Com o enfraquecimento do poder dos Seljúcidas pelas invasões mongóis, várias regiões, antes sob seu domínio, trilharam o caminho da autonomia. Na região da Anatólia ocidental, no final do século XIII, início do XIV, o reinício dos conflitos com o Império Bizantino fez com que um principado, especificamente, obtivesse maior êxito. Aquele liderado por Osman – futuramente se transformaria no Império Otomano – passou a desempenhar um papel fundamental na história do Islã, principalmente o sunita.
À parte seu processo inicial de formação, já no princípio do século XV, quando o Império Otomano se apresentava com uma estrutura militar fortemente preparada para ampliar seus domínios, a liderança do império estava sob o comando do sultão Murad II (1421-44 e 1446-51). Nessa ocasião ocorreram as grandes vitórias na Europa contra gregos, sérvios e húngaros; na Anatólia houve a recuperação das terras que haviam sido perdidas pelo sultão Bayezid (1389-1403) contra Tarmelão (1402). Todavia, a conquista emblemática se deu em 1453 com a absorção do que restava do Império Bizantino, em decadência desde o século XII devido às fortes investidas em suas fronteiras pelos turcos, e tomada de sua capital, Constantinopla, que passou a chamar-se Istambul.
Num certo sentido, a formação do Estado Otomano foi mais um exemplo do processo que ocorrera muitas vezes na história dos povos muçulmanos, o desafio a dinastias estabelecidas por uma força militar oriunda de povos em grande parte nômades. Sua origem foi semelhante a dos dois outros grandes estados que surgiram mais ou menos ao mesmo tempo, o dos safávidas no Irã e dos mongóis na Índia. Todos os três baseavam sua força, no início, em áreas habitadas por tribos turcas, e
todos deviam seu sucesso militar à adoção de armas que usavam a pólvora, já entrando em uso na metade ocidental do mundo. Todos conseguiram criar políticas estáveis e duradouras, militarmente poderosas, centralizadas e burocraticamente organizadas, capazes de coletar impostos e manter a lei e a ordem numa vasta área e por um longo tempo. O Império Otomano era uma das maiores estruturas políticas que a parte ocidental do mundo conhecera desde a desintegração do Império Romano. (HOURANI, 2001, p. 224-225)
Dando prosseguimento às conquistas otomanas, na segunda década do século XVI, mais precisamente através das batalhas de Marj Dabiq e al-Raydaniyya (1516-17), Selim I, que havia assumido o sultanato em 1512 – com a abdicação forçada de seu pai, Bayezid II, e assassinato de seus irmãos –, venceu os Mamelucos30 e anexou ao Império às províncias da Síria, Palestina e Egito. Conseguiu estender aos seus domínios as cidades sagradas muçulmanas, Meca e Medina. Também, no tocante às relações entre sunitas e xiitas, um segundo evento ocorrido durante o reinado de Selim I foi providencial para aumentar ainda mais a tensão entre os dois credos muçulmanos. Em 1514, como parte do processo de expansão do Império, Selim conquistou a capital do Império Safávida, Tabriz e intensificou o sentimento de revanche entre os credos. (GOFFMAN, 2002)
30 Inicialmente eram escravos no Egito, mas devido a sua rígida formação militar, estabeleceram seu próprio
De acordo com a estrutura organizacional desenvolvida pelos Otomanos – que adotaram a fé muçulmana sunita –, a autoridade política e militar deveria ser exercida pelo sultão, assim como a obrigatoriedade da defesa dos preceitos religiosos estabelecidos pela sharia31. Contudo, por não serem especialistas na interpretação religiosa do Corão, muitas vezes utilizavam o poder político para terem a seu serviço os ulemás. Dessa maneira, os sultões aumentavam seu poder proporcionalmente à razão com que conseguiam preservar o império das ações dos xiitas persas e cristãos. Mas mesmo diante das manobras políticas que faziam para preservar o poder, seguiam os mandamentos impostos pela sharia, o que gerava maior reconhecimento e admiração perante os muçulmanos.
No tocante à presença dos xiitas do Duodécimo no Império Otomano, gradualmente ela foi sendo reduzida a duas localidades específicas, no Iraque e no Líbano. No Iraque, alguns fatores contribuíram para que os xiitas fossem desprestigiados, quais sejam, a destruição de Bagdá, a transferência da capital do Império para Istambul e a predominância dos sunitas no poder.
