1.4. YENİLEŞİM YÖNETİMİ
1.4.2. Yenileşim Stratejiler
De acordo com o Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, publicado pela primeira vez em 1947, pela Livraria Atlântida (Coimbra), a regra é a manutenção dos nomes próprios segundo a sua língua de origem, “exceto nos casos consagrados pelo uso”.
Em nossa tradução, procuramos seguir essa regra, sobretudo nos nomes de lugares, em que foram mantidos como no original Périgord, Arcueil, Sainte Chapelle, e
Notre-Dame, entre outros; e traduzidos para o português Égypte (Egito), Cartage (Cartago),
Florence (Florença), e Bastille (Bastilha), por exemplo. Quando se tratava de nomes fictícios, de hospedarias e bares como Sirène torte ou Bar Biture, traduzimos para Sereia Torta e Bar Bitúrico, respectivamente.
O mesmo critério foi adotado em relação aos personagens históricos. Mantivemos nomes como Anne Vladimirovitch e Gilles de Rais e traduzimos aqueles que são conhecidos em português, como Scipion (Cipião), Hannibal (Aníbal), Louis IX (Luís IX), Adam (Adão),
Ève (Eva), Quichotte (Quixote), Achille (Aquiles), e Homère (Homero), entre outros.
O problema maior se coloca quando se trata das personagens fictícias. A recomendação de se manter os nomes próprios como na língua de origem prende-se ao fato de considerá-los como não portadores de sentido.
Benveniste afirma que, no signo linguístico, a relação entre a imagem acústica que é o significante e o conceito que é o significado não é arbitrária, mas necessária: “O significante é a tradução fônica de um conceito; o significado é a contrapartida mental do significante. Essa consubstancialidade do significante e do significado garante a unidade estrutural do signo linguístico.”163 Em seguida, uma vez estabelecida essa constituição do signo como união indissolúvel de significante e significado, define o que é a arbitrariedade do signo: “O que é arbitrário é que um signo, mas não outro, se aplica a determinado elemento da realidade, mas não a outro.”164
Segundo a definição de que o nome próprio não significa, apenas indica o objeto que nomeia, assim como a fumaça indica que há fogo, não tendo significado, ele seria um
162 Neste capítulo, nas citações do romance Les Fleurs bleues, anotaremos apenas os números das páginas. 163 BENVENISTE, E. Problemas de Lingüística Geral I. Campinas: Pontes, p. 56.
significante ligado diretamente ao objeto, numa ligação que, como vimos, é arbitrária. Dessa forma, não haveria por que traduzi-lo.
No entanto, essa concepção de nome próprio é contestada desde Platão, que afirma nas palavras de Crátilo, citadas por Barthes em seu artigo Proust et les noms que “A propriedade do nome consiste em representar a coisa tal qual ela é”.165 Segundo essa definição o nome próprio seria um signo cuja ligação com o objeto que nomeia não é arbitrária, mas motivada. Diz Barthes : “o nome próprio também é um signo, e não um simples índice que designaria, sem significar, como quer a concepção corrente”.166
Em literatura, é dificil imaginar que o autor cria os nomes de forma aleatória. Um escritor trabalha com a língua e é provável que na escolha dos nomes de suas personagens, procure aquele que mais se adapte ao perfil físico ou psicológico destas:
Quando um escritor inventa um nome próprio, na verdade está preso às mesmas regras de motivação que o legislador platônico quando quer criar um nome comum; ele deve de um certo modo, 'copiar' a coisa, e como isso evidentemente é impossível, pelo menos copiar a maneira pela qual a própria língua criou alguns de seus nomes.167
Além desse tipo de motivação “cultural”, baseada na forma de criação de palavras na língua, Barthes identifica, no caso de Proust, um outro tipo, que seria baseado na “fonética simbólica” e dá exemplos em que a nobreza estaria relacionada com nomes em que há vogais longas:
... sistema onomástico, articulado sobre a oposição entre aristocracia e plebeus de um lado, e sobre a das longas com finais mudos (finais em que há de algum modo uma longa cauda) e as breves abruptas de outro lado: de um lado o paradigma dos Guermantes, Laumes, Agrigente, do outro o dos Verdurin, Morel, Jupien, Legrandin, Sazerat, Cottard, Brichot, etc 168
165 “La propriété du nom consiste à représenter la chose telle qu'elle est.” (BARTHES, Roland. Proust et
les noms. In: Le degré zéro de l'écriture suivi de Nouveaux essais critiquesParis: Éditions du Seuil, 1953, et 1972, p. 128).
