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Savaşın Başlangıcına Kadar Mehmed Esad Paşa

BÖLÜM III: BİRİNCİ DÜNYA SAVAŞI’NDA VE SONRASINDA MEHMED

3.1. Savaşın Başlangıcına Kadar Mehmed Esad Paşa

Piaget (1975/1976) define o objetivo da obra intitulada “A equilibração das estruturas

cognitivas: problema central do desenvolvimento” como: “procurar explicar o desenvolvimento e mesmo a formação do conhecimento, recorrendo a um processo central de

equilibração.” (Piaget, 1975/1976, p. 11, grifo nosso). Complementa dizendo que tal processo

passa por múltiplos desequilíbrios e reequilibrações. É importante esclarecer que, na

perspectiva piagetiana, as reequilibrações não constituem, senão em alguns casos, retornos ao

equilíbrio anterior, mas sim a formação não somente de um novo equilíbrio, mas ainda,

geralmente, de um melhor equilíbrio, daí o termo “equilibração majorante”.

Nesse contexto, Piaget propõe-se a estudar o que chamou de construção dos sistemas

cognitivos. No paralelo que traçamos, partimos dessa mesma teoria para refletir sobre a

construção do sistema lingüístico da criança bilíngüe e explicar os resultados de pesquisas

acerca da influência do Bilingüismo sobre aspectos cognitivos do desenvolvimento infantil.

Cabe a pergunta: tal aproximação é pertinente? Retomaremos tal questionamento adiante,

depois de uma apresentação geral sobre a teoria da equilibração.

3.2.1 Sistemas cognitivos

Os sistemas cognitivos são sistemas dinâmicos, capazes de se conservar e de se

modificar ao mesmo tempo. A originalidade de tais formas de equilíbrio está na existência de

uma ação conservadora que os elementos ou subsistemas exercem uns sobre os outros. Piaget

explica que, em sua perspectiva, os sistemas cognitivos, como os organismos, são, ao mesmo

tempo, abertos – no sentido das trocas com o meio – e fechados – enquanto “ciclos”121.

121

Piaget refere-se aos sistemas cognitivos no contexto da teoria da equilibração como “ciclos epistêmicos” (1975/1976, p. 13), que entendemos como ciclos relativos ao conhecimento logicamente necessário.

Estruturalmente, os sistemas cognitivos podem ser representados, de forma

esquemática, por:

™ Nesse contexto:A, B, C - representam as partes constituintes de um determinado ciclo;

™ A´, B´, C´ - representam os elementos do meio necessários à sua alimentação. Trata-se de uma “diferenciação do sistema total em subsistemas hierarquizados, cujas

estruturas são análogas e que são religados uns aos outros por conexões igualmente cíclicas”

(Piaget, 1975/1976, p. 12). O equilíbrio se refere a uma solidariedade entre a diferenciação

entre os subsistemas e a integração destes ao todo.

Piaget dá um exemplo da dinâmica entre sistemas e subsistemas no contexto da

equilibração: no caso de uma perturbação exterior B´´ em relação à B´, tem-se 2 opções:

1) Ou essa conservação do todo se torna impossível, e o sistema cognitivo deve ser rejeitado;

2) Ou há modificação compensadora (B modificando-se em B2, que fica inserido no ciclo), e ocorre adaptação e novo equilíbrio do sistema cognitivo (com possibilidade de que o sistema anterior continue válido a título de subestrutura para a classe de objetos B´ e crie uma nova subestrutura para os objetos B´´).

(A x A´) →B; (B x B´) → C; ... (Z x Z´) → A, etc

3.2.2 Duas línguas como subsistemas da função lingüística

Retomando a forma esquemática da equilibração (A x A´) →B; (B x B´) → C

Michel Paradis (2004), em obra que diz ser fruto de 25 anos de pesquisas sobre os

aspectos neurolingüísticos do Bilingüismo, afirma que a “língua é um sistema de sistemas”122

(Paradis, 2004, p. 130, tradução nossa). Explica que o “sistema língua”123 (ibidem), referindo-

se à competência lingüística implícita, é formado por subsistemas independentes, por

exemplo, a morfologia, a morfosintaxe, a semântica. Complementa que, em falantes bilíngües,

cada um desses subsistemas contém dois ou mais subsistemas, um para cada língua. Além

disso, afirma: “Assim como a fonologia pode ser considerada um subsistema do sistema

língua [...] uma língua específica (como inglês ou japonês) também é um subsistema do

sistema-língua.”124 (Paradis, 2004, p. 135, tradução nossa).

