porta e recompõe, algo que não pode ser apreendido fora do tempo e do espaço em que se inscreve, já que é expressão sempre singular e coletiva do uso de si. Esse seria o posicionamento ético necessário à produção e à circulação de novos saberes e valores como parte integrante de sua visada clínica.
A atividade do ergopraticante requer, assim, o reconhecimento da via singular de acesso de cada sujeito a um saber próprio (acreditamos que a psicanálise pode ter algo a contribuir ao reconhecer um saber no sintoma), mas não só isso: requer também o reconhecimento de saberes e valores sobre o trabalho construídos coletivamente em um movimento dialético (e aí caberia à psicanálise poder aprender algo com esse saber que nos parece genuíno da ergologia).
4.10. Sobre a prática “psi” e ergológica no campo da psicopatologia do trabalho
Voltando ao foco de nosso problema de pesquisa, as relações causais entre trabalho e adoecimento mental, e ao nosso objetivo nesta tese, que é dialogar os conceitos de sintoma e uso de si para lidar com o problema, podemos reconhecer que a abordagem clínica que é própria à ergologia faz operar com a noção de dramáticas do uso do corpo-si, de causalidade entre trabalho e noções de saúde e doença que em nada se reduzem a um uso dogmático do conceito de causa. Como adverte Schwartz:
As noções de saúde e doença permanecem parcialmente questões singulares, dados fundamentalmente subjetivos distinguíveis pela natureza da relação entre o indivíduo e seu meio – sejam relações potencialmente criativas, sejam estreitadas quanto às normas de ação –, então a questão da relação entre trabalhadores e seus meios de trabalho entra com pleno direito em uma problemática da saúde e integra bem ipso facto esse dado
subjetivo que é a maneira como o vivente vive seu meio de trabalho. (SCHWARTZ, 2000b, p.405)61.
É sobre esse dado subjetivo que aponta a maneira como o vivente vive seu meio, sobre esse uso de si que aí se empreende, que a noção de sintoma no campo do trabalho pode lançar alguma luz. O sujeito ou o corpo-si, como o tomam a psicanálise e a ergologia, respectivamente, não é puro agente egóico da ação. Ele é também afetado como objeto de uma ação do significante, das pré-inscrições, normas antecedentes do meio. Aquilo que ele tem de mais singular é sua relação com o objeto causa de seu desejo, com o qual realiza renormalizações sucessivas do meio, mas que resta sempre parcialmente inconsciente. Como apontou Schwartz (2000b), nas relações entre o indivíduo e o meio, o adoecimento fica como uma questão singular.
Há sempre que se destacar, com a ergologia, a dimensão do coletivo. A clínica ergológica busca ser uma clínica de coletivos mais ou menos formalizados e de meios de trabalho relativamente homogêneos. O uso de si é tomado no coletivo pela singularidade da dramática do corpo-si frente às normas do meio de trabalho. Cada corpo-si reinterpreta as normas do meio à sua maneira, mas com relativa pertinência coletiva, e, assim, o meio vai sendo recriado.
A ergologia, ainda que assuma a dimensão do inconsciente, não se propõe a discutir essa dimensão, já que ele não é seu objeto de investigação. Contudo, ela não deixa de tratar do mal-estar e suas manifestações sintomáticas em cada sujeito e nos coletivos relativamente pertinentes. Como podemos verificar nesse trecho de Schwartz, ela chama a psicanálise ao diálogo:
Nós cremos ser necessário distinguir, em primeiro lugar, e levar em conta toda a importância estruturante dos processos simbólicos de hominização, que selam, como a psicanálise o ensinou, as coerções internas a retomar, de formação inconsciente, cuja profundidade e remanescência não são contestáveis. Nós acrescentamos somente isso: esta dimensão simbólica, especificamente singular e ligada a efeitos profundos, vem em ruptura com o que nós dissemos do “si” e das transições deste último no “eu”? [...] Que esta história vulnerante e que ninguém atravessou incólume (o Édipo) produz seus efeitos tardios nas formas particulares do uso de si no seio dos coletivos e das configurações de trabalho é para nós um elemento determinante para militar em favor de um conhecimento destas
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les notions de santé et de maladie restent en partie affaires singulières, données fondamentalement
subjectives repérables par la nature des relations entre l’individu et son milieu – relations soit potentiellement créatives soit rétrécies quant aux normes d’action – , alors la question du rapport entre les travailleurs et leur milieu de travail rentre de plein droit dans une problématique de la santé, et intègre bien ipso facto cette donnée subjective qu’est la manière dont le vivant vit ce milieu de travail.
