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3. GÜNÜMÜZ KENT DOKUSUNDA KAMUSAL MEKÂN

3.3 Üçüncü Yerler

3.4.1 Yeni nesil kamusal sanat

trazendo cura em suas asas.

Um tempo onde Javé restauraria a justiça e faria a separação entre os que temiam ou não o seu nome.

Há nesta expressão uma originalidade poética e significativa do profeta Malaquias. Há quem afirme a concepção hebraica de justiça está atrelada às tradições de Maat, a deusa filha do sol218. Mas também se pode identificar um forte laço com os símbolos da religião persa.

A religião mais antiga da Pérsia tinha como principais divindades Mitra, deus sol; Anaita, deusa da fertilidade e da terra; Haoma, o deus touro o doador da imortalidade.219 Entretanto, nos dias de Dario I, a religião predominante baseava-se na fé em um Deus Supremo (Ahura Mazda) que possuía com uma de suas qualidades a manifestação da justiça. Esta religião (desenvolvida por Zaratrustra) entendia o mundo como um palco da luta entre o bem (Ahura Mazda) e o mal (Arimã ou Mamyos) diante do livre arbítrio do ser humano.220

A forma de adoração era realizada através de altares de fogo, acesos em honra a Ahura Mazda. E fogo eterno, o sol, era a representação mais alta da forma de Ahura Mazda.221

218 SELLA, Adriano, Ética da Justiça, p.69

219 DURANT, Will, A História da Civilização: nossa herança oriental, p.245. 220 Idem p.247-248

Assim, quando o profeta menciona o sol da justiça pode estar expressando alguma influência da religião persa, já que neste oráculo está manifestada a separação tão clara entre bem e mal onde, no fim, a cura e o resplendor da justiça apareceria como o sol. Mas é evidente que estas imagens e influências, na profecia de Malaquias, estão adaptadas para a pessoa e promessas de Javé.

O sexto oráculo reafirma ao povo judaíta que Javé faria reinar em justiça o povo que temia o seu nome e confiava, a ponto de obedecer a aliança. Malaquias expressou neste oráculo, mais uma vez, sua preocupação fim: uma vida em justiça para o povo.

3.4. Conclusão parcial

A mensagem de Malaquias estava preocupada com a resolução das crises internas da comunidade de Judá. Dentre as crises destacava-se o problema de social que geravam as injustiças dentro das estruturas familiares. Mas não se deve perder de vista que tal problema possuía estreita ligação com a quebra da aliança.

No livro de Malaquias o retorno à aliança com Javé é um tema fundamental. Como outros profetas, Malaquias destacou a importância do povo viver com Javé renovando a aliança deuteronômica e os compromissos de vida com o Senhor, pois em tais valores residia a possível harmonia sócio-religiosa.

Assim, com a exigência do retorno à aliança sob as normas deuteronômicas, o tema da justiça na sociedade é majoritário nos oráculos de Malaquias. Em três oráculos, com especificidade, o tema

fP;c]Mi

“do direito”,

hq;d;x]

“da justiça” são emblemáticos, pois o descontentamento social estava impulsionando as insatisfações com Javé e com a religião.

Na análise do contexto vital e das estruturas do século V a.C. ficou evidenciado que as injustiças sociais estavam muito mais vinculadas às estruturas familiares do que às estruturas opressivas dos persas. Também se pode compreender que o descompromisso com a justiça deuteronômica estava vinculada ao despreparo ou desinteresse do sacerdócio em ver estabelecido o direito e a justiça nas relações cotidianas do povo judaíta. A omissão dos sacerdotes no ensino foi um grande alvo de Malaquias (1,6-2,9).

Outro fator agravante para a crescente injustiça era que todo o processo de empobrecimento estava legitimado pelas leis familiares (Esd 5,1-8) que

descumpriam e desfaziam das leis de solidariedade e de proteção para os membros do mesmo clã.

Ainda se via como um projeto comum, embora minoritário, a escalada social e o enriquecimento de algumas famílias predominantes. Este, talvez, tenha sido o maior fator que impulsionou a crescente indústria de injustiças entre o povo judaíta. Obviamente tais projetos eram visíveis, pois se via alguém enriquecer mais que outros. Mas não eram repudiados e, quem sabe, foram até protegidos por poderem oferecer benefícios tanto a governantes como a sacerdotes.

