Talvez possamos fazer uma analogia: como ao ofício em ergonomia cabe a exigência de se posicionar “ao pé da máquina” para, junto do trabalhador, identificar seus modos operatórios de trabalho, no ofício em psicanálise a posição seria “ao pé da letra”, mas, como vimos, não sem estar atento aos modos de operar com o sintoma. Quanto aos modos operatórios no trabalho propriamente dito, se despertam o interesse do psicanalista, é muito mais enquanto saídos, em palavras, da boca daquele que vive seus dramas e se dispõe a submeter-se à regra da psicanálise da associação livre. Esse é um limite que a disciplina psicanalítica (no sentido que Schwartz tem empregado para dizer da disciplina ergológica) se impõe.
Os conceitos psicanalíticos, assim como os ergológicos, apresentam intencionalmente certa fluidez. A própria história desse campo é prova de como eles são realimentados e transformados a partir da experiência. Freud já afirmava:
A psicanálise não é como um sistema filosófico, que parte de conceitos fundamentais claramente definidos, procura com eles apreender o mundo como um todo e depois, quando completado, não tem mais lugar para novos achados e melhores percepções. Ela se atém aos fatos do seu âmbito de trabalho, busca solucionar os problemas imediatos trazidos pela observação, segue tateando com base na experiência, está sempre incompleta, sempre disposta a ajustar ou modificar suas teorias. Tal como a física e a química, ela tolera muito bem que seus principais conceitos sejam vagos e seus pressupostos sejam provisórios, e espera uma maior precisão deles como resultado do trabalho futuro. (FREUD, 1923a/1976, p. 307).
Lacan também não cansou de reiterar esse estatuto do conceito para a psicanálise:
[...] nossa concepção do conceito implica ser este sempre estabelecido numa aproximação que não deixa de ter relação com o que nos impõe, como forma, o cálculo infinitesimal. Se o conceito se modela, com efeito, por uma aproximação da realidade que ele foi feito para apreender, só por um salto, por uma passagem ao limite, é que ele chega a se realizar. (LACAN, 1964/1988, p. 25).
Nesse mesmo sentido, em uma época em que o nominalismo das classificações psiquiátricas parece reinar, a localização dos pontos onde há debate
de normas no campo da psicopatologia do trabalho parece ir ao encontro da orientação dada por Laurent (2000: 25-26):
Tenemos que estar atentos a los efectos contradictorios de la tensión nominalismo/realismo en una cultura dada y a los efectos que la ciência produce sobre estas clasificaciones. Debemos estar atentos a los debates que hay entre epistemólogos sobre este punto para no tener nosotros uma práctica ingenua.
Laurent (2000) atenta para a tensão presente hoje entre o nominalismo das classificações psiquiátricas e o realismo das estruturas tal como a orientação lacaniana as apreende. Em Lacan, é o próprio inconsciente que se estrutura como uma linguagem, e ele constitui-se sempre como equívoco, posto que a univocidade é impossível. O risco da crença nominalista é levar ao extremo o “caso a caso” apagando a possibilidade de se destacar a função e a intervenção do Outro, ou seja, do laço social.
O que aqui estamos chamando de experiência ergológica ao pé da letra, e que acreditamos atender à exigência ergológica, busca deduzir do laço social no trabalho aquilo que satisfaz a pulsão para cada um. Como apresenta Laurent (2000, p. 10) nosso trabalho se dá “[...] entre a norma e os modos de satisfação do vivente em uma civilização dada”. Nada diferente no discurso analítico e da démarche ergológica, senão, como o fez Laurent (2000, p. 10) “considerar, junto com Canguilhem e Lacan, que se trata, para o vivente, da instauração de normas particulares em cada oportunidade, sobre um modo de existência, sobre um modo de gozar”.
Como vimos, o que se busca com o discurso analítico é permitir, a cada um, encontrar palavras próprias para inventar soluções face às situações que trazem sofrimento. A condução tem como direção a elaboração de um saber que tem valor de verdade, cujo preço é a renúncia ao gozo vergonhoso e mortífero. O que a psicanálise traz de novo, na escuta do sofrimento com o trabalho, é a possibilidade de articulação dessa renúncia, fazendo aparecer aí a função do objeto causa de desejo. Frente à impossibilidade de se retirar do trabalho todo o mal-estar, a aposta é em uma abertura, com a linguagem, das vias onde o laço social com o trabalho pode ser reinventado segundo a singularidade do desejo.
