“O conceito é obrigação, a razão uma disciplina, a história da ciência uma ascese”50. Essa é a lição que Schwartz (1994, p. 239, tradução nossa) afirma ter
aprendido em um primeiro tempo de seu encontro com o pensamento de
Canguilhem, cuja epistemologia deve ser entendida como uma história do conceito e não de uma teoria ou da ciência como um todo. Umateoria é constituída por um conjunto de conceitos que formam um sistema conceitual. Nele, enquanto o conceito assinala a existência de uma questão, ou seja, formula um problema, a teoria apresenta uma resposta, sugere uma solução. O privilégio dado ao conceito implica em reconhecer a ciência como processo, e centrar a epistemologia na história do conceito é uma forma de distingui-la da história social. Para Canguilhem, os conceitos não têm fronteiras epistemológicas, podendo se situar em diferentes ciências.
Com a ergologia, há um encontro da epistemologia do conceito e “os recentramentos industriosos”51 que Schwartz reconhece como seu segundo
encontro com a obra de Canguilhem. Nesse reencontro, o terreno dos conceitos é o das atividades de trabalho, da ideia de trabalho como experiência, da crise do taylorismo como possibilidade de pensar seus erros, do trabalho em conjunto de ergonomistas, médicos, economistas, tecnólogos e outros trabalhadores (SCHWARTZ, 1994).
Schwartz define quatro pontos como pressupostos básicos para compreendermos a contribuição de Canguilhem à especulação filosófica sobre o trabalho:
1. Vista à lupa, a variabilidade dos atos individuais faz lei. A invivível repetição é no fundo impossível porque, na situação de trabalho, tudo muda no ínfimo. Deste fato, mesmo a organização taylorista requer dos seres aptos a gerir essa infiltração do histórico no standard. 2. A distância observada pelos ergonomistas entre o trabalho prescrito e o trabalho real inverte-se: de perturbação em relação às normas, como compreendido inicialmente por aqueles que concebem dispositivos sofisticados (aeronáutica militar...), essa distância torna-se condição de possibilidade para um domínio do histórico. 3. As micro-normas são cada vez recriadas na atividade, que ressingulariza a situação de trabalho por recentramentos parciais das obrigações produtivas, em torno de um centro humano de escolhas e de ações. 4. Os conceitos teóricos-técnicos, sócio- organizacionais, antecipam in absentia a sequência dos atos; mas o eixo experimental do trabalho, ao reconfigurar individualmente e coletivamente esses programas, antecipa também de outro modo isso que a concepção, como se diz nas empresas, identifica depois
51
Les recentrements industrieux, termo utilizado por Schwartz como título da segunda parte de seu artigo “Une remontée en trois temps: George Canguilhem, la vie, le travail”. (SCHWARTZ, 1994, p. 241).
como novas questões. (SCHWARTZ, 1994, p. 242, tradução nossa)52.
Tudo isso, lembra Schwartz (1994), já estava em Canguilhem. No campo da atividade de trabalho, tudo o que se faz e que se deixa de fazer, cada gesto, atitude, tomada de decisão, criações linguageiras, tudo que se produz no cotidiano do trabalho é, mesmo que infimamente, uma ressingularização, uma renormalização, uma expressão mesmo da vida que reconfigura as normas, as obrigações, as instruções que compõem o meio de trabalho. Parafraseando Schwartz (1994, p. 245), o meio em Canguilhem é um campo de experiências que se deslocam por todo tipo de técnica e emprego de objetos que virtualmente nunca param de erodir as categorizações, solicitando o retrabalho do conhecimento e a promoção de normas de usos por nós. É por essas vias que vida e conceito se enlaçam em Canguilhem.
Schwartz (1994, p. 245, tradução nossa) afirma ainda que, cada vez que Canguilhem volta a relacionar a faculdade dos conceitos à obrigação clínica, assumindo “a primazia de um lugar subjetivo como centro de avaliação, ele o balança e o justifica em nome de um racionalismo que ele reivindica sem concessão” 53. Para Canguilhem, o fato de a ciência buscar sempre explicar a
experiência não a anula. É por isso que a clínica se aproxima melhor da experiência, como ele demonstra:
Ora, a clínica não é uma ciência e jamais o será, mesmo que utilize meios cuja eficácia seja cada vez mais garantida cientificamente. A clínica é inseparável da terapêutica e a terapêutica é uma técnica de instauração do normal, cujo fim escapou à jurisdição do saber objetivo, pois é a satisfação subjetiva de saber que uma norma está instaurada. Não se ditam normas à vida cientificamente. Mas a vida é esta atividade polarizada de conflito com o meio, e que se sente ou não normal, conforme se sinta ou não em posição normativa. (CANGUILHEM, 2009, p. 153)
52
Vus à la loupe, la variabilité des actes individuels fait loi. L’invivable répétition est au fond impossible parce que, de la situation de travail, tout change dans l’infime. De ce fait, même l’organisation taylorienne requiert des êtres aptes à gérer cette infiltration de l’historique dans le standard. 2. L’écart observé par les ergonomes entre travail prescrit et travail réel se renverse : de perturbation par rapport à la norme comme compris initialement par les concepteurs de dispositifs sophistiqués (aéronautique militaire...), cet écart devient condition de possibilité pour une maîtrise de l’historique. 3. Des micro-normes sont donc chaque fois recréées dans l’activité, qui resingularisent la situation de travail, par recentrement partiel des contraintes productives, autour d’un centre humain de choix et d’action. 4. Les concepts théorico-techniques, socio-organisationnels, anticipent in absentia la séquence des actes ; mais l’axe expérimental du travail, en reconfigurant individuellement et collectivement ces programmes, anticipe aussi mais autrement ce que la conception, comme on dit dans l’entreprise, identifiera ultérieurement comme nouvelles questions.).
