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COVID-19’UN KİRALAMA OPERASYONUNA ETKİSİ

6. KİRALAMA SEKTÖRÜ

6.12 COVID-19’UN KİRALAMA OPERASYONUNA ETKİSİ

Para implantar seu projeto missionário, os jesuítas investiram em três áreas estratégicas: nas grandes lideranças, pois sendo elas convertidas, poderiam levar consigo toda uma comunidade; nas crianças, por serem mais dóceis à nova doutrina, e nas mulheres, por serem mais acolhedoras.

outros nomes tupis na mesma obra, como foi o caso de Pira Obig, que deveria ser Paranobi, nome de um povo tupi do médio rio Doce, em Minas Gerais (CCJ, L. 1, c. 203, v. 1, p. 278).

678 NUNES, Carta ao Pe. Manoel da Nóbrega, 29.06.1552 (CPJ, v. 1, p.341). Esta carta deve ter sido a fonte na qual se inspirou Vasconcelos para fazer a afirmação anterior. A nova grafia foi proposta por Leite, a partir do manuscrito -- que é a versão espanhola da carta --, já que o original português se perdeu (ver CPJ, v. 1, p. 341, nota 9). A língua guarani ao invés de guaçu ou açu, para o vocábulo grande, emprega guaxu (guatxu) ou

axu (atxu) (DOOLEY, Robert, Vocabulário guarani-português, 1998, p. 31). 679 CLASTRES, H. Terra sem Mal, 1978, p. 43.

680 D’ABBEVILLE, C. História da missão...[c. 1615] 1975, p. 63. 681

Carta ao Pe. Diego Laynes, 8.01.1565 (CAP, p. 215).

682 “Na Escola, muito bem ensinados pelo Mestre António Rodrigues, encontram-se 15 já batizados e outros,

em maior número, ainda catecúmenos. (...) Nesta Aldeia foram admitidos para o catecismo 130 e para o batismo 36 de toda a idade e de ambos os sexos” (Carta ao Pe. Inácio de Loyola, 1.09.1554 , CPJ, v. 2, p. 106).

As crônicas jesuíticas conservaram o nome de dois líderes que tiveram papel fundamental na criação da Casa de São Paulo e que se transferiram para lá com seu grupo: Tibiriçá, da aldeia Piratininga, e Cayobi, da aldeia Jurubatuba.

Os padres foram muito gratos a Tibiriçá, que foi batizado com o nome de Martim Afonso683. Não se pode esquecer que para conhecer Martim Afonso, Tibiriçá deslocara-se a pé até o Rio de Janeiro, levando cristais com que se enfeitava o rosto, a grande riqueza que possuía. Deve ter-lhe causado um forte impacto este primeiro contato, já que Martim Afonso deveria ser visto por ele como um grande karaíba. Por isso, manteve esta amizade, oferecendo apoio posterior ao núcleo português que se formou no planalto.

Ao receber o batismo, não hesitou em escolher o nome deste “grande chefe” e continuou oferecendo apoio aos novos karaíba, tornando-se, pois, um grande colaborador dos padres684.

Convém lembrar a lamentação que fez por ocasião da morte do Ir. Pero Correia, praticada pelos Carijó dos Patos, no princípio de dezembro de 1554. Consternado, pois este missionário era muito estimado, realizou um solene pranto:

desde a meia-noite até o romper da alva, deu lugar a seu desespero da dor pela morte do Irmão, andando à volta da casa (como é costume entre eles) a repetir muitas vezes estas palavras: “Já morreu o príncipe da verdadeira fala, o único que nos declarava a verdade, que nos amava com amor sincero do coração! Já morreu o nosso pai, irmão e amigo!” 685

Em 1562, por ocasião do ataque tupi de Piratininga, foi peça chave na defesa da missão, como se verá mais à frente, sendo, por isso chamado pelos missionários “não só de

683 Ver ANCHIETA, Carta 16.04.1563. CAP, p. 197. 684

“Porque havendo ele [Tibiriçá] ajudado a fazê-la com suas próprias mãos, e havendo nos ajudado a sustentar logo no princípio de sua fundação que não havia ali nenhuns portugueses, agora o quis fazer nosso defensor” (Id., Carta ao P. Diego Laynes, 16.04.1563. CAP, 198).