166 “ Le Nom propre est lui aussi un signe, et non bien entendu, un simple indice qui désignerait, sans
signifier, comme le veut la conception courante” (BARTHES, Roland. Proust et les noms. In: Le degré zéro de l'écriture suivi de Nouveaux essais critiquesParis: Éditions du Seuil, 1953, et 1972, p. 125).
167 “Lorsqu'un écrivain invente un nom propre, il est en effet tenu aux mêmes règles que le législateur
platonicien lorsqu'il veut créer un nom commun; il doit, d'une certaine façon, 'copier' la chose, et comme ç'est évidemment impossible, du moins copier la façon dont la langue elle-même a créé certains de ses noms.” (BARTHES, Roland. Proust et les noms. In: Le degré zéro de l'écriture suivi de Nouveaux essais critiquesParis: Éditions du Seuil, 1953, et 1972, p. 130-131).
168 “... système onomastique, articulé sur l'opposition de l'ariscocratie et de la roture d'une part, et sur celle
des longues à finales muettes (finales pourvues em quelque sorte d'une longue traîne) et des brèves abruptes d'autre part: d'un côté le paradigme des Guermantes, Laumes, Agrigente, de l'autre celui des Verdurin, Morel,
Barthes chega mesmo a caracterizar a escrita literária como aquela em que está sempre presente o “realismo que pretende que os nomes sejam um 'reflexo' das ideias” que ele observou em Proust:
... podemos nos perguntar se ele não está mais ou menos conscientemente presente em todo ato de escrita e se é realmente possível ser um escritor sem acreditar, de uma certa maneira, na relação natural dos nomes e das essências: a função poética, no sentido mais largo do termo, seria definida assim por uma consciência cratiliana dos signos e o escritor seria o recitador desse grande mito secular que quer que a linguagem imite as ideias e que, contrariamente às precisões da ciência linguística, os signos sejam motivados. 169
Assim, não poderíamos simplesmente manter os nomes dos personagens de Les
Fleurs bleues como no original, sem antes pelos menos analisá-los. Se Queneau trabalha a linguagem de forma que notamos a cada página uma profusão de jogos de palavras, trocadilhos, aliterações, etc, seria pouco provável que, ao escolher os nomes das personagens, ele o fizesse ao acaso. De fato, o próprio Queneau anotou em seus diários algumas reflexões sobre os nomes de suas personagens.170 Como veremos a seguir, o escritor se utiliza de vários artifícios para dar significado a esses nomes: nomes comuns, como no caso de Auge, Empoigne, Cidrolin (cidre), Cuveton (cuve), Riphinte (rit/feinte); homofonia, caso de Cidrolin (si drôle, hein), Bélusine (belle usine), Cuveton (que veut-on), Pouscaillou (pousse cailloux), Hégault (égaux e égo); recurso à etimologia, como em Pigranelle (lat. pigra), Phélise (lat. felix), Onésiphore (gr. onesis e phore); derivação, como em Mouscaillot (de mouscaille); referência a personagens históricas, como Démostènes (ao filósofo grego), Stéphane (ao santo católico ou talvez a Mallarmé), Timoleo Timolei (a Galileo Galilei). Mesmo quando se trata de um nome próprio de uso corrente como Joachim, Queneau encontra uma motivação, ainda que seja explicá-lo por meio de um acróstico.
O nome do duque, Auge, designa uma região da Normandia. A Normandia é a região em que Queneau nasceu, e citada algumas vezes em expressões como “Les Normands Jupien, Legrandin, Sazerat, Cottard, Brichot, etc” (BARTHES, Roland. Proust et les noms. In: Le degré zéro de l'écriture suivi de Nouveaux essais critiquesParis: Éditions du Seuil, 1953, et 1972,p. 132)
169 “... on peut se demander s'il n'est pas plus ou moins consciemment présent dans tout acte d'écriture et
s'il est vraiment possible d'être écrivain sans croire, d'une certaine manière, au rapport naturel des noms et des essences: la fonction poétique, au sens le plus large du terme, se définirait ainsi par une conscience cratyléenne des signes et l'écrivain serait le récitant de ce grand mythe séculaire qui veut que le langage imite les idées et que, contrairement aux précisions de la science linguistique, les signes soient motivés.” (BARTHES, Roland. Proust et les noms. In: Le degré zéro de l'écriture suivi de Nouveaux essais critiquesParis: Éditions du Seuil, 1953, et 1972,p. 134)
170 As análises dos nomes das personagens de Les Fleurs bleues, assim como as citações dos diários de
buvaient du calva” (13 e 15), repetida três vezes, “une plage normande” (50) e “quelque
pâturage normand” (228). Como substantivo comum, “auge” é o cocho, recipiente de madeira onde se dá de comer aos animais, particularmente aos porcos. Queneau havia anotado em seu diário outra grafia para esse nome: Oge, que é o palíndromo de Ego, retomado posteriormente no pseudônimo Hégault, usado pelo duque d'Auge durante a Revolução Francesa. A tradução mantém Auge, que em português também provoca um estranhamento, pois como substantivo comum que significa o topo, o ponto máximo, e, apesar de, ao contrário de seu significado em francês, não ter uma conotação negativa, nada nobre (mangedoura de porcos), permite pensar no alto do torreão de onde o duque observa a situação histórica.
