Como mostramos na terceira seção, Lehmann (1995) elenca seis parâmetros que medem o grau de autonomia do signo e, conseqüentemente, a sua GR. Com relação ao peso temos a integridade e o escopo estrutural; com relação à coesão a paradigmaticidade e a
conexidade; e com relação à variabilidade, ela ocorre paradigmática e sintagmaticamente.
Esses seis processos evidenciariam a avançada GR de um item/construção, mas, como veremos na seqüência, sua aplicação é problemática no caso de desde e desde (que). Isso, talvez, por a preposição estar em curso no seu processo de GR, portanto, ainda não teria atingido os estágios mais gramaticalizados, os quais são evidenciados pelos parâmetros de Lehmann.
34 Observamos que alguns parâmetros, principalmente os de Lehmann relacionam a GR com a perda de autonomia de um item; conseqüentemente, ele retrata a perda fonológica, perda semântica, perda de liberdade sintática, etc.
Apesar de Lehmann considerar a GR sincronicamente, entendendo-a como um princípio de acordo com o qual subcategorias de uma dada categoria gramatical podem ser arranjadas em uma escala, representada pelo símbolo x > y, usado para expressar que y é mais
gramatical do que x, observamos que seus parâmetros parecem ser mais eficazes quando
também se considera a perspectiva diacrônica do processo de GR. Portanto, quando se evidencia a mudança gradual de um elemento, principalmente, lexical, para um estatuto gramatical. Isso porque, como será observado, num recorte sincrônico e com um elemento já gramatical, como é o caso da preposição desde, esses parâmetros não ajudam a mostrar a GR desse elemento e, às vezes, podem até nos levar a interpretações enganosas.
Peso
O parâmetro da integridade evidencia o peso do signo no paradigma e se refere efetivamente ao tamanho substancial do signo, em termos semântico e fonológico. Assim, um elemento em estágio avançado de GR tem como característica a redução fonológica e a perda semântica. Essa questão de redução e perdas seria melhor percebida num recorte diacrônico, pois, na nossa amostra não pudemos observar nenhuma redução fonológica de desde e, na verdade, se considerarmos os exemplos do português arcaico – como mostramos na seção anterior - houve um ganho de material fonológico, visto que nessa época a preposição era des. Com relação ao valor semântico, também é difícil falar em bleaching num recorte sincrônico, pois estamos observando os vários usos e significados de um elemento. Talvez, possamos falar em algum tipo de perda se considerarmos o sema de extensão, que está presente nas acepções de espaço e tempo, mas não ocorre com as acepções de causa e condição. No entanto, levando em consideração que, no português arcaico, havia apenas as acepções de espaço e tempo, os exemplos atuais evidenciam um ganho semântico, com a soma das acepções de condição e causa.
O escopo estrutural evidencia o peso do signo no sintagma, portanto esse processo refere-se à extensão da construção que o signo ajuda a formar. Nesse sentido, quando mais gramaticalizado for um elemento, menor será o seu escopo. Os exemplos (1) e (2) mostram que a preposição ajuda a formar uma estrutura de sintagma adverbial; nos exemplos (3)-(5), em que ocorre a perífrase conjuncional, o escopo é uma estrutura oracional que é maior do que um sintagma. Segundo esse parâmetro, e levando em consideração nossos exemplos, poderíamos interpretar que a preposição em (1) e (2) seria mais gramaticalizada do que os outros exemplos, pois está em uma estrutura menor. No entanto, como observaremos em critérios propostos por outros pesquisadores e também na nossa análise, a perífrase
conjuncional tem um valor gramatical maior do que o da preposição. Portanto, além desse critério não nos ajudar a definir o grau de gramaticalidade da preposição desde pode nos induzir a uma interpretação errada.
Coesão
Com relação aos parâmetros que tratam da coesão, observamos que são um pouco confusos e de difícil aplicação. Por exemplo, o parâmetro da paradigmaticidade, que trata da coesão no paradigma, refere-se ao grau de coesão de um item com os outros em um paradigma. Portanto, para medir esse parâmetro deve-se considerar o tamanho e a homogeneidade do paradigma; deve-se levar em conta a integração formal e semântica de um paradigma como um todo e a integração formal e semântica do item em análise dentro desse paradigma.
