1.3. YENİ DÜNYA İLE BİRLİKTE DEĞİŞEN MUHAFAZAKÂRLIK
1.3.3. Yeni Muhafazakârlık
A unidirecionalidade da mudança nos processos em GR, como vimos até agora, é tida como o princípio regente da GR. No entanto, há alguns autores que, dependendo do modo de
conceituar a GR, não dão tanta importância à unidirecionalidade. Veremos as críticas de dois pesquisadores: o primeiro é Newmeyer (2001) que, por entender a unidirecionalidade como uma hipótese empírica, não atribui a ela o estatuto de princípio regente da GR, pois a unidirecionalidade está em vários processos; o segundo é Castilho (2003a-b) que acredita que não há uma única direção, mas várias; portanto, ele fala em multidirecionalidade.
Unidirecionalidade como uma hipótese empírica
A maioria dos pesquisadores em GR afirma que esse processo de mudança tem apenas uma direção: Lehamnn (1982[1995]) diz que não há exemplos atestados de desgramaticalização, ou seja, o processo inverso da unidirecionalidade; já Heine et al. (1991a) não refutam a possibilidade da desgramaticalização, mas afirmam que os exemplos são estatisticamente insignificantes. Hopper e Traugott (1993) mostram alguns contra-exemplos da unidirecionalidade e concluem que são poucos e de tipos muito específicos – do mais gramatical para o menos – por isso, para eles, esses raros casos de desgramaticalização não “deveriam nos privar de um método descritivo útil e uma fonte importante de dados” (HOPPER e TRAUGOTT, 1993, p.128). Portanto, há um consenso de que a unidirecionalidade é uma forte hipótese do processo de GR.
Newmeyer (2001) critica o estatuto de princípio dado à unidirecionalidade, pois, segundo ele, se a unidirecionalidade fosse um princípio deveria ser avaliada como uma hipótese empírica; porém, pode-se observar que a unidirecionalidade já está na definição de GR, como ele ilustra com as seguintes citações:
Where a lexical unit or structure assumes a grammatical function, or where a grammatical unit assumes a more grammatical function, we are dealing with grammaticalization (HEINE et al., 1991, p.2).
We define grammaticalization as the process whereby lexical items and constructions come in certain linguistic contexts to serve grammatical functions, and, once grammaticalized, continue to develop new grammatical functions (HOPPER and TRAUGOTT, 1993, p.xv).
Nesse sentido, a GR é definida como um processo unidirecional, portanto, não há necessidade de se fazer uma hipótese a ser testada, já que a unidirecionalidade está afirmada. Para Newmeyer (2001), a unidirecionalidade deve ser considerada uma hipótese empírica. No entanto, se ela for posta dessa forma, esse princípio é desinteressante, já que a unidirecionalidade é uma propriedade dos processos naturais, de modo geral. Por exemplo, o processo de envelhecer, processos químicos e físicos, a erosão de montanhas são processos
unidirecionais, já que são irreversíveis. Nesse sentido, para ele a não ocorrência da unidirecionalidade é que deveria ter maior atenção nos trabalhos de GR.
Newmeyer (2001) traz alguns exemplos para refutar a unidirecionalidade. No entanto, ele reconhece que não são bons exemplos: alguns não são genuínos casos de GR. Portanto, não há como ocorrer a desgramaticalização; ou porque não ocorrem todas as fases da GR de modo reverso. Por isso, ele conclui que casos de completa reversão da GR são raros, ou talvez não existentes.
Multidirecionalidade24
A idéia da direção no processo de GR proposto por Castilho está relacionada ao modo que ele entende a GR. Castilho acredita que a GR deve ser vista sob uma perspectiva não tão linear e estática. Para ele, o processo de GR faz parte de um dos módulos constitutivos da língua, o da gramática. Além desse, há também o processo de semanticização, que faz parte do módulo semântico; e o processo de discursivização, que faz parte do discurso. Para Castilho (2003a-b), a GR deve ser entendida como um processo de criação lingüística, por isso, é necessário uma teoria dinâmica da língua; mas, a GR é apenas um dos processos de criação lingüística, por isso, também, é necessário uma teoria multissistêmica da língua para a identificação dos demais processos.
Ele considera a língua multissistêmica, pois ela tem quatro sistemas: o Léxico, a Semântica, o Discurso e a Gramática. Esses sistemas são independentes uns dos outros e cada um apresenta categorias próprias. Não há regras que implicam dependência ou subordinação entre eles; em outras palavras, podemos entender que “o Discurso não estipula a criação dos sentidos, e estes não estipulam as estruturas gramaticais que os ‘empacotam’” (CASTILHO, 2003b, p.23). A relação entre esses sistemas pode ser representada no quadro abaixo:
DISPOSITIVO SOCIOCOGNITIVO Ativação – Reativação – Desativação
DISCURSO SEMÂNTICA
LÉXICO GRAMÁTICA
Quadro 9: Representação da língua como um multissistema
24 A discussão de GR e unidirecionalidade de Castilho encontra-se em vários artigos. Selecionamos apenas quatro: dois de 1997 “Língua falada e gramaticalização” e “A gramaticalização”; e dois de 2003 “Unidirecionalidade ou multidirecionalidade?” e “Proposta funcional de mudança lingüística”.
