificar por volta de 1533. Passou a ser conhecido como engenho do Governador, com capela dedicada a São Jorge. Algum tempo depois, foi vendido a Erasmus Schetz e a Johan van Hielst, comerciantes alemães que atuavam em Antuérpia, passando a ser conhecido como engenho São Jorge dos Erasmos.

Os demais engenhos construídos precisaram ter a autorização do donatário, devendo pagar-lhe imposto. Assim surgiram na ilha, mais próximo a Santos, os engenhos de Pero de Góis, em terras que recebera em sesmaria, sendo chamado de engenho da Madre de Deus, devido a uma capela construída sob esta invocação. Um terceiro engenho, o de São

476 Carta do Pe. Pero Rodrigues.... para o Pe. João Álvares, assistente do Pe. Geral, 1597 (ABN, 1898, v. 20, p. 258). A carta narra também o retorno destes Carijó, seguido de uma proposta de evangelização por parte dos jesuítas, que se apresentaram como os protetores dos indígenas.

477 Id., p. 365-366.

478 Carta de Doação da Capitania de Pero Lopes de Sousa. In: MADRE DE DEUS, Memórias para a

João, foi de propriedade de José Adorno, de família genovesa. Ali trabalhou como administrador o alemão Eliodoro Hessus, o mesmo que socorrera Hans Staden, quando este fora preso pelos Tupinambá479. Um quarto, o engenho Nossa Senhora da Apresentação, foi de propriedade de Manoel de Oliveira Gago, que talvez tenha sido de Diogo Ayres.480

Houve também o engenho de Estevão Raposo, na Ilha de Santo Amaro ou Guaimbé (atual Guarujá)481 (Fig. 2).

Segundo o cronista Madre de Deus, os moradores de São Vicente haviam solicitado ao rei, em 1557, que fossem construídos, às custas da fazenda real, dois engenhos comunitários para as famílias mais pobres E sob juramento, a Câmara exigia que os responsáveis por eles não lesassem os moradores nos produtos ali beneficiados482.

Juntamente com os engenhos e fazendas, crescia também a demanda de escravos indígenas. Segundo Luís de Góis, numa carta escrita ao rei em 1548, em São Vicente havia seis engenhos, várias fazendas, mais de 600 portugueses e “de escravaria mais de três mil”483.

Fazendas havia não só em São Vicente, Santos e Guarujá, como também em Itanhaém. Os jesuítas relatavam que eram muito solicitados pelos escravos indígenas, quando por lá passavam484.

479 STADEN, Duas viagens..., [1557] 1974, p. 80

480 Para estas informações, ver o item Affonsos Gayas (NP, v. 2, p. 114,-116). Ver também o artigo de REIS, Nestor G. “Os engenhos da baixada santista e do litoral norte” (Revista da USP, v. 41, março-maio 1999, p. 62-73).

481 MADRE DE DEUS, Memórias para...,[1797]1975, p. 86. 482 ACSV, L. 3, 27.04.1557. Ap. MADRE DE DEUS, ib., p. 86.

483 Carta de Luís de Góis escrita da vila de Santos a D. João III (Arquivo da Torre do Tombo, Corpo

Cronológico, I, 80, 110. In: HCPB, v. 3, p. 259). 484

“Com as mulheres e escravos dos portugueses se faz muito fruto. (...) E [os senhores] querem mais o serviço deles, que sua salvação. (...) De maneira que é tanta a negligência dos senhores nisto, e tanta a perdição dos escravos, que temos por muito grande proveito ocupar-nos em sua doutrina, máxime não

havendo índios [livres] que queiram aprender” (ANCHIETA, Carta ao Pe. Diego Laynes, 30.07.1561. CAP, p. 177-178).

Em 1585, o Pe. Cardim, referindo-se ao litoral vicentino, escrevia que “estas três vilas [São Vicente, Santos e Santo Amaro], são pobres de pouco mantimentos e gado, porém abundantes em assucar. Em todas elas há quatro engenhos de assucar, que é a mercadoria da terra”485.

Segundo o mesmo Cardim, havia, na época, várias espécies de engenhos: os de “água rasteiros” e os de “água copeiros, os quais moem mais e com menos gastos”; os movidos a água, mas tocados com bois, chamados trapiches. Fabricam mais e têm mais gasto e “embora moem menos, moem todo o tempo do ano”, não diminuindo a produção na época da seca. Possuíam em torno de 60 escravos486.

