• Sonuç bulunamadı

YENİLİĞİN BELİRLEYİCİLERİ VE YENİLİKÇİLİĞİ ENGELLEYEN

Ao falar da abertura dos territórios e das regiões a todas as for- mas e tipos de modernidade, Santos (2006, p.20) levanta uma ques- tão crucial de método que muito assola os trabalhos de pesquisa no Brasil e na América Latina: “[...] a produção de uma modernidade que oferece ao mundo uma epistemologia incapaz de entendê -lo”. De acordo com o autor, essa epistemologia separa o resultado do processo. Além disso, muitas vezes, o local e o regional são tomados pelo global, em nome de uma pretensa interpretação totalizante que negligencia a riqueza concreta da realidade, principalmente ao uti- lizar instrumentos teórico -metodológicos aplicáveis a todos os ter- ritórios, mas incapazes de captar as particularidades das formações socioespaciais.

Esse jeito de olhar os territórios está sempre fechado ao novo, na medida em que interpreta as particularidades com instrumentos analíticos preconcebidos, impossibilitados de apreender o movi- mento dos acontecimentos e a variedade das ações, ao impor enfo- ques que, em última instância, mais enrijecem o objeto estudado do que desvendam a sua complexidade.

Para Santos (2006), um exemplo desse procedimento é a pree- minência dada à questão do modo de produção, e não da formação social. Para o autor,

O enfoque do modo de produção não permite estudar a realidade de dentro, é um enfoque externo à realidade, não permite reco-

da ciência geográfica e na compreensão dos conceitos de território e territoria- lidade” (Saquet, 2007, p.17).

nhecer como se constituem as sociedades e, sobretudo, não per- mite incluir a questão do território, porque o modo de produção não é uma categoria capaz de trabalhar o espaço visto a partir da totalidade concreta que é a formação social (Santos, 2006, p.21). Essa “miopia metodológica” recusa reconhecer as combinações transescalares que dão ao real seu verdadeiro significado. Ela se fe- cha à coexistência das temporalidades diversas, resiste olhar o ter- ritório a partir da relação contraditória de seus agentes e conclui em função de um pacote implacável de encaminhamentos metodoló- gicos preconcebido exteriormente.

No âmbito dos recentes estudos sobre mundialização, esse pen- samento se reproduz de maneira generalizada, em especial a partir da necessidade de os agentes globais hegemônicos procurarem ex- trair vantagens das relações estabelecidas com os territórios interes- sados no seu receituário. Pacotes com planos de desenvolvimento genéricos são difundidos indiscriminadamente para os territórios, sobretudo para aqueles dispostos a aceitar inúmeras soluções pro- venientes dos “centros de excelência” na produção das ideias.

Por outro lado, mesmo um olhar crítico sobre as relações que se dão no contexto das transformações capitalistas peca por defender uma interpretação muito ligada à ideia de homogeneização dos ter- ritórios. Os herdeiros da análise estruturalista da “teoria da depen- dência” – denunciados, entre outros, por Lipietz (1988) – continuam acreditando que territórios e regiões estarão sempre disponíveis para colaborar com os estágios de expansão e incorporação do ca- pital. Eles pensam a realidade somente a partir de leis imanentes, elas mesmas provenientes de uma compreensão analítica universal que rejeita reconhecer as manifestações do particular. Como forta- lece Lipietz (1988, p.11), a análise teórica de uma região “não pode ser limitada à evidenciação das relações ‘sincrônicas’ que a inserem numa estrutura inter -regional”. É preciso “também procurar na ‘diacronia’, na história dessa região, aquilo que a tornou disponível para desempenhar essa função”.

Santos (1999) defende que, se o mundo é um conjunto de pos- sibilidades, sua efetivação só se dá diante das oportunidades ofere- cidas pelos territórios e pelos lugares, pois são eles que fornecem ao movimento do mundo a possibilidade de sua realização mais eficaz. Assim, para se tornar espaço, o mundo também depende das virtu- alidades representadas pelos territórios e lugares.

Não concebemos a ideia de estudar o Ceará sem levar em con- sideração tais preceitos. As manifestações transcorridas nesse ter- ritório ganham uma tessitura produzida pelos agentes políticos, econômicos e sociais a partir de relações muito particulares, mes- mo que fortemente articuladas com a proposta atual de absorção dos valores modernos erigidos com a mundialização da produção e do consumo.

As forças mundializantes da economia não anexam simplesmen- te o território cearense de maneira mecânica. Como assinala Santos (1999), o conjunto de forças da expansão global capitalista, represen- tado por uma espécie de imperativo da competitividade, precisa de territórios de ação que sejam capazes de conceder a uma dada neces- sidade uma vantagem maior. Para isso, é preciso que uma lógica ter- ritorial interna reúna homens, empresas, instituições, formas sociais e geográficas capazes de articular com os elementos exógenos.

No estudo sobre a organização territorial cearense, acredita- mos, tal como Markusen (2005), que é preciso definir as pessoas, os grupos e as instituições que funcionaram e funcionam como agentes decisórios, responsáveis por criar instrumentos político- -econômicos e sociais de transformação no cerne do contexto de reestruturação da realidade global. Pensar assim, obviamente, não implica apenas descrever a trajetória de atores livres e capazes de alterar o mundo a partir de uma demanda individual, encaminhada por meio de grupos de empresas, gestores ou associações civis. A economia política do território se elabora no contexto de processos socioespaciais, transformações estruturais e crises cíclicas histori- camente desenvolvidas, mas também é moldada por seres humanos em contextos organizacionais, em que se definem os rumos e se to- mam as decisões, resultando em erros ou acertos (Markusen, 2005).

O projeto cearense dos empresários -políticos, estimuladores de importantes transformações e criadores de uma imagem de renova- ção no contexto brasileiro de redefinição da política, passa por esse exercício de articulação transescalar.

Particularidades e generalidades dos governos