BÖLÜM II: BALKAN SAVAŞLARI’NDA MEHMED ESAD PAŞA
2.6. Yanya’nın Teslim Olması ve Esaret Günleri
Em O nascimento da inteligência na criança, Piaget (1936/1987) nos explica que a
atribuição de significações é sempre dependente de uma estrutura ou sistema dentro do qual
um objeto do conhecimento é assimilado, e que essa estrutura vai ficando cada vez mais
complexa, ampliando-se, ao mesmo tempo em que se conserva, possibilitando a atribuição de
significados cada vez mais complexos e multidimensionais. Assim, o que era a estrutura total
num momento inicial, passa a ser uma subestrutura no momento seguinte, compondo essa
estrutura total maior, mas não deixando de existir enquanto subsistema. Baseando-nos nessa
construção formal, desenvolvemos a hipótese segundo a qual, na construção da linguagem
verbal por um bilíngüe precoce, as duas línguas representariam dois subsistemas integrantes
de um sistema lingüístico maior, respeitando o mesmo processo de ampliação e conservação
concomitantes, garantindo a diferenciação entre os subsistemas e a integração dos mesmos
num sistema total maior.
É uma forma de compreender o desenvolvimento bilíngüe que parte do movimento
formal subjacente a toda a idéia de construção piagetiana: uma totalidade que, num primeiro
momento, é a mais complexa possível e se torna, num momento posterior, parte de uma nova
totalidade que a engloba e dentro da qual ela pode se relacionar com outras. Uma construção
na qual um sistema hoje torna-se um subsistema amanhã, dentro de uma totalidade maior que
não o anula enquanto sistema isolado, mas que possibilita o estabelecimento de relações
recíprocas e reversíveis entre os subsistemas que a integram.
Tal movimento formal exposto acima foi explicitamente trabalhado por Piaget no final
de sua vida, ao desenvolver o que chamou de teoria da equilibração [apresentado em obras
importantes, como A equilibração dos sistemas cognitivos (1975) e O possível e o necessário,
da equilibração volta seu olhar para as interações do indivíduo com o meio, condição
necessária para que qualquer construção se dê.
Vale acrescentar que o conceito piagetiano de valorização afetiva e os fatores do
desenvolvimento para esse autor também são bastante relevantes em nosso trabalho, e serão
tratados mais pormenorizadamente no capítulo 5.
3.1.1 A teoria da equilibração, de Jean Piaget e o crescer bilíngüe
Passaremos a uma apresentação da teoria da equilibração de Piaget, tecendo
comentários e estabelecendo relações gerais entre tal teoria e o desenvolvimento infantil em
contexto bilíngüe (ou crescer bilíngüe). Nosso intuito nesta tese não é o de propor uma leitura
sobre a aquisição bilíngüe, mas sim fazer uma aproximação entre Bilingüismo e
desenvolvimento cognitivo a partir da teoria da equilibração. Contudo, como a perspectiva
piagetiana é essencialmente construtivista, não há como não estabelecermos relações com a
construção do Bilingüismo infantil (aquisição bilíngüe) pela criança que cresce em contexto
bilíngüe. Tais relações serão apresentadas, sem contudo pretendermos defender um enquadre
específico sobre aquisição bilíngüe.
Sobre o tema “teoria da equilibração de Piaget aplicada ao desenvolvimento bilíngüe”,
encontramos o trabalho de Chavez (1980), intitulado “Jean Piaget´s Theory of Equilibration
Applied to Dual Language Development”. A autora grifa a necessidade de uma abordagem de estudo sobre o desenvolvimento lingüístico que leve em conta seu aspecto holístico e
multifacetado. Afirma reconhecer falhas nas teorias skineriana e chomskiana, na dialética
soviética e na perspectiva piagetiana tradicional, propondo, então, que se passe desta última
para uma abordagem a partir da teoria da equilibração de Piaget. Além de apresentar uma
criança mexicano-americana (estudo de caso) como um caso particular de processo de
equilibração entre duas línguas.
3.1.2 A teoria piagetiana e a teoria dos sistemas dinâmicos
Ainda sobre o tema aquisição bilíngüe, encontramos artigos atuais, em periódico
importante na área de estudos sobre Bilingüismo114, propondo a teoria dos sistemas dinâmicos
(doravante TSD) como uma perspectiva teórica para nortear a reflexão sobre a aquisição
bilíngüe. Complementarmente, encontramos uma tese de doutorado defendida na
Universidade de Harvard (Stevens, 2000) intitulada “Piaget as a dynamic systems theorist”,
na qual o autor defende a idéia de que a teoria piagetiana pode ser compreendida à luz da
TSD. Segundo o autor, a TSD refere-se a uma nova concepção sobre o modo como as
habilidades cognitivas tornam-se cada vez mais poderosas e flexíveis ao longo do tempo.
