1. GĠRĠġ VE KAYNAK ARAġTIRMASI
6.6. Değerlendirme
CIDADE DE DEUS E SUAS CATEGORIAS INTERFACIAIS
Montagem (edição)
x O filme começa pelo fim. Contraditório?! Pareceria, se estivéssemos diante de uma reportagem de televisão, por exemplo. Mas, no cinema, o tempo de duração do longa-metragem (com seu roteiro definido) oferece ao espectador a possibilidade de compreender o que são as cenas do começo, no fim da exibição.
x O roteiro retoma uma cena para contar fatos que ficaram omissos. É o caso do assassinato no motel, quando, depois de passado, o lugar volta à tela, com pessoas mortas e se revela o que, realmente, aconteceu: quem cometeu a chacina foi Dadinho. No jornalismo, apesar de alguns âncoras de telejornais, hoje, pedirem, no ar, que o editor volte a fita, quase sempre, não é para fazer nenhuma revelação, mas para ver melhor, o que passou rápido, possivelmente; detalhes de uma cena que podem ser vistas mas uma vez. Mas essa não é uma prática comum.
x Em outro momento do filme surge a primeira cena de um personagem importante para o enredo: "Mané Galinha", cobrador de ônibus. Na narração, "Buscapé" diz: “ainda não é a hora de contar a
história de Mané Galinha”. Na reportagem os fatos só aparecem quando podem ser explicados no momento (é uma forma de não confundir o telespectador que tem pouco tempo para assistir à TV). x Um recurso bastante usado no cinema, há algum tempo já vem sendo utilizado também pelo jornalismo de TV: a edição acelerada de imagens para dar uma idéia de seqüência (mais rápida) de um fato. O “chicote” (movimento rápido -brusco- da câmera) foi muito explorado no filme. Tomadas balançando e, em seguida, um chicote; mais um take balançando, outro chicote. No jornalismo, esse recurso era condenável até aparecerem algumas reportagens especiais, mais trabalhadas, com maior tempo de duração, que justifiquem o recurso, dependendo da informação a ser veiculada. Em matérias à noite, sobre prostituição, sobre embriague, sobre atuação policial, etc., quando as imagens não devem ser claras para não identificar ninguém, esse recurso pode ser aceito.
x Quase no fim do filme, voltam as cenas do começo. E, aí, o espectador entende o começo. O longo tempo do filme ajuda na compreensão, o que não aconteceria numa reportagem rotineira.
Elementos de transição
x Numa mudança de época (já que a história se passa em vários períodos), um recurso usado é a passagem de um carro à medida em que o cenário é mudado. O jornalismo diário dificilmente ofereceria a possibilidade de usar esse recurso já que trata informações acontecidas em curtos espaços de tempo. Um recurso parecido de edição, a fusão de imagens, pode chegar perto do praticado pelo o filme quando sobrepõe imagens de fotografias antigas numa imagem atual. Foi o que os autores do filme fizeram para mostrar, por exemplo, a seqüência de movimentos na boca de fumo dos personagens "Grande" e "Cenoura" e no crescimento de Dadinho até se transformar em Zé Pequeno.
Função e natureza dos personagens
x O off do narrador é na primeira pessoa do singular: EU. O personagem Buscapé narra toda a história, intercalada pelas situações. Numa reportagem, o repórter/narrador conta a história na terceira pessoa. Pode acontecer de ele, em algumas situações, aparecer como parte da reportagem, mas não é o que acontece freqüentemente. Portanto, o repórter, em geral, não assume-se enquanto "sujeito da história" que narra.
x O filme conta uma história (que pode ser baseada em fatos reais, como é esse o caso), mas os personagens são fictícios; embora vivendo uma situação supostamente verdadeira. No jornalismo, não há como (ou, pelo menos não se deve) fazer de atores fictícios personagens de um fato. Aquele que “aparece” é o que, realmente, viveu tal situação.
x A cena do carro que invade o bar, na Cidade de Deus, onde as pessoas não falam quando chega a polícia, é o caso típico o texto do repórter de TV, quando não consegue a entrevista de alguma testemunha e diz: “ninguém quis falar sobre o assunto”; “as pessoas que estavam no bar preferiram não contar o que viram”... Está, no filme, uma das possíveis explicações para a omissão em “testemunhar um fato”: medo de vingança por parte de quem cometeu o crime.
x A cena em que o policial mata um bandido, coloca uma arma na mão dele e cria uma “prova” para incriminá-lo, é o subsídio que um estudante ou profissional da área tem para não acreditar em tudo que vê. Imaginemos se um repórter chega ao local quando o bandido ainda está no chão, com a arma do lado. A primeira suposição seria, realmente, que ele estivesse armado. Mas não foi o que aconteceu! É, sempre, recomendável que o texto de reportagem faça referência à declaração de alguém: “segundo a polícia, o bandido estava armado...”; “a polícia disse que encontrou a arma na mão do bandido...”; “de acordo com os policiais, o bandido estava armado e teria tentado reagir à prisão...”
x Num determinado momento, observamos a seguinte afirmação em off: “quando vê a imprensa, a favela enche de polícia”. Na prática jornalística observamos que essa é uma realidade. Na ânsia de aparecer diante das câmeras, várias guarnições apresentam-se como se já estivessem no local, sugerindo uma idéia de trabalho assíduo, quando, muitas vezes, não acontece.
