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Os principais órgãos da OMC são nominados a seguir:

2.7.1 Conferência Ministerial (Ministerial Conference)

Órgão máximo da OMC, composto por representantes de todas as partes contratantes (membros), que se reunirão pelo menos uma vez a cada dois anos. Integram a Conferência Ministerial os ministros de Relações Exteriores, ou os ministros do Comércio, que têm por propósito desempenhar todas as funções da OMC, derivadas de seu acordo constitutivo.

A abordagem da Conferência Ministerial, dentro do escopo da OMC, é ilimitada, podendo constituir comitês, como é o caso do Comitê sobre Comércio e Meio Ambiente, e Comércio Eletrônico, este sob a responsabilidade do Conselho Geral.

2.7.2 Conselho Geral

Composto por representantes de todos os Estados-membros, reunindo-se nos hiatos da Conferência Ministerial, ou quando necessário, tendo por função, além das advindas da Conferência, aquelas inerentes ao Acordo Constitutivo. Desempenha, também, as funções do Órgão de Solução de Controvérsia.

O Conselho Geral, no entanto, não é apenas um órgão executivo responsável por atividades administrativas. Tem atribuições políticas provenientes de um poder de iniciativa previsto

nos Acordo de Constituição: o de chamar a atenção para qualquer assunto que possa afetar o comércio e o investimento internacional. Essa atribuição foi consolidada nos anais da OMC.

O Conselho Geral é um agente administrativo e um ator político. Suas funções administrativas envolvem atividades logísticas, jurídicas, políticas, diplomáticas e de informação, voltadas para o apoio à OMC e aos seus órgãos.

2.7.3 Órgão de Solução de Controvérsias – OSC (Dispute Settlement Body – DSB)

Durante a vigência do GATT 1947, a solução de controvérsias era denominada de conciliação. O sistema utilizado tinha um viés diplomático que se foi unificando com as Rodadas, em especial a Rodada Tóquio. Estabelecido pelo art. 2º do Anexo 2 do Acordo de Constituição da OMC, o Órgão de Solução de Controvérsias não representa uma ruptura com o GATT 1947; ao contrário, é um aperfeiçoamento do instrumental, acrescido da experiência e formulação de um conjunto de regras, unificando os procedimentos de modo a adensar e integrar o sistema processual. Sua natureza jurídica é mista.

Em determinadas fases, transita por um conjunto de procedimentos de natureza diplomática clássica, e em outras se alberga em uma processualística de corte eminentemente jurídico. Todavia, o predomínio das regras é de caráter jurisdicionalizado.

Observe-se que, no plano do Direito Internacional, nenhum outro órgão adota procedimentos jurídicos e diplomáticos simultaneamente, como é o caso da OMC, fazendo de sua processualística caso singular.

Conhecido também por single undertaking ou single package, aos membros fica expressamente vedada a escolha de processualística que porventura melhor lhes convenha, ou, nos dizeres de Cretella,140 “Evolui-se da situação anterior, designada como ‘GATT a la carte’,

para o princípio do single undertaking”.

140 CRETELLA NETO, José. Direito processual na Organização Mundial do Comércio – OMC. Rio de Janeiro:

O single undertaking consiste na negociação de um único pacote de objetivos, ou na negociação de vários objetivos de forma única. Todos os acordos multilaterais da OMC são negociados dessa forma.

Na prática, isso implica que, enquanto não houver definição para algum dos pontos negociados, nada estará acordado de forma definitiva.

A regra do single undertaking estabelece que ele só passa a vigorar a partir do momento em que todos os temas estiverem acordados entre os membros, além de se respeitar os dispositivos da Organização Mundial de Comércio.

Esse órgão é encarregado de responder a consultas formuladas e solucionar controvérsias surgidas entre os Estados-membros a respeito das matérias constantes dos acordos abrangidos pelo Ato Constitutivo, estabelecendo Grupos Especiais (Painel), e adotando os relatórios produzidos pelos Grupos Especiais, e pelo Órgão Permanente de Apelação (OPA).

2.7.4 Órgão Permanente de Apelação – OPA (Standing Appellate Body)

O Órgão de Solução de Controvérsias (OSC) foi estabelecido por força do art. 17 do Anexo 2 do Ato Constitutivo, e a ele serão dirigidas as apelações pelos Estados-membros que estiverem em desacordo com os Relatórios emitidos pelos Grupos Especiais.

2.7.5 Comitê sobre Comércio e Meio Ambiente141

A existência de um Comitê sobre Comércio e Meio Ambiente no âmbito da Organização Mundial do Comércio demonstra, de forma clara e meridiana, a interconexão

141 CRETELLA NETO, José. Direito processual na Organização Mundial do Comércio – OMC, p. 421.

“As exceções que o GATT 1994 concede aos Membros para que imponham medidas que, em princípio, constituem barreiras ao livre comércio, são encontradas no Artigo XX (General Exceptions), cujo caput dispõe que as medidas excepcionais destinadas a restringir o comércio internacional somente são autorizadas se não forem aplicadas ‘in a manner which constitutes a means of avatars or unjustifiable discrimination between countries where the same conditions prevail’. Dentre as medidas permitidas estão aquelas destinadas a proteger a vida ou a saúde de seres humanos, dos animais ou vegetais (Artigo XX(b)), bem como aquelas relativas à conservação de recursos naturais não-renováveis (Artigo XX(g)).”

entre desenvolvimento e meio ambiente, de modo que a ampliação do comércio internacional, e sua conseqüente interferência no meio ambiente, não constitua uma barreira à inserção, no processo de globalização, dos países periféricos em face ao Direito ao Desenvolvimento. Devem ser observados os paradigmas no campo jurídico e político, integrando-se, para tanto, com a dimensão social, ambiental e institucional, no que é chamado desenvolvimento sustentável para a qualidade de vidas das presentes e futuras gerações.