53
la primauté du local subjectif comme centre d’évaluation, il le balance et le justifie au nom d’un rationalisme qu’il revendique sans concessions.
O que a clínica ergológica guarda da clínica canguilheniana do jogo dos conceitos na experiência do vivente é sua proposta de existir enquanto démarche cujo campo e disciplina (no sentido de exigência) reinterrogam e reinstruem o campo e a disciplina epistêmica. “O conhecimento é assim enigmaticamente reenviado à experiência. Isso deveria explicar porque a interrogação sobre as dimensões do trabalho aparecerá ao mesmo tempo de natureza epistemológica” (SCHWARTZ, 1988, p. 26, tradução nossa)54.
Schwartz, em seus últimos seminários públicos na Universidade de Provence55, tem dado continuidade ao seu programa ambicioso, como ele próprio diz, sobre a questão das epistemicidades e da produção de saberes. Essa é uma proposta que ele julga um ponto forte da démarche ergológica e que é indispensável, singular em relação a outros discursos sobre trabalho, atividade, subjetividade, etc. O autor afirma ser fundamental – em relação a isso que está no centro mesmo do engajamento ergológico – o poder de transformar, de pensar de outra forma a vida, a atividade e o trabalho. Defende que, sem lançar luz sobre questões como o que é e o que não é conceito e o que o produz, não temos as ferramentas necessárias para obter a força de protagonismo dessas mudanças. Schwartz afirma que há uma dimensão transformadora essencial que é a da produção de saberes e que o termo canguilheniano de usurpação serve de baliza entre as reflexões epistemológicas e os engajamentos transformadores.
O autor segue afirmando que toda a proposta de trabalho das epistemicidades origina-se do conceito de atividade como debate de normas, como vem sendo elaborado pela démarche ergológica nos últimos trinta anos. É o conceito de atividade, e não há outro, que permite, por exemplo, dividir as epistemicidades em tipos (como veremos abaixo), falar de usurpação e, finalmente, fazer um trabalho como epistemólogo, diferente da epistemologia que se faz nas universidades. O ergoengajamento, como Schwartz o nomeia, é um engajamento por colocar em cena a atividade humana. Se há renormalização e debates de normas, há que se engajar nisso, o que envolve uma postura enquanto educador, formador, agente de prevenção, sindicalista, político, entre outras, para dar visibilidade à atividade
54
La connaissance est ainsi énigmatiquement renvoyée à l’expérience. Ceci devrait expliquer pourquoi l’interrogation sur les dimensions du travail apparaîtra en même temps de nature épistémologique.
55 Informação oral, obtida nos seminários públicos de Schwartz sobre as epistemicidades - o primeiro
humana. O objetivo desse engajamento transformador é localizar as derivas usurpadoras do uso do conceito e o que poderia ser um uso sadio da faculdade do mesmo.
É seguindo essa proposta que Schwartz propõe uma diferenciação entre os campos e as disciplinas epistêmica e ergológica.
O campo epistêmico demarca tudo o que deve ser estudado neutralizando-se as dimensões históricas do meio e do tempo, ou seja, os debates de normas. A exigência nesse campo enquanto disciplina epistêmica é o exercício do pensamento, visando a produzir conhecimentos na tentativa de neutralizar condições ambientais, históricas, singulares, enraizadas ao aqui e agora no qual se opera esse trabalho de produção.
Já o campo ergológico demarca tudo o que não pode ser estudado fora do meio e da história, sujeito ao debate de normas. A exigência nesse campo enquanto disciplina ergológica é sempre a do reconhecimento da dupla antecipação56 na
dialética entre linguagem e atividade, exercício de se perseguir (em tendência) os debates de normas (operados pela dupla antecipação) até a dimensão mais singular da atividade, confrontando-a ao meio, à história, exercitando um desconforto intelectual (saber desconhecer para se instruir da situação) em cada situação singular.
