Embora as memórias sobre o lugar variem conforme a perspectiva de quem narra (Halbwachs, 1990), há uma “história de lutas” dos moradores associada ao Lagamar. Essa “história oficial” é contada pelas antigas lideranças e registrada em pesquisas acadêmicas sobre o bairro realizadas nas décadas de 1980 e 1990 (DIÓGENES, 1991; BRAGA & BARREIRA, 1991; RIBEIRO, 1990), e em produções mais recentes como em OLIVEIRA (2003). Alguns momentos são tidos como marcos da história dos moradores do Lagamar, desde a origem do povoamento do local até os dias de hoje, dando ênfase ao momento em que se intensificaram as “lutas” dos moradores, o qual coincide com o período de redemocratização que antecedeu a Constituição de 1988. Analisando esses momentos, que correm em paralelo com as “lutas” de outros bairros de periferia da cidade de Fortaleza, encontramos desde mobilizações pontuais até movimentos de resistência que tiveram uma continuidade no tempo. Desta forma, buscaremos compreender a importância e os legados dessa “história de lutas” para os jovens integrantes dos espaços de atuação aqui em questão.
Importante salientar que as fontes utilizadas para fazer essa retomada das “lutas” no Lagamar, da década de 1980 e início da década de 1990, são textos acadêmicos produzidos nesse período, que constituem registros de suma importância para a história dos Movimentos Sociais Urbanos na cidade de Fortaleza.
Portanto as falas de moradores trazidas por essas análises acadêmicas e as próprias reflexões feitas por esses autores no período serão consideradas aqui como elementos relevantes a partir do ponto de vista desses autores, mas não necessariamente como a única leitura possível. Para fins analíticos, retornaremos no tempo pela ótica desses autores e chegaremos aos dias atuais na tentativa de
confrontar as transformações operadas por essas lutas e nessas lutas, estando sempre atentos aos novos protagonistas, novos significados, novos aprendizados e novas disputas.
Registros apontam que já na década de 1950 começam a se manifestar os primeiros movimentos urbanos em Fortaleza (BRAGA & BARREIRA,1991, p.60). No período que compreende as décadas de 1950 e 1960 Fortaleza sofre os efeitos das migrações em razão das secas30 e se multiplicam no cenário urbano as moradias precárias que originaram favelas.
Segundo Ribeiro (1990), as primeiras ocupações que deram origem ao Lagamar são anteriores a esse período, datam da década de 1930. Abaixo segue trecho de entrevista feita pelo pesquisador à moradora conhecida como Maria Lagamar, considerada pelos moradores, à época da pesquisa, como a primeira moradora da favela ainda viva:
“...cheguei em 32. Fundei o Lagamar. Aqui era só lama, mato, espin... Chegou eu e uma vizinha. A Base? Num tinha nem Base [referência à Base Aérea de Fortaleza]... num tinha ninguém, tudo era mato. Vinha correndo uma água no capim. Eu cavei um buraco, formou um olho d‟água que era um amor... Aí é que foi chegando gente”. (RIBEIRO, 1990, p.37)
Mas é somente na década de 1950, como resultado do intenso processo migratório em razão das secas no Ceará e do consequente processo de favelização na cidade de Fortaleza, que ocorre um expressivo crescimento da população às margens do riacho Tauape.
Apesar das primeiras notícias sobre a ocupação do Lagamar se reportarem à década de 1930, a sua ocupação só adquiriu expressão urbana a partir da década de 1950, quando da grande seca de 1958, período em que favelados de outras áreas de Fortaleza que viviam intenso processo de urbanização também foram para lá (OLIVEIRA, 2003, p. 114).
À medida que crescia o povoamento no entorno do riacho Tauape, aumentava também a precariedade das condições de vida no local. O Riacho que antes propiciava o sustento das famílias com a pesca e a lavagem de roupa, vai aos poucos se transformando em destino dos dejetos e esgotos da região.
30 Em 1958 uma forte seca atingiu o estado do Ceará, provocando um movimento migratório para a Cidade de Fortaleza, o que resultou no expressivo crescimento das favelas na Cidade.
