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Baldinger (1970) põe a seguinte questão: se as palavras podem ter vários significados, como podemos compreendê-los em cada caso? Para o autor, uma vez que não nos comunicamos por meio de palavras soltas, a determinação do significado só é feita pelo contexto em que uma unidade lexical se insere.

De acordo com Ullmann (1964), surgem na primeira metade do século XX duas escolas que tratam da questão do significado: a analítica ou referencial, já tratada no capítulo 3, e a operacional ou contextual. Esta considera o “caráter puramente operacional de conceitos científicos” (ULLMANN, 1964, p. 131), alastrando-se dos vocabulários especializados para o léxico comum. Ainda segundo o autor, o principal ponto positivo dessa escola é a definição do significado por meio dos contextos.

No tocante à transposição dos significados para o dicionário, Baldinger (1970) suscita outra questão: como podem existir dicionários se eles abrigam palavras isoladas? A esse respeito, Ullmann (1964) destaca que os lexicógrafos

Fariam bem em atentar que o significado de uma palavra só se pode averiguar pelo estudo do seu uso. [...] O investigador deve começar por reunir um número adequado de contextos e abordá-los com espírito aberto, permitindo que o significado ou significados brotem dos próprios contextos. Uma vez concluída esta fase, pode passar com segurança para a fase “referencial” e procurar formular o significado ou significados assim identificados. A relação entre os dois métodos, ou antes, entre as duas fases da investigação, é, em última análise, a mesma que existe entre a língua e a fala: a teoria operacional trata do significado na fala, a referencial, do significado na língua. [...] cada uma maneja o seu lado próprio do problema e nenhuma delas é completa sem a outra (ULLMANN, 1964, p. 137).

Em relação à presença dos contextos e abonações em obras lexicográficas, a princípio esses tinham caráter normativo, servindo como modelo para o uso. Já no século XX, com a introdução de tendências descritivas em Lexicografia, tais informações começam a ter o papel de ilustrar e complementar as definições (ALVES, 2011). Atualmente, temos observado a reflexão sobre o papel e a importância dos contextos na microestrutura dos dicionários, cujo objetivo é complementar as informações ali presentes, além de refletir, concretamente, a definição.

Alves (2011) faz uma distinção entre três tipos de exemplos: o criado, o adaptado e o documentado. Para a autora, os dois primeiros são mais adequados para informações gramaticais, no entanto, são artificiais. Já o terceiro tem a vantagem de ser autêntico e oferecer a situação real de uso da palavra.

Welker (2004), por sua vez, ressalta que há uma discussão sobre qual seria a melhor opção para figurar na microestrutura do dicionário e acrescenta que as funções dos exemplos são: 1. comprovar que o lexema ocorre, de fato, na respectiva acepção; 2. mostrar que os bons autores usaram o lexema; 3. mostrar o lexema num contexto estilisticamente belo, ou incomum; 4. mostrar o uso real do lexema, auxiliando, desse modo, na produção de textos; 5. auxiliar na compreensão do lexema consultado.

Pérez Hernández (2002) acrescenta que o uso determina o significado e, por conseguinte, toda e qualquer forma de estudo linguístico deve partir do exame detalhado de contextos reais. Béjoint (2000) argumenta ainda que, além de fornecerem explicações sintáticas e semânticas adicionais, os contextos revelam também valores culturais. Entendendo a importância da presença da contextualização na microestrutura das obras lexicográficas, optamos pela inserção de tal paradigma, apontando para o uso real dos cromônimos e mostrando sua variação de especialização entre os diferentes níveis de comunicação.

4.3.1 A utilização do Corpus Web para a extração dos contextos

Segundo Béjoint (2000), os lexicógrafos começaram a usar corpus no século XVIII, na época um conjunto de textos escritos, autênticos, geralmente literários, de onde extraíam as unidades lexicais que comporiam as obras e as abonações. Nas últimas décadas do século XX, a Lexicografia se depara com a construção de corpora informatizados e vê na Linguística de Corpus uma aliada para o desenvolvimento de sua prática. De fato, o advento dos corpora transformou o desenvolvimento do trabalho lexicográfico, pois uma vez que o uso é um pré- requisito fundamental para a constituição do dicionário, tal ferramenta proporciona maior facilidade e rapidez na compilação de textos, na sua análise e na escolha dos itens que farão parte da microestrutura.