Pensamos que algo análogo ao que Piaget descreve e explica nessa obra acerca da

dinâmica entre sistemas e subsistemas no contexto da equilibração dos sistemas cognitivos

pode acontecer com os esquemas lingüísticos, uma vez que Piaget refere-se à forma de

funcionamento do ser humano no que concerne ao estabelecimento de relações e

conhecimento do mundo, seja ele referente a um sistema cognitivo ou a um sistema

lingüístico. Isso explicaria o processo que culmina no resultado exposto por Paradis na citação

acima.

A solidariedade entre a diferenciação e a integração dentro dos sistemas explica por

que não haveria mistura entre as línguas, mesmo que elas juntas formem um sistema

lingüístico maior.

122

“Language is a system of systems”

123

“Language Systems”

124

“Just as phonology can be considered to be a subsystem of the language system […] a specific language (such as English or Japanese) is also a subsystem of the language system.”

3.2.3 Equilibração depende de dois processos: assimilação e acomodação

Conceitos fundamentais para se compreender a teoria piagetiana são adaptação,

assimilação e acomodação. Adaptação refere-se à capacidade biológica de criar novidades com o objetivo de superar desequilíbrios impostos pelo meio. Dado um desequilíbrio, o

organismo reage, buscando recuperar o equilíbrio, melhorando sua adaptação ao meio.

Assimilar significa conhecer o mundo, incorporar algo do mundo externo às estruturas internas do sujeito. Acomodar significa modificar-se internamente, dado um objeto a conhecer

ou como conseqüência do conhecimento de um objeto125. Devemos ressaltar que esse objeto

do qual se fala é o objeto do conhecimento, ou seja, qualquer coisa passível de ser conhecida

por um sujeito: uma pessoa, uma situação, um objeto concreto etc.

A adaptação acontece no jogo dialético entre assimilação, conhecimento do mundo, e

a acomodação, transformação interna decorrente ou anterior à assimilação. Pensemos num

exemplo: a criança vê um objeto que deseja pegar, mas que não está ao alcance direto de sua

mão (o ambiente causa um desequilíbrio). Ela sabe pegar. Então, a partir do esquema de

pegar, ela cria o esquema de puxar (acomodação), o que a possibilita alcançar o objeto e

manipulá-lo (modo de conhecimento da criança no período sensório-motor), conhecendo-o

pelo uso (assimilação). Esse novo esquema de puxar passa a fazer parte do repertório de

esquemas da criança, o que abre a possibilidade de assimilar uma nova gama de objetos. Cada

assimilação proporciona acomodações que, por sua vez, aumentam a gama de possibilidades

de assimilação, numa relação dialética, de influência mútua.

Segundo Piaget, para elaborar um modelo baseado na equilibração, é necessário

recorrer a dois postulados:

125

Bem diferente do significado do senso comum. Quando se diz: “João se acomodou à situação”, implica que João tenha deixado de tentar mudar, transformar a situação. A acomodação piagetiana, ao contrário disso, implica transformação interna, dado contato com o mundo externo.

1) “Todo esquema de assimilação tende a alimentar-se, isto é, incorporar elementos que lhe são exteriores e compatíveis com sua natureza” (Piaget, 1975/1976, p. 14,

grifo nosso). Por exemplo, no caso de um falante de português que entra em

contato com a língua alemã e aprende uma palavra nova, como Ergebnis

(resultado, em alemão).

2) “Todo esquema de assimilação é obrigado a se acomodar aos elementos que assimila, isto é, a se modificar em função de suas particularidades, mas, sem com

isso perder sua continuidade (portanto, seu fechamento enquanto ciclo de

processos interdependentes), nem seus poderes anteriores de assimilação.“ (Piaget,

1975/1976, p. 14, grifo nosso). Pensando no aprendizado de uma palavra nova,

como no exemplo acima: o sujeito pode relacionar a palavra Ergebnis, de origem

germânica, à palavra Resultat, de origem latina, ambas podem ser traduzidas por

“resultado”, em português. Trata-se do processo que permite a integração do novo

aprendizado ao que já se sabe, ampliando e, ao mesmo tempo, conservando o

esquema conceitual.

Acerca dos processos de assimilação e de acomodação, Piaget (1936/1987) explica

que se trata de funções invariantes, presentes desde o início até o final da vida do sujeito,

mesmo que aconteçam em níveis totalmente diferentes de conhecimento. Usamos acima um

exemplo de assimilação e acomodação em um bebê. Mas tais funções existem em qualquer

idade. Uma pessoa que queira entender um livro em francês e, para isso, estude a língua, está

construindo estruturas internas (acomodando-se) que lhe possibilitam o conhecimento daquele

texto (assimilá-lo). Percebemos em nós mesmos como é diferente a compreensão de um

mesmo texto alguns anos depois de termos tido um primeiro contato com a obra. A partir da

transformação interna (acomodação) que permitiu compreendê-lo (assimilação) de outra

forma.