Todavia, a indagação maior que aqui se ventilará diz respeito a qual Direito irá regulamentar as interações entre o comércio internacional e o meio ambiente. Serão aqueles havidos nos Acordos Constitutivos da OMC e seus anexos, ou mesmo a tratadística internacional? Essa questão encontra-se distante de ser respondida.

O debate sobre a interação comércio e meio ambiente não é recente. A inter- relação entre o comércio e seus efeitos no meio ambiente, que incluem tanto os efeitos das políticas ambientais sobre o comércio como deste sobre o meio ambiente, passa a ser mais bem observada a partir da década de 1970.

A esse tempo já se fazem presentes as primeiras manifestações tanto de órgãos científicos como de organizações não-governamentais sobre a agressão crescente, fruto do desenvolvimento econômico, que motivou a realização da Conferência de Estocolmo de 1972 sobre o Meio Ambiente.

Nesse diapasão, é importante frisar que, nos atos preparatórios da Conferência de Estocolmo sobre o Meio Ambiente, o GATT 1947 teve participação, sendo convocado a apresentar um estudo que ficou conhecido como “Controle da Poluição Industrial e Comércio Internacional”.

Frise-se que em 1971 – portanto, um ano antes da realização da Conferência de Estocolmo sobre o Meio Ambiente – o Conselho do GATT estabeleceu um grupo de estudos sobre Medidas Ambientais e Comércio Internacional.142 Todavia, seu trabalho só foi iniciado, apenas e tão somente, em 1991.

Paralelamente, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE)143 estabeleceu, em 22 de julho de 1970, um Comitê sobre o Meio Ambiente, buscando correlacionar, entre outros temas, o comércio e o meio ambiente.

Decorrido o lapso temporal que vai da Conferência de Estocolmo até 1994 (ano de fundação da OMC), importantes eventos ocorreram na esfera ambiental. Em abril de 1994, foi adotada a Decisão Ministerial sobre Comércio e Meio Ambiente, na qual havia a proposição do estabelecimento, no seio da OMC, de um específico Comitê sobre Comércio e Meio Ambiente (CCMA), que veio a se efetivar em 16 de fevereiro de 1995.

O objetivo do CCMA é o de estudar e propor medidas comerciais e ambientais, visando o chamado desenvolvimento sustentável, e outras recomendações que envolvam comércio e meio ambiente, levando em conta as disparidades havidas no desenvolvimento dos Estados-membros. Esse Comitê deve dar ênfase aos objetivos estabelecidos na Agenda 21.144

Observe-se que os chamados países desenvolvidos estão submetidos a uma pressão dos grupos ambientais, que atuam por meio de lobbies organizados que denunciam as incompatibilidades entre as políticas comerciais e as ambientais.

Os países em desenvolvimento expressam temores de que a questão verde venha a se constituir em uma barreira ao livre comércio internacional, eis que os padrões ambientais podem criar novas condicionalidades para o acesso de seus produtos aos mercados dos países desenvolvidos.

É de se observar que, no Preâmbulo do Acordo de Marrakesh (Acordo Constitutivo da OMC), os Estados-membros assumem o compromisso de trabalhar em prol do desenvolvimento sustentável. Em complemento, a Decisão Ministerial sobre Comércio e Meio Ambiente declara que a função do CCMA será “objetivar que as políticas sobre Comércio internacional e as políticas ambientais se apóiem mutuamente”.

Todavia, é senso comum que a OMC admite não ser uma organização ambiental nem tem aspirações a isso. Apenas afirma sua competência na interdisciplinaridade havida

143 Para maiores detalhes: <http://www.oecd.org/home/0,2987,en_2649_201185_1_1_1_1_1,00.html>. 144 Princípio 12 da Declaração do Rio de Janeiro.

entre o comércio e o meio ambiente e a influência de um sobre o outro. No entanto, as disciplinas do meio ambiente e o comércio internacional vêm exigindo uma interferência cada vez maior dos organismos internacionais, como é o caso da OMC.

Cada vez mais são submetidas à apreciação do Órgão de Solução de Controvérsias questões relativas ao meio ambiente (art. 20 do GATT 1994), firmando-se aos poucos uma jurisprudência, que incorpora as políticas ambientais. Todavia, a questão fundamental que se enuncia reside na ausência de uma organização internacional especializada em meio ambiente, como é o caso da OMC para o comércio internacional, para fundamentar o exercício do Direito e sua lei aplicável.

Observe-se ainda que as decisões emanadas de organizações internacionais podem, em tese, conflitar com decisões ou legislações de outras jurisdições.