685 Id., Quadrimestral de setembro a dezembro de 1554 e trimestral de janeiro a março de 1555 ao Pe. Inácio

benfeitor, mas também fundador e conservador da Casa de Piratininga e de nossas vidas”

686.

Outro cacique que teve papel importante nestes primórdios de missão foi Cayobi, cujo nome cristão era João687, deixou sua aldeia em Jurubatuba e “tudo quanto tinha e foi o primeiro que começou a povoá-la [a Casa de Piratininga]”688.

Segundo Anchieta, tornara-se um piedoso cristão, tendo recebido dos padres uma cruz, que levava no seu cajado, para proteger-se dos perigos do caminho e, talvez, como um novo símbolo de poder, que deveria destacá-lo dos demais.

Depois de se transferir com sua família para junto da Casa de São Paulo, periodicamente voltava à sua antiga roça, passando antes na igreja:

quando havia de partir [para sua antiga aldeia] ia-se primeiro á igreja a dar conta a Nosso Senhor de sua partida, dizendo-lhe em sua língua, posto de joelhos: “Senhor, eu vou buscar de comer; hei de tardar tantos dias; guardai-me, que não me aconteça algum mal”. (...) Ao regresso, entrava antes de mais nada na igreja, a dar graças a Nosso Senhor e a dizer-lhe que já viera, como prometera. Nesta fé e simplicidade perseverou sempre, ouvindo cada dia missa e pregando continuamente a seus filhos e netos, que tinha muitos, que fossem bons e cressem em Deus e guardássemos o que lhes ensinássemos. Trazia um bordão com uma cruz, que nós lhe demos, na qual tinha muita fé e esperança. E quando ia fora, aquele era seu arco e flechas que levava, e por aquele – dizia – que lhe guardava Deus do mal e lhe dava longa vida 689.

686 Id., Carta ao Pe. Diego Laynes, 16.04.1563 (CAP, p. 198). 687 CCJ, L. 1, n. 158, v.1, p. 256.

688 ANCHIETA, Carta ao Pe. Diego Laynes 30.07.1561 (CAP, 176). 689Id., ib., p. 176-177.

Foi muito fiel aos padres e, segundo Anchieta, no final de sua vida pedira que seus filhos prometessem que “nunca [se] apartassem da igreja e doutrina de nossos irmãos [jesuítas]”690.

Outras lideranças importantes não aparecem nas crônicas jesuíticas, certamente pelo fato de não terem aderido aos missionários.

As crianças foram o segundo alvo preferido, como se verá mais à frente, ao se abordar a escola.

Além dos meninos, que estavam mais próximo dos padres, houve também a aproximação das meninas, que geralmente acompanhavam as mães.

Há um relato de uma menina enferma, que não queria as rezas tradicionais, mas pedira “com lágrimas que levasse à igreja e, gemendo diante do altar, dizia na própria língua: Ó paí, sara-me”. E continuava o cronista:

Interrogada pelo seu pai se queria que lhe trouxesse aquele feiticeiro [pajé] para lhe dar remédio, rompendo em grande prato, lançou-se ao chão dizendo que queria voltar à antiga saúde não com o auxílio do feiticeiro, mas com o de Deus 691.

As mulheres foram o terceiro alvo da catequese. De muitas delas os missionários tiveram pronta adesão, pois encontravam no cristianismo uma defesa contra a escravidão.

Numa de suas cartas, Anchieta relatava a postura das indígenas cristãs, frente ao quadro de abuso sexual a que eram submetidas pelos seus senhores:

Observam-se em muitos, máxime nas mulheres, assim livres como escravas, mui manifestos sinais de virtudes, principalmente em fugir e detestar a luxúria. (...) Outras desprezam as dádivas, que lhe oferecem os mancebos desonestos. Outras, a que pela violência lhe querem roubar a

690 Id., ib., p. 177.

691 Id., Quadrimestral de maio a setembro de 1554, 01.09.1554 (CAP, p. 73). Embora a edição brasileira registre “o’ pai, sara-me”, é possível que a menina tivesse pronunciado da forma tupi “paí” isto é, pajé..

castidade, defendem-se não somente repugnando com a vontade, mas até com clamores, mãos e dentes fazem fugir os que as querem forçar. Uma, cometida por um e perguntada de quem era escrava, respondeu:“De Deus, Deus é meu Senhor, a Ele te convém falar, se queres alguma coisa de mim” 692.

