tratar de um ponto interessante dentro da coleta de dados, e por esta tese ser uma pesquisa exploratória, em que se pode dar foco a certos aspectos considerados mais importantes no decorrer do trabalho, decidiu-se, então, dedicar um pequeno espaço dentro da análise de dados para esta discussão, apesar de não se tratar de um condicionante que auxilie a resposta da pergunta de tese.
4.1. Ponto comum entre Barcelona e Rio de Janeiro: a necessidade de uma entidade metropolitana.
Tanto Barcelona como o Rio de Janeiro, de acordo com alguns entrevistados, têm necessidade de uma instituição de caráter metropolitano com competências reais e legais para implementação de políticas de cunho metropolitano presentes em seus planos estratégicos. Além disso, os mesmos entrevistados, além de apontarem esta necessidade das duas cidades, indicaram uma solução semelhante para este impasse: a criação de uma entidade metropolitana com competências legais, executivas e impositivas.
No caso específico de Barcelona, já existe uma entidade de livre associação entre os 36 municípios que pertencem à região metropolitana da cidade a Mancomintat de
Municipis de Barcelona. Entretanto, essa entidade de livre associação, que inclusive
faz parte e segue o plano estratégico, não tem suporte legal para ser uma entidade impositiva com competências reais, o que segundo alguns entrevistados, como Juli Ponce Sole, dificulta a gestão do território metropolitano, conforme trecho abaixo retirado de sua entrevista:
[...] um problema de fundo que ocorre na área metropolitana de Barcelona, e esse é um ponto débil de toda a área metropolitana de Barcelona, é que, hoje em dia, não existe uma autoridade metropolitana com competências em muitos setores, de um deles há o do humanismo e da moradia que foi objeto do estudo que coordenei. Isso sim é um ponto débil, mas isso é outra coisa, faz tempo que se fala na criação de uma nova autoridade metropolitana, novamente, que existiu aqui até 1987. Sabe todo esse processo? [...] Então, creio que seja muito débil a inexistência de uma autoridade metropolitana supra municipal que tenha competência em determinados campos. Agora, quando existe essa autoridade e as autoridades obtêm funções com valor jurídico, para elaborar planos urbanísticos com relação do território, e existindo essa autoridade metropolitana e ela elaborando planos, as coisas podem seguir tendo sentido, inclusive sentido em continuar existindo um plano estratégico metropolitano e provavelmente em um escritório dedicado a elaborar estudos, informes, e recomendações. É um ponto débil a falta de peso do plano estratégico metropolitano, não podemos pedir ao plano estratégico e o escritório do plano estratégico coisas que não lhe tocam, espero que lhe toquem algum dia, quando existir autoridade metropolitana. E esse governo metropolitano seguirá necessitando da criação de fóruns de encontro de pessoas de precedência distintas, para fazer informes sobre pontos e projetos que podem inspirar políticas públicas [...] a Mancomunitat de Muinicípios da Área Metropolitana que agora existe é o resultado do que comentavam de quando, em 1987, por um gesto legal, o governo da Generalitat elimina a corporação metropolitana que, para uma autoridade metropolitana que existia desde 1974, se produz um vazio e esse vazio se preenche porque as prefeituras do mesmo viés político devem entender um pouco disso, um pouco da história política da Catalunha. Em 1987, se elimina a corporação metropolitana porque existe um governo, Covergencia e Unión, um governo nacionalista conservador, na Generalitat, um governo catalão autonômico. Entretanto, a região metropolitana estava formada por prefeituras governadas pela esquerda, com a maioria dos prefeitos do partido socialista, o governo autonômico vê a corporação comum contra o poder político, e a elimina. Contudo, os problemas supra municipais persistem e os municípios tornam a se unir de maneira voluntária no organismo que agora está funcionando e que se chama Mancomunitat de Muinicípis da Área Metropolitana. Portanto, sei que existe essa tradição, fruto desses últimos problemas políticos que lhe relatei. Mas, a falta de uma autoridade metropolitana com valor legal persiste.”
Assim, a Mancomunitat de Municípis da Área Metropolitana seria uma resposta à necessidade já detectada historicamente. Além disso, Jaume Vendrell destaca que o
plano estratégico deveria estar ligado a essa instituição, de forma a ter mais capacidade impositiva em torno de projetos estratégicos para a região metropolitana de Barcelona:
[...] Eu penso que o plano estratégico teria que estar dotado de mais recursos para ser capaz que essa função aglutinadora ou coordenadora tivesse maior intensidade. Eu destinaria mais recursos e lhe daria mais algumas capacidades operativas adicionais, as prescrições do plano estratégico, as funções da administração, premiaria a vinculação, o trabalho público e o trabalho prognóstico do plano estratégico [...]
