2.5. Tedarik Zinciri Risk Değerlendirmesinde Kullanılan Yöntemler
2.5.2. Yapay Zekâ Temelli Yöntemler
Na problemática investigada em História da loucura, Foucault observa as diferenças no tratamento do tema entre os séculos XVII e XVIII, muito embora, nesses períodos, não houvesse possibilidade de tratamento da loucura, digamos, de forma “humana”: os loucos eram aqueles cujos atos eram livres e, por isso mesmo, apresentavam em suas ações ambiguidades de sentido, condições e fins.
Sobre esta abordagem, observa Foucault em História da loucura na idade clássica:
O século XVII descobriu-a na perda da verdade: possibilidade inteiramente negativa na qual a única coisa em questão era essa faculdade de despertar e de atenção no homem, que não é da natureza, mas da liberdade. O fim do século XVIII põe-se a identificar a possibilidade da loucura com a constituição de um meio: a loucura é a natureza perdida, é o sensível esnorteado, o extravio do desejo, o tempo despojado de suas medidas; é a imediatez perdida no infinito das mediações. Diante disso, a natureza, pelo contrário, é a loucura abolida, o feliz retorno da existência à sua mais próxima verdade [...] (FOUCAULT, 1978, p. 409).
No século XVII, a loucura despertava a liberdade nos atos dos indivíduos a ponto de estes manifestarem ações que constituíam, para a sociedade da época, uma espécie de animalidade. A loucura apresentava aspectos ligados à irascibilidade irrompida do indivíduo como uma natureza contrária ao “humano”, havendo uma espécie de paradoxo, pois ao mesmo tempo em que a existência natural era liberada, se exaltava uma espécie de natureza contrária à humana, isto é, contrária à ideia de docilidade e amabilidade, geralmente atribuídas ao homem.
Em A coragem da verdade, Foucault narra uma História32 em que é situado o paradoxo entre liberdade e animalidade, de modo que, seguindo a narrativa, sequer é possível denominar os acontecimentos de loucura:
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Extraída dos santos anacoretas, monges cristãos ou eremitas que preferiam a vida afastada da turba e da urbe, vivendo em pequenos grupos em retiro ou mesmo solitariamente, viviam mais a observar o homem do que a conviver com ele. Essa vida afastada teve início no Oriente. A história narrada por Foucault foi traduzida por Festugière e encontra-se em: Os monges do Oriente.
Trata-se de um solitário que vivia inteiramente nu e que, diz o texto, comia relva como os bichos. Ele não podia nem sequer suportar o cheiro do homem. Estamos com isso em plena animalidade afirmada, e a reputação desse solitário é tal que um cristão, também muito asceta mas menos avançado no ascetismo, quer alcançá-lo e o persegue. O cristão que o persegue é tão pobre e zelou tanto por sua pobreza que veste apenas um saco de linho. Mas o solitário está nu. O solitário foge desse homem que tenta persegui-lo e alcançá-lo. O outro corre atrás dele e, correndo atrás dele, perde sua roupa. Ei-lo nu, então, como o solitário que ele persegue. Nesse momento, percebendo que seu perseguidor havia perdido a roupa, o solitário para e diz a ele: paro porque você agora repeliu a lama do mundo (FOUCAULT, 2011a, p. 281).
Estas descobertas relativas à loucura levaram Foucault a, posteriormente, em Doença
mental e psicologia, tecer análises que mostram os paradoxos existentes entre os
acontecimentos históricos e as intervenções filosóficas no que dizem respeito à loucura. Conforme Foucault, o entendimento sobre a loucura se funda em um momento preciso na história de nossa civilização, momento que ele faz questão de apontar, indicando que essa concepção se institui quando aparece “[...] o grande confronto da razão e da desrazão” (FOUCAULT, 2000, p. 98).