Com o aumento das doenças, muitas delas procuravam os padres, quais novos karaíba, para obterem saúde. E era freqüente, que várias delas pedissem o batismo na hora da morte693.

E como escreveu Anchieta, “à confissão e aos demais sacramentos têm muita reverência, e tanta que muitas vezes afirmam os doentes que se lhes abrandam as dores depois da confissão”694.

Muitas chamavam os padres por ocasião do parto, sobretudo quando este se mostrava mais difícil. Segundo o mesmo cronista, ao serem colocadas relíquias dos santos no pescoço, as parturientes logo davam à luz, o que fazia com que pedissem também o batismo, pois lhes parecia que a religião dos abaré era mais poderosa que a dos pajés695. Pelos relatos jesuíticos, a adesão à nova doutrina era também em conseqüência do medo das entidades indígenas, geralmente vistas como maléficas, e que assombravam os Tupi muito mais do que os protegiam.

Por isso, a religião católica, com seus santos e símbolos protetores – como a cruz, a água benta e o terço – , deveria dar-lhes mais segurança. O calvinista Lérry também fez uma observação que vai neste sentido:

Pude vê-los mais de uma vez apreensivos, batendo com as mãos nas coxas, aflitos e em suores. E nesses transes nos diziam: “Mair [Maíra] atu-assap, acequeei Ainhan atupané”, o que vem a ser em

692 ANCHIETA, Carta ao Pe. Diego Laynes, 1.06.1560 (CAP, p. 160-161). Ver também o caso em que uma liderança exigiu a posse de uma indígena já cristã, amiga dos padres (Id., Carta aos Padres e Irmãos de

Coimbra, abril de 1557, CAP, p. 119). 693 Id., ib., p. 157.

694 Id., Ib.. 695 Id., ib., p. 158.

nossa língua: “Francês, meu amigo, temo o Anhã mais do que tudo”. E se lhe respondíamos: “Nacequeiei ainhan”, isto é,“nós não o tememos”, deploravam sua sorte e retrucavam: “Seríamos tão felizes se fôssemos preservados do mal como vós” 696

Purchas, o editor inglês da obra de Knivet, anotou no seu texto um comentário bastante significativo neste sentido, ouvido do próprio autor:

Sobre estes espíritos que possuíam os índios e os matavam, o sr. Knivet contou-me que ouviu de um silvícola, por ocasião de se achar assim possesso, discutir com o gênio e ameaçá-lo de que se ele continuasse a maltratá-lo tão mal, converter-se-ia em cristão; então, sob tal ameaça, o espírito deixou a sua vítima 697.

Certos atos do quotidiano, como uma boa caçada, poderia parecer uma intervenção divina698.

Em momentos de guerra, a fé cristã parecia dar-lhes mais confiança, como foi o caso da esposa de Tibiriçá, que acompanhou o marido num dos muitos conflitos da época, como foi relatado por Anchieta. Quando a peleja pendeu para o lado do inimigo, aquela líder, colocando-se na frente de todos, incitou os parentes a fazerem o sinal da cruz, pois

696 LÉRY, Viagem à terra do Brasil, 1972, p. 159-160. 697

Vária fortuna e estranhos fados...[1625] 1947, nota 92, p. 69.