A mensagem de Malaquias, como porta-voz da justiça para a sociedade, re- visitou um tema muito desenvolvido no passado pelos profetas só que adaptado às novas condições sócio-político-econômicas.

Nestas novas condições, o profeta atribui aos sacerdotes a grande responsabilidade de estabelecer o direito, a justiça entre os habitantes de Judá. Pois seria através do templo e do governo de Javé que o povo alcançaria uma condição de vida mais unida e de relações justas. Assim, o profeta reforça o projeto de um país de governo sacerdotal menos preocupado com a monarquia ou o restabelecimento de poderes políticos civis.

O livro de Malaquias apresenta a necessidade de justiça para a vida do povo e vê na equidade entre os habitantes de Judá e de Jerusalém o soerguimento de uma comunidade justa que viveria sob o comando do Deus da aliança.

CONCLUSÃO

O livro de Malaquias se constitui em um documento que testemunhou as crises e conflitos existentes no território de Judá, no século V a.C. Trata-se de uma fonte única na Bíblia Hebraica desse período. Suas mensagens retomam os temas críticos apresentados pelos profetas pré-exílicos, acrescentando as novas abordagens por causa das transformações sociais, políticas, culturais e religiosas.

O período do livro remonta ao período da dominação persa já após a retomada da ordem e do poder nos dias de Dario I (522-486 a.C.). O templo já estava reconstruído e o sacerdócio organizado para os sacrifícios. Entretanto, os dias de Malaquias antecedem aos de Neemias e aos de Esdras que vêm, por concessão e ordem dos governantes persas, em tempos distintos, para restaurar a estrutura física de Jerusalém (Ne 2,2-9, aproximadamente em 445 a.C.) e o outro para restaurar a religião, as leis e a estrutura jurídica em Judá (Esd 7,23-26, após 398 a. C.).

O livro apresenta, através de seus oráculos, os problemas que estavam desestruturando social, política e religiosamente os habitantes de Judá e de Jerusalém neste período.

I – Um livro estruturado para discutir os confrontos sociais, políticos, religiosos e teológicos:

O livro de Malaquias está estruturado em seis oráculos sob a forma de demandas judiciais (1,2-5; 1,6-2,9; 2,10-16; 2,17-3,5; 3,6-12; 3,13-21). Em seu contexto vital o tipo literário remonta aos julgamentos de causas para o estabelecimento de justiça entre o povo. A forma do livro parece identificada com o interesse do autor: pretende restabelecer a vida de forma justa para a população judaíta nos dias da opressão persa.

O livro registra o estado de submissão à Pérsia, mas toca pouco nos aspectos dessa dominação sobre os habitantes de Judá. Não que a desconsiderasse, mas porque compreendia que os problemas mais expressivos estavam sob a responsabilidade dos líderes e dos habitantes judaítas.

Uma das evidências do texto sobre a dominação persa apresenta, muito mais a instância local do poder persa do que propriamente o governante de todo o império.

E nesta menção, o governador (1,8 -

hj';p'

) foi citado em tom irônico reservando a este sua autoridade e severidade nas ações contra aqueles que poderiam agir de forma corrupta em suas obrigações tributárias com o império.

Malaquias reconhecia a forte opressão a que estavam submetidos. Sabia que o menor vestígio de rompimento com o tratado de vassalagem desencadearia numa série de ações que pesariam demasiadamente a vida do povo e das elites que estavam à frente como representantes dos dominadores. Talvez, o profeta se referisse às ações passadas dos persas, na retirada dos governantes das satrapias que se insurgiam (quem sabe uma recordação da saída de Zorobabel). Pois, nos dias de Dario I, os sátrapas eram depostos sem qualquer julgamento e, muitas vezes, serenamente envenenados pela criadagem por ordem do rei222.

O modelo de dominação da Pérsia, inaugurado por Ciro e continuado com ampliações por Dario I e seus sucessores, estava baseado no poder bélico-militar e econômico. Assim, atribuíam aos governantes locais uma espécie de autonomia político-jurídico-cultural-religiosa. Mas, sobretudo, deveria vigorar os interesses do império sob as ordens dos monarcas.

A mensagem de Malaquias focalizava, mais precisamente, a comunidade interna de Judá e de Jerusalém. Porque os problemas que considerava como desagregadores e destruidores da fé e das dignidades estavam circunscritos às instâncias do poder local.