Neste confronto, o homem perde a criatividade e deixa de instituir sua ação na dimensão da liberdade, pois a razão não era mais para o homem uma ética, ao contrário, tornou-se a própria natureza do homem. Assim, quando interrogado sobre O que é o homem?, a resposta imediatamente seria: um ser de razão:
Então a loucura tornou-se natureza da natureza, isto é processo alienando a natureza e encadeando-a no seu determinismo, enquanto que a liberdade tornava-se, ela também, natureza da natureza, mas no sentido de alma secreta, de essência inalienável e da natureza. E o homem, em vez de ser colocado diante da grande divisão do Insano e na dimensão que ele imagina, tornou-se no nível de seu ser natural, isto e aquilo, loucura e liberdade, recolhendo, pelo privilégio de sua essência, o direito de ser natureza da natureza e verdade da verdade. Há uma boa razão para que a psicologia não possa jamais dominar a loucura; é que ela só foi possível no nosso mundo uma vez a loucura dominada e já excluída do drama (FOUCAULT, 2000, p. 98).
Todavia, enquanto no século XVII a compreensão sobre a “loucura” tem como fim o indivíduo que manifesta uma forte presença animal, em outra perspectiva, partindo da prerrogativa de que “O animal não pode ser louco, ou pelo menos nele não é a animalidade que veicula a loucura” (FOUCAULT, 1978, p. 409), tem-se, ao final do século XVIII, algumas modificações ao entendimento da loucura quando considerada a relação do indivíduo com os outros membros da sociedade - o homem de razão -, neste aspecto, os “loucos” precisavam de correção.
É nesse momento que nos eventos históricos se expõe, efetivamente, o perigo da loucura. Houve, a partir daí, uma mudança radical: estabelece-se a doença, elaboram-se formas de tratamento, criam-se internatos. O doente passa a ser visto como perigoso e várias outras denominações para apontar esse perigo surgem: aberração, possuído pelo demônio, etc. O tratamento, por conseguinte, oscila constantemente entre espancamentos, privação de alimentos, tortura generalizada e indiscriminada e, entre outras, o aprisionamento dos doentes para que possam se livrar dessa “possessão”.
Nestas análises, é-nos apresentada não somente a “chave” ou a verdade que se estabelece no surgimento do internato. Além disso, várias outras verdades se apresentam como que em um “jogo”. Então, aparecem associadas à doença mental questões sociais e dificuldades do âmbito da política, cujas resoluções, assim, passam a ser elementos considerados como problemáticas e associados à loucura.
Dessa forma, os internatos, já em sua origem, se estabelecem como uma forma de assistência aos pobres. Sobre esta abordagem, “[...] É preciso que a assistência aos pobres assuma um novo sentido. Sob a forma de que ela ainda se reveste, o século XVIII reconhece que ela é cúmplice da miséria e contribui para desenvolvê-la” (FOUCAULT, 1978, p. 450). Conforme Foucault, ao final do século XVIII, Phillippe Pinel elabora políticas de tratamento para o doente mental. Essas políticas atingem o século XIX e, com elas, apresentam-se estratégias à libertação dos chamados “loucos”: os asilos são efetivamente substituídos por manicômios, somente destinados aos doentes mentais. Desenvolveram-se com isso várias experiências e formas de tratamento nos hospitais La Bicêtre e Salpêtrière que se difundiram da França para o resto da Europa.
Apresenta-se, na concepção da loucura à época de Pinel33, o homem e a modificação do seu relacionamento com a doença:
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O médico francês Philippe Pinel (1745–1826), publicou sua obra Tratado acerca da insanidade, em 1806, depois de ter lutado por melhorias com pensões e hospitais psiquiátricos acerca de terapêuticas e condições de tratamento. Conforme Robert Castel (1978, p. 30), em A ordem psiquiátrica: a idade de ouro do alienismo, a época em que Pinel viveu “[...] no final do Antigo Regime, quatro ou cinco tipos de estabelecimentos acolhem os insanos: fundações religiosas (as numerosas casas de "caridade" dos Irmãos de São João de Deus e também os conventos dos Cordeliers, dos Bons-fils, dos irmãos das Escolas cristãs, da casa de São Lázaro fundada por São Vicente de Paula etc., e mais uma dúzia de conventos de mulheres recebendo ao mesmo tempo pessoas passíveis de correção, loucas e "moças arrependidas"); prisões do Estado como a Bastilha ou a Fortaleza de Hâ; Hospitais Gerais, sobretudo Bicêtre e a Salpêtriere, onde são enclausurados mais da metade dos loucos do reino; enfim, pensões mantidas por leigos, em Paris existiam mais ou menos vinte, dentre as quais a mais famosa foi a pensão Belhome onde Pinel travou suas primeiras batalhas”. Castel afirma que Pinel “[...] não constrói sua obra num vazio terapêutico. Ao contrário, ele preconiza sua ‘medicina expectante’ contra o frenesi intervencionista de seus contemporâneos” (p. 57).
