estava muito reduzido à utilização de alguns brinquedos constantes em um armário. No entanto, esse tipo de brincadeira revela o que aprende nas interações sociais. A criança é um sujeito histórico, social e culturalmente situado, capaz de participar, produzir cultura, não sendo mera peça do jogo social. No faz-de-conta, Vigotski (1998, p.173) assinala, “a criança projeta-se nas atividades adultas de uma cultura e ensaia seus futuros papéis e valores. [...] começa a adquirir [...] as atitudes necessárias a sua participação social”. Diz que o maior autocontrole da criança é no brincar, por exemplo, ao deixar de fazer algo para cumprir uma regra da brincadeira. No brincar, surge um processo psicológico novo para a criança: a imaginação, abrindo portas para a simbolização. Leontiev33 contribui para entendermos que, a “ruptura entre o sentido e o significado de um objeto no brinquedo não é dada antecipadamente, como um pré-requisito da brincadeira, mas surge realmente no próprio processo de brincar. [...] uma criança não imagina uma situação de brinquedo quando ela não está brincando”.
Não proporcionar condições para tanto, é perder a oportunidade de analisar os temas presentes, tantas vezes ausentes das propostas pedagógicas da educação infantil. Elkonin (1980, p.32-33) referindo-se ao “jogo protagonizado”34, endossa as colocações de Vigotski e Leontiev ao dizer que a imaginação nasce no jogo, argumentando ainda que
[...] pese a variedade dos temas, todos eles entranham, por razão de princípio, o mesmo conteúdo, ou seja, a atividade do homem e as relações sociais entre as pessoas. [...] O tema do jogo é o campo da realidade que as crianças reconstituem no jogo. Os temas [...] são extraordinariamente variados e refletem as condições de vida da criança, que mudam [...] à medida que a criança vai entrando em um meio mais vasto [...] com o que se amplia seu horizonte. [...] o caráter concreto das relações entre as pessoas representadas no jogo é muito distinto. Estas relações podem ser de cooperação, de ajuda mútua [...]; porém, podem ser também relações de autoritarismo [...] rudeza, etc. Tudo depende das condições concretas em que vive a criança.
O brincar é uma prática social viva, expressão cultural, pois pressupõe aprendizados sociais e culturalmente elaborados. A criança dá seu toque particular ao que faz, passo importante na construção da sua autonomia. Para Elkonin (1980), o jogo protagonizado tem duas funções
32 Também conhecida como jogo protagonizado, brincadeira de papéis 33 apud Wajskop, 2001, p.92.
34
cumpridas simultaneamente: a criança interpreta o seu papel e verifica seu comportamento. A função de verificação nasce no jogo, que é “escola de conduta”, de “moral”, não na idéia, mas na ação. Os efeitos educativos do jogo protagonizado influenciam o desenvolvimento psíquico da criança e a formação de sua personalidade. Elkonin (1980, p.259) ressalta ainda que
[...] em nenhuma atividade se entra com tanta carga emocional na vida dos adultos, nem ressalta tanto as funções sociais e o sentido da atividade das pessoas como no jogo. Essa é a transcendência primordial do jogo protagonizado no desenvolvimento da criança. Benjamin (2002, p.85) reconhecendo que a brincadeira não é pura imaginação, diz que é forma de libertação. A criança, tendo à sua volta “um mundo de gigantes [...] cria para si, brincando, o pequeno mundo próprio [...]”. Entretanto, “as crianças não constituem nenhuma comunidade isolada, mas antes fazem parte do povo e da classe a que pertencem.
Para muitos, sendo “inocente” a criança não percebe o que a rodeia, tampouco expressa brincando. Cientes de que “infância/infante” significa “ausência de fala”, concepção que se associa a outra: “tabula rasa”, as crianças são vistas como seres destituídos de conhecimentos, espectadoras de direcionamentos dos educadores. Conforme afirma Lajolo (2001, p.232), “[...] fomos acreditando sucessivamente que a criança é a tabula rasa onde se pode inscrever qualquer coisa [...]”.
