A modernidade, conceituada como um conjunto de valores e inter- pretada a partir dos meios vivenciados por uma sociedade (Touraine, 1995; Berman, 1998; Harvey, 1998), se reflete, na prática, em uma
racionalização que se dá na esfera econômica, política e cultural.9 O
advento dessa racionalização leva à modificação de antigas formas de produção e à emergência de uma nova mentalidade social, permea da por uma maior institucionalização das normas e uma impressão mais universalista dos valores e dos referenciais de moralidade.
Os processos que levam a essas mudanças, segundo Berman (1998, p.16), mantendo -as “num perpétuo estado de vir -a -ser, vêm a chamar -se ‘modernização’”. A modernização conduz à industrializa- ção da produção, transforma conhecimento científico em tecnologia, redefine os ambientes humanos, amplia o crescimento urbano, ace- lera o ritmo de vida, gera novas formas de poder corporativo, articula sistemas de comunicação de massa e erige um mercado capitalista cada vez mais ampliado e flutuante (Berman, 1998).
Entretanto, ao pensarmos em transformações dessa natureza, seria possível imaginarmos que, no Brasil, nos últimos anos, um dos proje- tos político -econômicos mais obstinados em incorporá -las foi produ- zido no Ceará, um dos estados mais pobres da Federação? Como um estado com elites políticas tão frágeis em termos estruturais consegue, contraditoriamente, exercer tanta influência em escala nacional, alcan- çando um peso político desproporcional à sua importância?
9 “A ideia de modernidade está estreitamente associada à da racionalização. Renunciar a uma é rejeitar a outra” (Touraine, 1995, p.18).
As respostas para essas perguntas passam por duas dimensões complementares que envolvem a natureza transescalar das trans- formações no Ceará. Por um lado, no plano nacional, temos a polí- tica desenvolvimentista da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), que foi recebida no Ceará de uma maneira diferente em relação ao restante dos estados do Nordeste, sobretudo por legitimar mais os empresários locais (Ferreira, 1995; Abu -El- -Haj, 1997). Por outro lado, temos a participação de importantes instituições instaladas no estado que, ao contribuir para a constru- ção de uma mentalidade racionalista diante dos inúmeros proble- mas socioeconômicos, num contexto de grande vulnerabilidade climática e ambiental, levam à incorporação de projetos estruturan- tes menos resistentes às ideias da modernidade (Parente, 2002).
Do ponto de vista da primeira dimensão, Bielschowsky (2004) destaca a importância de duas diferentes fases do desenvolvimen- tismo no Brasil, responsáveis por estabelecer os laços entre a estru- tura econômica estatal e o empresariado nacional e multinacional. Na primeira fase, que vai da proclamação do Estado Novo em 1937 até o golpe militar em 1964, o desenvolvimentismo brasileiro mo- bilizou um montante de recursos do Estado para assumir a respon- sabilidade pelo crescimento industrial. Como resultado, nasceram importantes empresas estatais e cresceu a institucionalização da economia nacional. Já na segunda fase, o regime autoritário assu- miu o ônus pelos investimentos na infraestrutura, facilitando a ex- pansão do setor privado, ao mesmo tempo que contribuiu para a formação de uma economia de mercado difundida em grande parte do território brasileiro, como demonstra a quebra do monopólio na produção automobilística de São Paulo e a criação do Polo Petro- químico de Camaçari na Bahia.
Essa segunda fase influenciou diretamente a formação de uma classe empresarial de mentalidade progressista no Ceará. O de- senvolvimentismo no Nordeste ficou marcado pela atuação das políticas regionais, com a criação do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e da já citada Sudene entre o fim dos anos 1950 e o começo
da década de 1960.10 Como informa Oliveira (1977), por ser forte-
mente comprometida com o crescimento monopolista do capitalis- mo brasileiro, até 1974, a Sudene patrocinou mais os investimentos provenientes do Sudeste do país, por meio dos mecanismos de fa- cilitação fiscal e atração industrial conhecidos como Artigos 34/18. Após esse ano, instituiu -se o Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor), que prometeu romper com o desenvolvimentismo tradi- cional no Nordeste e implementar novos investimentos a partir de propostas como o incentivo à concorrência e à produtividade (Abu- -El -Haj, 1997, 2002, 2003).