configurações, sempre em parte clínico, na medida em que a singularização é por este fato inesgotavelmente renovada. Mas, ao inverso, pode-se pensar que a história destas configurações sociais, dos usos de si contraditórios que aí se desenvolvem e aí se bloqueiam em ligação com os afrontamentos e as grandes escolhas coletivas, nas quais elas são o teatro, não desempenha de volta um grande papel na singularização dos processos de acesso ao simbólico? Não haveria aí um efeito que se poderia dizer indireto, um eco ensurdecedor, mas eficaz das formas históricas de individualidade? Se se admite que entre o nome do pai e a identidade concreta do pai se determina uma modalidade de posicionamento simbólico que afetará as retomadas futuras, como não se ver que a singularidade de configurações sociais alimenta, de volta, o fato mesmo das histórias singulares? (SCHWARTZ, 2000, p. 22).
Schwartz toca em uma questão que Lacan retomou em sua leitura da função do mito de Édipo, trazendo elementos como a presença do significante do Nome-do- Pai como condição de possibilidade do sintoma e sua pluralização na civilização contemporânea. A psicanálise está atenta a essa singularidade de configurações sociais que “alimenta, de volta, o fato mesmo das histórias singulares”, como diz Schwartz (2000, p. 22). É o que Miller (1998, p. 9) destaca: “como operar todos os dias na prática, sem inscrever o sintoma no contexto atual do laço social que determina sua forma, na medida em que ele o determina na sua forma?”.
Reconhecer as relações entre laço social e sintoma é reconhecer que há uma história do sintoma, que se trata de um conceito sujeito a debates de normas, que inclui em si uma dimensão de atividade. Essa história do sintoma na psicanálise é parte central da história da própria psicanálise e de seus conceitos, que não param de se reformular, sendo vagos e com pressupostos provisórios (FREUD, 1923a/1976), modelando-se ao se aproximar da realidade que buscam apreender (LACAN, 1964/1988).
Se tomarmos o quadro classificatório das epistemicidades de Schwartz para nele buscar um lugar para os conceitos psicanalíticos, não somos levados a identificá-los como sendo conceitos do tipo 3bis? São conceitualizações também marcadas pela impossibilidade de se modelar, antecipar ou explicar de maneira satisfatória a atividade do outro, não partindo de hipóteses gerais e/ou anteriores ao evento, à dramática do uso de si que o relato do paciente atualiza na relação de transferência com o analista. Segundo Freud:
PSICANÁLISE é o nome (1) de um procedimento para a investigação de processos anímicos, que são pouco acessíveis de outra maneira; (2) de um método de tratamento das perturbações neuróticas, que se fundam sobre essa investigação; (3) de uma série de pontos de vista psicológicos, adquiridos por esta via, que crescem progressivamente para se juntarem numa disciplina científica nova. (FREUD, 1922/1976, p. 287).
Nessa definição de Freud para a psicanálise, o que nos chama a atenção é a ordenação, a hierarquização não aleatória que ele atribui ao procedimento de investigação, ao método de curar e ao discurso teórico. Trata-se de um método de investigação do qual decorre uma terapêutica e que, juntos, resultam em um discurso teórico, sempre provisório e instruído da prática clínica.