Por isso, a atenção do autor parece completamente voltada para os conflitos internos da sociedade judaíta. Não menciona diretamente os persas queixando-se de sua opressão, mas faz referência aos desmandos internos que precipitavam a insatisfação com a prática da justiça e, conseqüentemente, um descrédito religioso.

Os problemas internos tratados por Malaquias concentram-se em duas esferas distintas, mas congruentes: o povo desalentado pelos problemas da vida (1,2-5; 2,10- 16; 2,17-3,1.5; 3,6-12 e 3,13-21) e o sacerdócio sem condições de estabelecer a religião e a justiça na sociedade (1,6-2,9; 2,10-16 e 3,2-4). Estes dois focos dominam os oráculos em forma de demandas, no livro de Malaquias. E o quarto oráculo apresenta esse duplo foco, de forma direta e clara, em uma única demanda

222 DURANT, Will, A História da Civilização: nossa herança oriental, Vol.1, Rio de Janeiro: Record,

descrevendo as transformações que Javé implementaria entre o seu povo e entre o sacerdócio de seu templo em Jerusalém.

Os oráculos de Malaquias apresentam conflitos e insatisfações na vida do povo. Por isso, é importante distinguir os conflitos e os seus porquês? Para isso, pode se verificar a quem o profeta se dirigiu e de que forma se posicionou mediante as crises e conflitos.

A introdução do livro (1,1) menciona os destinatários:

laeev]yi-la,

“a Israel”. A palavra de Javé tem o povo da aliança como foco.

O Israel, no pós-exílio, voltava a incluir todos os descentes de Jacó (1,2-5 e Ez 20,33-36; 36,16-28). Mais especificamente, no território de Judá no século V a.C., este Israel estava constituído multiculturalmente e, porque não dizer, plurietnicamente. Formavam este Israel: os judaítas mais pobres deixados pelos babilônios como donos e cultivadores da terra, “o povo da terra” (Jr 52,16), alguns refugiados do reino do norte que viveram o período do exílio em Judá (incluindo os sacerdotes que estavam no interior que permaneceram no território de Judá) e os habitantes de Jerusalém (filhos das elites exiladas) que retornaram do exílio, depois de Ciro ter dominado a Babilônia (538 a.C.).

Malaquias se dirigia a esses grupos portadores de origens distintas, de experiências diferenciadas no período do exílio e de teologias javistas com focos diferenciados.

Após a proposta política persa para o território de Judá (com o retorno dos exilados), esses grupos precisavam reencontrar o caminho para conviver novamente em um mesmo espaço geográfico sob os mesmos valores sociais, religiosos, políticos e econômicos. Desafio certamente problemático e confrontador.

Esta convivência revelou-se conflituosa nos seus diversos níveis, por isso, a mensagem de Malaquias deveria apresentar uma direção religiosa e social capaz de restaurar a justiça e a fé no Israel sediado no território de Judá e em Jerusalém.

Parte desses conflitos deu-se pela reestruturação político-social através da estrutura familiar. No pós-exílio, após a derrocada da monarquia em Judá, a sociedade judaíta voltou a se organizar, mais efetivamente, pela estrutura clânico- tribal que passou por transformações chegando a ponto de algumas fa mílias

constituírem-se predominantes e, conseqüentemente, estabelecer ações de opressão sobre famílias economicamente mais fracas.

Esta organização social agravava as relações por sua condição opressora dentro do âmbito familiar e também fora dele. “O povo da terra” estava mais estabelecido e melhor estruturado, por isso, mantinham-se social e economicamente fortes.

E “os repatriados” que estavam reconstruindo suas vidas, embora tivessem o apoio formal da Pérsia, não estavam alcançando os alvos que os trouxera de volta: a reconstrução de Jerusalém com um “governo local” davidita e um templo reconstruído e forte no desenvolvimento da religião israelita (expectativas nutridas pela profecia exílica produzida na Babilônia, especialmente por Ezequiel). Este grupo era o mais fragilizado pela instância local do poder persa (Esd 4,1-5).

Os israelitas repatriados da Babilônia se estabeleceram em estrutura familiar nas localidades circunvizinhas a Jerusalém e inicialmente buscavam reconstruir suas vidas e o templo. Retomaram o cultivo da terra como forma de subsistência e repovoaram Jerusalém e região.

Essas diferenças sócio-políticas e a opressão no sistema familiar geraram entre os dois grupos insatisfações e lutas internas. E estas, somada a forte opressão persa, fez enfraquecer a fé em Javé, pois não viam as promessas de uma sociedade justa e vitoriosa concretizada em suas vidas. Até mesmo o templo e o sacerdócio agiam de forma indevida e os valores da aliança desprezados e a vida ficando insustentável.