Cidrolin, pela sonoridade da terminação, faz imediatamente lembrar o Verdurin, citado por Barthes como exemplo de nome plebeu. Ainda a sonoridade, já na primeira leitura, nos fez pensar em “si drôle, hein?” (tão engraçado, hein?). Há ainda uma alusão à cidra, bebida feita de maçã, própria da Normandia, região do duque. Em português, Cidrolin também pode aludir à cidra, e além disso, sua pronúncia, que soa como um diminutivo, faz com que pareça um apelido com a mesma conotação plebeia percebida por Barthes na terminação francesa “in”. Consideramos a possibilidade de aportuguesar a ortografia para Cidrolim, mas, finalmente, optamos por não fazê-lo e por manter a grafia do original, pois é um nome que situa o personagem no ambiente francês do romance. Afinal, Cidrolin passa seu tempo tomando essência de funcho (pastis), e um Cidrolim brasileiro tomaria provavelmente destilado de cana de açúcar (cachaça).
Outros nomes foram mantidos no original, como Ciry, Torves, Malplaquet, Cuveton, Mouscaillot, Empoigne, Martin, Élodie e Pouscaillou. Alguns desses nomes têm em francês alguns significados que foram perdidos na tradução: Cuveton, por exemplo, é um jogo de palavras com “cuvette” (cuba) e com a expressão “cuver son vin” (deixar passar a ressaca), e além disso lembra frases como “que veut-on” (o que querem); Mouscaillot deriva de “mouscaille” que é ao mesmo tempo excremento e miséria, azar; Empoigne, de “empoigner”, agarrar; e Pouscaillou “pousse cailloux”, empurra pedras. Consideramos que uma tradução que mantivesse as alusões do original seria uma tentativa vã que resultaria em nomes exóticos em português, além de perder a aparência francesa que permite integrá-los no ambiente do romance.
Alguns nomes, no entanto, tiveram a sua grafia aportuguesada, como Hector (Heitor) e Albert (Alberto), por serem de uso corrente em português.
Em outros casos, finalmente, optamos por traduzir ou adaptar, pois com poucas modificações, poderiam manter em português as alusões contidas no francês, sem que acarretasse numa adaptação tão grande a ponto de tornar inverossímil a existência do nome num romance ambientado na França. Vejamos esses casos.
Pigranelle pode fazer referência ao adjetivo latino “pigra” (preguiçosa), embora essa referência não seja evidente na história. Na tradução optamos pela forma aportuguesada Pigranela.
Bélusine, além da referência a Mélusine, fada de lendas medievais francesas, soa como “belle usine”. Optamos também por aportuguesar, pois Belusina mantém tanto a referência a Melusina, embora ela não seja tão evidente para os brasileiros, quanto a sonoridade “bela usina”.
Phélise, forma feminina de “felix” (feliz), traduzimos por Feliza, que mantém a mesma referência de forma ainda mais imediata, uma vez que o adjetivo “feliz” não obriga o leitor a passar pelo latim para chegar a “Feliza”, ao contrário do que ocorre em francês, em que o adjetivo é “heureux”.
Os nomes das filhas de Cidrolin, Bertrande e Sigismonde são comuns no masculino, mas raros no feminino, e os de seus maridos, Yoland e Lucet, ao contrário, são comuns no feminino e raros no masculino. Na tradução, procuramos seguir o mesmo critério e usamos Orlanda, Sigismunda, Iolando e Lizeto.
