Os ideais de frugalidade propostos em Clarens aproximam muito esta pequena comunidade de algumas ideias abordadas por Rousseau, ao tratar do estado de natureza20. Por exemplo, há nos habitantes dessa pequena sociedade uma preocupação em cultivar em seu trabalho cotidiano apenas o necessário para a sua manutenção, dispensando assim todo desnecessário ocasionado pelo cultivo do supérfluo. Ora, tal concepção se aproxima muito com aquilo que faz o homem primitivo no estado de natureza descrito por Rousseau em seu Segundo discurso:
Foi por uma providência muito sábia que as faculdades que possuía em potencial só deveriam desenvolver-se com as ocasiões de as exercer, para que não lhe fossem supérfluas nem onerosas antes do tempo, nem tardias e inúteis às suas necessidades. Ele tinha, unicamente no instinto, tudo de que precisava para viver em estado de natureza, e, numa razão cultivada, apenas o de que precisa para viver em sociedade. (ROUSSEAU, 1999b, p.72).
20 Rousseau desenvolve toda uma crítica abordando o abandono do homem à sua condição natural em sua obra Discurso sobre a origem e o fundamento da desigualdade entre os homens. Segundo a obra, o homem abandona um estado de frugalidade e liberdade para constituir uma sociedade na qual vive dependente de suas novas necessidades, frutos de suas paixões desenfreadas. Para o genebrino, é a própria sociedade adotada pelo homem que gera esse contexto de corrupção.
É claro que mesmo numa cultura moderada como Clarens, o homem está longe de produzir somente o necessário à sua subsistência, contudo, isso não consiste num problema que venha abalar a sobriedade e moderação propostas por Jean-Jacques à sua sociedade ideal. Clarens jamais pode ter as mesmas características do estado de natureza, uma vez que pertence ao estado civil, porém, seus habitantes tentam amenizar à medida do possível a proliferação dos excessos próprios da sociedade. Em uma passagem em que Saint- Preux reproduz parte de um discurso de Júlia, Rousseau nos deixa bem clara a sua concepção de uma vida que aproxime o indivíduo social do homem em seu estado de natureza:
Pelo contrário, uma ordem de coisas em que nada é concedido à opinião, onde tudo tem sua utilidade real e que se limita às verdadeiras necessidades da natureza não oferece apenas um espetáculo aprovado pela razão mas um espetáculo que satisfaz aos olhos e ao coração, pelo fato de o homem nele ver- se somente através de relações agradáveis, como se se bastasse a si mesmo, pelo fato de a imagem de sua fraqueza não se evidenciar e pelo fato de esse quadro risonho nunca excitar reflexões tristes. (ROUSSEAU, 1994, p.474)
Júlia, ao descrever a postura ideal que deve ser adotada pelo homem social, na verdade enuncia algumas características próprias da vida no estado de natureza como, por exemplo, o fato de se adequar aquilo que se produz às verdadeiras necessidades, a atitude de se buscar a utilidade real das coisas, e a postura de tornar a relação interpessoal tão agradável, ao ponto de o indivíduo sentir-se como se se bastasse a si mesmo. Isso é fácil de ser entendido, uma vez que quanto menos o indivíduo multiplicar suas necessidades, fazendo opção primária pelo que é útil e necessário, menos dependerá do auxílio de outrem para concretizar seus desejos, que não serão tão longe do alcance de suas forças. O discurso de Júlia, descrito na 2º Carta da 5ª parte por Saint Preux, dá a entender que uma postura frugal
em relação aos bens produzidos em sociedade constitui um importante elemento para o estabelecimento de relações agradáveis entre as pessoas; com isso poderíamos compreender, como nos sugere o texto, que a opção por aquilo que se faz mais necessário e útil, em detrimento do supérfluo, é uma atitude mais concordante com a razão e com os sentimentos. É muito interessante notarmos a terminologia espetáculo utilizada por Júlia, ao se referir à grandiosidade que constitui a adesão a uma vida moderada, cuja opção leva a um quadro risonho e isento de reflexões tristes. Rousseau, através do recurso da metáfora, expressa sua aprovação à postura descrita por Júlia; desta forma, o verdadeiro espetáculo é aquele que está isento da pompa e do luxo, que não se utiliza dos excessivos frutos de necessidades forjadas, cuja função é comprazer apenas aos olhos, isto é, necessidades inúteis e superficiais. Com isso, é possível entendermos que um espetáculo que satisfaz aos olhos e ao coração constitui as necessidades úteis e verdadeiras, indispensáveis para se viver bem em sociedade; satisfazer aos olhos e ao coração com a aprovação da razão pode ser interpretado como sendo a justa medida, ou seja, aquilo que não exagera nem em um ponto, nem em outro, é o meio em que se pode encontrar a virtude, como cogitavam os antigos gregos.
Ora, por sua vez, Montesquieu concorda com Rousseau no que concerne à sua defesa de uma postura de vida moderada, e, da mesma forma, demonstra aversão ao cultivo do luxo. Isso pode ser constatado numa breve passagem em sua obra O espírito das leis: “o luxo contrário ao espírito de moderação deve ser banido”. (MONTESQUIEU, 1973, p. 108). É possível ver claramente que assim como nos é esboçado em A Nova Heloísa, também na obra desse pensador francês, o espírito de comedimento é incompatível com o do luxo; além disso, há, expresso claramente nas palavras de Montesquieu, o desejo de se banir o luxo em favorecimento da moderação. Através da obra de Montesquieu, é possível completar
o sentido do motivo pelo qual Júlia defende o discurso do cultivo apenas das necessidades verdadeiras e da adequação da produção restringida às coisas que têm utilidade real.