O problema desse parâmetro, segundo Lehmann, é precisar o tamanho do paradigma que o item em GR passa a integrar, mas já é difundido que paradigmas mais gramaticalizados são menores. Por exemplo, na classe aberta dos nomes, há uma pequena quantidade de nomes relacionais de lugar, como front, back, top, bottom que podem ser usados para formar preposições. O número de nomes que participam desse paradigma é restrito e seus membros estão mais gramaticalizados do que os nomes puramente lexicais. Com os nossos dados podemos destacar dois paradigmas: desde está no paradigma das preposições e desde que no paradigma das conjunções. No entanto, esse critério é de difícil aplicação, pois nossa pesquisa não observou os outros membros do paradigma das preposições ou conjunções. Além disso, segundo Lehmann (1995, p.134) “no processo de gramaticalização, a paradigmaticidade é alcançada gradualmente” e isso não é possível de ser observado numa perspectiva sincrônica.
O parâmetro da conexidade, ou seja, a coesão no sintagma, trata da coesão de um signo com outros signos, isto é, o quão unido o signo está com outros, ou o quanto ele depende dos outros. Esse parâmetro, que evidencia o processo de coalecência (união), é melhor observado nos casos de morfologização em que ocorre a aglutinação. Nesse sentido, quanto mais gramaticalizado for um signo, mais conectado ele estará. O nosso objeto de estudo é uma preposição, portanto, ela já tem uma função de coesão intrínseca. No caso da preposição, como mostram os exemplos (1) e (2), desde faz a conexão de um sintagma nominal - ‘fortaleza’ e ‘meio dia’ - à predicação, para dessa relação extrair uma função circunstancial. As conjunções, assim como as preposições, também são elementos coesivos na língua. No entanto, a perífrase desde que, como conjunção, faz a conexão de uma oração à outra. Os exemplos (3)-(5) mostram a conexidade de orações com funções circunstanciais –
tempo, condição e causa, respectivamente - a orações principais. Portanto, tanto desde quanto
desde que tem um valor de conexão muito semelhante, o primeiro conectando sintagmas, o
segundo orações, mas os dois desempenham funções circunstancial. Por isso, não há como medir se a preposição ou a perífrase está mais conectada com outros signos. Novamente, esse parâmetro não nos ajuda a medir o grau de gramaticalidade do nosso objeto de estudo.
Variabilidade
A variabilidade paradigmática trata da possibilidade de usar um outro signo no lugar daquele em GR; ou seja, refere-se à liberdade que o falante tem em escolher um signo entre todos de um mesmo paradigma ou não escolher nenhum, deixando em seu lugar uma categoria genérica. Segundo Lehmann, quanto mais gramaticalizado for um signo, seu uso se torna mais obrigatório. Esse parâmetro também não nos ajudará a medir o grau de GR de
desde (que), pois nossa pesquisa não se expandiu para outros elementos do paradigma das
preposições ou conjunções. Por isso, não sabemos o quão livre é o usuário para usar a preposição desde ou outra do paradigma. Além disso, para se verificar o quanto um elemento se torna obrigatório, seria necessário uma pesquisa diacrônica.
A variabilidade sintagmática refere-se à possibilidade de mobilidade de um item na construção em que ele ocorre. Segundo Lehmann, a posição fixa do item dentro de um sintagma é indício de seu aumento de gramaticalidade. Esse parâmetro é melhor observado quando um item lexical atinge um alto grau de morfologização. Novamente, esse parâmetro não nos ajuda a medir o grau de gramaticalidade de desde (que), pois, desde, como preposição, já tem a sua posição fixa: nos exemplos (1) e (2), a preposição sempre ocorre no início de uma estrutura adverbial. A perífrase conjuncional desde que também tem sua posição fixa, como conjunção, ela sempre ocorre no início de uma oração adverbial. Por isso, não há como dizer se a posição de desde ou de desde que se tornou uma mais fixa do que a outra.