Segundo essa proposta de Castilho (2003b, p.24), o Léxico é considerado o componente central que é definido como um “conjunto de categorias prévias à enunciação, com base nas quais construímos os traços semânticos inerentes (...) combinando categorias e traços de diferentes modos, se obtém os itens lexicais”. Nesse sentido, o léxico, para Castilho, é entendido como um conjunto de traços semântico-cognitivos, e não como um conjunto de palavras, que vai da cognição pré-verbal para a expressão verbal. A Semântica é responsável pela criação dos significados, que estão baseados em estratégias cognitivas tais como o emolduramento da cena, a hierarquização de seus participantes, a movimentação dos participantes, sua reconstrução através da metáfora e da metonímia, etc. As categorias semânticas são a dêixis, referenciação, predicação, foricidade e conexidade. O Discurso compreende todas as atividades que envolvem falantes e ouvintes, desde a instanciação das pessoas do discurso, até as estratégias de tomada de turno e a seleção de tópicos conversacionais. E a Gramática representa um conjunto de estruturas razoavelmente cristalizadas, ordenadas nos subsistemas da Fonologia, Morfologia e Sintaxe, e governadas por suas respectivas regras.
Para ele, a língua é dinâmica devido ao funcionamento da linguagem em relação a esses quatro sistemas. O Léxico é governado por um dispositivo sociocognitivo pelo qual o falante ativa, reativa e desativa as propriedades lexicais, dando origem às categorias discursivas, semânticas e gramaticais. Esse dispositivo é social, porque está baseado nas atitudes dos participantes do ato de fala, e cognitivo, porque negocia com categorias cognitivas (cf. “visão”, “espaço”, “tempo”, “movimento”, etc) e os traços semânticos.
A ativação é a escolha das propriedades lexicais – categorias cognitivas e traços semânticos – que se agruparão nas palavras. A forma de se agruparem os traços resultará em palavras com dimensão semântica, discursiva e gramatical. A reativação diz respeito ao rearranjamento das propriedades lexicais das palavras. O Princípio de reativação encontra seu fundamento nas estratégias de correção conversacional. E a desativação ocasiona o abandono das propriedades lexicais anteriormente selecionadas.
Nessa visão multissistêmica da mudança da língua, observamos que não é necessário estabelecer um seqüenciamento unidirecional entre os módulos, visto que em seu conjunto, eles integram a competência comunicativa dos falantes.
3.8 Resumo
Na seção anterior, na parte que tratamos da GR, mostramos o percurso histórico dos estudos em GR destacando os seus principais pesquisadores. Nessa seção, colocamos em destaque a mudança lingüística, principalmente, a mudança por GR. Com relação à GR, podemos destacar que, na época de Meillet (1965 [1912]), o processo de GR era visto apenas como uma ferramenta lingüística usada ao lado da analogia para descobrir a origem de algumas palavras gramaticais que tinham sua fonte em elementos lexicais. No entanto, posteriormente à fase estruturalista da lingüística, é possível observar que o processo de GR é “redescoberto” como algo que pudesse mostrar a evolução das línguas e explicar muitas das mudanças que a analogia não conseguia. Por isso, os pesquisadores começaram a tentar encontrar os princípios da GR, elencar os mecanismos que subjazem à mudança nesse processo; o que fez com que o processo de GR parecesse uma teoria lingüística. Conseqüentemente, originaram- se várias críticas, pois, como mostra Newmeyer, a GR não tem princípios próprios e, para ele, a unidirecionalidade não pode ser considerado um princípio, pois ela já está confirmada na própria definição de GR.
Talvez a GR não seja uma teoria nos termos do estruturalismo, do funcionalismo. Mesmo assim, acreditamos que a unidirecionalidade não deveria ser “banalizada” como princípio regente da GR, pois, apesar de qualquer tipo de mudança ser, na maioria dos casos, unidirecional - como exemplifica Newmeyer com as mudanças mesmo fora do campo lingüístico – a unidirecionalidade no processo de GR é de um tipo particular: a mudança do estatuto categorial do elemento lingüístico. Além disso, vários estudiosos da GR alertam para o fato de que todo o fenômeno de GR pressupõe mudança, mas nem toda mudança pressupõe GR. Ou seja, a mudança por GR é de um tipo específico, em que o princípio regente é a unidirecionalidade, considerando a direção específica de categoriais lexicais ou menos gramaticais para categorias mais gramaticais. Portanto, a unidirecionalidade em GR evidencia a mudança do estatuto gramatical e não qualquer tipo de mudança.
Com relação aos mecanismos que vimos nas subseções 3.3 e 3.4, há um consenso de que nenhum deles é responsável pela GR, ou mesmo que há necessidade da ocorrência de todos para que seja identificado o processo de GR, mas, já que em conjunto esses mecanismos são responsáveis pela implementação da GR, pode-se dizer que eles constituem diferentes “componentes” de um mesmo processo. Portanto, mesmo que esses mecanismos estejam relacionados a um dos modulo da língua – léxico, gramática (fonologia, morfossintaxe), semântica, discurso – podem estar presentes no processo de GR. O que, de certa forma, faz sentido, pois, se um processo de GR mostra exatamente a mudança de categoria, é de se esperar que fenômenos relacionados ao módulo da gramática, da semântica do discurso estivessem presentes.
Na próxima seção, deixaremos um pouco de lado a discussão teórica sobre a GR; mesmo assim, a idéia da mudança estará presente, pois, como o nosso objeto de estudo tem a função de uma
preposição e de uma perífrase conjuncional, voltaremos ao latim e analisaremos como se deu a constituição dessas classes de palavras e o que mudou até o português atual. Também tentaremos entender como se deu o processo de criação lingüística em que se une a partícula que com outras palavras. Apesar de a nossa abordagem ser sincrônica, tentaremos sumarizar o que as gramáticas latinas e históricas do português trazem sobre a preposição desde. E para conhecer melhor o nosso objeto de estudo, mostraremos todos os usos atuais de desde, salientando que nem todos serão tratados no processo de GR.