Stevens afirma:
Alguns profissionais clínicos dos sistemas dinâmicos (e.g. Eltman et. Al. 1996; Fischer & Bidell, 1998; van der Maas, 1995; van Geert, 1998) consideram a teoria de Piaget totalmente consistente com os princípios dos sistemas dinâmicos e que esses novos esforços para modelar as mudanças desenvolvimentais ao longo do tempo têm o potencial de salvar a teoria de Piaget115. (Stevens, 2000, p. 3, tradução nossa)
O potencial de “salvar” a teoria piagetiana acima referido vincula-se ao fato de,
segundo Stevens (2000), na América do Norte, esta ser comumente vista como tendo um
valor histórico, mas não mais atual. Stevens explica que, sob seu ponto de vista, essa visão
está atrelada à interpretação mecanicista da teoria piagetiana. Nesse contexto, afirma que se
podem fazer dois tipos de interpretação da teoria piagetiana. Por um lado, pode-se fazer uma
leitura mecanicista, que entendemos como aquela que se fixa nos estágios, considerando-os
114
Bilingualism:Language and Cognition, 2007
115
“Some practioners of dynamic systems (e.g. Eltman et. Al. 1996; Fischer & Bidell, 1998; van der Maas, 1995; van Geert, 1998) find that Piaget´s theory is entirely consistent with the principles of dynamic systems and that this new efforts at modeling developmental change over time have the potential to save Piaget´s theory”
em si, e não como uma construção progressiva, na qual entram em jogo conservação e
superação ao mesmo tempo. Por outro lado, pode-se fazer uma leitura baseada na TSD, que
entendemos salientar o dinamismo na construção das estruturas e a importância da interação
com o meio nesse processo. As obras utilizadas pelo autor nesse trabalho são aquelas escritas
nos últimos anos de vida de Piaget, referentes a temas como tomada de consciência e teoria da
equilibração.
Sob nosso ponto de vista, não se trata somente de duas interpretações possíveis,
igualmente válidas, mas consideramos a interpretação mecanicista uma leitura equivocada da
teoria piagetiana. Desde o princípio, os aspectos centrais da teoria são a interação com o meio
e a dialética entre assimilação e a acomodação, funções invariantes num contexto de
estruturas variáveis, que estão em constante construção116. Do nosso ponto de vista, tal caráter
dinâmico e genético, que adquire o sentido de gênese/construção na obra piagetiana, está
presente desde o início de sua obra no campo da psicologia (por exemplo, quando fala sobre a
construção de significados no sensório-motor, na obra O nascimento da inteligência na
criança, de 1936117). Nesse sentido, pensamos que não seja necessário que se conheça a TSD para se fazer uma interpretação “dinâmica” da obra piagetiana, uma vez que o dinamismo está
subjacente a toda a sua obra, bem representada pelo nome epistemologia genética.
O trabalho de Stevens tem também uma parte de aplicação prática, na qual compara a
elaboração de propostas pedagógicas baseadas na visão mecanicista da teoria piagetiana e na
visão da TSD, concluindo que essa segunda visão traz resultados bastante frutíferos e
positivos para o desenvolvimento das crianças (como melhor desempenho em matemática e
em habilidades não-verbais e QI mais elevado, índices que, contudo, parecem se manifestar
mais intensamente em crianças de status sócio-econômico elevado e que tendem a diminuir ao
longo do tempo).
116
Tal ponto será aprofundado a seguir, neste mesmo capítulo.
117
3.1.3 Aquisição da linguagem e a teoria dos sistemas dinâmicos
Em nosso trabalho, não nos aprofundaremos na questão da compatibilidade entre a
TSD e a perspectiva piagetiana, mas achamos pertinente apontar autores que trabalharam tal
questão, concluindo pela compatibilidade entre as duas teorias. Isso porque, como dissemos
acima, há uma linha de pensamento (De Bote, Lowie e Verspoor, 2007) que propõe que a
TSD seja utilizada para a reflexão sobre a aquisição da língua em geral, e da segunda língua,
em particular.
De Bote, Lowie e Verspoor (2007) argumentam que a língua pode ser vista como um
sistema dinâmico, isto é, um conjunto de variáveis que interagem ao longo do tempo.
Segundo os autores, o desenvolvimento da língua mostra as características centrais dos
sistemas dinâmicos. Uma delas é a dependência sensível das condições iniciais. Por exemplo,
os autores comentam sobre a evidência de que pequenos problemas na infância, como
infecção no ouvido médio, podem ter um grande efeito em todos os níveis de aquisição de L2.