Em algumas décadas de existência a população no entorno do riacho Tauape se multiplicou e passou a ser conhecida na Cidade pela precariedade de vida dos moradores e pelos alagamentos em períodos chuvosos. Em 1974 o período de chuvas marcou a vida dos moradores do lugar (DIÓGENES, 1991, p.227), após uma das fortes chuvas as águas invadiram grande número de casas e muitas famílias foram alojadas no Estádio Presidente Vargas.
As precárias condições de vida dos moradores do Lagamar nas décadas de 1970 e 1980não eram caso isolado na Cidade. Em um intervalo de três décadas (1950-1980) Fortaleza passou por um crescimento vertiginoso de sua população, passando de 270.169 habitantes para 1.338.793 habitantes31. Dessa explosão populacional se multiplicam as precariedades da vida urbana.
O crescimento de aglomerações faveladas na década de 1980 servia como “indicador da pressão popular sobre a terra, reflexo da incapacidade de renda dessa população na aquisição desse bem material que é a moradia” (BARREIRA, 1991, p.58). Consequentemente nesse período cresceram os movimentos de reivindicação da população pobre das cidades brasileiras, voltados para necessidades imediatas como moradia e infra-estrutura. Já no final da década de 1970 os Movimentos Sociais Urbanos ganham força “marcados por conflitos com o Estado” (BARREIRA, 1991, p.26).
Esses dois fatores – crescimento em grandes proporções de favelas e o fortalecimento de Movimentos Sociais e organizações de moradores – que marcaram esse período do final da década de 1970 nos grandes centros urbanos brasileiros, se manifestaram na história do Lagamar de maneira marcante.
De acordo com Diógenes, em levantamento feito pelo PROAFA32, o Lagamar chegou ao ano de 1980 como a “favela que abrigava maior número de famílias na cidade” (1991, p.230), somando 2.664 famílias.
A dimensão desse aglomerado urbano e sua localização geraram no poder público e na iniciativa privada grande interesse e preocupação. Ainda na década de 1970 começam a surgir em Fortaleza projetos de iniciativa privada voltados para o desenvolvimento da região dos Bairros Água-Fria e Edson Queiroz. Conforme
31 Fonte: Censo Demográfico do IBGE, tabela 1287 (www.sidra.ibge.gov.br). 32
PROAFA (Programa de Assistência às Favelas da Área Metropolitana de Fortaleza) foi um programa do Governo Estadual voltado para o setor de habitação e para a ordenação do crescimento da Cidade criado na década de 1970.
Ribeiro (1990) e Diógenes (1991), a valorização dessa parte da cidade teria resultado de um investimento privado que apostou nessa região a fim de transformá- la em um expressivo pólo econômico da capital cearense. No contexto desse projeto foram construídos na década de 1970, além de prédios residenciais, o Centro de Convenções, a UNIFOR e no início da década de 1980 o Iguatemi, maior Shopping Center da Cidade. A viabilidade desse projeto de expansão da cidade exigiu, porém, grandes esforços do poder público. Para integrar essa região ao restante da cidade, principalmente à região central, obras de infra-estrutura foram executadas pelos governos municipal e estadual.
Segundo Diógenes (1991, p.228) “em 1979, parte considerável da área relativa ao Lagamar foi declarada de utilidade pública” e no ano seguinte passou a ser considerada como área de “interesse social”. A oficialização da importância dessa área no mapa da cidade impulsionou os mecanismos do poder público no sentido de remover os moradores.
Nesse período, uma das propostas de expansão da Avenida Borges de Melo incluía a remoção de quase 300 casas do Lagamar (RIBEIRO, 1990, p.77). No início da década de 1980 foram inúmeras as tentativas de remover parte ou a totalidade da população do Lagamar. O projeto de prolongamento da Avenida Borges de Melo estava vinculado a um projeto habitacional do Governo do Estado do Ceará que tinha como objetivo remover a totalidade das famílias para um conjunto habitacional que ficou conhecido como “Novo Lagamar”, no bairro hoje conhecido como Tancredo Neves que, segundo informações divulgadas pela PROAFA na época, atenderia por volta de três mil famílias33. Antes da entrega das casas, em uma chuva ocorrida em fevereiro do ano de 1983, as casas, algumas ainda inacabadas, foram “invadidas” (DIÓGENES, 1991, p.235) e o projeto de remoção não se concretizou conforme o planejamento do poder público. Foi então que a defesa pela permanência passou a se somar às demais reivindicações dos moradores do Lagamar na década de 80.