Para Pérez Hernández (2002)

Com a introdução do uso de corpora textuais informatizados, as possibilidades de análise linguística que os lexicógrafos puderam realizar no processo de compilação das entradas se multiplicaram de forma absurda. A linguística de corpus tornou evidente a importância de se derivar a descrição linguística a partir de uma análise detalhada da língua usada de forma natural, já que esse estudo pode auxiliar a revelar muitas regularidades (e irregularidades) do nosso uso da língua que não tinham sido observados ainda, ou podem nos auxiliar a observá-las de modo mais uniforme, com uma perspectiva mais ampla e com índices de frequência relativa mais confiáveis (PÉREZ HERNÁNDEZ, 2002, p. 41).52

52 Con la introducción del uso de los corpora textuales informatizados, las posibilidades de análisis lingüístico

que los lexicógrafos pueden llevar a cabo en el proceso de compilación de las entradas se han multiplicado de forma magnífica. La lingüística de corpus ha hecho patente la importancia de derivar la descripción lingüística de un análisis detallado de la lengua usada de forma natural, ya que este estudio puede ayudar a revelar muchas regularidades (e irregularidades) en nuestro uso de la lengua que antes no se habían observado, o pueden ayudarnos a verlas de forma más uniforme, con una perspectiva más amplia y con índices de frecuencia relativa más fiables.

Berber Sardinha (2004) define um corpus como um conjunto de textos autênticos representativo da linguagem, em formato eletrônico e, portanto, podendo ser processado por computador, organizado a partir de critérios linguísticos e predeterminados e que tem função de auxiliar a pesquisa linguística, sendo de extrema importância para a verificação das hipóteses teóricas e para a elaboração de dicionários. Para a realização desta pesquisa, era imprescindível que o corpus fosse abrangente quanto aos tipos de texto e gigantesco quanto ao número de palavras, uma vez que temos conhecimento da baixa frequência dos cromônimos.

Desse modo, a World Wide Web tem se mostrado como uma solução aceitável e a mais adequada para a presente proposta, visto que os mecanismos de busca são capazes de acessar bilhões de páginas nas mais variadas línguas.

De criação recente, a World Wide Web é um dos recursos mais utilizados em pesquisas das mais variadas naturezas. Considerada uma revolução também dos meios de comunicação, a Web proporciona não só a conexão entre as pessoas, como também o compartilhamento de informações.

Colson (2007) ressalta alguns contrapontos ao se adotar a Web como o corpus para a pesquisa. Primeiramente, o autor atenta para a ausência de uma base metodológica que leve em conta as variações, o registro, o estilo, as diferenças entre a linguagem escrita e falada e que possa ser considerado um modelo da linguagem padrão. Como salientado pelo autor, apesar de a Web ser uma combinação interessante de construções corretas, também está repleta de erros linguísticos das mais variadas espécies. Uma segunda objeção evidenciada pelo autor diz respeito ao tipo de uso linguístico que, para ele, é um uso intermediário entre a linguagem falada e a escrita, não sendo um modelo para outros tipos de situações comunicativas.

Aliado a estes fatores, há de se considerar a rapidez com que as páginas são removidas, o que causa a baixa confiabilidade de grande parte do material disponível e que faz com que o uso da Web como corpus seja condenado por muitos linguistas.

Para Berber Sardinha (2003, p. 192), entretanto, “o conjunto das interações e informações disponibilizadas na rede, continuamente, em qualquer parte do mundo em que a infraestrutura esteja presente, resulta num gigantesco corpus dessa interação”. Devido ao tamanho, abrangência, variedade linguística, representatividade, renovação e baixo custo, a Web pode ser considerada como um dos maiores corpus que temos à disposição atualmente.

No que concerne aos textos escritos, o mesmo autor salienta que muito do material presente nos corpora tradicionais também podem ser encontrados na Web, o que torna essas duas ferramentas um pouco mais semelhantes. Desse modo, consideramos a Web como uma ferramenta legítima, na medida em que reúne diversas formas de manifestação linguística no ambiente digital, o que faz com que tenha adquirido grande representatividade nos últimos anos.

Entendemos que a Internet aborda diversos gêneros textuais, que variam desde textos que se aproximam muito à linguagem falada, como blogs e fóruns, além de textos jornalísticos, literários, artigos científicos, manuais, entre outros, podendo ser vista como uma representação da norma, o que faz dessa ferramenta a mais apropriada para a elaboração deste dicionário. Com efeito, a Web nos proporcionou não apenas os contextos que validaram os verbetes, como também nos forneceu outras fontes de pesquisa para o levantamento de expressões cromáticas e informações para a elaboração das definições.

As correntes comunicativas da Terminologia afirmam que uma unidade lexical adquire o estatuto de especializada quando inserida num cenário comunicativo pertinente. Visto que a WEB fornece os mais variados universos linguístico-comunicacionais em que figuram as expressões cromáticas, pudemos demonstrar que estas estão presentes em todas as formas de

linguagem, em diversos níveis de especialização, atuando como verdadeiras intermediadoras entre especialistas e leigos, além de contribuírem ativamente para a criação e expansão lexical.