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No primeiro grupo, estão os exemplos com as acepções mais antigas da preposição

desde, como vimos no português arcaico. A função das preposições é relacionar termos; nos

exemplos que seguem observamos que a preposição relaciona um SN ou um adjetivo à oração. A preposição mais o SN/adjetivo formam uma estrutura adverbial que explica ou completa o sentido da oração. Observamos que a estrutura desse primeiro grupo pode ter duas acepções, quando acompanhada por um sintagma nominal - acepções de espaço, como mostra o exemplo (02), ou tempo, como em (03) - e, quando acompanhada por um adjetivo, apenas a acepção de tempo, (04).

(02) Os pássaros, sem dúvida, amavam ao sol quando assim era. Pois um cântico animado se escutava desde a ramagem dos jacarandás, onde, em concerto, anus e bem-te-vis tocavam flauta, a pomba-rola soprando em baixo-tuba. (G)

(03) Por amor à arte, Felisbina estudava piano desde os cinco anos de idade com um professor alemão. (ACT)

(04) Tia Eugênia, mulher do tio Aurélio, irmão de papai, fora criada desde pequena pela família Baruel, proprietária da mais conceituada drogaria de São Paulo, a "Drogaria Baruel". (ANA)

Espaço

As ocorrências que nomeamos de espaço, como em (02), têm a preposição desde sempre unida a um sintagma nominal (SN), como mostram os exemplos abaixo:

(05) a) Não existia ainda o metrô; pegamos um ônibus e depois outro, desde a escola da Vila Alpina, lugar de muitos russos e poloneses de cabelos lisos e olhos claros. (OC)

b) Era uma boa chance para esquecer as bobagens que eu havia pensado minutos antes, uma boa oportunidade para quebrar o gelo que nos acompanhou desde Madrid. (MRP)

c) - Reforcei o policiamento nas ruas, desde o Terminal Ferroviário. Contatei com a prefeitura e o departamento de água e esgotos, mas os chefes não haviam ainda chegado ao serviço. (GRE)

Segundo as gramáticas tradicionais, o que está destacado nos exemplos acima, é analisado sintaticamente como adjunto adverbial, nesse caso, adjunto adverbial de lugar. Sendo um adjunto, ele é considerado um termo acessório da oração. Nos termos da GF de orientação holandesa, esses exemplos trazem informações adicionais à predicação nuclear. Portanto, são considerados satélites. No entanto, os satélites podem ser de vários tipos; os satélites como em (05) são considerados entidades de primeira ordem, pois “representam o

significado lexical pelo qual se adiciona características que podem ser especificadas no EsCo como definidas na predicação nuclear” (DIK, 1989, p. 225); portanto são satélites de nível 1.

Nesses exemplos, os satélites marcam o ponto de início de algo que acontece na predicação. Observamos que esse ponto marca algo no espaço. Portanto, semanticamente, ele está no quadro de orientação espacial dos satélites de nível 1. O SN que segue a preposição sempre faz alusão a um local, por exemplo: escola da Vila Alpina / Madrid / terminal

rodoviário. Dentro do quadro de orientação espacial, esses exemplos são considerados

satélites de origem, pois designam o ponto de origem do movimento.

A preposição que, normalmente, faz alusão à origem é por excelência a preposição ‘de’. Por exemplo:

(06) João dirige de Amsterdam (Origem) para Rotterdam (Direção) ao longo da rodovia (Caminho)29.

No entanto, podemos depreender várias nuances desse quadro de orientação espacial. Uma delas é o uso de desde ao invés de de. Neste caso, a preposição desde expressa uma extensão no espaço. Comparemos as duas preposições em um mesmo exemplo:

(07) a. Reforcei o policiamento nas ruas do Terminal Ferroviário.

b. Reforcei o policiamento nas ruas, desde o Terminal Ferroviário. (GRE)

Em (07a) entende-se que o policiamento foi reforçado apenas nas ruas do terminal rodoviário, um espaço mais delimitado. Temos um sentido diferente quando usamos a preposição desde em que podemos entender que o reforço não só foi feito nas ruas do terminal como ele se estendeu a outros pontos, em que o limite não está expresso.

