Pois bem, Rousseau, através da observação de Saint-Preux em relação a Júlia, define a moderação como um fator que tem como uma de suas características o poder de fazer com que o indivíduo tenha uma melhor relação com o seu próximo; isso pelo fato de que , como foi dito acima, com um número menor de necessidades, a dependência em relação a outrem para satisfazê-las também diminuir. Todavia, há um outro ponto a ser vislumbrado no discurso de Júlia que pode ser corroborado justamente em virtude da comparação realizada entre a concepção do pensador genebrino e a do francês acerca do tema. Se o comedimento se constitui um espetáculo que agrada aos olhos e ao coração capaz de proporcionar relações agradáveis, poderíamos também entender que tais relações constituem não só uma amenização da dependência interpessoal a que está exposto o homem social, enquanto partícipe de um corpo coletivo, como, outrossim, são agentes responsáveis pelo anteparo de uma pretensão de igualdade, entendida como uma proporção material entre indivíduos. Mesmo em Clarens, fica bem claro que, embora haja uma relação harmoniosa entre seus habitantes, é explícita uma diferença de condições e a desigualdade de bens, todavia, a igualdade de Clarens pode ser compreendida como aquela que não gera nem ricos e nem pobres, pois todos são felizes dentro de seu próprio lugar. A Senhora de Wolmar, segundo
Saint-Preux, observa bem isso ao enfatizar sua discordância em relação à mudança de condição:
A grande máxima da Senhora de Wolmar é pois a de não favorecer as mudanças de condição social mas a de contribuir para tornar feliz cada um na sua, sobretudo a de impedir que a mais feliz de todas, que é a do camponês num estado livre, se despovoe em favor das outras”. (ROUSSEAU, 1994, p.464).
Com isso, a igualdade proposta em Clarens consiste em fazer com que cada um se sinta satisfeito com aquilo que já possui, isto é, que a suficiência tanto material quanto espiritual seja encontrada dentro da própria condição social de cada um. Desta forma, mesmo que haja condições sociais distintas, estas não são vistas como um fator de desigualdade, uma vez que Rousseau chama a atenção para uma conformação e suficiência diante daquilo que se possui; a desigualdade só existe diante de um sentimento e um olhar de inconformidade e insatisfação de uma condição ao observar outra. Isso fica bem claro, ao se observar a postura do casal Wolmar: “Ao iniciar a vida em comum examinaram o estado de seus bens; não consideraram se eram proporcionais à sua categoria social mas às suas necessidades”. (ROUSSEAU, 1994, p. 458). Desta forma, poder-se-ia concluir esse ponto, afirmando que a igualdade concebida em Clarens consiste na filosofia de proporcionar ao indivíduo aquilo que lhe é necessário para ser feliz, e não o que é igual ao que outro possui. A felicidade é mais um contentamento com o que se possui do que a simples possessão de algo com o único objetivo de se fazer notar em determinada condição social. É nesse ponto que poderíamos recorrer à crítica de Montesquieu ao problema gerado pelo luxo; segundo ele, o luxo está diretamente relacionado com desigualdade das fortunas: “O luxo é proporcional à desigualdade das fortunas. Se, num Estado, as riquezas são distribuídas proporcionalmente não haverá luxo,
pois ele é baseado somente sobre os haveres obtidos pelo trabalho alheio.” (MONTESQUIEU, 1994, p.107). Fica bem claro que o luxo é indicativo de uma sociedade que pratica uma política de distribuição de bens injusta. Enquanto alguns indivíduos se beneficiam de uma ociosidade corrupta, há outros tantos que têm que trabalhar para sustentar suas superfluidades sem limites. Desta forma, o luxo adquire uma índole injusta e uma degradação que o insere no mesmo patamar de um roubo, uma vez que se beneficiar de algo alheio, como é o caso do trabalho, não pode ser denominado de outra forma. A sociedade que se conforma com esse tipo de corrupção não pode ser qualificada como uma sociedade que tenha como prioridade o estabelecimento pleno da justiça e da ordem. O próprio luxo só pode ser definido como aquilo que alguns detêm e a maioria não possui; assim, a sua própria essência consiste numa distinção de pessoas, num fazer-se notar por algo que poucos indivíduos têm acesso. Em outras palavras, se todos possuíssem o luxo, este deixaria de sê-lo.
Com isso, é possível ver pontos de concordância entre as duas obras, uma vez que tomando o luxo como o contrário da moderação e do comedimento, como explicita Montesquieu, chega-se à conclusão de que em uma sociedade em que não exista frugalidade, isto é, em que não se dê viés às necessidades verdadeiras e adequadas à utilidade real, consequentemente, haverá desigualdade. A partir do momento em que homem não mais precisar se preocupar em trabalhar para sanar suas necessidades básicas, sentirá uma necessidade nova de engendrar ocupações para sanar as lacunas de sua vida ociosa. Contudo, aquele que por conta de sua fortuna se vê com mais tempo livre que os demais indivíduos mergulha num profundo engano. O indivíduo ocioso vive constantemente atormentado por necessidades novas que vicejam em sua mente a todo instante e das quais não pode viver sem. Por outro lado, o homem que trabalha para seu sustento não tem tempo de se preocupar com
novas necessidades, uma vez que as únicas que lhe interessam são aquelas que satisfarão seus anseios imediatos. Tornar-se escravo da própria ociosidade é algo mais ruinoso que trabalhar por bens moderados, pois a ausência de limites com relação ao desejo de possuir leva o indivíduo a um estado de dependência de outrem muito maior.