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1. KAMU İDARESİ HAKKINDA BİLGİ

1.5 Cari Yıl Bilgileri

1.5.8 Yatırımlar

Ao longo da história, o crescimento da cidade de Fortaleza impôs outros

33

A entrega das casas estava condicionada a um contrato do morador com o Sistema Financeiro de Habitação SFH. Os beneficiados em receber as moradias teriam que pagar, em 25 anos, as prestações da casa para só assim se tornarem proprietários do imóvel (RIBEIRO, 1990, p.78).

momentos similares de tentativas de remoção34. Mas foi nesse momento, de fins da

década de 70 e início da década de 80, que o país foi movimentado por uma série de lutas sociais. O significado daquelas mobilizações seria compreendido depois, mas se sabia que havia “algo novo emergindo na história social do país”. Tomaram a cena púbica movimentos reivindicando antes de tudo o “direito de reivindicar direitos” (SADER, 1988, p.26).

Esse elemento “novo” que emergia parecia em vários aspectos inovar ante os movimentos que prevaleceram no período do regime militar brasileiro, quando “predominaram as lutas de libertação, contra o autoritarismo, as restrições políticas, pela anistia, pela liberdade de expressão” (ibidem, p.60).

José Murilo de Carvalho (2008) aponta que, em meados da década de 70, com o início da abertura política e o enfraquecimento do regime militar, esses movimentos ganharam força. Alguns atos emblemáticos da chamada “abertura do regime” foram: a permissão da propaganda eleitoral para as eleições legislativas de 1974, o que resultou em uma vitória da oposição nas eleições do senado; a extinção do AI-5 em 1978, resultando no fim da censura prévia e o restabelecimento do

habeas corpus para crimes políticos; e por fim a aprovação da Lei da Anistia, em

1979.

Para Eder Sader (1998) uma série de evidências no final da década de 70 e início da década de 80, como os movimentos populares de bairro de periferia, o movimento sindical, as comunidades de base, os movimentos grevistas e até mesmo o surgimento do Partido dos Trabalhadores “seriam manifestações de um comportamento coletivo de contestação da ordem social vigente” (SADER, 1988, p.30). Para este autor o que se presenciou nesse período foi a “politização de espaços antes silenciados” e de onde não se esperava pareciam “emergir novos sujeitos coletivos” (SADER, 1988, p.36).

2.3.1 As CEB’s

Acompanhando o retorno lento e gradual dos direitos políticos, os Movimentos Sociais se fortaleciam nos centros urbanos brasileiros. São apontados como

34 No período de construção da Avenida Raul Barbosa e da Via expressa, já na década de 1990, são vários os relatos de moradores sobre os transtornos e ameaças de remoção.

movimentos de grande relevância nesse período o Movimento Sindical e as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)35 da Igreja Católica (SADER, 1988;

CARVALHO, 2008).

Apoiados por instituições como a Igreja, através das CEBs e Pastorais, se fortalecem no Brasil, nesse período de abertura política do regime militar, os Movimentos Sociais Urbanos (MSU), os quais possuíam uma natureza reivindicativa, e que foram definidos por Barreira (1991, p.33) como: “práticas sociais que emergem de modo mais visível no Brasil após a abertura democrática colocando em questão a pobreza urbana e o caráter excludente do Estado autoritário”.

Apesar do momento de transição política declarado no cenário brasileiro, algumas ações do Estado ainda traziam consigo práticas típicas do autoritarismo. Como resposta a essas práticas houve o fortalecimento de organizações de bairro e movimentos sociais urbanos adeptos de ações diretas de enfrentamento ao Estado.

Segundo Ribeiro (1990) um episódio relatado durante sua pesquisa sobre o trabalho educativo da Igreja nos MSUs era, na época da pesquisa, considerado emblemático da luta pela permanência e da força das ações diretas dos movimentos liderados pela CEB do Lagamar. No período em que aconteciam as obras do conjunto habitacional “Novo Lagamar”, do qual falamos anteriormente, havia uma forte tensão entre os moradores e o Governo do Estado. Em meio às tensões uma das casas situadas na margem do riacho foi derrubada pela polícia. No mesmo dia a população se reuniu, e durante a noite e a madrugada reergueu a casa. Na manhã do dia seguinte a família foi levada de volta a sua casa. Na época “a construção e defesa dessa casa constituiu-se em um dos maiores símbolos da luta do Lagamar” (RIBEIRO, 1990, p.83). Sobre o episódio da reconstrução da casa foi registrado o depoimento de uma moradora integrante da CEB do Lagamar (DIÓGENES, 1991,