Na época de Pinel, quando a relação fundamental da ética com a razão será convertida num relacionamento segundo da razão com a moral, e quando a loucura não será mais que um avatar involuntário sucedido, do exterior, à razão, se descobrirá com horror a situação dos loucos nas celas dos hospícios. Vem a indignação pelo fato de os "inocentes" terem sido tratados como "culpados". O que não significa que a loucura recebeu finalmente seu estatuto humano ou que a evolução da patologia mental sai pela primeira vez de sua pré-história bárbara, mas sim que o homem modificou seu relacionamento originário com a loucura e não a percebe mais a não ser enquanto refletida na superfície dele mesmo, no acidente humano da doença. Ele considera então inumano que se deixem apodrecer os loucos no fundo das casas de correição e dos quartéis de força, não mais entendendo que, para o homem clássico, a possibilidade da loucura é contemporânea à escolha constituinte da razão e, por conseguinte, do próprio homem (FOUCAULT, 1978, p. 160).
Localiza-se então o advento da loucura, enquanto objeto de cuidados políticos e sociais, como um evento contemporâneo às exigências da escolha constituinte da razão, que se apresenta imediatamente atrelada ao homem. Surge a exacerbada valorização do homem como ser de razão. É como se a racionalidade tomasse consciência de que é o centro e, por isso mesmo, passa a ser mais do que "pensava". Neste sentido, esse homem tenta realizar concretamente este seu “poder”, nasce o super-homem, que, quanto mais experimenta, tanto mais fica convencido; quanto mais convencido, maior ardor experimenta. O homem com esse perfil passa a ser uma ideia universal, mas nem sempre foi assim:
Mas, ao final da Idade Média, argumenta Foucault, surgiu um novo código de conhecimento que fez com que as pessoas viessem a ter a dualidade mesma da loucura, pois isso atendia às suas mensagens morais, identificados com o louco e passavam a converter-se em espectadores das façanhas de Dom Quixote. Para reforçar esse ponto, Foucault cita novelas e sátiras, de Shakespeare até Cervantes, pois percebe nesses autores mesmos os laços transitórios que unem a visão anterior da loucura como algo inumano à visão emergente, própria do século VII, da mesma como algo demasiado humano. Baseando-se em arquivos, reconstrói cuidadosamente e verossimilhantemente o clima social e as crenças prevalecentes acerca da loucura e mostra de que maneira as crenças mutáveis e necessidades conduziram ao confinamento do louco no hospital depois da fundação do Hospital Geral de Paris em 1656 (KURZWEIL,1979, p. 16-17)34.
Face à separação entre o comportamento considerado como normal e aquele que é considerado carente de sentido denominado de louco, uma das soluções vai consistir no
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Pero a finales de la Edad Media, argumenta Foucault, surgió un nuevo código de conocimiento que hizo que la gente llegara a tener la dualidad misma de la locura, pues atendían a sus mensajes morales, identificados con el loco, y pasaban a convertirse en los espectadores de las hazañas de Don Quijote. Para reforzar este punto, Foucault cita novelas y sátiras, a Shakespeare y a Cervantes, pues percibe a los autores mismos como los lazos transitorios que unen la visión anterior de la locura como algo inhumano y la visión emergente, propia del siglo VII, de la misma como algo demasiado humano. Basándose en los archivos, reconstruye cuidados a y verossimilmente el clima social y las creencias prevalecientes acerca de la locura y muestra de qué manera las cambiantes creencias y necesidades condujeron al confinamento del loco en el hospital después de la fundación del Hôpital General de París en 1656 (KURZWEIL,1979, p. 16-17).
