Os princípios de Hopper, diferentemente dos de Lehmann, evidenciam a GR nos seus estágios iniciais ou, pelo menos, ele tenta averiguar a GR antes dos estágios de “obrigatoriedade” e “fixação” referidos por Lehmann. Para Hopper, a gramática de uma
língua deve ser entendida como uma constante GR, já que a língua é sempre emergente; ou seja, sempre estão surgindo novas funções para formas já existentes. Por isso, é possível identificar graus diferentes de gramaticalidade em uma mesma forma. Nesse sentido, os princípios de Hopper evidenciam não apenas mudanças gramaticais, mas podem mostrar os limites entre os fenômenos lexicais e gramaticais, que, segundo o autor, são muito difusos. Portanto, se os parâmetros de Lehmann não foram suficientes para explicar o grau de gramaticalidade de desde (que) pelo fato de nossos exemplos mostrarem, talvez, uma GR em curso e os parâmetros de Lehmann retratarem uma GR avançada, os critérios de Hopper deveriam, portanto, contribuir para retratarmos a GR de desde (que), pois, esses mostrariam os estágios mais incipientes do processo. No entanto, na seqüência, observaremos que isso não ocorre. Hopper (1991), como mostramos na terceira seção, propõe cinco princípios: estratificação, divergência, especialização, persistência, e descategorização:
A estratificação mostra que, apesar de uma forma surgir para referir-se a determinado domínio funcional, ela pode coexistir com outras formas mais antigas que também se referem a esse mesmo domínio. Como mostram os exemplos de (1)-(5), desde (que) tem um total de quatro acepções diferentes, no entanto, há outras formas que também expressam acepções semelhantes. Por exemplo, a perífrase desde que expressa condição e causa, mas coexiste com outras conjunções que também expressam essas acepções, como se e porque. Sabemos que essas formas não têm uma correspondência biunívoca entre forma e significado. A forma se, por exemplo, é a prototípica, por isso, se o falante usa desde que pode haver uma intenção pragmática envolvida nessa escolha; às vezes, essas tênues diferenças podem evidenciar diferentes registros sociolingüísticos ou variantes estilísticas.
O princípio da divergência mostra que uma forma lexical que dá origem ao processo de GR pode continuar existindo como elemento autônomo; ou seja, ela não deixa de existir porque se gramaticalizou. Esse princípio não é de grande ajuda na nossa investigação, pois (i) o nosso objeto já é um elemento gramatical e (ii) a nossa pesquisa é sincrônica, portanto não saberíamos informar, com certeza, a forma original. No entanto, como mostramos na seção anterior, em que destacamos os usos atuais de desde, observamos que a preposição desde pode formar outras estruturas, além da perífrase conjuncional que vamos analisar.
O princípio da especialização trata do estreitamento de nuances semânticas; ou seja, ocorre uma diminuição da escolha de formas pertencentes a um mesmo domínio, portanto, um estreitamento de opções para se codificar uma determinada função. Quando uma forma está totalmente gramaticalizada, ocorre a perda da escolha e a obrigatoriedade do uso dessa forma. Esse princípio complementa o parâmetro de Lehmann que trata da variabilidade
paradigmática: ou quanto menor a liberdade de escolha de um signo em um paradigma, mais esse signo se especializou em uma função. No entanto, assim como o parâmetro de Lehmann, esse princípio de Hopper não contribui para a nossa investigação, pois não abordamos os outros elementos do paradigma. Além disso, seria necessária uma pesquisa diacrônica e quantitativa que pudesse mostrar como foi ocorrendo a especialização em uma determinada função.
A persistência diz respeito a alguns traços do significado-fonte que são transferidos para a nova forma. Novamente, esse princípio de Hopper exige uma pesquisa diacrônica, pois como dizer o que é fonte e o que é meta em um recorte sincrônico? Nesse princípio está subentendida uma derivação etimológica. Portanto, não podemos dizer, com certeza, quais traços persistem nos nossos dados. No entanto, se levarmos em consideração que a perífrase conjuncional desde que tem um estatuto gramatical maior do que o da preposição desde, poderíamos cogitar que a preposição é a fonte e alguns traços dessa deveriam estar presentes na perífrase. No caso da preposição desde, observamos que ela marca uma extensão a partir de um determinado ponto. Esse traço de extensão, que está presente na acepção de espaço, persiste na acepção de tempo da preposição. Do mesmo modo, podemos perceber que a idéia de um ponto inicial se mantém nas acepções de condição e causa. Num sentido mais abstrato, a perífrase desde que, com essas acepções, marca o ponto inicial e necessário para que o evento relatado se concretize.
Por fim, o princípio da descategorização trata da mudança de categoria; ou melhor, esse princípio remete às perdas de marcas morfológicas e colocação sintática da forma gramaticalizada. Um signo quando se gramaticaliza e muda de categoria sintática, perde, conseqüentemente, suas características morfossintáticas. Esse princípio é melhor percebido quando se estuda a GR de nomes e verbos, pois o nosso objeto de estudo já é gramatical. Tanto a preposição como a conjunção são elementos gramaticais com funções muito semelhantes. Por isso, quando analisamos os exemplos de (1) a (5) podemos observar que em (1) e (2) desde desempenha a função comum a uma preposição: relacionar termos; e quando olhamos os exemplos de (3) a (5), desde que desempenha a função de uma conjunção adverbial: relacionar orações. Portanto, apesar de conseguirmos identificar duas categorias gramaticais, não conseguimos observar as “perdas” que ocorrem em uma descategorização.