• Sonuç bulunamadı

Detection of intestinal parasites and isolation of potential pathogens and their susceptibility to antibiotics from food handlers

N. YENTÜR-DONİ ve ark

A morte de Ali marca, para a História Islâmica, uma ruptura interna. Entretanto, apesar de todos os conflitos ocorridos, inclusive a guerra civil entre muçulmanos, a visão islâmica do período tende a salientar seus aspectos positivos para poder transformá-lo num modelo ideal de vida islâmica – inclusive sendo utilizado por muitas organizações islamistas no intuito de restaurar a ordem no mundo. Segundo Esposito, cinco características específicas marcam esse período:

[…] First, God sent down His final and complete revelation in the Quran and the last of His prophets, Muhammad. Second, the Islamic community-state was created, bonded by a common religious identity and purpose. Third, the sources of Islamic law, the Quran and the example of the Prophet, originated at this time. Fourth, this

period of the early companions serves as the reference point for all Islamic revival and reform, both traditionalists and modernists. Fifth, the success and power that resulted from the near-miraculous victories and geographic expansion of Islam constitute, in the eyes of believers, historical validation of the message of Islam. (ESPOSITO, 2005, p. 38)

Ainda, nos dias subsequentes à morte de Ali, seus partidários clamavam para que o sucessor do califado fosse seu filho mais velho – com Fátima, a filha do profeta Mohammad – Hassan ibn Ali (imamato, 661-680), entretanto, Mu‟awiya reivindicava tal direito para si.

O processo que fez com que Hassan assumisse o califado e o abdicasse em favor de Mu‟awiya é percebido de maneiras distintas pelo xiismo e por estudiosos ocidentais e sunitas. A ascensão de Hassan ao poder não eliminou a situação de guerra existente com a Síria, tampouco conseguiu reconstituir o exército de Ali. Assim, diante da iminência de que novos combates com Mu‟awiya somente fariam com que o massacre de muçulmanos se tornasse ainda maior, de forma sábia, expressa a narrativa xiita, Hassan teria optado por abdicar do califado em prol de Mu‟awiya.

Para os xiitas, a opção assumida por Hassan teria sido um ato de amor perante seu povo, contudo, para as vertentes que a refutam, a crítica fundamental que é feita ao seu ato aponta para uma pessoa pragmática que teria negociado a obtenção de ganhos materiais para ceder seu cargo. Isso porque, após o acordo feito com Mu‟awiya, Hassan teria recebido uma recompensa financeira e deixado Kufa, estabelecendo-se definitivamente em Medina e passado a levar uma vida de comerciante, sem se envolver em questões políticas. Hassan ainda teria conseguido de Mu‟awiya o compromisso de que todos que lutaram ao seu lado e de seu pai fossem anistiados pelo novo califa.

Ainda, muitos ideólogos xiitas traçam um paralelo entre a situação de Hassan/Mu‟awiya e de Ali/Abu Bakr, ressaltado o momento político, ou seja, Ali, no momento em que iniciou o processo sucessório gozaria do direito legítimo de suceder o profeta, contudo, teve de abrir mão deste em prol de Abu Bakr porque este tinha o domínio político da situação. No caso de Hassan o mesmo teria ocorrido, abdicar do poder fora um ato de sensatez diante da possibilidade de ser deposto e responsabilizado pelo massacre de seu povo.

Com a morte de Hassan, por sua esposa, em 669, mais um fato foi aventado acerca de sua renúncia ao califado, qual seja, de que havia sido acordado que se Mu‟awiya morresse, Hassan reassumiria o poder. Assim, Hassan teria sido envenenado por sua esposa, por ordem de Mu‟awiya, para assegurar o califado ao seu filho Yazid.

