1. GĠRĠġ VE KAYNAK ARAġTIRMASI
6.3. Royal Dragon Hotel
Os filmes “Kundun” (1997, Martin Scorsese) e “Indochina” (1992, Régis Wargnier) são emblemáticos dessa ocidentalização que impregna a historiografia e também o cinema. Apesar de ambos trazerem aspectos históricos não pertencentes à História ocidental e, em geral, por muito tempo não discutidos, criticamente, no espaço tradicional, a interferência das concepções macros ideológicas, que dominam o pensamento dos
historiadores, dominam, por sua vez, os conceitos dos diretores cinematográficos.
KUNDUN
(dir. Martin Scorsese – 1997)
O filme “Kundun” (1997), ao narrar a infância de Tenzin Gyatso – o 14q Dalai-lama – e a invasão do Tibete pelo exército chinês comunista comandado por Mao Tsé-tung, analisa a cultura oriental pelo viés ocidental. Desse modo, impregna-a de valores católico-cristãos e de uma visão presa, inevitavelmente, as premissas do capitalismo dominante. Essa ocidentalização dá-se mais em relação à ocupação maoísta do que com relação à cultura tibetana.
Primeiramente, porque o diretor Martin Scorsese trabalhou com
não-atores para representar o próprio povo budista-tibetano, o que deu uma
maior autenticidade aos seus gestos, falas e comportamentos; e, segundo, porque, ao contrário, foram selecionados atores profissionais para
representarem Mao Tsé-tung e seu exército vermelho. Desse modo, a direção de atores tornou-os, por essa condição, mais artificiais e fáceis de serem construídos pela mise-en-scène e, por conseguinte, mais simples de serem controlados e ocidentalizados pelas lentes scorseseanas.
Essa opção de linguagem não ocorreu por acaso. No oriente, a ocupação comunista do espaço geopolítico foi um ponto crucial para a política ocidental-européia-americana nos tempos da Guerra Fria, mais do que as nuances de valores e comportamentos da cultura oriental, representada, nesse filme, pela cultura budista-tibetana.
De forma que, mesmo após o fim desse período histórico, onde capitalismo e comunismo se digladiaram, incessante e sutilmente, a memória sobre o período, necessariamente, deveria partir de padrões e lentes ocidentais, americanas e européias. Essa determinação de linguagem, que constrói uma memória de um tempo a partir de outro que, aparentemente, estão “distantes”, não pode ser considerada exagero do analista, apesar da conjuntura histórica já ter se modificado e se transformado substancialmente.
Corroborando com nossa análise, Orwell (1994), quando, literariamente, aborda o Regime Stalinista pelo prisma ideológico em um romance clássico da literatura universal, nos mostra que essa determinação ocorre porque a construção da História é também um fator hegemônico. Por isso, dentre as muitas, sua afirmação mais do que contundente: “Quem controla o passado, controla o presente e [também] controla o futuro” (ORWELL, 1994).
INDOCHINA
(dir. Régis Wargnier – 1992)
Em “Indochina” (1992), de Régis Wargnier, esse grau de ocidentalização e, portanto, de ideologia, chega a diminuir de intensidade, alcançando quase a escala zero de influência ocidental-capitalista. Esse filme, que aborda a História de uma anamita totalmente aculturada, a colonização da Indochina – Laos, Camboja e Vietnã – e sua libertação do Império Neo-Colonial Francês, apresenta o povo oriental com uma cultura própria, milenar e, até certo ponto, admirável. Essa cultura chega não somente a ter, a construir e a desenvolver valores sólidos e coerentes, mas a ser depositária de identidade e de comportamentos libertários.
Essas características da cultura oriental revelam-se quando, em busca de um amor-proibido, Camille, uma jovem anamita adotada por uma rica fazendeira da borracha (Catherine Deneuve), adentra no interior do seu país. Ao tomar contato com uma geografia física e humana que lhe pertencia, ela
descobre, no entanto, que esses aspectos lhe são desconhecidos – estranhos, portanto, aos seus conhecimentos e sentimentos culturais. A partir desse contato, juntamente com um grupo de artistas saltimbancos que encenam, de vila em vila, situações dramáticas e cômicas, Camille forja a libertação da Indochina e a sua institucionalização enquanto estado político independente.
