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A leitura clínica da psicanálise para o sintoma de Aparecida permite-nos sair da perspectiva de um disfuncionamento provocado pelo meio de trabalho, que reduziria o sintoma à classificação de suas queixas. A disfonia que aparece nos primeiros meses no trabalho de teleatendimento e a desorientação espacial e da linguagem que toma a cena sintomática após o rompimento com o trabalho, para a psicanálise, não são reduzidas a um quadro mórbido do Código Internacional de Doenças (CID), à atribuição de um psicotrópico e ao afastamento do trabalho como

solução. Nesse campo de saber, adentramos no funcionamento do sintoma como algo que porta um sentido atrelado a uma referência.

É com um passo a mais na compreensão da causalidade do sintoma apresentado com o trabalho que podemos nos orientar na condução de uma saída para o sujeito, que inclua suas invenções e o implique nelas. No caso de Aparecida, até onde conseguimos caminhar, o que aparece como insuportável no trabalho é a repetição do encontro com algo que já estava presente em sua vida: fazer-se demitir pelo Outro (pelo inconsciente como discurso do Outro).

Em sua afirmação “eu valorizei demais e fui desvalorizada”, não haveria um excesso de valor atribuído a algo que ela acredita ter e que falta ao outro, ao semelhante? Outra frase de Aparecida também se destaca: “o que passa em mim falta nele, eu tenho que amar o amor meu e o do pai”. Tanto no trabalho como no amor, o que ela valoriza muito – o bom atendimento e o amor – não funcionaria sob um excesso de valor narcísico, excessivamente idealizado, em um eu ideal que não a permite admitir que o outro a espelhe sob o signo de uma falta? O amor e o trabalho não são os campos da vida onde, segundo Freud (1930/1976), encontramos prioritariamente as saídas (ou não) frente ao mal-estar na civilização?

Como vimos com Freud (1930/1976), a renúncia à satisfação pulsional (e aqui podemos reconhecer as construções humanas no campo do amor e do trabalho) pode apresentar tanto uma face pacificante para o sujeito, no que possibilita o estabelecimento de laços simbólicos que unem desejo e lei e permite operar um ideal do eu, quanto uma face que guarda suas relações com a pulsão de morte, com a ação do superego, de um eu ideal que, usando das interdições da cultura, impõe uma forma de gozo deletéria. Saber fazer com essa renúncia pulsional, com esse obstáculo, como diria Canguilhem, ou, com Freud, com a castração, é o que está em jogo na construção de laços simbólicos entre lei e desejo. Parece-nos que estamos frente a algo cujo jogo se dá entre as normas antecedentes e as renormalizações, algo da posição que o sujeito toma frente ao Outro e que indica o caminho da pulsão e a via do desejo tornada possível.

A lógica do trabalho da telefonista permitia que Aparecida exercesse o “atender bem” sendo amorosa com o outro. No teleatendimento, e ainda mais em um setor de cobrança, outro cálculo é exigido, pois atender bem não parece ser mais o principal objetivo da empresa, e sim a efetivação da cobrança em um tempo cada vez mais reduzido. Ser amorosa, ali, não dá lucro. É por essa via que podemos

compreender o encontro de algo do trabalho com o modo de gozo de Aparecida em sua face mais mortífera, que, até onde conseguimos nos aproximar, parece exprimir- se nesse “fazer-se demitir”. Assim como em suas relações amorosas, o cálculo que ela não pôde fazer é aquele que exigiria um corte no excesso de gozo em usar seu amor para denunciar a falta no Outro. Esse é um sentido possível de seu sintoma que, mesmo tendo sido construído em apenas seis atendimentos, parece ter apontado para algo de sua referência, de seu caminho pulsional, ou seja, de seu modo singular de gozo. A direção da cura, apenas esboçada devido ao limitado número de encontros, passaria por um saber fazer no campo do amor e do trabalho enquanto privilegiados de saídas sublimatórias do mal-estar, saídas que pudessem enlaçar desejo e lei, possibilitando um posicionamento produtivo frente ao obstáculo intransponível da castração.

No último encontro com Aparecida, quando ela mostrou a foto onde indicava, envergonhada, que percebia sua parte nisso tudo, pareceu-nos que a originalidade narcísica de sua fantasia de “Supermulher TeleX” pôde, então, cair, e algo da castração pôde ser anunciado. A fantasia, enquanto disfarce (déguisement), encobria e desvelava sua fantasia (fantasme), que sempre encobre e desvela o desejo. A fantasia sempre fornece as coordenadas do desejo e cria o contexto em que o desejo é possível. Ela é, afirma Zizek (1992, p.116), “[...] o contexto que coordena nosso desejo, mas é ao mesmo tempo, uma defesa [...], um anteparo que esconde o vazio, o abismo do desejo do Outro”.

Os sintomas de Aparecida, isso do qual ela se queixa, surgem exatamente quando um ponto da fantasia deixa transparecer a falta no Outro para de novo encobri-la, para paralisar, como na foto. Lembremos que Aparecida não se desloca mais sozinha, o que exige que seu companheiro a acompanhe aos atendimentos, e que é pelo fato de não ter mais dinheiro para o deslocamento que ela interrompe os encontros. Qualquer movimento novo não aconteceria sem um deslocamento que exigiria atravessar o fantasma. Não é permanecendo na paralisia do disfarce que a originalidade do desejo poderá advir. Ainda com Zizek:

Como tal, a fantasia não deve ser interpretada, mas apenas “atravessada”: a única coisa que temos a fazer é perceber que não há nada “por trás”, e que a fantasia mascara precisamente este “nada”. (Mas há muitas coisas por trás de um sintoma, toda uma rede de sobredeterminações simbólicas; por isso o sintoma implica sua interpretação). (ZIZEK, 1992, p. 123).