Quanto ao segundo grupo de xiitas do Duodécimo, após sofrer um longo processo de perseguição por turcos e mamelucos, conseguiu fixar-se nas regiões do Vale do Bekaa e Kisrawan, a noroeste das montanhas de Beirute. Contudo, apesar dessa estabilidade relativa, em todo o processo de criação do Estado libanês – que culmina com a independência em 1943 –, basicamente três grupos exerceram a predominância político-militar na região, quais sejam, cristãos maronitas, drusos e muçulmanos sunitas. (SALIBI, 1988)
E, no tocante ao estabelecimento de relações políticas com o Império Otomano, em muitos aspectos os sunitas eram privilegiados. Os cristãos, de vários segmentos, também ocupavam cargos de grande importância na administração imperial, mas dificilmente os xiitas.
Dessa maneira, segundo Salibi (1988), é possível perceber que os xiitas da região do Líbano foram excluídos pelo poder imperial e pelas forças políticas locais, consequentemente, o desenvolvimento econômico da região contou, quase que na totalidade, com a participação dos maronitas que buscaram estabelecer contatos com estados europeus e com os sunitas, que preservaram seu status local. Exceção a essa regra se dava à estrutura tradicional da cultura libanesa que referendava a força dos clãs, e, dentre eles, alguns poucos xiitas conseguiam estabelecer uma zona de poder e dominância – modelo que foi comparado, por alguns autores,
31 “Ao longo do tempo foi também se desenvolvendo a partir do Corão e do hadith [tradições] um sistema
abrangente de moralidade ideal, uma classificação moral dos atos humanos que tornaria claro o modo como os homens poderiam caminhar agradavelmente aos olhos de Deus e esperar o paraíso” (HOURANI, 2005, p. 22)
ao feudalismo europeu. Somente com o clã alcançando algum destaque que poucos xiitas conseguiam se igualar aos demais libaneses.
Um período de grande importância para o desenvolvimento do Duodécimo no Líbano se deu com a decadência da cidade de Hilla e transferência dos ulemás para Jabal „Amil, no Líbano, no final do século XV. Embora um dos mais importantes doutrinadores do período inicial Safávida, Muhaqqia al-Karaki já tivesse deixado Jabal „Amil, muitos de seus seguidores continuaram na região e difundiram seu conhecimento.
Sob o Império Otomano o desenvolvimento do xiismo no Líbano sofreu muitas restrições, todavia, a partir do século XX passara a ter mais força. Implicaram para essa mudança a criação do Estado libanês e o surgimento de ideólogos que focariam na relação “opressores e oprimidos” como um modelo a ser destruído. Musa al-Sadr (forte liderança xiita libanesa da segunda metade do século XX) utilizaria muito bem esse conceito para levar a população xiita a reivindicar seus direitos frente ao Estado. (SAAD-GHORAYEB, 2002)
Por sua vez, o Iraque foi incorporado ao Império Otomano a partir de 1514, com a derrota do xá persa. Assim, novamente, os sunitas e xiitas iraquianos voltaram ao domínio turco. Essa situação não se configurava em algo definitivo, haja vista a recuperação pelo Império Persa se dar na sequência e, devido à situação de beligerância, os otomanos se configuravam em inimigos constantes.
Thus began the reign of Selim I, Selim Yavuz, or “The Grim”, as he came to be called. His first action on ascending the throne was to have his two brothers strangled with the bowstring. He extended the fratricidal principle to cover also the strangulation of his five orphan nephews, boys from the age of five upward, while he listened to their cries from an adjoining room. Having thus drastically secured his power at home, he turned his armed forces eastward into Asia, leaving Europe for the present alone.
Religious and indeed fanatical in impulse, the new Sultan was dedicated above all to the extermination from his empire of the heresy of Shi‟ism. His main
enemy was its exponent, the Persian shah Ismail. Before embarking on a holy war against him, Selim saw to the elimination of some forty thousand of Ismail‟s religious followers in Anatolia, an action comparable in Islamic terms to the contemporary Massacre of St. Bartholomew in Christian Europe32. For its
vindication of orthodoxy this won him the name of “the Just”. (KINROSS, 2002, p. 167) (grifo nosso)
Ainda, o reflexo dessa tensão era repercutido na disputa dos dois impérios pelo Iraque e, como resultado, cada vez mais evidenciava-se a separação entre a população urbana sunita (partidária do governo Otomano) e a xiita (partidária do Império persa). Essa situação ainda ressoava no processo de reestruturação econômica da região, haja vista a unificação do Iraque
32 Episódio ocorrido em 1572, na França, começando pela capital, mas estendendo-se para várias localidades do
país. A forte repressão contra os protestantes (grande maioria formada por calvinistas e também conhecidos por huguenotes), por parte da monarquia, teria vitimado entre 30 e 100 mil pessoas.