Assim, “Kundun” e “Indochina” tornam-se categorias de filmes
epistemológicos que possibilitam ao cinema constituir-se enquanto
conhecimento problematizador. No entanto, o cinema introduz novos objetos não apenas da História dos povos orientais, mas da própria História das sociedades ocidentais, revelados em filmes advindos das plêiades independentes e não institucionais da indústria cinematográfica mundial. Dentre estes, temos o filme “Terra e Liberdade” (1995, Ken Loach) sobre a Guerra Civil Espanhola cujo enredo desencadeia-se, entre os anos de 1936- 1939, onde figuram fascistas, comunistas e integrantes das milícias populares espanholas compostas por militantes de todo o mundo.
Esse filme, ao introduzir um novo objeto não da História oriental, mas da própria História ocidental-européia, faz com que o cinema venha a inserir-se como conhecimento problematizador no campo historiográfico. Primeiramente, porque discute a historiografia oficial do ocidente que omite e exclui fatos e personagens que questionam o eurocentrismo historiográfico hegemônico. E, também, porque põe em xeque um certo pensamento historiográfico que, a partir da Escola dos Annalles, passou a se apresentar como pensamento revisionista da História eurocêntrica. (BORGES, 1993).
“Terra e Liberdade” (1995, Ken Loach), ao enfocar um grupo de espanhóis e cidadãos do mundo que lutam contra os fascistas comandados pelo General Franco, revela, aos poucos, um processo que desembocou na Alemanha Nazista de Hitler e na Itália Fascista de Benito Mussolini: com o genocídio de milhões de judeus nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial. Nos livros didáticos esse tema não está, pontualmente, analisado, já que para a historiografia ocidental-européia esse período deve ser estudado apenas sob a perspectiva militar e político e não necessariamente humano. Assim, com a Guerra Civil Espanhola o cinema discute as bases européias desse processo de limpeza étnica e racial, colocando em pauta os conceitos ocidentais de liberdade, igualdade e fraternidade.
No entanto, esse filme, ao abordar milícias populares que, destituídas de hierarquias e sentimentos mundiais, lutaram contra o regime de Franco, traz uma discussão também referente à posição do Partido Comunista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas diante da Guerra Civil Espanhola. Assim, contesta seus objetivos hegemônicos e não libertários, a partir de cenas que mostram a disputa do Partido Comunista Russo – PCR pelo controle das milícias que, convictamente, combatiam o exército fascista. Desse modo, os filmes se tornam discurso em um jogo para além dos conceitos políticos de direita e esquerda que polarizaram o mundo da Guerra Fria e que, de alguma forma, ainda estão presentes nas discussões atuais.
A partir dos conceitos de (re)conhecimento e rememoração, sobretudo quando os filmes como problematizadores epistemológicos se relacionam com a História, o cinema se torna uma espécie também de
tecnologia formadora ao apresentar novos objetos e novas abordagens do
processo histórico. Nesse sentido, permite uma “revolução” epistemológica no campo da ciência histórica, principalmente porque seus filmes fazem emergir em texto aquilo que, no livro didático, apresenta-se apenas em notas de rodapé. Desse modo, o cinema eleva à condição de primeiro plano acontecimentos e personagens relegados ao esquecimento, introduz novos objetos e novas abordagens contrapondo-se, na maioria das vezes, ao caráter ideológico que permeia as escolhas e omissões da historiografia ocidental, européia e americana.
Essas escolhas e omissões apresentam, assim, a câmera cinematográfica que capta a realidade sócio-histórica enquadrada como mediadora entre o mundo produzido e o sujeito produtor (o diretor cinematográfico). Essa mediação, por isso, encontra-se impregnada de subjetivismos, uma vez que está modelada pela vinculação do sujeito produtor a uma classe, época e cultura. Desse modo, assim como o científico, o objeto cinematográfico também é objeto construído e não pertencente à categoria dos objetos naturais, mas a categoria dos objetos resultantes das relações sociais e de poder que, sob certas condições históricas, precisam construir e (re)construir a realidade.