A criança precisa ser respeitada como criança, não sendo reduzida a aluno, pois se “infante” é ausência de fala, como lembra Kramer (2003), “alunani” quem dizer “sem luz”. Sem voz e luz, parece que só resta escutar. Incentivar as brincadeiras é uma forma de dar voz à criança, valorizar a linguagem lúdica, bem viva na brincadeira de faz-de-conta. Segundo Elkonin (1998), os primeiros indícios do faz-de-conta tendem a aparecer por volta dos 2/3 anos de idade, atingindo o máximo nível na segunda metade da educação infantil (pré-escola), havendo um declive ao final da educação infantil - o que torna esta etapa privilegiada. Para além de uma ação psicológica, o faz-de-conta é atividade social, histórica, cultural, forma peculiar de socialização do aprendizado infantil, sendo fundamental para o desenvolvimento integral da criança.
A brincadeira tradicional é outra modalidade relevante de brincadeira e que também não percebemos no trabalho desenvolvido na escola da entidade durante a semana de observação. Brinquedos/brincadeiras são denominados tradicionais/universais, porque resistem aos embates do tempo. De acordo com Kishimoto (2005, p.38-39):
A brincadeira tradicional infantil, filiada ao folclore, incorpora a mentalidade popular, expressando-se, sobretudo, pela oralidade. [...] essa modalidade de brincadeira guarda a produção espiritual de um povo em certo período histórico. [...] está sempre em transformação [...] a tradicionalidade e universalidade das brincadeiras assenta-se no fato de que povos distintos e antigos, como os da Grécia e do Oriente, brincavam de amarelinha, empinavam papagaios [...] e até hoje as crianças o fazem quase da mesma forma. [...] Enquanto manifestação livre e espontânea [...] tem a função de perpetuar a cultura infantil, desenvolver formas de convivência social [...]. Por pertencer à categoria de experiências transmitidas espontaneamente conforme motivações internas da criança, garante a presença do lúdico, da situação imaginária.
Reconhecemos a pertinência de brincadeiras tipo amarelinha, pião, pipa, de imitar animais35, jogos de advinhas, histórias de bruxas, fadas36, lendas como a do bicho papão37, introduzidas em brincadeiras (Kishimoto, 2005). Sem esquecer das brincadeiras de roda (brinquedos cantados) tipo ciranda cirandinha. São exemplos de brincadeiras tradicionais, por vezes raras nas atividades infantis, marcadas pelo vídeo-game, computador38.
A brincadeira de construção é uma modalidade de brincadeira também fundamental. Baseados em Kishimoto (2005) compreendemos que pode enriquecer a expressão sensorial, incentivar a criatividade, desenvolver habilidades, a imaginação da criança, etc. Froebel foi o criador dos jogos de construção39. Para além de manipular objetos, ao construir, a criança expressa suas representações mentais. Alguns brinquedos foram utilizados pelas crianças na escola em foco, a exemplo, de brinquedos de encaixe. Na sala das crianças “maiores” – 6 anos, percebemos uma ênfase mais acadêmica, talvez, também, por haver apenas uma criança na sala, impedindo brincadeiras capazes de manter a interação com outras crianças. O trabalho tinha um ar solitário, uma criança sozinha tentando brincar de alguma forma. Ao mesmo tempo, percebemos a importância dessa interação criança/criança no momento em que foi brincar na outra sala com as outras crianças. O ar de solidão dá espaço para o sorriso fácil. Foi visível a dificuldade de realizar um trabalho com apenas uma criança. Em alguns momentos, a sala serviu para que a professora fizesse tipo um “reforço” com outras crianças da entidade que estudam em outras escolas de ensino fundamental, momento em que criança ficava sozinha em seu lugar fazendo uma tarefa.
35 Legado da cultura indígena para o Brasil 36 Influência dos portugueses
37 Contadas também por negras (amas de leite)
38 Também importantes, mas não podem ocupar todo o tempo. 39