Estes conflitos se ampliavam nas questões teológicas. Os “habitantes da terra” lutaram para manter a religião javista conservando-a através da longa produção literária, a obra deuteronomista223, fonte do profeta Malaquias. Sobre este referencial construíram uma religião com os ideais de justiça baseada nos valores da aliança com Javé sob a forma da retribuição. “Os repatriados” mantinham-se ligados à mesma teologia da retribuição com expectativas de terem “purgado os pecados” de Jerusalém no exílio e prontos para restaurá-la com uma glória superior à anterior, através do templo e de seu poder. Esta teologia firmava-se na eleição de Jerusalém, da linhagem davídica e dos sacerdotes.

223 SCHWANTES, Milton, Sofrimento e Esperança no Exílio: história e teologia do povo de Deus no

O livro de Malaquias testemunhou uma profunda crise religiosa onde a teologia estava sendo questionada. Diante desse quadro, o profeta se manteve vinculado à teologia deuteronomista e com a teologia do templo, mas não manifestou estar familiarizado com os pressupostos teológicos dos aronitas que geraria, um pouco mais adiante na história, a teologia sacerdotal.

A teologia de Malaquias pretendia sintetizar os pressupostos teológicos convergentes: a importância do templo e do sacerdócio; a importância do estabelecimento da justiça na vida cotidiana e o fortalecimento da identidade do povo através dos valores da aliança com Javé. Desta forma, conseguiria atingir as necessidades dos grupos e uni-los num projeto comum. Exceto na preferência do grupo proeminente no templo. Preferindo um grupo menos proeminente, “os filhos de Levi” (3,3).

As mensagens dos oráculos de Malaquias estão vinculadas à esperança escatológica. Além de denúncias reservava espaço para as ações transformadoras de Javé para o seu povo com profunda esperança no futuro. Não evidencia, em seus oráculos, a presença de elementos característicos da apocalíptica (literatura em evidência no período do profeta), exceto que parece ser uma obra literária (

ykal]m'' dy''B]

“por mão de meu mensageiro”) mais do que um registro de pregações proféticas (oralidade).

A obra de Malaquias (pela forma, pelos conteúdos e tendências teológicas) visou, como profecia, promover um ponto de convergência capaz de reestruturar social e religiosamente os grupos que habitavam Judá e Jerusalém a partir do templo. Com isso, dimensionava uma restauração na sociedade pela observância das leis da aliança buscando trazer de volta a confiança de uma vida em justiça pela ação de Javé.

As transformações sociais e religiosas precisariam ser fomentadas pela prática das leis da aliança e pelo compromisso dos sacerdotes em instruir o povo para a execução da justiça.

Malaquias via limitações para se alcançar este alvo, pois o sacerdócio estava envolvido nos esquemas e nas infrações das leis. Por isso, o profeta posicionou-se contrariamente aos sacerdotes que desfrutavam da liderança do templo em seu período, os sadocitas. Preferiu prever o futuro de justiça pela mudança da liderança

entre os sacerdotes, provavelmente mencionando os sacerdotes aronitas, preteridos neste tempo.

Desta forma, o alvo central da mensagem de Malaquias era o restabelecimento da justiça na vida do povo (o que competia às instâncias locais). Uma justa liderança poderia aplacar o sofrimento e as decepções do povo fomentando um fortalecimento religioso capaz de uni-los em torno dos valores comuns: a crença na aliança centrada na teologia da retribuição que reacenderia o desejo da prática das leis de solidariedade na estrutura familiar em Judá e em Jerusalém. Assim, a presença vitoriosa de Javé instauraria a justiça e a sociedade se reorganizaria e se fortaleceria através do Templo, fonte produtora de justiça e de identidade para o novo Israel.

II – Um oráculo que sintetiza o conteúdo e as transformações anunciadas pelo profeta na prática da justiça cotidiana

O quarto oráculo de Malaquias (2,17-3,5) é considerado como um ponto central, nevrálgico para a interpretação do livro de Malaquias.224 A perícope possui importância por causa da descrição feita da insatisfação e, até, do ceticismo na relação com Javé.

O oráculo proclama a mensagem da iminente vinda do Senhor (

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) que promoveria transformações internas no sacerdócio e na prática da justiça cotidiana.

