A morte de Uthman levou o Conselho de Notáveis a eleger como sucessor ao califado Ali ibn Abi Talib (imamato25, 656-661). No entanto, como parte dos membros do Conselho pertencia ao clã dos Omíadas, este grupo deixou Medina para não pactuar com a eleição de Ali, assim, o caráter consensual da escolha do novo califa ficou comprometido.
A mais forte contestação ao califado de Ali veio por parte de Mu‟awiya, governador da Síria e membro do clã dos Omíadas – parte da tribo dos coraixitas, de Meca. Sua recusa em reconhecer a legitimidade do novo sucessor o obrigou a deixar Medina, transformando, com isso, a Síria numa província rebelde do Império Islâmico. Mu‟awiya também cobrava o direito de se vingar dos assassinos de Uthman que, segundo ele, estavam sendo protegidos por Ali. Assim, não tendo havido qualquer possibilidade de negociação, o novo Califa programou uma ação militar para conter os revoltos. Iniciava-se, com isso, a guerra civil entre os muçulmanos. Esse conflito entre muçulmanos explicitava uma situação que cada vez tornava-se flagrante, qual seja, de que a riqueza conquistada pelo Império fazia com que interesses políticos se sobrepusessem à vontade do profeta. Independentemente de Ali ter conseguido ascender ao poder, e seus partidários (shiat-u-Ali, xiitas, partidários de Ali) reiterarem que essa fora a vontade do profeta Mohammad desde o início, seu governo estava pautado pelos questionamentos acerca da legitimidade.
À parte a ambição de Mu‟awiya que buscava legitimar o califado para si, a interpretação xiita reitera o fato de que Ali fora o único Califa legítimo, o único a receber o título de „Comandante da Fé‟, no entanto, há uma versão mais pragmática acerca dessa sucessão que ratifica a motivação de Mu‟awiya. Segundo essa perspectiva,
[...] „Ali was later a member of the council (shura) which elected the third Caliph „Uthman. After „Uthman‟s murder „Ali was appointed as Caliph, not because of any designation, nor because of any hereditary principle – which did not, in any case, exist – rather, he was appointed as the candidate of those Muslims who wanted the original Islamic religious aristocracy to regain the upper hand against the growing influence of the Meccan aristocracy and its Syrian interest. (HALM, 2004, p. 08)
De acordo com os xiitas, em vários momentos o profeta Mohammad teria deixado claro que seu sucessor deveria ser Ali. Além de o profeta ter sido recebido na casa do pai de Ali, durante todo o “processo de construção” do Islã, ele teria estado muito próximo e demonstrado bravura ao defender os interesses de Mohammad e dos muçulmanos. Evidentemente que muitas alegações apontadas pelos xiitas como declarações factuais do
profeta Mohammad acerca de sua sucessão acabaram tendo interpretações distintas, o que fez com que, cada vez mais, fortalecesse o embate doutrinário entre sunitas e xiitas.
Uma das passagens em que o profeta Mohammad teria exposto seu desejo de ter Ali como sucessor teria ocorrido logo após a chegada de Ali à Medina – durante o período que ficou preso por ter assumido o lugar de Mohammad durante sua fuga de Meca para Medina, Hégira. Nessa ocasião o profeta Mohammad resolvera decretar que cada muçulmano se tornaria irmão de outro muçulmano, assim, estabeleceu a ligação entre Abu Bakr e „Umar, Talha e Zubayr, além de Uthman e Abdu‟r-Rahman ibn Awf. Ali teria se sentido desolado por não ter sido designado um irmão a ele, porém, conforme a narrativa do sahih de at-Tirmidhi, uma coleção de Tradições aceitas como legítimas pelos sunitas, o profeta Mohammad teria dito:
The Apostle of God made brothers between his companions, and „Ali came to him with tears in this eyes crying: „O Apostle of God! You have made brethren among your companions but you have not made anyone my brother.‟ And the Apostle of God said to him: „You are my brother in this world and the next.‟ (TIRMIDHI apud MOMEN, 1985, p. 13)
Em inúmeras outras passagens registradas por xiitas ou sunitas a figura de Ali encontra-se frequentemente próxima ao profeta Mohammad e, devido a isso, após a sua morte o legado natural deveria recair sobre Ali – considerado pelos xiitas o segundo a se converter ao Islã, a primeira teria sido a esposa de Mohammad, Khadija –, no entanto, para os sunitas o segundo a ser convertido teria sido Abu Bakr e, Ali, o terceiro. Tal é a certeza de que a legitimidade dos sucessores do profeta somente pode ser reconhecida a partir de Ali que, citada a passagem em que o profeta Mohammad retorna à Medina, após sua última peregrinação à Meca – “Peregrinação da Despedida” –, esse reconhecimento teria sido reafirmado. A narrativa mencionada encontra-se presente na coleção sunita de ahadith, Ibn Hanbal:
We were of the Apostle of God in this journey and we stopped at Ghadir Khumm. We performed the obligatory prayer together and a place was swept for the Apostle under two trees and he performed the mid-day prayer. And then he took „Ali by the hand and said to the people: „Do you not acknowledge that I have a greater claim on each of the believers then they have on themselves?‟ And they replied: „Yes!‟ And he took „Ali‟s hand and said: „Of whomsoever I am Lord [Mawla], then „Ali is also his Lord. O God! Be Thou the supporter of whoever supporters „Ali and the enemy of whoever opposes him.‟ And „Umar met him [„Ali] after this and said to him: „Congratulations, O son of Abu Talib! Now morning and evening [i.e. forever] you are the master of every believing man and woman.‟ (IBN HANBAL apud MOMEN, 1985, p. 15) (grifos nossos)
As alegações que viriam sustentar a legitimidade sucessória de Ali somente se tornariam objeto de discussão mais ampla, por parte dos ideólogos do Islã, futuramente. No momento em que assumiu o califado, além de ter de lidar com os questionamentos de Mu‟awiya, Ali enfrentou outra frente de batalha, em Basra, sob a liderança de Aisha, a viúva do profeta.
Como resultado deste embate de forças com Aisha e Mu‟awiya, além de o fracionamento do exército de Ali – através do surgimento de uma dissidência conhecida por kharijites –, houve muita dificuldade para manter a estabilidade política. Ainda, como resultado da repressão aos kharijites em Kufa, veio a sofrer um atentado que o levou à morte. O corpo de Ali
foi sepultado nos arredores de Kufa e somente foi descoberto pelo sexto Imã; por conseguinte, foi criado um santuário para Ali e, ao redor dele surgiu a cidade de Najaf, que se tornaria um importante centro espiritual para os xiitas.