Criado no intuito de responder às críticas ao modelo anterior de intervenção da Sudene – em que a indústria pesada e de capital intensivo recebeu mais atenção –, o Finor priorizou os investimen- tos na indústria tradicional de médio porte e deu a elas poder de competitividade (Abu -El -Haj, 1997). Ao ser excluído dos maiores investimentos até 1974, o Ceará foi o estado mais beneficiado com os projetos do Finor. Isso resultou numa transformação da sua es- trutura empresarial, que viu o avanço tecnológico, o fortalecimento da indústria tradicional têxtil e a incorporação de um padrão com- petitivo de produção industrial, inclusive com a adoção de metodo- logias gerenciais de produção modernas (Ferreira, 1995).
Esse movimento incentivou o aparecimento de uma classe bur- guesa bem -sucedida que, pelas suas origens urbanas, diferenciava- -se, a um só tempo, das elites políticas tradicionais e da classe empresarial mais antiga, ligada à estrutura econômica do Estado au- toritário. Os empresários que passaram a se reunir no CIC a partir de 1978 foram uma das representações constituídas nesse período. Eles se destacavam pela sua ação empreendedora no estado e no país como um todo. Além disso, sua formação acadêmica, conquistada nos cursos de administração e economia de centros como a Funda- ção Getulio Vargas (FGV), dava -lhes uma característica diferencia- da, marcada pela proposta racionalista de intervenção planejada na
10 O Capítulo 2 traz uma discussão mais detalhada sobre o papel desses órgãos no contexto das transformações econômicas sentidas pelo Nordeste na segun- da metade do século XX.
economia e na política. Logo eles compreenderam o contexto histó- rico do qual faziam parte, tanto no Ceará como no Brasil, e passaram a discutir abertamente temas políticos, convidando importantes no- mes de oposição ao governo federal (Celso Furtado, Maria da Con- ceição Tavares, Luiz Inácio Lula da Silva, Leonel Brizola, Antônio Ermírio de Moraes, Henfil etc.) para difundir a ideia de aceleração da redemocratização nacional (Carvalho, 1999).
Algumas especificidades cearenses consolidaram essa nova classe empresarial, dando -lhe condição de impor a sua demanda diante do comando político estadual. A origem dessa consolidação está ligada à própria natureza estrutural frágil das elites no Ceará, que nunca tiveram a força nem a durabilidade das elites políticas de Pernambuco, da Bahia e da Paraíba, por exemplo. Essa instabilida- de do poder estadual – trabalhada, entre outros, por Parente (2000 e 2002) e Barreira (2002) – está diretamente vinculada a fenômenos como a seca, que, em função de seu caráter crônico e implacável, sempre atingiu ricos e pobres. De fato, os efeitos da seca no Cea- rá são maiores do que nos outros estados do Nordeste. Enquanto Bahia, Pernambuco, Paraíba, Piauí etc. têm apenas parte dos seus territórios sob a influência do regime de chuvas do semiárido nor- destino, o Ceará tem mais de 90% do seu afetado pela seca.
Mas os efeitos nefastos do fenômeno natural, na concepção de Parente (2002, p.126), trazem consigo outra face: eles favorecem o fortalecimento de um quadro técnico e moderno, “[...] instrumen- tado não só para conhecer a realidade empírica da região, mas para interferir de forma racional nos seus efeitos”. Assim, a modernização sempre foi uma estratégia de sobrevivência das elites cearenses, e isso está demarcado no papel que o estado tem ao sediar órgãos federais técnicos de reconhecida competência, como o Departamento Nacio- nal de Obras Contra as Secas (DNOCS) e o BNB, entre outros.
Faltava, então, à classe empresarial que se apresentava como pretendente ao comando político estadual garantir a homogeneida- de dos quadros técnicos em seu favor e articular seu projeto com as diferentes porções do território cearense, uma vez que as regiões do Ceará – em especial o Cariri (no sul), Sobral (no norte) e a região
metropolitana de Fortaleza (RMF) – geralmente se colocavam de maneira opositora do ponto de vista político.