É isso que faz da clínica analítica, além da especificidade de seu “dispositivo” de escuta, uma contribuição exemplar para a racionalidade clínica. Seu lema é a fórmula, prezada por Freud, de que “o exemplo é a própria coisa”, ou seja, de que longe de se contentar em ilustrar, o exemplo permite exibir, em sua singularidade, uma verdadeira lei. (ASSOUN, 1991, p. 69).
A atividade clínica na psicanálise é a própria demonstração do que se pode saber em um só e mesmo ato. Esta é a genuína condição da clínica freudiana: o que o paciente diz não se presta a generalizações conceituais ou classificações estatísticas. O dito é tomado ao pé da letra, não é índice da coisa que seria pronunciada, mas a própria presentificação da impossibilidade de dizê-la toda. O emprego da psicanálise como técnica encontra em Freud a lúcida constatação de sua limitação na clássica tríade das “profissões impossíveis”:
Parece que a psicanálise é a terceira das profissões impossíveis em que podemos ter certeza, de antemão, de não produzir o efeito esperado, sendo as outras duas, conhecidas há muito mais tempo, a arte de educar os homens e a arte de governar. (FREUD, 1937/1976, p. 282).
Com a ergologia, podemos depreender que o que é impossível (termo ao qual Schwartz sempre acrescenta o invivível) em governar, educar e curar é a chamada heterodeterminação das normas de agir: “podemos pensar que se essa heterodeterminação fosse possível e vivível, então não haveria atividade, e não haveria também a vida” (SCHWARTZ, 2011, p. 59). Da denegação dessas impossibilidades, decorrem tanto as fantasias da impotência quanto a ilusão da prepotência, frequentemente sustentadas nos usos de si que os sujeitos realizam nas formas sintomáticas de suas queixas, ou, por outro lado, nos usos usurpados dos conceitos que reafirmam tais prepotências e impotências.
O conceito de sintoma, tal como a psicanálise o faz operar, guarda sempre um sentido positivo de um processo de trabalho em funcionamento. Como nos sonhos, nos atos falhos, no lapso, no chiste, Freud reconhece no sintoma uma atividade inconsciente, englobando-os na categoria de formações do inconsciente, que apresentam uma “homologia dos processos de ‘trabalho’ em ação” (ASSOUN,
1991, 32). Não são esses mesmos processos de trabalho, essas mesmas atividades inconscientes, que percorremos aqui como cerne do que está em jogo nas dramáticas do uso do corpo-si nos sintomas com o trabalho? Tanto a ergologia quanto a psicanálise, ao buscarem desvelar, cada uma em seu nível, atividades e modos de funcionamento, não contribuem com o campo da psicopatologia do trabalho?
Com a ergologia, podemos dar visibilidade à dimensão de uma relativa pertinência coletiva dos sintomas com trabalho. Isso exige desvelar as invenções e as limitações do uso de si frente às dimensões do Outro presentificado nas normas antecedentes do trabalho. Não contribuiria, também, com a ampliação da possibilidade de ação dos indivíduos nos meios de trabalho, transformando-os, ainda que dentro do limite de sua relativa pertinência? Não é aí que a ergologia recorta seu âmbito de ação? Essa parece ser uma importante dimensão da contribuição ergológica para a prática no campo da psicopatologia do trabalho, como uma clínica da relativa pertinência do Outro do trabalho.
Por outro lado, com a psicanálise, se a dimensão do Outro (que inclui o Outro do trabalho) se faz reconhecer nas formações do inconsciente, o corte no âmbito de ação não é localizado em uma dimensão ainda mais singular? O que temos aí como pré-inscrito, que são as normas antecedentes propostas pelo meio, não interessa à psicanálise senão naquilo que reenvia o sujeito ao uso sempre singular do objeto causa de seu desejo. É nessa dimensão ainda mais singular que a psicanálise pode possibilitar, com sua clínica, uma ação do sujeito sobre seu próprio sintoma.
Essas são algumas questões que tentaremos desenvolver no próximo capítulo desta tese, a partir de outro caso clínico.