O quarto oráculo de Malaquias (2,17-3,5) volta a atenção para os problemas internos no território de Judá no período do V século a.C., especialmente, para as dificuldades e anomalias sociais.225 Por isso, comentadores/as interpretam o oráculo como o anúncio da intervenção de Javé, o seu dia de julgamento.226 Esse julgamento seria iniciado no templo e seguiram as devidas mudanças sociais, como afirma Gilberto Gorgulho:

224 Beth McDonald Glazier, Malachi- The Divine Messenger, p. 128,129. Também Cláudia Mendoza

justifica a centralidade do oráculo por admitir a forma concêntrica na organização do livro (confira “Malaquias - El profeta de la honra de Dios”, p. 226).

225 Idem, p 123.

226 Confira GLAZIER, Beth McDonald, Malachi: The Divine Messenger, p. 126,127; BALDWIN,

Joyce G., Ageu, Zacarias, Malaquias, p. 202,203; SICRE, Jose Luís, A justiça social nos profetas, São Paulo: Paulinas, 1990, p. 591; HILL, Andrew E., Malachi: A New Translation, p. 260.

O eixo da restauração está no Templo – ele é o foco da unidade das comunidades de aldeias (...) O restabelecimento da justiça e do direito tem uma dimensão cultural e social.227

A primeira parte do oráculo (2,17) pode ser entendido como um confronto com a teologia da retribuição.228 No entanto, existem opiniões discordantes quando tratam do estilo literário do autor na disputa estabelecida em torno da crença ou descrença na retribuição. Baldwin e Glazier interpretam as palavras e as questões da disputa como uma forma irônica do profeta apontar as causas da incredulidade do povo. Beth McDonald Glazier afirma que Malaquias usa de ironia porque não entende a profundidade do drama pelo qual estavam passando os seus ouvintes (este comentário deve-se a compreensão do termo

rb;D;

como tagarelar, murmurar)229. Andrew E. Hill questiona essa posição e afirma que a discussão representa uma expressão honesta de uma “sobra de justiça” ou um comentário social de um povo exausto. Hill posiciona-se afirmando:

Sua reclamação tinha a aparência formal da dúvida honesta que caracteriza as lamentações do salmista (...), mas faltou a convicção pessoal e o caráter espiritual evidenciados nos salmistas de “confiança” em Javé.230

Portanto, segundo Hill, o povo aguardava o dia do julga mento como algo ansiado, genuíno. Suas expectativas, ao pedirem tal coisa, era a busca de uma resolução para a crise, de uma intervenção de Javé em sua história. Já para Glazier, a expectativa da vinda de Javé era, muito mais, uma expressão de sarcasmo pela incredulidade. Duvidavam que um dia Javé viria ao encontro deles para fazer justiça.

As duas opiniões acima são paradoxais no que tange a intenção das palavras do povo (do profeta em nome do povo) na disputa. A opinião de Hill aponta para o interesse sincero de um juízo que pudesse clarificar onde estava o erro e, portanto, um pedido de fé. Já a opinião de Glazier indica, além de sarcasmo, uma atitude de incredulidade na ação de Javé.

227 GORGULHO, Gilberto, Malaquias e o discernimento da justiça em Estudos Bíblicos, vol. 14,p. 29. 228GLAZIER, Beth McDonald, Malachi: The Divine Messenger, p. 123 e BALDWIN, Joyce G.,

Ageu, Zacarias, Malaquias, p. 202 afirmam ser o problema a fé na retribuição chegando a ponto de desilusão e descrença. Andrew E. Hill discorda que a inquietação dos judaítas do pós-exílio origina-se da percepção de que a lei da retribuição estava inoperante. Ao contrário, para Hill, a justiça dentro da comunidade ressentia-se do fato que eles definhavam sob “a maldição corporativa” da lei da retribuição devido a desobediência do pacto de outros membros da comunidade [confira HILL, Andrew E., Malachi: A New Translation, p. 285].

229 GLAZIER, Beth McDonald, Malachi: the divine messenger, p. 127. 230 HILL, Andrew E., Malachi – A New translation, p. 286.

Parece que a idéia de Glazier, de uma certa incredulidade, é bastante forte devido o contexto de frustração. Entretanto, sua argumentação parece exagerada quando traduz

rb;d;

como murmuração, tagarelice. A hipótese de Hill soa bem dentro do argumento judicial (discussão do gênero literário), onde se