698 Um episódio, ocorrido entre os Tupinambá de Ubatuba ilustra esta percepção indígena. A um índio que se lamentava de não estar conseguindo pegar caça nas armadilhas que preparou, por causa de uma velha que lhe fizera feitiço, respondeu Anchieta: “Vós não acabais de crer em vossos feiticeiros, como se eles tivessem

poder para nada disso? Deus é o Senhor de tudo. Crê em minhas palavras, que ele a fará cair” E pronto respondeu o Tupinambá: “Faze com que teu Deus mande vir toda a caça dos montes em meus laços e teremos que comer”. E relatou o missionário que “dali a dois dias lhe caíram dois animais, que são maiores

que lebres, e ele com muita alegria mandou-me logo chamar, contando-me o que havia sucedido. (...) De maneira que os índios me tinham muito crédito” (ANCHIETA, Carta ao Pe.Diego Laynes, 8.01.1565, CAP p. 239-240).

com este gesto teriam a vitória. E foi o que aconteceu. Evidentemente, o missionário conclui dizendo que “só dois que o deixaram de fazer foram feridos e um morreu”699.

As crônicas e cartas mostram que muitos indígenas aderiram aos padres também pelas atividades caritativas e terapêuticas que exerciam. Eram os médicos de então, disputando com os pajés este ofício. E aproveitavam-se dos tratamentos e das curas para divulgar a nova religião: “Acreditam que nós possuímos o poder de restituir a saúde, por temos conhecimento de Deus e o pregarmos. (...) E por isso as mulheres nos mostram muita afeição” 700.

E, como dizia Anchieta, ao comentar o caso de um jovem ferido num combate, “curamos-lhe as feridas até sarar e, entretanto, por remediar as chagas de sua alma, o instruímos nos rudimentos da fé”701.

Havia também os pequenos presentes e ofertas distribuídos pelos padres, como roupas, facas, anzóis, agulhas e outras miudezas. Era a prática assistencialista, que fez o cronista escrever, “que os padres da Companhia são pais dos índios assim das almas como dos corpos”702. E com razão, observou Melià, “são esses imponderáveis do regime paternalista que tanto atrai e amarra” o indígena703.

E a adesão cristã levava-os a assumir de bom grado outros elementos da cultura ocidental, como a roupa e o corte de cabelo704. A adoção destes elementos era sinal de entrada na cultura dos novos senhores, evitando discriminações.

Um episódio, ocorrido entre os Tupinambá do Maranhão, mostrava uma aceitação política, que se seguia à aceitação religiosa e vice-versa. Ao acolher os franceses como seus grandes aliados, os Tupinambá dispuseram-se a mudar de vida, adotando novos costumes, como dissera o cacique Japi-açu ao chefe francês da nova colônia:

699 Id., Carta ao Pe. Diego Laynes, 1.06.1560 (CAP, p. 159). 700

Id., Carta trimestral de maio a agosto de 1556, agosto de 1556 (CAP, p. 109-110).

701 Id., Carta aos Padres e Irmãos de Coimbra, abril de 1557 (CAP, p. 121). Sobre os tratamentos terapêuticos, ver LOMONACO, Maria Aparecida T. Práticas médicas indígenas e jesuíticas em Piratininga (In: NATALINI, Gilberto & AMARAL, José Luiz (org.). 450 anos de história da medicina paulista, 2004, p. 3-31).

702

ANÔNIMO [FONSECA, Pe. Luís da] Primeiros aldeamentos da Bahia (In: TH, p. 180).

703 O Guarani reduzido. In: HOORNAERT, E. (org.), Das reducões latino-americanas…, 1982, p. 232. 704 Quando o Ir. Pero Correia se dispôs ir sozinho aos Guarani dos Patos, os Tupi de Cananéia ofereceram para acompanhá-lo e para não serem reconhecidos, pois era um povo rival, dispuseram-se em “cortar o cabelo à maneira dos cristãos” (ANCHIETA, Quadrimestral de setembro a dezembro de 1554, CAP, p. 96).

Quanto ao nosso costume de matar escravos, usar cabelos compridos, furar os lábios, dançar etc., entregamo-nos a ti e faremos o que quiseres nos ordenar. Os peró [portugueses] maltrataram-nos outrora e praticaram contra nós muitas crueldades, somente porque tínhamos os lábios furados e usávamos os cabelos compridos, que de resto eles mandavam raspar como sinal de ignomínia.Tu nos dirás a esse respeito qual a tua vontade e, depois de ouvir-te, faremos o que quiseres 705.