encarceramento, que vai abalar pensadores como Pinel, que considerava “[...] inumano que se deixem apodrecer os loucos no fundo das casas de correição e dos quartéis de força [...]” (Idem, ibidem). Entretanto, na Idade Clássica não havia ainda a possibilidade de pensar uma relação adequada entre a loucura e o louco, pois para tal período, o homem não é o responsável pelos seus atos à medida que não era o homem que instituía os parâmetros de verdade. A maioria dos atos distoantes com as imposições da moral cristã - cultura aceitável à época -, era considerada condenável para Deus nas alturas. Desta feita, mesmo que ocasionalmente alguém fosse atraído para eventos maléficos, era como se o demônio estivesse junto dele, impulsionando e forçando-o à execução. Assim, aquele que o praticasse estaria condenado para toda a eternidade. É o que descobre Foucault em História da loucura na
idade clássica:
Consideremos um exemplo tomado de Diemerbroek. Um homem estava com melancolia profunda. Como todos os melancólicos, seu espírito estava apegado a uma idéia fixa e esta idéia era para ele motivo de uma tristeza sempre renovada. Acusava-se de ter matado o filho e, no auge do remorso, dizia que Deus, para castigá-lo, havia colocado às suas costas um demônio encarregado de tentá-lo como aquele que havia tentado ao Senhor. Ele via esse demônio, conversava com ele, ouvia suas censuras e respondia-lhe. Não conseguia entender como todo mundo à sua volta se recusava a admitir essa presença. Assim é a loucura: esse remorso, essa crença, essa alucinação, esses discursos. Em suma, todo esse conjunto de convicções e imagens que constituem um delírio. Diemerbroek procura saber quais são as "causas" dessa loucura, como pôde surgir. E eis o que descobre: havia levado o filho para nadar, e ele se afogara. A partir de então, considera-se responsável por essa morte (FOUCAULT, 1978, p. 259).
Portanto, sobre este aspecto histórico que demarca a mudança de concepção e paradigma de "acolhimento" da loucura, Foucault considera que:
[...] é necessário evitar meticulosamente procurar nos anos que cercam a reforma de Pinel e Tuke alguma coisa que seria como que um advento: advento de um reconhecimento positivo da loucura [...] É necessário deixar aos eventos desse período e às estruturas que os suportam sua liberdade de metamorfosear-se (FOUCAULT, 1978, p. 465).
Em contrapartida, no século XIX e de forma mais ampla ao final deste século, abre-se um debate cotidiano. Se o homem é o centro, sendo o responsável por tudo o que acontece - verdade estabelecida e universalizada no antropocentrismo -, a partir dessa universalidade complexidades se estabelecem e muitas são as questões que retornam ao próprio homem. Na medida em que não considera os indivíduos em suas diversas singularidades humanas, a diversidade de indivíduos certamente colocará em suspeita a premissa universal do homem como aquele que estabelece a verdade. Neste sentido, a verdade não pode sequer ser
universalizada na medida em que a diversidade de indivíduos possibilita, constantemente, que estes mesmos indivíduos constituam-se, confrontem-se, dividam-se e se comprometam em suas verdades.
É nesse quadro que surge a elaboração de diretrizes e normatizações que garantam o reconhecimento do louco e do não-louco e de como elas se estabelecem. A partir daí, o tratamento por intermédio da “psiquiatria positiva” vai além de normatizações jurídicas por parte das instituições que vão estabelecer, ademais, medidas e procedimentos para lidar com a loucura. Conforme Foucault (1978, p. 559):
O louco do século XIX será determinado e culpado; sua não-liberdade é mais penetrada pela falta do que pela liberdade com a qual o louco clássico escapava de si mesmo. Libertado, o louco se vê agora em pé de igualdade consigo mesmo, o que significa que não mais pode escapar à sua própria verdade; é jogado nela, e ela o confisca inteiramente. A liberdade clássica situava o louco em relação à loucura, relação ambígua, instável, sempre desfeita, mas que impedia o louco de constituir uma só e mesma coisa com sua loucura.
Não há então, a partir do século XIX, escape para o homem: a loucura é determinada e o homem é o culpado, não existem mais ambiguidades. Mas é preciso ouvir o apelo de Foucault (2000, p. 95), em Doença mental e psicologia: “Se o mundo projetado na fantasia de um delírio aprisiona a consciência que o projeta, não significa que ela própria se deixe prender aí, não significa que ela se despoje de suas possibilidades de ser; mas é que o mundo, alienando sua liberdade, não pode reconhecer sua loucura”.