Sabemos que os sintomas podem ser lidos a partir de um quadro de recursos que as estruturas psíquicas (psicose, perversão e neurose) apresentam. A busca do diagnóstico estrutural serve ao clínico como compreensão e orientação do que está em jogo na demanda apresentada. Serve também ao manejo da transferência, à escolha das intervenções e a toda a direção da cura. No caso de Aparecida, a busca diagnóstica não foi conclusiva: estaríamos diante de um caso de neurose? Teriam sido sua disfonia e seus sintomas após a demissão fenômenos onde o corpo toma a cena, impondo uma nova norma? A hipótese diagnóstica tendia para uma compreensão de que se tratava, ali, de uma histérica.

Na histeria, a posição que o sujeito toma frente ao Outro é de uma insatisfação em forma de demanda. O desejo está preso à insatisfação, em um desejo de desejo insatisfeito. Contudo, nos lembra Lacan:

Que, para curar a histérica de todos os seus sintomas, a melhor maneira seja satisfazer seu desejo de histérica – que é para ela o de colocar aos nossos olhos seu desejo como desejo insatisfeito -, deixa inteiramente fora de campo a questão específica do por quê ela só pode sustentar seu desejo como desejo insatisfeito. (LACAN, 1964/1988, p. 19).

Vimos que a causalidade psíquica deve ser pensada na relação dialética entre o sentido e a referência do sintoma. Que a estrutura histérica dê um sentido ao sintoma não exclui a tentativa de localizar nele sua referência como causalidade objetal, furo na estrutura que funciona como hiância, abertura para o desejo. Indicaria o objeto “voz” a via pulsional e referencial dos sintomas de Aparecida? Suas relações com o Outro conduzem a levantar a questão mesmo sem os recursos para respondê-la. A modalidade de relação com o objeto voz parece destacar-se desde sua escolha profissional - um trabalho com a voz - à relação com o filho caçula, do qual ela toma a voz até aos quatro anos de idade.

Nada de conclusivo, pois o tempo de escuta da paciente não permitiu isso. De toda forma, para nosso intuito, o importante é marcar que pensar a relação de causalidade entre o trabalho e seus sintomas passa por não a reduzir à pura determinação simbólica do trabalho. O desejo, por exemplo, de atender bem e ser amorosa com o cliente não é insatisfeito unicamente pela forma como o trabalho de teleatendimento é organizado. Ele o é antes disso, em sua forma mesmo de uso do objeto a, que causa o desejo. A leitura que Lacan faz do texto de Freud (1915/1976) “Os instintos e suas vicissitudes” é a de que há sempre uma atividade em jogo na pulsão que se expressa no “se fazer” (LACAN, 1964/1988). É por esse uso de si por

si, por esse “fazer-se”, que a responsabilidade do sujeito por seu modo de gozo pode ser enlaçada em um processo analítico.

Com a frase famosa do cirurgião francês René Leriche citada por Safatle (2011), “a saúde é a vida no silêncio dos órgãos”, entendemos que o adoecimento é também uma forma de o corpo falar. A psicanálise escuta-o para possibilitar ao sujeito a apreensão de um ponto de verdade na repetição de seu modo de gozo, que possibilite um saber fazer com o mais-de-gozo atrelado ao Outro, muitas vezes, por exemplo, nas atividades laborais. A ergologia escuta o corpo para apreender, nos usos de si na atividade de trabalho, possibilidades de renormalizações que possam, por um lado, ampliar as margens de regulação desse uso nas situações laborais e, por outro, produzir um retorno sobre os patrimônios de saber sobre o trabalho em questão, ou seja, um saber fazer com o Outro do trabalho. Essas são possibilidades de leitura, que podem apresentar resultados diferentes sem serem excludentes.

Safatle (2011, p. 01), trazendo Canguilhem como referência, afirma: “a saúde não é o ajustamento completo entre organismo e meio ambiente; ela é a conservação de uma margem de transcendência e de infidelidade do organismo em relação ao meio. Margem que permite ao organismo não sucumbir à primeira modificação do meio”. Com essa concepção de saúde, que é uma das bases do pensamento ergológico, afirmar uma primazia da determinação do Outro do trabalho nas doenças mentais que com ele se apresentam seria tão inútil “[...] quanto continuar o velho debate entre causalidade somática e causalidade psíquica, entre organogênese e psicogênese” (SAFATLE, 2011, p. 01). Por isso, podemos afirmar que a causa do adoecimento de Aparecida não pode ser pensada sem levar em conta sua história, seu corpo e seu meio, enlaçados em uma forma singular de gozo da vida. O nexo causal com o trabalho não deve excluir nenhuma dessas dimensões.

Acreditamos ter podido demonstrar acima a especificidade daquilo que pôde e poderia ainda ser produzido com os dispositivos da ergologia e da psicanálise frente à demanda de alguém que apresentou seus sintomas com a situação de trabalho. Partir de um caso clínico possibilitou um exercício ergológico com a própria ergologia e a psicanálise. Nossa intenção agora é retirar dessa experiência orientações para a prática da psicanálise no campo do trabalho. Primeiro, na escuta clínica do caso a caso, as possibilidades do estabelecimento dos nexos causais do

adoecimento psíquico com o trabalho. Depois, na busca pela função do analista no DD3P e do saber fazer com o trabalho e o sintoma.

5.5. Experiências ergológicas ao pé da letra: estabelecendo os nexos causais