Isso foi possível na sucessão estadual de 1982, quando a proposta do Estado central autoritário de entregar o poder aos civis, de forma lenta e gradual, revelou o desgaste e a artificialidade do comando dos três políticos mais influentes do Ceará, os “coronéis” Virgílio Távora, Adauto Bezerra e César Cals. Mesmo com a autorização do multipartidarismo para as eleições daquele ano, parecia que a deci- são acerca do nome do novo governador sairia automaticamente a partir da escolha conjunta dos três políticos. No entanto, não houve um consenso sobre um candidato que pudesse manter a indispen- sável unidade das facções políticas, e a decisão precisou ser tomada no famoso Acordo dos Coronéis (ou Acordo de Brasília), quando o nome de Gonzaga Mota, técnico do BNB, foi imposto aos “co- ronéis” pelo presidente da República, na tentativa de uma solução conciliadora para a política local. Com o apoio de Virgílio, Adauto e César Cals, a eleição foi apenas uma formalidade e Mota saiu vi- torioso. Os empresários do CIC perceberam o significado daquele momento e convenceram o novo governador a romper o Acordo dos Coronéis, transformando a farsa eleitoral numa tragédia para os ve- lhos profissionais da arte de fazer política (Carvalho, 2002).
A crise do Acordo dos Coronéis deixava claro que as mudanças no Ceará não se limitavam à economia: elas também interferiam na política. Os pactos tradicionais, que pareciam imbatíveis em fun- ção das estratégias conduzidas pelos dirigentes especializados em fazer da política uma arte de chefia (Carvalho, 2002), já não se sus- tentavam mais. Os resultados das eleições de 1982 apontavam para desdobramentos muito mais devastadores, manifestados no pleito de 1986, que elegeu Tasso Jereissati como governador do estado e destacou a força simbólica do “político moderno” em relação ao modo “atrasado” de administrar a coisa pública.
O marketing eleitoral passou a ser um instrumento importante de acesso ao poder e à construção de uma imagem pública pautada no discurso da modernidade enquanto difusão dos valores da socie- dade de mercado que definiu o percurso de construção de uma nova
hegemonia política. Os empresários -políticos do Ceará se afirma- ram como nova elite dirigente em função da crítica progressiva ao modelo tradicional e decadente do regime militar. Suas principais ideias ficaram muito bem definidas num projeto de caráter bur- guês, com feição cosmopolita, que muito contrastava com a filoso- fia corporativa da política brasileira e cearense do período.
Com a conquista do governo em 1986, o projeto foi implantado na política e na economia cearenses, com fortes repercussões so- bre a sociedade e o território, que passaram a sentir os efeitos de um estilo diferente, embora conservador, de conduzir os rumos do capitalismo no estado. De fato, ao atribuir importância maior aos mecanismos de acumulação privada e industrial, considerando a nova configuração comandada pela competitividade, a proposta dos empresários -políticos aflorou um modelo de articulação tran- sescalar sem precedentes no Ceará.
O movimento do sincrônico e do diacrônico passou a se materia- lizar no espaço e as manifestações particulares e universais se uni- ficaram no conjunto de normas, objetos e imagens produzido para redefinir um Ceará que estaria pronto para esquecer o seu passado atrasado e preparado para “abraçar” os elementos que representam o novo, isto é, a modernidade como projeto burguês de reestrutura- ção da sociedade e do território.
Enquanto isso, em escala mundial, importantes transformações manifestadas no seio do regime fordista de acumulação redefiniam inúmeras características do capitalismo – a alteração do papel central do Estado como regulador das demandas socioeconômicas, a crise dos sistemas produtivos industriais e a ação mais efetiva de agen- tes financeiros controladores de novas formas de gerar e acumular valor eram apenas algumas das expressões dessas transformações.
No Brasil, o sentido político da ação estatal passava a ser deter- minado ainda mais pela acumulação do capital. Além disso, os novos agentes financeiros, em sintonia com os interesses de alguns grupos hegemônicos, deflagraram uma abertura dos mercados no intuito de oferecer ao país condições mais apropriadas de inserção na nova ciranda da mundialização financeira com reestruturação produtiva.
Os empresários -políticos cearenses não só perceberam os rumos dos acontecimentos, como também participaram de modo ativo dessas transformações em âmbito nacional, principalmente ao sair em defesa intransigente da economia de mercado e da propriedade privada como essência de uma sociedade aberta e democrática, cri- ticando o intervencionismo estatal e a visão corporativa patronal.
No território do estado, eles trataram de implementar ações e aparelhar os objetos no intuito de “politizar” a economia e a socie- dade, inserindo de vez o Ceará nos rumos da acumulação privada, com forte penetração dos mercados na lógica da mundialização. O encontro dos interesses do mercado com os das políticas go- vernamentais foi decisivo para construir a sincronia e a diacronia transescalares e multidimensionais do território. E, desde então, a sociedade começou a “marchar” em direção à “mudança”.