Outra característica fundamental é a interconexão completa dos subsistemas. Nesse
contexto, ao resumir sua perspectiva acerca do uso da TSD para a reflexão sobre a aquisição
de segunda língua, os autores explicam (De Bote, Lowie e Verspoor, 2007, p. 14) que um
aprendiz de uma língua pode ser considerado um subsistema dinâmico dentro de um sistema
social, com um grande número de subsistemas dinâmicos internos interagentes, que se
relacionam com uma multiplicidade de outros sistemas dinâmicos externos. Afirmam:
O aprendiz tem seu próprio ecossistema cognitivo, que consiste em intencionalidade, cognição, inteligência, motivação, aptidão, L1, L2, e assim por diante. O ecossistema cognitivo, por sua vez, está relacionado ao grau de exposição a uma lingual, maturidade, nível de educação, e assim por diante, os quais, por sua vez, estão relacionados ao ECOSSISTEMA SOCIAL, que consiste no ambiente com o qual o indivíduo interage.[...] Cada um desses subsistemas internos e externos é similar pelo fato de terem as propriedades de um sistema dinâmico. Eles sempre estarão em fluxo e em alteração, tomando o estado atual do sistema como um input para o próximo118.(De Bote, Lowie e Verspoor, 2007, p. 14, tradução nossa).
118 “The learner has his/her own cognitive ecosystem consisting on intentionality, cognition, intelligence, motivation, aptitude, L1, L2 and so on. The cognitive ecosystem in turn is related to the degree of exposure to a
Tal citação também deixa clara a importância crucial da interação do sujeito com o
mundo na abordagem proposta pelos autores. Exemplificando tal interação com uma imagem,
os autores apresentam a metáfora de uma dança na qual há uma interação multifatorial: voz,
ritmo e expressão facial interagem para criar entendimento mútuo entre o par e concordância
acerca do próximo passo. Há constante adaptação e mudança, e geralmente não é claro de
quem partiu essa mudança. “A metáfora da dança foca as interações co-reguladas durante a
emergência de comportamentos comunicativos criativos dentro daquele contexto.119”
(Shanker & King, 2002, p. 605, apud De Bote, Lowie e Verspoor, 2007, p. 9, tradução nossa).
Outros aspectos são relevantes, como a emergência de estados de atração no
desenvolvimento ao longo do tempo e a existência de variações inter e intra-individuais ao
longo do processo. Apontam haver necessidade de dados consistentes sobre a aquisição da
primeira e da segunda língua para aprimorar o conhecimento dos delicados padrões de
mudança ao longo do tempo. Afirmam que é necessário que se incorpore a interação dinâmica
a todos os fatores para que se possa dar conta da complexidade do tema. A teoria dos sistemas
dinâmicos é proposta como candidata a uma teoria geral sobre o desenvolvimento da língua.
Entretanto, os próprios autores relatam que o artigo de Van Gelder (1998), que busca
explicar processos cognitivos por meio da TSD, enfrentou críticas por parte de pesquisadores
seguidores da perspectiva do “processamento de informações”120.
Nosso intuito, com essa apresentação, foi o de contextualizar o que apresentaremos a
seguir. No levantamento de literatura, encontramos trabalhos que relacionam a teoria da
equilibração à aquisição bilíngüe, a perspectiva piagetiana à teoria dos sistemas dinâmicos, e a
language, maturity, level of education, and so on, which in turn is related to the SOCIAL ECOSYSTEM, consisting of the environment with which the individual interacts. (…) Each of these internal and external subsystems is similar in that they have the properties of a dynamic system. They will always be in flux and change, taking the current state of the system as input for the next one.”
119
“The dance metaphor focuses on co-regulated interactions at the emergence of creative communicative behaviors within that context.”
120
teoria dos sistemas dinâmicos à aquisição de segunda língua. Pensamos que tais trabalhos
sejam um ponto de partida para propormos uma leitura de aspectos do Bilingüismo infantil a
partir da teoria da equilibração de Piaget. Não encontramos trabalhos que relacionassem a
teoria da equilibração da Piaget às pesquisas sobre o impacto do Bilingüismo infantil sobre o
desenvolvimento cognitivo, foco deste nosso trabalho.
3.1.4. Esclarecendo o uso dos termos bilíngüe e Bilingüismo neste trabalho
É importante que se esclareça que, ao falarmos em Bilingüismo e/ou em criança
bilíngüe no presente trabalho, referimo-nos a pessoas cuja aquisição da segunda língua
(doravante L2) tenha se iniciado antes dos 3 anos de idade.A escolha do critério idade de 3
anos para delimitar o tipo de Bilingüismo ao qual nos referimos neste trabalho baseia-se em
pesquisa sobre conseqüências do Bilingüismo para a organização cerebral (Hull e Vaid ,2007,
já apresentada brevemente na revisão de literatura deste trabalho). Na mencionada pesquisa,
confirmou-se que bilíngües precoces demonstram envolvimento hemisférico bilateral,
enquanto monolíngües e bilíngües tardios demonstram confiável dominância do hemisfério
esquerdo, acrescentando que tal lateralização funcional mostrou-se primordialmente
influenciada pela idade em que o Bilingüismo teve início.
Há casos de aquisição concomitante (por exemplo, o pai fala numa língua e a mãe em
outra, desde o nascimento da criança) em que não há uma primeira e uma segunda língua, de
modo que se sugere (Hamers e Blanc,1983/2003, p. 26 e 372) o uso dos termos LA e LB. Contudo, visando uma maior fluidez do texto, utilizaremos em geral L1 e L2, mesmo