O nome da filha mais nova de Cidrolin, Lamélie é um nome frequente, Amélie ao qual foi incorporado o artigo definido cujo uso é muito familiar diante de um nome próprio. Também encontramos o artigo incorporado no nome de Lalix, noiva de Cidrolin. Seguindo o mesmo procedimento em português, traduzimos respectivamente por Aamélia e Aalice. Cumpre observar que Amélia, para o leitor brasileiro, é uma referência imediata à música popular em que se afirma que “Amélia que era mulher de verdade”, sempre disposta a trabalhar sem pedir nada em troca; essa referência, inexistente em francês, é pertinente dentro do romance, já que, quando a personagem se casa, a única preocupação de seu pai foi a de encontrar uma substituta que cozinhasse para ele e mantivesse a sua chata limpa e em ordem.
Entre as personagens que acompanham o duque há dois religiosos o abade Onésiphore Biroton e o diácono Riphinte. Onésiphore, que é também o nome do dono do Bar Bitúrico, soa como “on est si fort” (somos tão fortes) e vem do grego onesis (lucro) e phore (que traz). Embora perdendo a alusão a ser forte, traduzimos de acordo com as regras de
derivação do grego para Onesíforo. O sobrenome, Biroton, alude ao abade Birotteau, personagem de Le Curé de Tours, de Balzac; mantivemos Biroton na tradução, lembrando que em português, evoca algo como “birutão”, gíria significando “meio louco”. Quanto a Riphinte, em francês lembra “rit” e “feinte” (“ri” e “fingimento”). Em português, traduzimos por Rifinge, que mantém as mesmas alusões.
Russule, nome da esposa do duque, significa “avermelhado” e é também o nome de um tipo de cogumelo. Aportuguesamos para Russula, que em português tem os mesmos significados.
Muitos nomes tinham um efeito particular na história e por isso também tiveram que ser traduzidos ou mesmo adaptados. É o que ocorreu nos seguintes casos:
a) os nomes e os apelidos dos cavalos Démosthène, Démo e Sthène; e Stéphane, Sthéphe fazem clara referência ao filósofo grego e ao santo católico, o que obrigou a tradução para Demóstenes, Demós e Stenes; e Estêvão;
b) num episódio são citados os nomes dos cinco cachorros do duque: Taïau, Taïo, Thaillault,
Allali e Cétera. Além de ser homófono de “taïaut”, chamado de caçadores para indicar a caça, o efeito de humor é provocado pelo fato de que os três primeiros se pronunciam da mesma maneira apesar da variedade de grafias. Apesar da impossibilidade de manter o sentido referente à caça, procuramos produzir o mesmo efeito de homofonia, usando um nome de cachorro comum no Brasil e, mesmo não contando com os mesmos recursos do francês, criando três grafias diferentes para o mesmo som: Rex, Recs, Recse, Idem e Tcétera; c) o alquimista do duque chama-se Timoleo Timolei em clara referência a Galileu Galilei. Nesse caso, usamos a grafia portuguesa Timoleu Timolei;
d) num certo momento, Cidrolin usa o sobrenome Dupont, talvez o mais comum em francês, para permanecer incógnito. Nesse caso, usamos da Ponte, que, embora não seja o mais comum em português, existe e permite manter a conotação com o fato de que Cidrolin mora ao lado de uma ponte;
e) também o duque de Auge, na época da Revolução Francesa, para viajar sem ser identificado, hospeda-se com o nome de Hégault, cuja pronúncia é idêntica à de égaux (iguais) e à de égo (ego) latino, que, embora não seja usado em francês, permite pensar na psicanálise. Traduzimos por Higuau, que em português se pronuncia como “igual” e, embora perca a conotação do “ego”, mantém o humor da situação em que um nobre viaja incógnito, durante a Revolução, procurando passar por um cidadão igual aos outros.
f) O nome completo do duque e de Cidrolin é, no original Joachim Olinde Anastase Crépinien
Honorat Irénée Médéric, que é um acróstico do primeiro. Tendo aportuguesado o primeiro para Joaquim, tivemos que procurar nomes que formassem o acróstico: Joaquim Olindo Anastácio Quirino Umberto Irineu Mederico.
g) O nome do justiceiro Labal é na realidade uma redução de La Balance, símbolo da justiça e seu nome completo também é um acróstico: Louis Antoine Benoît Albert Léopold Antoine
Nestor Charles Émile. Em português, o símbolo da justiça é A Balança, cuja redução passa a ser Abal, e o acróstico Antonio Bento Alberto Leopoldo Antonio Nestor Carlos Augusto.
O trabalho com o nome próprio ilustra bem o modo de Queneau tratar o significante e o modo de significação. Ele perturba a relação do signo com o objeto que identifica. O significante passa a ser motivado e Queneau lança mão de qualquer artifício para fazê-lo significar.