Contudo, de acordo com Juan Subirats, essa entidade metropolitana não pode ser uma entidade engessada, um governo metropolitano, a idéia, na percepção do agente, é mais de uma governança metropolitana, de uma forma mais horizontal, de compartilhar soluções para problemas comuns:
Você pode criar uma dinâmica de governança que parte da hipótese de que temos problemas comuns, interesses comuns e que se nos colocarmos de acordo, seguramente funcionariam as coisas melhor. Quero dizer, de uma posição horizontal, de rede, porque a visão de rede é uma visão horizontal, de nós da rede, que todos são interdependentes, dependem uns dos outros, mas não têm uma posição hierárquica. Porque se não estaríamos em uma relação mais de governo, mais de hierarquia de verticalidade. Estamos falando que Hospitalet, Cordela, La Coloma ou Badalona, sabem que sua vida está muito vinculada a Barcelona. Mas, depois de tantos anos de se buscar por sua vida e trabalhar por sua conta, e fazer suas coisas, não têm nenhum interesse em que Barcelona, como antes ocorria, lhes repasse os problemas e não comparta com elas as vantagens e soluções. Portanto, eu creio que é impossível que funcione a idéia de um governo agora. O que não dizer que seja importante que essa capacidade de Mancomunitat que temos em transporte, em resíduos, não se possa ir ampliando, por uma lógica mais de output que input, ou seja, por uma visão de como se construiu a União Européia [...] de gerar, digamos, um entorno de produtos aos países, que não sobre a base de criar uma idéia compartilhada de Europa. As pessoas não sabem muito bem o que seja a Europa, só sabem que é melhor estar na Europa que estar fora, tem os benefícios de uma comunidade comum, de elementos comuns, e isso vai bem, beneficia. Mas, se temos que discutir se somos católicos ou cristãos, protestantes ou muçulmanos, teremos que discutir se somos europeus e teremos que discutir sobre
um governo europeu, e sobre isso não nos colocaremos de acordo, mas, pelos menos estamos de acordo nos outputs. Porque isso é uma visão de construção de uma realidade mais desde debaixo, mais de compartilhar problemas, que não desde cima de uma estrutura a mais que ninguém saberia para que serve e a quem serve. Logo, acredito que necessitamos de governança metropolitana, mas não estou seguro se necessitamos de governo metropolitano. Necessitamos de uma Mancomunitat de educação, de saúde, uma de impostos para evitar que haja uma lógica, digamos, de free hider, em que os municípios abaixem os impostos para atrair investimentos, isso seguramente nós necessitamos, ou seja, uma lógica de respeito e de nível de hierarquia similar de todas as partes que compõem essa unidade. Por exemplo, pode ser que Barcelona queira fechar sua cadeia que está aqui na [...] e mover para fora da área metropolitana, porque ninguém aceitará isso. Barcelona tem que ter sua própria cadeia, quiçá [...] ou em outro lugar. E não pode ser que exporte problemas e somente importe benefícios. O nível de centralidade de Barcelona também é muito grande, e isso é importante termos em conta. Logo, outro problema é de que metrópole falamos da pequena, da mediana ou da grande. Falamos de 37 municípios, de 42 municípios ou de 300 municípios. Se olhar Madrid, ali temos um governo metropolitano que é a comunidade de Madrid. Eles geraram seu governo metropolitano que é a comunidade autônoma de Madrid. Então, poderíamos pensar que nosso governo metropolitano poderia ser a Diputación de Barcelona (comentário nosso: a Diputación de Barcelona é uma rede de 311 municípios que se uniram para impulsionar políticas de interesse comum, trabalha auxiliando os prefeitos a orquestrar políticas públicas) porque já existe, são 311 municípios com o qual [...] Por que 27 e não 42, por exemplo. Não? Sabadel e Terrasas que não estão na área metropolitana deveriam estar, porque é visível que compartilham muitos problemas com Barcelona. Então, aí temos outro problema que é a escala. Aí existem quatro temas vinculados que são escala, espaço e identidade de poder. Escala, qual é a escala adequada para se implantar um sistema de mobilidade. Seguramente são distintas. A escala de resíduos é uma, a escala de mobilidade é outra, a escala de transporte é outra, em troca o espaço quais os espaços que compartilhamos comum e que... Por que é importante o espaço? Pelo tema da identidade, porque queremos governança, quer dizer que queremos mecanismos participativos, temos que ter gente se sentindo formando parte disso que chamamos de metrópole Barcelonesa, mas, isso requer uma identidade que toda gente compartilhe. E logo, tem de haver poder, poder para mudar as coisas. Aqui há muita gente que fala em governo metropolitano, mas não está disposta a compartilhar o poder. É muito fácil falar que é necessário um governo metropolitano, logo não soltar verba e