Os primeiros estudos sobre socialização na Sociologia podem ser verificados em Durkheim no livro ―Educação e Sociologia‖ em 1955, a teoria durkheimiana, de fato social e coerção é estudada na academia, e a questão da educação também é discutida através do princípio da coerção social.
Para o autor é uma ilusão dizer que podemos educar nossos filhos do jeito que queremos, e por isso somos moldados a educar e passar a educação de acordo com as normas e regras da moral da sociedade. Porém, cada sociedade tem um sistema adequado de educação, pensando de acordo com a pesquisa, a religião também tem seu sistema de educar, e os pais e professores educam as crianças de acordo com a doutrina e as crenças Adventistas. ―Há, pois, a cada momento, um tipo regulador de educação do qual não nos podemos separar sem vivas resistências, e que restringem as veleidades dos dissidentes‖. (DURKHEIM, 1955, p.04)
Essa visão de que a educação faz parte dessa coerção social, não convém pensar assim em relação à questão da agência infantil, porque nessa visão não há a atuação das crianças, apenas a reprodução. Segundo o que foi visto na sala dos Primários esse princípio não ocorre, as crianças reproduzem, mas interpretam a sua realidade, elas transformam e produzem efeito no seu ambiente social, mesmo que exista uma coerção da estrutura sobre os agentes, há sim, formas de interpretar e modificar com pequenos atos essa estrutura. Diferente das palavras de Durkheim:
14
Uso o conceito de socialização e não de sociabilidade, porque na observação meu foco ficou direcionado à socialização, mesmo observando em certos momentos que a igreja, às vezes, se configura como espaço lúdico, no entanto, a análise dessa dissertação tem como foco a socialização.
A educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre as gerações que não se encontram ainda preparadas para a vida social; tem por objeto suscitar e desenvolver, na criança, certo número de estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política no seu conjunto e pelo meio especial a que a criança, particularmente, se destine. Conclui-se que a educação consiste numa socialização metódica das novas gerações. (1955, p.08)
Pensando em relação à visão durkheimiana e o conceito de socialização, dialogo com autores sobre a temática, como Simmel, James e Prout, Nunes. Considerando a Teoria Sociológica, Simmel aborda o conceito de socialização numa dimensão mais microssociológica. Para ele, a sociedade é o ―médium‖ e o ―resultado‖ do indivíduo, a conexão entre os dois, realizando-se na e para interação que é o vínculo da associação (porque a função da síntese social- forma nas consciências dos indivíduos) e da socialização (porque é agindo uns com os outros que os indivíduos produzem a sociedade).
Ou seja, diferente da teoria durkheimiana, a teoria simmeliana, crê que o indivíduo ―entra em ação‖ sem ser coagido a todo o tempo, e é na interação da associação e da socialização que resulta a sociedade.
Analisando essa teoria e a igreja, pode-se pensar que a associação religiosa forma um modo de socialização, que deixa o indivíduo se integrar. Outro conceito importante desse autor é a sociação que seria uma unidade, da qual a unidade religiosa tem sociação. ―A sociação é a forma (realizada de incontáveis maneiras diferentes) pela qual os indivíduos se agrupam em unidades que satisfazem seus interesses. Esses interesses, quer sejam sensuais ou ideais, temporários ou duradouros, conscientes ou inconscientes, causais ou teleológicos, formam a base das sociedades humanas‖. (FILHO, 1983, p.169)
Ajudando nessa reflexão sobre socialização, James e Prout dizem que:
We know also that whatever its historical mutability, there is always a relationship between conceptual thought, social action and the process of category construction and, therefore, definitions of childhood must to some extent be dependent upon the society from which they emerge. (2005, p.34)
O propósito deste trabalho é analisar a socialização do ponto de vista da religião, e trazer uma visão crítica sobre esse conceito, pois a socialização realizada na igreja leva as crianças a se tornarem o futuro da igreja. Mas a própria igreja já passou por mudanças, hoje existem os Adventistas mais velhos ou conservadores, os liberais e as crianças, ou seja, cada um traz uma nova visão para a realidade religiosa.
Por sua vez as tecnologias e os avanços tecnológicos também mudam então o conceito de socialização, que deve ser pensado como aquele que prolonga uma unidade social, que faz associações das pessoas, mas que também passa por mudanças constantes, e que assim também suas regras mudam. Pretendo aqui, trazer um novo viés para o conceito de socialização, por isso, não pretendo deixar de usá-lo. Confesso que tive resistência em utilizá-lo, mas com as observações da pesquisa é possível ver que a socialização existe, e que não é aquela forma social que Durkheim abordou, sendo, portanto uma socialização que segue as ―regras‖ da estrutura, tendo interpretações dos agentes.
As disciplinas de Psicologia e Pedagogia são antigas usuárias do conceito de socialização. Observando a socialização pela esfera sociológica e desaguando na Sociologia da Infância é possível perceber algumas questões que ajudam a pensar esse processo, a socialização não apenas como um depósito para as crianças, onde estas não podem se expressar e mostrar as suas interpretações. A Sociologia da Infância pretende mostrar esse processo como algo que precisa ser pensado, para poder dar espaço à agência da criança.
As crianças no processo de socialização foram vistas por muito tempo pela Sociologia e Antropologia, como um recipiente, aonde iria sendo depositadas maneiras de ser e pensar. No entanto, isso só ocorreria em um ambiente parado, que não houvesse mudança, esse processo, contudo, não ocorre em nenhuma sociedade estudada pelos sociólogos e antropólogos. ―As crianças têm algo original a dizer, socializam-se ao longo de uma relação dialógica com o mundo à sua volta de tal modo que, justificadamente, sua vivência, representações e modos próprios de ação e expressão devem construir objetos da pesquisa social.‖ (Nunes, 2002, p.22). As crianças são protagonistas de transformações.
Para pensar sobre a socialização das crianças proponho discutir também sobre a questão do corpo e a socialização dele, através de Mauss em ―As técnicas do corpo‖ (2008).