Mu‟awiya, como califa, significou o início da dinastia Omíada (661-750) na condução do Império Islâmico, um processo que sofreria forte contestação por parte do grupo de seguidores de Ali. A contestação advinha principalmente da cidade de Kufa onde havia muitos de seus partidários. Em 671 uma primeira revolta organizada contra o califa resultou na derrota dos participantes que, posteriormente, foram presos e levados a Damasco para serem executados.

Os questionamentos por parte dos habitantes de Kufa se tornaram mais enfáticos quando Mu‟awiya morreu (680) e converteu a transmissão do califado num ato hereditário. Assim, seu filho Yazid, considerado muitas vezes mais severo que o pai, “[...] a drunkard who openly ridiculed and flouted the laws of Islam, was a outrage.” (MOMEN, 1985, p. 28), tornou-se o segundo califa da dinastia Omíada.

A insatisfação foi generalizada em Kufa e o nome de Hussein ibn „Ali (imamato, 680), irmão mais novo de Hassan, tornou-se cada vez mais forte para assumir o califado. Na ocasião Hussein morava em Medina com sua família e, assim que o governador local declarou-se aliado de Yazid, resolveu rumar à Meca.

Já em Meca, Hussein enviou um emissário a Kufa para inteirar-se da situação local. De acordo com as primeiras informações, milhares de habitantes estariam dispostos a lutar ao seu lado, contudo, Hussein fora lembrado por alguns de seus apoiadores de que historicamente os habitantes de Kufa já haviam demonstrado inconstância em momentos capitais para prestarem apoio a seu pai e seu irmão. Assim, ele deveria pensar melhor antes de partir.

A certeza e obstinação de Hussein são atos frequentes nas narrativas xiitas, tanto que independentemente dos riscos que o cercavam, sempre há o entendimento de que estava retamente guiado por princípios inabaláveis. Assim, imbuído dessa “razão de agir”, Hussein decidiu partir para Kufa em uma caravana de apenas cinquenta homens, algumas mulheres e crianças. Durante seu percurso a situação política em Kufa tornou-se complicada com a nomeação de „Ubaydu‟llah ibn Ziyad para agir de forma enérgica contra os revoltosos e ameaçar de morte os líderes tribais que fomentassem rebeliões. Ainda, „Ubaydu‟llah criou postos de vigilância em todas as rotas do sul para que a caravana de Hussein fosse interceptada antes de chegar a Kufa. (AL-KHAZRAJI, 2008)

Poucos habitantes de Kufa que haviam assumido compromisso de lutar ao lado de Hussein conseguiram juntar-se a ele devido aos bloqueios, ou mesmo com receio das ameaças de „Ubaydu‟llah. Contudo, ainda que Hussein tivesse recebido mensagens informando-o

acerca do risco de continuar a caminhada até Kufa, não hesitou e só foi interrompido pelo jovem militar al-Hurr at-Tamimi e seu comando de mais de mil soldados.

Al-Hurr instruiu Hussein a deixar o Iraque sem fazer qualquer parada em cidade ou vila, porém, Hussein o convidou, e aos seus soldados, para matarem a sede com seu próprio suprimento de água. Também aproveitou a oportunidade para mostrar as cartas que havia recebido dos habitantes de Kufa clamando por seu retorno (MOMEN, 1985; MUHARRAMI, 2008) e fez um discurso àqueles que lá estavam:

“Ó povo... vim somente após receber as cartas que recebi de vocês, as quais me pediram para vir até vocês, pois disseram que não tinham um líder que os governe baseado na orientação e na verdade [...] Ó povo, saibam que Deus ficará mais satisfeito quando vocês souberem quem são os donos da razão e do direito. Nós, os

Ahlul Bait26, tempos prioridade no governo sobre vocês desde que os pretensos

governantes agem com injustiça e agressão.” (AL-KHAZRAJI, 2008, p. 31)

Após tal aproximação, Hussein conseguiu fazer com que al-Hurr permitisse que ele mantivesse sua jornada até Kufa. Al-Hurr escoltaria a caravana enquanto não recebesse novas instruções acerca do procedimento a ser adotado. A caravana fez uma parada na planície de Karbala, contudo, no dia seguinte fora recebida por um exército de mais de quatro mil homens cuja ordem era fazer com que Hussein não continuasse sua jornada à Kufa enquanto não firmasse aliança com Yazid.