Houve também o caso de Tecuariubuí [Takuarobi], também do Maranhão, que, num entusiasmo religioso, dispôs-se não apenas seguir os costumes ocidentais, como também a vida mortificada dos frades capuchinhos:

E eu quero doravante viver como os Paí, usar um hábito pardo como eles, nada possuir como eles e como eles andar com a cabeça baixa e olhando para o chão; não quero mais saber nem de raparigas nem de mulheres, não quero tê-las nem morar com elas; quero viver e proceder como os Paí.706

Evidentemente, não realizou o que dizia, tendo sido contestado pelos presentes, que duvidaram de sua aptidão para o celibato 707.

Apesar de este tipo de comportamento não ter ocorrido entre os Tupi de Piratininga – ou pelo menos a documentação jesuítica não o registra –, é possível ter havido gestos parecidos de grande aceitação às práticas dos abaré.

705 D’ABBEVILLE, História da Missão...., [1614] 1975, p. 61. 706 Id., ib., p. 85.

3.5 A catequese itinerante

Ao contrário do que a historiografia tradicional afirma, a atuação inicial dos jesuítas no planalto não foi nos aldeamentos de Pinheiros ou de São Miguel708, que surgiram mais tarde, mas num trabalho itinerante nas próprias aldeias indígenas.

Esta prática deveu-se à dificuldade em se ter autorização do governador Duarte da Costa, pois, como escrevia Nóbrega, “não lhe pareceu a elle bem, nem a seu conselho, porque Sua Alteza tinha mandado que desse paz aos Índios e não os escandalizasse”709.

Na impossibilidade de se aldear os indígenas, como era inclusive desejo inicial do rei710, Nóbrega optou por um trabalho itinerante.

Adoto aqui o vocábulo aldeamento para indicar os povoados de indígenas cristãos, diferenciando-se de aldeia, usado para o povoado tradicional, muito embora, como observa Petrone, o termo aldeia tenha sido usado indistintamente na documentação colonial para os dois casos711. É o que mostra ainda hoje a toponímia regional, como Aldeia de Carapicuíba, Aldeia Velha de Barueri e Aldeinha, em Itapecerica da Serra. Nas cartas jesuíticas aparece aldeia tanto para o povoado português, como se usa até hoje em Portugal e, como fez Anchieta, ao falar de “aldeia de Piratininga”712. Na documentação colonial aparecerá o vocábulo aldeia tanto para o agrupamento tradicional indígena, como para povoação (vila portuguesa) e para o aldeamento missionário713.

708 Ver MADRE DE DEUS, Memórias para a História da Capitania de S. Vicente, [c. 1752], 1975, p. 125- 126, no que foi seguido por outros autores (Ver SOUZA, Catolicismo em São Paulo, 2004, p. 67).

709 NOBREGA, Carta a Thomé de Sousa, 1559 (CN, p. 202-203). 710 Regimento de Tomé de Sousa, 17.12.1548 (In: HCPB, v. 3, p. 347). 711

Aldeamentos paulistas (1995, p. 103-105).

712 Carta aos padres e irmãos de Coimbra, 15.08.1554 (CAP, p. 59). 713 Ver a correspondência de Nóbrega (CN, p. 202, 204 e 205).

Esta fase itinerante caracterizou-se por permanências curtas e visitas sistemáticas às aldeias da região, que estavam “distantes três e quatro e até sete léguas”714, que durou até a implantação dos primeiros aldeamentos do Padroado Real, por volta de 1583.

As caminhadas eram tantas e tão longas, que obrigaram Anchieta a aprender fazer alpercatas, “porque se não pode andar por cá com sapatos de couro pelos montes”715. Em 1560, ao escrever ao Pe. Geral, afirmava:

quase sem cessar, andamos visitando varias Povoações assim dos Índios como de Portugueses, sem fazer caso das calmas e chuvas, grandes enchentes dos rios, e muitas vezes de noite por bosques mui escuros a socorrer enfermos, não sem grande trabalho, assim pela aspereza dos caminhos, como pela incomodidade do tempo, maximé sendo tantas estas Povoações, estando longe uma das outras, que não somos bastantes a acudir tão varias necessidades como ocorrem, e, mesmo que foramos muito mais, não poderíamos bastar 716.