Descrevendo engenhos de açúcar de Pernambuco, um cronista do final do século XVIII também afirmava que um engenho médio precisava de 60 escravos e 60 bois mansos para tocar o trabalho487. Isto mostra que,para ter uma produção razoável, os engenhos do litoral vicentino teriam em média de 360 escravos. É possível que outro tanto trabalhasse nas fazendas e nos serviços domésticos, perfazendo um total de 700 cativos.

No levantamento feito pelo jesuíta Luís Fonseca, no final do século XVI, e que poderia ser considerado o primeiro censo do Brasil, foram contabilizados para as vilas de São Vicente e Piratininga 600 portugueses, seis engenhos, 800 escravos e 6.000 indígenas livres488. Convém observar que muitos indígenas, considerados livres, muitas vezes tinham uma situação de cativo.

O trabalho no engenho era duro e perigoso. Por isso,Cardim escrevia que pelo tipo de atividade, “sempre os serventes andam correndo, e por isso morrem muitos escravos”489. Embora os engenhos de São Vicente devessem ser mais primitivos e talvez menos perigosos que os da Bahia, não devia estar fora de pssibilidade que esses indígenas, pouco afeitos à maquinaria, tivessem decepado um dedo ou a mão, como descrevia Antonil, ao se

485

CARDIM, Informação da Província...,1585. In: ANCHIETA, Cartas... 1933, p. 423. 486 “Informação da missão do P. Christovão...”. In: Tratado da terra e gente..., 1978, p. 193. 487 COUTO, D. Domingos de Loreto, Desagravos do Brasil...[1757] 1981, p. 174-176.

488 Coisas notáveis..., [1587] (M), no. 195, 1966, p. 11. Ver a tabela completa no final, no anexo 3. 489 Tratado da terra e gente..., 1978, p. 193.

referir aos engenhos da Bahia. Os acidentes na moenda ocorriam, sobretudo com escravos que, horas a fio, quando vencidos pelo cansaço, ficavam mais desatentos490.

A casa das fornalhas, “bocas verdadeiramente tragadouras de matos, viva imagem do Purgatório ou do Inferno”, era o lugar dos “escravos boubentos” e de “outros escravos, facinorosos, que, presos em compridas e grossas correntes de ferro, pagam neste trabalhoso exercício os repetidos excessos da sua maldade” 491.

Havia, também, o ofício de caldereiro e tacheiro, cuja tarefa era mexer o caldo de cana a ferver nos tachos, e que depois era colocado nas formas de açúcar. Trabalho duro e perigoso, tarefa de escravos rebeldes, geralmente “amarrados com grandes correntes de ferro a um cepo” e também de escravos fugitivos, sendo que este trabalho era um castigo “para que desta sorte o ferro e o trabalho os amanse”492.

Mesmo que os engenhos de São Vicente não tivessem tido a rudeza dos engenhos baianos, a violência dos proprietários portugueses em relação aos escravos era conhecida, como testemunhou Thevet, em 1555, passando pelas Canárias:

os escravos [africanos] são duramente tratados pelos espanhóis, e mais ainda pelos portugueses, levando uma vida pior do que a que teriam se tivessem entre os turcos ou árabes. Sou constrangido a referir-me a tais maus tratos, por tê-los eu próprio presenciado 493.

Se plantar cana era uma atividade mais leve, o cortar cana e, sobretudo, transportá-la era um trabalho difícil e desgastante, não só para os escravos, como também para os bois, principalmente na época de chuva. Como dizia Antonil referindo-se aos engenhos da Bahia, “conduzir a cana por terra em tempos de chuva e lamas é quere matar muitos bois, particularmente se vierem de outra parte magros e fracos”. E lembrava o caso de um

490

Cultura e opulência do Brasil [1711], 1982, p. 112. 491 Id., ib., p. 115.

492 Id., ib., p. 119.

engenho, onde morreram, em apenas um ano, 211 bois, “parte nas lamas, parte na moenda e parte no pasto”494.

Além disso, havia o corte da lenha necessária para cozinhar o caldo da cana que iria produzir o açúcar. Numa região, como o litoral vicentino, onda as matas ficavam na serra, é de se imaginar o desgaste que tinham os indígenas para levar a lenha para os engenhos.

A conseqüência da prioridade que se dava para os engenhos, trazia um outro problema para os vicentinos, que era a penúria alimentar.

Infelizmente, a documentação desta época é um tanto omissa, mas, por alguns relatos, vê-se que buscavam a farinha de mandioca, em outras regiões, como junto aos Tupinambá de Ubatuba, ou aos Tupi de Itanhaém ou mesmo junto aos Tupi do planalto, como fizeram os jesuítas, para a manutenção dos meninos que viviam no colégio, cuja farinha era trazida de lá, “apesar da grande aspereza do caminho”495.