Contudo, observa Foucault, ainda em Doença mental e psicologia, essa fantasia delirante alcança a contemporaneidade e, ao mundo delirante, se liga uma espécie de consciência mórbida. Assim, a loucura se instaura na sociedade contemporânea, fazendo o indivíduo sequer reconhecê-la, o que torna o constrangimento cada vez mais concreto e real:
Fala-se muito da loucura contemporânea, ligada ao universo da máquina, e ao esmaecimento das relações afetivas diretas entre os homens. Este vínculo não é falso, sem dúvida, e não é por acaso que o mundo mórbido toma tão frequentemente, hoje em dia, o aspecto de um mundo onde a racionalidade mecanicista exclui a espontaneidade contínua da vida afetiva. Mas seria absurdo dizer que o homem doente maquiniza seu universo porque projeta um universo esquizofrênico no qual se perde; falso mesmo pretender que ele é esquizofrênico porque aí está, para ele, o único meio de escapar ao constrangimento do seu universo real. De fato, quando o homem permanece estranho ao que se passa na sua linguagem, quando não pode reconhecer significação humana e viva nas produções de sua atividade, quando as determinações econômicas e sociais o reprimem, sem que possa encontrar sua pátria neste mundo, então ele vive numa cultura que torna possível uma forma patológica como a esquizofrenia; [...] (FOUCAULT, 2000, p. 95).
É possível admitir, a partir da análise da problemática da loucura em Foucault, que a doença mental é apenas a forma histórica que toma o movimento de uma existência que vive sobre a inautenticidade. Nesses casos, o indivíduo recusa constantemente a sua própria liberdade optando por se deixar absorver no seu delírio, legitimando-o.
Todavia, a legitimação do delírio é a forma patológica. Em outra perspectiva, tem-se o paradoxo como o que vai permitir aparecer a espontaneidade da vida afetiva, embora seja, neste mesmo paradoxo, o que os “especialistas da verdade” sobre a loucura apontam como o próprio da loucura. Em Foucault, ao contrário, quando o paradoxo se esvai desaparece com ele a possibilidade do entendimento da ambiguidade. Assim, a loucura é legitimada por construções que são fortalecidas nas relações diretas entre os homens.
É neste aspecto que Foucault em História da loucura na Idade Clássica, quando aborda O círculo antropológico, questiona tal concepção de loucura, uma vez que: “[...] transformando a imagem do sonho em não-ser do erro, fazia a loucura, como recusar que houvesse aí alguma coisa que fosse da liberdade?” (FOUCAULT, 1978, p. 556).
Conforme Foucault, no paradoxo, há espaço de jogo que permite ao sujeito falar, ele mesmo, a linguagem de sua própria loucura e constituir-se como louco. Aqui encontra-se, na loucura, o paradoxo que se estabelece na ambiguidade da liberdade35.
[...] essa liberdade ambígua que estava no âmago da existência do louco, eis que agora é reclamada nos fatos, como quadro da sua vida real e como elemento necessário ao aparecimento de sua verdade de louco. Tenta-se captá-la numa estrutura objetiva. Mas no momento em que se acredita apreendê-la, afirmá-la e fazê-la valer, só se recolhe a ironia das contradições:
— permite-se que a liberdade do louco atue, mas num espaço mais fechado, mais rígido, menos livre que aquele, sempre um pouco indeciso, do internamento;
— liberam-no de seu parentesco com o crime e o mal, mas para fechá-lo nos mecanismos rigorosos de um determinismo. Ele só é inteiramente inocente no absoluto de uma não-liberdade;
— retiram-se as correntes que impediam o uso de sua livre vontade, mas para despojá-lo dessa mesma vontade, transferida e alienada no querer do médico. O louco doravante está livre, e excluído da liberdade. Outrora ele era livre durante o
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O obra literária O Alienista, de Machado de Assis, escrita em 1881, mostra essa ambiguidade da loucura e da liberdade. “A ideia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma sintoma de
demência [...]” (p. 3). O Dr. Bacamarte, definia a loucura, objeto de seus estudos, “[...] era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente” (p. 9). Então, depois que conseguiu sua
façanha em nome da ciência, de modo a não haver dúvida na terapêutica a ser aplicada, resolveu, após