35 As CEBs tiveram grande influência em movimentos reivindicativos urbanos, como no caso do Lagamar. O papel da Igreja e de seus “agentes pastorais” no assessoramento e apoio a essas lutas é reconhecido em algumas análises como elemento crucial para o início e a sustentação de movimentos. A evangelização promovida pela Igreja passou a trazer “temas de libertação e participação coletiva” (SADER, 1988, p.203). Na análise feita por SADER (1988) é reconhecido o papel decisivo dos “agentes pastorais” na atuação de alguns “movimentos de mulheres”, pois segundo ele foram esses agentes que propuseram os novos padrões e forneceram “noções de direitos” sustentadoras das lutas. O autor afirma ainda que há nesse período uma evidente mudança de postura de religiosos que passam de uma postura “assistencialista” para uma postura de “reivindicação”. Essa mudança de postura, no entanto, foi acompanhada por direcionamentos da própria Igreja Católica, como afirmam Braga&Barreira (1991), que em conferências passou a posicionar sua “opção pelos pobres”.

p.235), que na época afirmou que: “foi uma forma de mostrar pro povo que só ia quem queria e que a PROAFA não levava ninguém à força”.

Segundo os autores (RIBEIRO, 1990; DIÓGENES, 1991), na época do episódio de reconstrução da casa, havia forte pressão e repressão do Estado na tentativa de remover as famílias. As estratégias de coação do poder público, utilizando polícia e tratores à frente das iniciativas, demonstram um panorama onde mesas de negociação não pareciam ser as estratégias mais freqüentes.

A situação de precariedade das condições de vida dos moradores somada ao medo da repressão aos movimentos de bairro, por conta do momento político em que a saída gradual da ditadura militar ainda não tinha culminado nos direitos assegurados da democracia, que somente se estabeleceria no último ano da década, abriu caminho para a atuação de religiosos comprometidos com as causas sociais, fortalecendo a presença das Igrejas já existentes nos bairros.

Segundo Ribeiro (1990, p.72) foi em 1980 que iniciaram as reuniões do grupo de mulheres que se encontrava para fazer a leitura do evangelho e discutir sobre os problemas da comunidade, tendo como grande incentivador o Padre Manfredo, filósofo e professor universitário conhecido por seu trabalho de assessoramento às Comunidades Eclesiais de Base – CEB‟s. Foram justamente essas reuniões que deram origem à Comunidade Eclesial de Base do Lagamar, que anos depois seria reconhecida na cidade por episódios marcantes de resistência, como a reconstrução da casa narrada anteriormente.

No início da década de 1980 ainda não existiam Movimentos Urbanos consolidados em Fortaleza, em razão dos resquícios da repressão do período da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985). Foi nesse período que a Igreja fortaleceu suas bases nas comunidades pobres da cidade. Segundo Braga & Barreira (1991):

A Igreja penetrou nos bairros no momento de „fechamento‟ político com um discurso aparentemente não politizado, ou pelo menos não ligado diretamente a tendências político-partidárias, o que lhes conferia certa legitimidade diante do aparelho do Estado (1991, p.61).

Movimentos internos da Igreja Católica, reconhecidos nesse período da década de 80 como a ala progressista da Igreja ligada à Teologia da Libertação, atuavam através dos Conselhos Comunitários, das Pastorais e das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs. O objetivo dos religiosos atuantes era a “conscientização

do morador como cidadão, com direitos que devem ser respeitados pelo Estado” (BRAGA & BARREIRA, 1991, p.71). A atuação dos movimentos religiosos junto às organizações de moradores acontecia como forma de apoiar, intermediar e em alguns momentos até assessorar os moradores nos momentos de reivindicação e de conflito com o poder público.

Grande parte das reivindicações apoiadas pela Igreja Católica tinha o foco em necessidades consideradas essenciais, por isso era forte a “atuação em torno de interesses imediatos do povo: água encanada, luz, melhor transporte” (Ibidem, p.61) e, no caso do Lagamar, a moradia e a permanência.

Como resultado das lutas do movimento da CEB do Lagamar foi criada em 1983 a Associação de Moradores do Lagamar. Antes dela já existia a Associação Comunitária do Lagamar – ACL36 que possuía uma linha de atuação distanciada da

proposta da CEB, e segundo relatos registrados por Ribeiro (1990), sem fortes embates com o Estado, caracterizada por práticas assistencialistas e clientelistas.

O momento sócio-político da década de 80 propiciou, portanto, o crescimento dos movimentos sociais urbanos. A partir do fortalecimento desses mesmos movimentos o Estado passou a reconhecer a força desses sujeitos coletivos. A inovação das políticas “participativas” evidencia o esforço do Estado em abrir canais de comunicação com esses Movimentos. A postura “de costas para o Estado” constatada por alguns autores (BRAGA & BARREIRA, 1991; SCHERER-WARREN, 1999), passa então a ser substituída pela tentativa de parceria do Estado com organizações de bairro.

Benzer Belgeler