Necessidade de contextualização
x Roteiro do filme se preocupou em mostrar a “linha de montagem” numa boca de fumo; como faz um baseado, quem são os vapores e aviões, como se avisa aos traficantes que a polícia está chegando. Nas reportagens de TV, esses detalhes seriam condenáveis pela maioria das edições, já que a reportagem serviria para “ensinar” a fazer, já que não tem tempo suficiente para contextualizar tal situação. Entretanto, apesar de assim aparecer no filme, essa cena apresenta-se mais como um momento de documentação do que mesmo de "ensinar a fazer".
Questão das provas
x A conivência da policia com o tráfico é um fato. Mas como a imprensa pode provar isso sem ter um flagrante? Não se pode fazer uma afirmação dessas sem ter provas contundentes sobre o que se diz. Mas, no filme, existe essa liberdade. O narrador diz: “a polícia recebe a parte dela e faz a sua parte”.
x A troca de favores entre a comunidade e os traficantes. Como a imprensa pode provar isso se não tiver uma fala de um personagem real? Fica difícil quando ninguém se dispõe a falar sobre o assunto! Em “Cidade de Deus”, sutilmente, o roteiro sugere essa relação quando
coloca, numa só festa (a despedida de Bené), traficantes, a turma do black, o pessoal da comunidade e, até, membros da igreja evangélica. x A busca pelas provas. Já estagiando no jornal como repórter- fotográfico, Buscapé faz de tudo para conseguir as imagens da prisão de Zé Pequeno, do suborno da polícia, do assassinato do bandido. A situações vividas por Buscapé são semelhantes às de um profissional no seu dia-a-dia. Para os estudantes, principalmente os que nunca tiveram contato com a pratica, é um ótimo exemplo de dedicação ao trabalho, do esforço que se faz em busca da informação, da prova documental de um fato. Às vezes, não é fácil!
Elementos de Identificação
x As legendas. No filme se seguem “entrando no crime”, “a despedida de Bené”, “a vida de Mané Galinha”, etc. Hoje, já é comum ver, por exemplo, em entrevistas com personalidades (artistas, políticos...) algumas legendas como “melhor momento”, “dificuldades”, “próximos trabalhos”...
x Na seqüência em que os meninos vão às bocas de fumo pedir armas, as falas são muito curtas, mas totalmente compreensíveis sem a necessidade de identificar os personagens. Na reportagem televisiva, quando não dá tempo colocar o crédito (por escrito) de personagens, em algum momento do off anterior a elas, deve-se caracterizar o(s) personagem(ns) que vai(ão) falar. Isso para que não se tenha dúvida da identidade de quem está dando a entrevista.
Imagens de Arquivo
x A inserção de trechos de um telejornal dentro do filme foi uma curiosidade no filme; uma prova de como cinema e jornalismo podem se completar, em alguns momentos. Uma curiosidade que, apesar de ilustrativa, confirma a inscrição da realidade no filme "Cidade de Deus" a partir da utilização de imagens de arquivo.
Questões éticas
x Um momento questionável diante da prática jornalística é a publicação da foto do bando de Zé Pequeno feita por Buscapé. Ele só viu a foto quando foi publicada no jornal. Nenhuma editoria questionou de quem seria aquela foto (possivelmente foi publicada sem o crédito do fotógrafo). Como legendar a foto se não havia informação sobre seus personagens e local do registro? Que sintonia de trabalho tiveram repórter e fotógrafo para que a matéria fosse publicada daquela forma? x Que foto escolher? Com a que mostra o suborno dos policiais, Buscapé ficaria famoso (pelo menos, era o pensamento dele), mas comprometeria a instituição. A foto de Zé Pequeno morto, em plano fechado, já seria suficiente para ter a publicação garantida e a estabilização no emprego. Ele preferiu publicar a foto mais simples...
Como no primeiro trabalho, o grupo IMAGEM levantou uma série de problematizadores epistemológicos que põe em xeque o conhecimento que envolve a Reportagem. Nesse sentido, tanto as questões de prova, relação com as fontes e questões éticas, constituem-se em elementos através dos quais os próprios alunos pensaram o fazer jornalismo através do fazer cinematográfico. Portanto, enquanto conhecimento que agora chegamos a sua síntese e o utilizamos em uma experiência docente, Identificamos três categorias interfaciais da relação cinema-jornalismo:
a) Filmes sobre Jornalismo;
b) Formato Jornalístico/Formato Cinematográfico; e c) Objeto Compartilhado.
Assim, concluímos que todo filme expressa a interface cinema- jornalismo, o que amplia a relação entre esses dois meios para além das produções que têm no universo da comunicação social o objeto de suas representações (sujeito-objeto). Portanto, por que trabalhar no Ensino de Comunicação Social com uma concepção restrita se o diálogo entre cinema e jornalismo é mais ampla do que a que se estabelece a partir da relação sujeito- objeto?