1. GĠRĠġ VE KAYNAK ARAġTIRMASI
6.4. Grand Hotel Artside
6.4.2. Yatak odaları
A categoria de objeto construído não pertence, única e exclusivamente, ao conhecimento científico, como analisou Berger (apud DEMO, 1987), mas a todas as dimensões epistemológicas – verbais,
audiovisuais, sonoras etc. –, que se proponham a produzir uma representação da realidade. No momento em que existe um esquema representativo, há inevitavelmente uma construção sígnica e, portanto, ideológica, pois todo aparato de representação envolve uma concepção reprodutora da realidade sócio-histórica. Sendo o cinema uma das dimensões epistemológicas. Isto é, numa formação constituída de significação, carregada de subjetivismo (FURHAMMAR; ISAKSSON, 1976), o objeto material-perceptível enquadrado também se constitui em objeto construído.
Demo (1987), ao analisar as propriedades do conhecimento científico, enquanto construtor e não reprodutor da realidade humana, aponta várias facetas do objeto construído que se revelam também no objeto cinematográfico.
O cinema trabalha com a construção dos objetos materiais- perceptíveis que enquadra. Por isso, em um primeiro momento, está trabalhando não com a realidade sócio-histórica de forma frontal e imediata, mas com a realidade tal como o diretor consegue ver e captar. Por sua vez, essa realidade se encontra condicionada por elementos externos e não internos ao próprio objeto que, ora, são de ordem espacial e temporal, ora, mediadores e condicionadores do discurso que se concretiza em forma de seqüências, cenas e planos.
Isso ocorre, como coloca o próprio Demo (1987), porque:
Não captamos a realidade, mas a interpretamos. Interpretar significa aceitar que na análise do fenômeno aparecem elementos que são menos do fenômeno do que do analista. Aparece a marca do [sujeito produtor]. (DEMO, 1987, p. 46, grifo do autor).
Assim, semelhante à construção do cientista, o sujeito produtor no cinema (o diretor ou o autor cinematográfico), inevitavelmente, está imbuído de conceitos, valores e idéias. Essas tornam evidente o objeto de sua representação, seja reconhecendo-o ou rememorando-o para a posteridade como dado importante e vital para a História. Esse caráter evidente do objeto científico e também cinematográfico não ocorre por si, mas em função de uma interpretação que, por razões e motivos ideológicos, julgou-o importante e evidente. (DEMO, 1987).
Desse modo, a evidência histórica nos filmes apresenta-se mais em função dos condicionantes ideológicos de uma época e geografia do que propriamente da natureza empírica dos objetos materiais-perceptíveis enquadrados. O que também pode ser relativo, pois, em um dado caso, pode ocorrer uma aproximação máxima da realidade que, no entanto, não retira o caráter ideológico da produção, mas que não inviabiliza cientificamente a representação imagética.
Seguindo esse raciocínio, a segunda característica do cinema como construtor dos objetos está no fato de, no geral, representar acontecimentos e personalidades históricas que interessam à sociedade ou à classe social dominante – ou mais precisamente, ao tempo histórico no qual as obras são realizadas. Por isso, não existem fatos e personalidades evidentes que devem ser alçados à condição histórica, mas fatos e personalidades que, em um dado momento das relações de poder, interessam mais que outros. Assim, os filmes focalizam aquilo que, no contexto sócio-político, é relevante para certos grupos ou camadas sociais de um determinado tempo-espaço.
Em “A Cara do Führer” (1943), na Segunda Guerra Mundial, o Pato Donald foi exposto ao Nazismo. Mas, ao mudar a geopolítica, o Inimigo se transformou de alemães da Gestapo em espiões russos soviéticos. Com o fim da Guerra Fria, o cinema americano mudou os “objetos” do enquadramento. Assim, dos agentes nazistas, depois os espiões comunistas, chega a vez dos árabes – a saber, dos Aiatolás e das ameaças de bombas que se tornam motivos de vários filmes e séries televisivas. Portanto, ao fabricar o Inimigo do momento, o cinema não é apenas entretenimento para a Casa Branca, mas uma tecnologia que, historicamente, formou um imaginário para a guerra.
Assim, em todos os tratados econômicos, Hollywood consta como item a ser, obrigatoriamente, importado por outros países. De modo que, nos EUA, o cinema é o terceiro produto de exportação mais importante (ocupa 80% do mercado exibidor mundial), perdendo apenas para a protegida indústria alimentícia e a eficiente indústria bélica. Até porque a América, inevitavelmente, precisa se alimentar e produzir suas guerras anuais. (Então, qual a intenção de um enquadramento, de um estilo de montagem ou por que “O Informante” (1998, Michael Mann), que aborda problemas farmacêuticos nos EUA, começa no Oriente Médio com um Aiatolá?). Portanto, a imagem que a Indústria de Hollywood fez do inimigo no decorrer da História variou conforme as necessidades políticas de cada época.
A terceira característica do cinema enquanto construtor do objeto que representa encontra-se também no fato de que o objeto construído não significa simplesmente objeto inventado. Seguindo os passos de Gombrich (apud AUMONT, 1995a), o objeto construído constitui-se em um objeto
(re)conhecido ou (re)memorado por uma determinada cinematografia (ou diretor/autor cinematográfico). Se há os condicionantes ideológicos, o objeto não deixa de existir em sua concretude, uma vez que sua existência independe dos discursos que o produzem, já que o processo histórico é feito de lembranças e esquecimentos, memórias e omissões. Entretanto, quando se tornam evidentes, os objetos cinematográficos construídos apresentam-se com dimensões diversas e características múltiplas, principalmente porque foi alvo de inúmeros discursos produtores.
Porque, como coloca Demo (1987):
Objeto construído significa, pois, que não se entende sem o respectivo construtor, [já que] a relação entre sujeito e objeto é dinâmica, dialética, carregada de influências mútuas [...] E isto é precisamente o fenômeno metodológico da interpretação, ou seja, depende também do intérprete e, conseqüentemente, do seu contexto social. (DEMO, 1987, p. 48).
Desse modo, é preciso que se observe ausências e omissões de fatos e personalidades históricas, a presença e atuação, em determinados acontecimentos, de outros sujeitos sociais omitidos das biografias- cinematográficas que, em geral, elegem como protagonistas representantes das classes dominantes. Assim, a ausência de filmes que abordem a História das camadas populares também como agentes históricos não significa a não- presença destes no palco das grandes discussões históricas.
Portanto, o cinema ficcional e documental possui propriedades epistemológicas que o tornam tecnologia problematizadora e formadora. Como vimos, ao reconhecê-los e rememorá-los, os filmes introduzem novos objetos e fazem novas abordagens sobre fatos e personalidades do passado.
Discussões essas até então ausentes e omitidas pela historiografia oficial, em função, sobretudo, do caráter construído dos objetos materiais-perceptíveis.
Com a caracterização da prática docente do professor de História, ao utilizar filmes no âmbito educacional, e a síntese das questões epistemológicas, chegamos às categorias do cinema enquanto conhecimento: problematizadores epistemológicos e tecnologia formadora. Isso nos permitiu identificar, em uma experiência docente na Universidade Estadual da Bahia – UNEB, no curso de Especialização em Ensino em Comunicação Social, as