Schwartz tem buscado desenvolver, em seus últimos seminários públicos, uma forma de agrupar conceitos em diferentes tipos de epistemicidades, tomados em relação às possibilidades de debates de normas que veiculam. Assim, quando se diz que um conceito apresenta uma epistemicidade do tipo 1, ele é tido como elemento do conjunto dos conceitos em que o trabalho do conhecimento visa aos objetos sem atividade, ou seja, sem debate de normas. Schwartz apresenta como exemplos: a lei da queda dos corpos, o princípio da inércia, o conceito de calor específico, o DNA, etc. Eles integram as normas de seus campos de conhecimentos específicos como normas antecedentes no emprego de suas técnicas, estando em total desaderência, ou seja: sua validade está disjunta do momento e do lugar que se encontra em causa.
Uma epistemicidade do tipo 2, por sua vez, agrupa conceitos cuja formalização normativa e/ou antecipativa referem-se a configurações que incluem a
56 Se o uso da linguagem com conceitos e saberes busca antecipar a atividade, ela também sempre
atividade humana. Apresentam-se sob a forma de normas da vida social, que se cristalizam em conceitos, leis, regulamentos, procedimentos (como o sistema jurídico, as regras do urbanismo, as normas de segurança, os contratos de trabalho, os organogramas empresariais, etc.). Esses conceitos apresentam-se também como normas antecedentes, mas seu tipo de epistemicidade permite reconhecer a presença de debates de normas, já que visam a objetos com atividade. O objeto da norma jurídica, por exemplo, é sempre mais ou menos vivo e engendrado pelos debates daqueles que a vivem.
Já uma epistemicidade do tipo 3 engloba conceitos que visam o conhecimento da alteratividade, próprio às disciplinas humanas e sociais. Nelas, a atribuição do termo "ciência" deve ser entendida como reivindicação. São disciplinas cujos conceitos não buscam normatizar, mas conhecer os fenômenos humanos. Schwartz é atento ao fato de que o pressuposto de modelização possível dos comportamentos humanos nessas disciplinas pode acabar por instrumentalizar e legitimar sua deriva à epistemicidade do tipo 2, apresentando-se como usos que ele vai chamar de não sadios ou usurpadores, em referência a Canguilhem. Como exemplo de tal usurpação, estão: modelos empregados em teorias sobre competências, que buscam neutralizar ou subdimensionam a dimensão histórica e de debate de valores na experiência produtiva; formas de gerenciamento baseadas em teorias de motivação; teorias econômicas baseadas na noção de homo economicus. Esses empregos usurpados de conceitos conduziriam ao risco de um apagamento do próprio poder de governo das atividades humanas.
Outra epistemicidade proposta é a do tipo 3bis, onde as conceitualizações não visam a descrever a norma ou o porvir das atividades humanas unicamente a partir das normas antecedentes. Ela marca a impossibilidade de se modelar, antecipar ou explicar de maneira satisfatória a alteratividade a partir de hipóteses gerais e/ou anteriores ao evento. A construção desses conceitos impõe situar em seu seio o momento da aprendizagem e o exercício da capacidade de se desprender de prévias categorias, em um esforço do desconforto intelectual. Busca aproximar-se ao máximo da experiência nas atividades humanas dos debates de normas e ressingularizações que cada atividade engendra. Como exemplos, temos
uma série de conceitos ergológicos, como debates de normas, dupla antecipação, renormalização, corpo-si, saberes investidos, entre outros57.
O reconhecimento dos diferentes níveis de epistemicidade e a possibilidade de colocá-las em debate constituem a oportunidade de deslocamento dos conceitos em usos mais ou menos promotores de renormalizações, nas aderência e/ou desaderência ao aqui e agora. O epistêmico, ligado ao objetivo de conhecer, é sempre pensado, na ergologia, em sua relação com o transformativo, agir que modifica o estado das coisas. Toda atividade conjuga essas duas dimensões, e o que se busca em uma clínica de abordagem ergológica é o reconhecimento dos diferentes saberes e seu deslocamento quando postos em debate.
É com o “dispositivo dinâmico a três polos” (DD3P) que a ergologia se propõe a por em funcionamento seu dispositivo clínico de intervenção, produção e circulação de saberes, visando a ampliar a lacuna entre as normas antecedentes do trabalho (que poderíamos identificar ao Outro do trabalho, com a psicanálise) e as possibilidades de renormalizações dos sujeitos. Ela busca também fazer aparecer nessa lacuna as dimensões do uso do corpo-si por si e pelo outro e reconhece nesse lugar de tensão o que, com a psicanálise, poderíamos apontar como uma divisão do sujeito. Também nos valendo da teoria psicanalítica, podemos dizer de uma clínica que aposta na palavra como resposta ao mal-estar.
Constatamos que o uso do corpo-si é um conceito central na operacionalização clínica da démarche ergológica. É com ele que se preserva a tensão entre o individual e o coletivo, o psíquico e o social, entre o prescrito do trabalho e a sua realização, entre as normas antecedentes e as renormalizações sempre em parte singulares, no centro da dramática da vida, em uma dimensão sempre em parte coletiva e em parte individual.