(nas dimensões do território atual) também vivenciar grandes dificuldades, pois teria de conciliar os interesses das três grandes regiões que o compunham, quais sejam, Mosul, Bagdá e Basra. (TRIPP, 2007; MOMEN, 1985)
A perda de importância de Hilla como um centro de difusão do xiismo do Duodécimo repercutiu na decadência do Iraque; por outro lado, Najaf e Karbala cresceram em importância. Em 1585, um dos mais importantes teólogos do Duodécimo, Muqaddas Ardibili, residia em Najaf e mantinha contato com os monarcas Safávidas, Xá Tahmasp e Abbas I. Dentre seus livros, destaque para Tafsir Ayat al-Ahkam e Hadiqat ash-Shia. Ainda, conforme Tripp salienta,
[...] the influence of these towns [além de Najaf e Karbala, o autor inclui Samarra e al-Kazimiyya] and of the Shi‟i „ulama on the tribesmen who gravitated to then and had began to settle in the mid-Euphrates region was becoming ever more marked. The notorious Shi‟i disdain for the pretensions of the Ottoman sultan-caliph and thus for the legitimacy of the Ottoman state accorded with tribal suspicion and dislike of central state authority. This may explain in part the growing appeal of Shi‟ism to the tribesmen of the region, large number of whom adopted the precepts of Shi‟i Islam during the eighteen and nineteen centuries. Thus, an increasingly large proportion of the inhabitants of Baghdad province saw little reason to associate themselves with, let alone pay taxes to, a state which seemed not only alien, but even doctrinally repulsive. Some of the mamluk pashas of Baghdad handled this problem adroitly and maintained good relations with the nobles of the holy cities. Others, whether under the threat of Persian invasion, or in order to ingratiate themselves with Istanbul, or indeed out of their own prejudices as new converts to Sunni Islam, succeeded in deepening the divide between the Sunni and the Shi‟a under their rule. (TRIPP, 2007, p. 12)
O século XIX é marcado por alguns eventos de grande relevância para a região e que repercutem junto aos xiitas iraquianos, quais sejam, primeiramente o final do domínio mameluco e início da subordinação direta ao sultão. Também, o início do processo de tentativa de modernização do império Otomano com o tanzimat33, porém sem conseguir alcançar o objetivo previsto. E por último, a importância que a região passou a ter para o Império Britânico, haja vista ter a intenção inicial de transformar o Iraque num entreposto para as mercadorias provenientes das Índias. (FRONKIM, 2008)
Dentro dessa conjuntura geradora de instabilidades, os xiitas iraquianos passariam a vivenciar uma história política distinta dos iranianos, contudo, ainda assim, o vínculo religioso entre as duas localidades foi preservado devido à presença de ulemás nas cidades sagradas de Qom e Najaf. Ambas continuariam sendo polos de difusão do xiismo e atraíam
33 “Tanzimat”, termo turco, cuja tradução seria “Reorganização”, remete ao período de transformações que o
Império Otomano sofreu para adequar-se à realidade do Ocidente. As reformas transcorreram de 1839-1876 e, dentre outras modificações, em 1856 houve a equiparação política de todos os cidadãos do Império, independentemente da religião preferida.
estudantes de todas as partes; alguns dos grandes aiatolás chegaram a desenvolver seus estudos nas duas cidades.
Como o foco desse estudo está voltado para a história iraniana e a influência que os aiatolás xiitas exerceram (e exercem) nos desígnios do estado, as questões relacionadas às transformações religiosas ocorridas em Najaf não serão objeto de análise. Porém, é notório que o processo de enfraquecimento do Iraque como difusor do xiismo não se deveu a problemas doutrinários, mas sim à instabilidade política que o país vivenciou durante os séculos XX e XXI. Outro fator que contribuíra para a “perda de importância” do Iraque fora o grande investimento financeiro iraniano em Qom, para que essa cidade, além de tornar-se o maior polo de difusão do xiismo, se convertesse na “vitrine e fábrica” do novo modelo político-religioso que o estado adotara.
Como fora exposto, o desenvolvimento do xiismo em território otomano acabou sendo restringido gradualmente, fato esse que não ocorrera no Império Safávida. Assim, na parte final desse capítulo será discutida a forma que os persas adotaram o xiismo e como isso repercutiu diretamente no processo de transformação analisado nesse estudo, ou seja, como o século XX recebeu o xiismo persa.