Este trabalho itinerante atingiu as várias aldeias do planalto. Convém observar que os jesuítas deste período foram bastante sóbrios em nomear não somente as aldeias indígenas, como também seus líderes.

Maniçoba

Apesar desta proposta inicial de catequese itinerante, houve tentativa de uma missão sedentária, que ocorreu, talvez devido à distância, em Maniçoba, aldeia tupi que ficava no caminho para o Paraguai. Como já foi assinalado atrás, o objetivo de Nóbrega era atingir a terra dos Carijó; e por isso, sua primeira experiência missionária no planalto foi junto a esta

714 ANCHIETA, Carta ao Pe. Geral Francisco de Borja, 10.07.1570 (CAP, p. 271); Informações do Brasil, TH, p. 54.

715 Id., Carta aos Irmãos enfermos de Portugal, 20.03.1555 (CAP, p. 87-8). 716 Carta ao Pe. Geral Diego Laynes, 1.06.1560 (CAABL, p. 149).

aldeia, chamada também de Japiúba717, que ficava provavelmente à beira do ramal do Peabiru, que ligava Piratininga ao Paranapanema718.

Foi para lá que Nóbrega se dirigiu, ao passar por Piratininga, em agosto de 1553, quando deixou as bases para a fundação da Casa de São Paulo719.

Esta aldeia ficava a 50 léguas (330 km) de Piratininga no dizer de Pero Correia720. Um jesuíta anônimo, certamente Quiricio Caxa, afirmava que ela estava “junto de um rio donde se embarca para os Carijós [Guarani]”721. Como demonstrei em minha pesquisa anterior, este rio deveria ser o Paranapanema e não o Tietê722, como desejaram os defensores da tese de que esta aldeia estaria onde hoje se encontra a cidade de Itu723.

O contato inicial havia sido feito por Pero Correia, em julho de 1553, e seu trabalho mostrava-se bastante promissor, como escreveu Nóbrega: “Os moços [Guarani] principalmente vem-se para nós de todas as partes”724.

A notícia da chegada de Nóbrega, que fora com o filho mais velho de João Ramalho, espalhou-se logo. Sua fama alcançara também a região do Guairá e muitas famílias Guarani mudaram-se para lá, num movimento típico destas populações, que buscam estar próximo do “homem de Deus”725. Havia a perspectiva de se criar uma missão e por isso foi construída uma pequena igreja, onde se começava “a ensinar a doutrina cristã, dando princípio a uma residência, que continuou alguns anos”726.

Quando voltou para Piratininga, Nóbrega deixou ali os padres Francisco Pires, Vicente Rodrigues e alguns irmãos, entre os quais Gregório Serrão, além de vários

717 CCJ, L. 1, n. 130, v. 1, p. 243.

718 É possível que este ramal seguisse o traçado proposto por Chmyz, costeando o Tietê, passando por Carapicuíba, Barueri e Araçariguama, para alcançar Itapetininga, Itapeva, Itararé, adentrando-se para a região do Paraná (CHMYZ, I. & SAUNER, Z., Nota prévia sobre as pesquisas arqueológicas no vale do rio Piquiri.

Dédalo, v. 13, 1971, p. 16-17).

719 “Yo voime adelante a buscar algunos escogidos que N. Señor tendrá entre estos gentiles” (Carta ao Pe.

Luís Gonçalves da Câmara, 31.08.1553, CPJ, v. 1, p. 523). 720 Carta ao Pe. Braz Lourenço, 18.07.1554 (CPJ, v. 2, p. 71). 721

“Em este mismo tiempo fue el Pe. Manoel da Nóbrega com otros algunos de la Comp.a a Manizola [Maniçoba] treinta y cinco léguas [210 km.] por el desierto adentro, iunto a su rio donde embarcam para los Carijós” (ANÔNIMO [CAXA, Q.] Historia dos Collegios do Brasil, ABN, 1897, v. 19, p. 125). Esta aldeia devia ficar provavelmente na região da atual cidade de Itararé.