Tempo

Os exemplos do tipo (03) são os mais abundantes no corpus falado e escrito. Semelhantes aos exemplos com acepção de espaço, o que está destacado na oração também é considerado acessório para a gramática tradicional e analisado sintaticamente como adjunto adverbiai, nesse caso, adjunto adverbial de tempo. No entanto, para a GF, os satélites desses exemplos estão no nível da predicação, portanto, são entidades de segunda ordem, já que eles fazem referência a um evento, a um estado de coisas. Os satélites de nível 2 (ó2)

correspondem aos meios lexicais que localizam o estado de coisas designado pela predicação em um mundo real ou imaginário e, desse modo, restringem o conjunto de referentes potenciais da predicação à situação externa (ou situações) que o falante tem em mente.

É possível elencar algumas diferenças entre os satélites de primeira ordem e os satélites de segunda ordem, como ilustram as seguintes construções:

(08) a) Minha mãe era frágil, gasta nos trabalhos da fábrica, onde vivia desde os quinze anos, descorada, de pequena estatura, só tendo como atrativo a suave mansidão das suas feições menineiras. (DEN)

b) O prefeito achava que um homem pode ser muitas coisas na vida, embora os habitantes de Viscos sempre soubessem seu destino desde crianças; o padre tinha uma opinião diversa, e considerava o recém-chegado como alguém perdido, confuso, que estava ali tentando encontrar a si mesmo.(DSP)

c) - Talvez você deva achar que os fabricantes de armas são o que há de pior no mundo. Talvez você tenha razão; mas o fato é que, desde o tempo das cavernas, o homem as usa - primeiro para matar os animais, logo depois para conquistar o poder sobre os outros.(DSP) De certa forma, os exemplos com a acepção de tempo têm uma estrutura semelhante aos exemplos com acepção de espaço, pois os satélites que possuem a preposição desde, também, marcam o ponto de início de algo que acontece na predicação. No entanto, o início se dá no tempo e não mais no espaço. Isso pode ser percebido pelo tipo de SN que segue a preposição: criança / tempo das cavernas / quinze anos. Percebe-se que essas palavras têm características diferentes em relação aos exemplos anteriores que faziam alusão a um espaço físico. Esses satélites fazem alusão ao tempo, portanto, não são tão concretos, mas mais conceituais do que os anteriores. Essa diferença se deve ao próprio estatuto categorial do satélite.

Como foi dito antes, os satélites iniciados pela preposição desde mostram, nos exemplos em (08), o início de tempo, ‘a partir de quando’ ocorre o EsCo que está na predicação. Porém, parece-nos que podemos destacar duas nuances desse tempo. Comparemos (09a) e (09b):

(09) a) Chego a me perguntar mesmo - mas isso não importa muito aqui nesta conversa -, se tudo não foi obra de padre Luís (...) O que importa é que, desde esse dia, ela mudou, tornou-se outra criatura, desnorteando todos. (A)

b) Baixou os olhos, como um escolar apanhado em flagrante, e desculpou-se: "Signora carissima, esse padeiro me provoca desde o domingo, só porque aquele raquítico do Rivera marcou dois gols contra a Inter. (ACM)

Em ‘desde esse dia, ela mudou’, podemos perceber que no primeiro o satélite desde esse dia está marcando um ponto no tempo; já no outro exemplo - e ‘esse padeiro me provoca desde o

domingo’ -, o satélite desde domingo, apesar de, também, marcar um ponto no tempo, está

associado a uma predicação que se repete. Explicando melhor, o EsCo de (09.b) na predicação ‘a provocação do padeiro’ é algo que vem sendo repetido desde um tempo passado - ‘desde domingo’ - até o momento da fala. Ou seja, há uma duração, ou repetição. Já no exemplo (09.a) não é possível dizer que o EsCo da predicação que é ‘a mudança de alguém’ é algo repetido desde o tempo ‘esse dia’. Portanto, nesse caso não há uma duração ou repetição do EsCo da predicação.

Acreditamos que essas nuances de sentido ocorrem devido ao fator de imperfectividade intrínseco à preposição desde e o tipo de verbo da predicação. O principal sema da preposição é a duração, a repetição, o caráter imperfectivo. No entanto, observamos que esse caráter de imperfectividade pode ser combinado com predicações perfectivas, como em (09.a).

Benzer Belgeler