O jogo entre assimilação e acomodação fez com que nossa estrutura cognitiva se

ampliasse, ao mesmo tempo conservando o que já tinha sido construído até então. Assim,

Piaget considera assimilação e acomodação como funções invariantes, pois, independente do

conteúdo, elas estão sempre dialeticamente se complementando, garantindo assim a

construção das estruturas cognitivas, essas sim, variáveis.

3.2.3.1 Definição de assimilação

Assim, a assimilação e acomodação são dois processos fundamentais que constituirão

os componentes de todo o equilíbrio cognitivo. A assimilação é definida por Piaget como

“incorporação de um elemento exterior (objeto, acontecimento etc) em um esquema sensório-

motor ou conceitual do sujeito.” (Piaget, 1975/1976, p. 13). Há dois casos de assimilação:

1) Assimilação referente aos objetos do mundo exterior, ou seja, às relações entre A, B, C e A´, B´, C´. Por exemplo, ao pegar um objeto, a criança conhece-o pelo uso.

2) Assimilações recíprocas, ou seja, “quando dois esquemas ou dois subsistemas se aplicarem aos mesmos objetos (por exemplo, olhar e pegar) ou se coordenarem sem

mais necessidade de conteúdo atual.” (Piaget, 1975/1976, p. 13). Ou seja, os esquemas

assimilam-se entre si. É como se cada esquema tivesse a tendência de assimilar o

mundo todo a si. Como decorrência disso, ocorre a coordenação entre esquemas

heterogêneos, por exemplo. A criança percebe que um mesmo objeto é passível de ser

visto, mordido, ouvido, pego etc.

Ao falar sobre a assimilação recíproca, Piaget afirma:

Podemos considerar como uma assimilação recíproca as relações entre um sistema total, caracterizado por suas leis próprias de composição, e os subsistemas que ele engloba em sua diferenciação, porque sua integração num todo é uma assimilação a uma estrutura comum e as diferenciações comportam assimilações segundo condições particulares mais dedutíveis a partir de variações possíveis do todo. (Piaget, 1975/1976, p. 13-14)

Ou seja, a assimilação recíproca é um processo fundamental na construção de

estruturas de conhecimento do mundo, sobretudo no que diz respeito às relações entre o

sistema total e os subsistemas que os integram.

3.2.3.2 Definição de acomodação

A respeito da acomodação, Piaget define-a como “a necessidade em que se acha a

assimilação de levar em conta as particularidades próprias dos elementos a assimilar” (Piaget,

1975/1976, p. 14). A acomodação refere-se à transformação e à conservação simultânea dos

esquemas de assimilação. Piaget explica que a acomodação está continuamente subordinada à

assimilação, pois é sempre acomodação de um esquema de assimilação. Há dois casos de

acomodação:

1) Acomodações referentes às relações entre A, B, C e A´, B´, C´ - As diferenciações devidas à acomodação são evidentes, por exemplo, o esquema de pegar não se

aplica da mesma maneira a objetos leves e pesados;

2) Acomodações referentes às relações entre os subsistemas e às relações que unem a diferenciação entre os subsistemas e integração dos mesmos numa mesma

totalidade: para que haja coordenação de sistemas a religar, é necessário que

acomodações recíprocas acompanhem as assimilações recíprocas. Por exemplo, a

síntese das estruturas numéricas e espaciais supõe divisão do conteúdo em

unidades, sem eliminar a continuidade. Piaget explica que, sem o processo de

acomodações recíprocas, o que teríamos seriam fusões deformantes; e não

diferenciação entre os subsistemas e, ao mesmo tempo, integração dos mesmos à

3.2.3.3 Assimilação e acomodação recíprocas explicariam a formação das duas línguas como subsistemas da função lingüística?

Em relação às assimilações e acomodações recíprocas, é possível traçarmos um

paralelo entre as duas línguas de um bilíngüe em relação ao seu sistema lingüístico maior, que

as engloba: haveria um mecanismo de assimilação recíproca tanto entre os subsistemas (uma

língua influenciando a outra, como acontece com a interlíngua126), quanto entre o sistema

lingüístico como um todo e cada língua (vide o que é comum a todas as línguas, a parte de

intersecção entre elas).

A acomodação recíproca, complemento necessário da assimilação recíproca, é o que

permite que as línguas A e B se relacionem entre si e com o todo sem se misturarem. Sem ela,

aconteceria o que Piaget chamou de “fusão deformante”.

Retomando o que foi esclarecido na seção “Pesquisas sobre Bilingüismo”127,

antigamente pensava-se que a mistura de códigos típica da aquisição bilíngüe fosse

conseqüência de uma confusão ou de uma mistura entre as línguas. A hipótese era a de que

haveria um sistema lingüístico único, no qual as duas línguas estariam misturadas entre si.