O discurso analítico permite marcar uma diferença diante das respostas médico-jurídico-assistencialistas que os trabalhadores encontram para suas demandas quando adoecem no trabalho. Com a psicanálise, é possível, por
exemplo, que o sujeito compreenda como a sua própria demanda o aprisiona à resposta do Outro. O desafio é escutar a maneira como cada trabalhador lida com as contradições que encontra no trabalho e, a partir daí, localizar no sintoma desenvolvido com o trabalho algo de um gozo pelo qual o sujeito pode responsabilizar-se e com o qual possa fazer melhor.
As propostas de investigação e intervenção em psicanálise passam pela possibilidade de ler nos sintomas que se enlaçam ao trabalho os abalos no processo de construção de um ideal ligado ao valor atribuído ao saber fazer de um ofício. Trata-se de perguntarmo-nos por que vias esse ideal porta para o sujeito um modo de gozo e de abrir as possibilidades de reconstrução de um ideal onde o saber fazer pode mobilizar recursos de simbolização e de invenção, possibilitando o laço social. Tudo isso na busca de fazer o sujeito reconhecer-se e ser reconhecido pelo traço irredutível de seu desejo inconsciente, de sua marca singular de ser falante.
Com o caso clínico apresentado, destacamos algumas orientações sobre a escuta psicanalítica dos sintomas. Um primeiro ponto diz da importância de definir o sintoma e identificar sua função para além de sua aparência fenomênica. Aqui, o diagnóstico diferencial entre psicose e neurose e suas consequências sobre a direção e a compreensão do tratamento fazem-se cruciais. Um segundo ponto diz respeito à possibilidade de afirmação de um nexo causal com o trabalho. Nenhuma perspectiva excludente de determinação social ou psicológica é possível; a própria concepção do que seja causalidade psíquica em psicanálise torna inútil e ilegítima tal redução. O nexo com o trabalho será sempre possível quando o sentido do sintoma incluir algo do trabalho naquilo que o desencadeia. O elemento do trabalho entra em uma rede de causalidades, não como lei que determinaria o evento, e o reconhecimento desse nexo não deve se sobrepor à possibilidade de acesso à referência do sintoma e de seu modo de gozo sempre singular.
Longe de buscar a normalização que atende exclusivamente a um ideal social, é ao modo singular de funcionamento de cada sujeito, com os recursos que lhe são próprios, que o psicanalista se atém. Explicitar ao sujeito o mal que o aflige ou definir sua origem no trabalho não é a intenção, pois não se trata de dar consciência às supostas relações do trabalho com o sintoma. Se tal relação existe, ela aparecerá quando o sujeito se põe a trabalho para atender à regra fundamental da psicanálise de associar livremente, dizer o que lhe vem à mente, buscando não se censurar. Essa é a estratégia para aceder ao saber que é próprio ao sintoma. Se
o paciente supõe no psicanalista um saber sobre o sintoma, tal suposição será o motor da transferência, para que apareça o saber mais genuíno do sujeito. No entanto, do lado do psicanalista, um saber sobre diagnóstico e direção do tratamento também é fundamental, como pudemos ver.
Cremos que as especificidades dos dispositivos da ergologia e da psicanálise, no que tange ao objetivo de delinear o nexo causal frente às demandas daqueles que apresentam sintomas com as situações de trabalho, são: enquanto a ergologia toma a atividade da vida para ler na relação do sujeito com o trabalho o que se depreende como possibilidades de compreensão e recriação do mesmo (não sem reconhecer esse movimento no sujeito), a psicanálise toma a atividade da pulsão na tentativa de ler, na relação do sujeito com a vida, o que dali se depreende como possibilidade de compreensão e recriação do próprio sujeito (não sem reconhecer que esse movimento se dá, frequentemente, com o trabalho).
5.6. Experiências ergológicas ao pé da letra: promovendo o saber fazer no