O posicionamento de Hussein diante da adversidade da situação fez com que ele solicitasse ao chefe em comando, Shamir ibn Sa‟d, que permitisse seu retorno à Arábia, pois não tinha a intenção de vivenciar uma carnificina. Mas as ordens eram claras e, ao receber o ultimato para agir contra a caravana de Hussein – ou seria destituído –, marchou com seus homens contra Hussein e seus seguidores.

Diante da situação completamente adversa, os xiitas entendem que Hussein teria proferido as seguintes palavras, já ciente do que vivenciaria a seguir:

“Ó meu senhor, me refugio em Ti de Karb (sofrimento) e de Bala (tragédia). Aqui será o nosso derramamento de sangue, aqui é o local de nosso enterro. Sobre essa terra eu fui informado pelo meu avô, o Mensageiro de Deus.” (AL-KHAZRAJI, 2008, p. 38)

Quase todos foram mortos e decapitados, exceto as mulheres e crianças, que foram preservadas. O filho mais novo de Hussein, que se encontrava doente e não participou do massacre, também teve a vida preservada.

Para que o poder de Yazid fosse referendado e que não surtisse dúvida acerca do destino dos insurgentes em seu Império, a cabeça de Hussein foi levada a Damasco e exposta.

Surgia, com isso, o mito de Karbala. Os eventos ocorridos naquela localidade serviriam como paradigma para estabelecer como um muçulmano xiita deveria agir diante das arbitrariedades. Muito mais do que se tornar um mártir para os xiitas, o exemplo de Hussein passou a ser analisado minuciosamente a partir da perspectiva de sua ação. Privilegiar a vida de seu povo ou enfrentar, efetivamente, o exército de Yazid?

Segundo o moderno historiador do xiismo, S. H. M. Jafri, caso Hussein tivesse a intenção de enfrentar Yazid teria constituído um exército no Hedjaz e não partido com apenas cinquenta homens e sua família para Kufa.

[...] He [Hussein] realised that mere force of arms would not have saved Islamic

action and consciousness. To him it needed a shaking and jolting of hearts and

feeling. This, he decided, could only be achieved through sacrifice and sufferings. This should not be difficult to understand, especially for those who fully appreciate the heroic deeds and sacrifices of, for example, Socrates and Joan of Arc, both of whom embraced death for their ideals, and above all of the great sacrifice of Jesus Christ for redemption of mankind. […] Husayn knew that after killing him, the Umayyads would make his women and children captives and take them all the way from Kufa to Damascus. This caravan of captives of Muhammad‟s immediate family would publicise Husayn‟s message and would force the Muslims‟ hearts to ponder on the tragedy. It would make the Muslims think of the whole affair and would awaken their consciousness. This is exactly what happened. (JAFRI apud MOMEN, 1985, p. 32)

Os fatos ocorridos em Karbala assumiram tal magnitude que os xiitas passaram a celebrá-lo na cerimônia conhecida por Ashura. Durante a celebração os fiéis se autoflagelam no intuito de se aproximarem do martírio sofrido por Hussein. O significado de Karbala

passara a ser interpretado por diversos ideólogos xiitas no intuito de alterar o status da comunidade diante das arbitrariedades sofridas.

Nos grandes centros teológicos xiitas, Qom (Irã) e Najaf (Iraque), que surgiriam após o estabelecimento formal da linhagem dos xiitas do Duodécimo, o martírio de Hussein foi incorporado à mística xiita com mais força que o de qualquer outro dos Imãs. Para alguns doutrinadores, o martírio de Hussein será entendido como um modelo a ser idealizado na luta contra as arbitrariedades, inclusive, oferecendo a própria vida.