Hoje em dia, sabe-se que desde muito cedo as crianças diferenciam entre as línguas (Genesee,

Nicoladis & Paradis, 1995; Meisel, 1989/2000, Meisel, 2007), reportando-se a cada

interlocutor na sua língua própria.

Além disso, não é comum que as crianças produzam frases agramaticais, mostrando

respeitar as regras gramaticais de cada língua. Segundo Mello (1999), a mudança de código

não se trata de um fenômeno agramatical, desprovido de estrutura lógica. Refere-se à

mudança feita “com base em um conjunto de regras (relativas aos sistemas lingüísticos

126

Interlíngua é o nome dado por Selinger (1972) para o conhecimento em desenvolvimento de um aprendiz de segunda língua (Lightbown e Spada, 2006, p. 80).

127

envolvidos) previamente adquiridas para comunicar, de forma pragmática, o sentido que

deseja dar às suas palavras.” (Mello, 1999, p. 170-171).

A respeito da possível confusão entre sistemas lingüísticos, Meisel (1989/2000), ao

final de pesquisas rigorosamente elaboradas e conduzidas, conclui:

Os bilíngües são capazes de diferenciar os sistemas gramaticais; a fusão não é necessariamente uma característica do desenvolvimento lingüístico bilíngüe, mas a mistura pode ocorrer até que a alternância de código esteja firmemente estabelecida como uma estratégia de competência bilíngüe pragmática..128 (Meisel, 1989/2000, p. 368, tradução nossa)

Nesse contexto, a “fusão” diz respeito à indiferenciação entre os sistemas

gramaticais. A “mistura” ocorreria em situações em que o indivíduo quer ou precisa expressar

uma palavra ou expressão não imediatamente acessível na outra língua. A “mudança” diz

respeito à habilidade específica da competência pragmática bilíngüe.

Pensamos que tais dados mostrem que não se trata de uma “fusão deformante” o que

ocorre com as línguas de uma criança bilíngüe. A partir da Teoria da Equilibração, nossa

hipótese é a de que a língua A e a língua B façam parte de um sistema lingüístico maior

(A+B), sem que com isso sejam misturadas ou confundidas entre si. Tal diferenciação entre as

línguas concomitante à integração das mesmas num sistema lingüístico maior seria possível

graças ao funcionamento da assimilação e da acomodação recíprocas.

3.2.4 Três formas de equilibração e os caracteres negativos referentes a cada tipo Segundo Piaget, a equilibração se efetua sob três formas de equilíbrio:

1) Equilibração entre assimilação e acomodação

Tal equilibração acontece em função da interação fundamental entre sujeito e objeto,

ou, mais especificamente, entre a assimilação dos objetos aos esquemas de ação e

acomodação dos esquemas de ação aos objetos. Segundo Piaget, tal equilibração implica um

128

“Bilinguals are capable of differentiating grammatical systems; fusion is not necessarily a characteristic of bilingual language development, but mixing may occur until code-switching is firmly established as a strategy of bilingual pragmatic competence.”

início de conservação mútua, “pois o objeto é necessário ao desenrolar da ação e,

reciprocamente, é o esquema de assimilação que confere sua significação ao objeto [...]”

(Piaget, 1975/1976, p. 15).

Piaget explica que o esquema de ação forma a primeira estrutura cognitiva da criança,

é a sua primeira forma de conhecer e de atribuir significado ao mundo. Por exemplo, uma

chupeta adquire o significado “é de sugar”, advindo do esquema de sugar.

2) Equilibração referente às relações entre os subsistemas

A função dessa equilibração é assegurar as interações entre os subsistemas de mesmo

nível hierárquico. Ela não é automática, mas desenvolve-se progressivamente, sobretudo no

caso das assimilações recíprocas.

Diferenciação entre L1 e L2: construção lenta e gradual?

Assim, as assimilações (e as acomodações) recíprocas, que permitem que os dois

subsistemas se diferenciem e se integrem a um sistema total maior, dizem respeito a uma

construção lenta e gradual. Elas desenvolvem-se progressivamente. Na criança em fase de

aquisição, o sistema lingüístico total, bem como os sistemas lingüísticos referentes a cada

língua em particular, estão em pleno processo de construção.

A diferenciação entre os sistemas lingüísticos vai sendo construída aos poucos, como

bem mostram os estudos sobre mudança de código e mistura de código. De maneira geral, os

estudos mostram que é natural, durante a fase de aquisição bilíngüe, que a criança misture as

línguas, use palavras de uma língua na estrutura gramatical de outra, ou mesmo que construa

palavras mistas.

Inicialmente é comum que as mudanças e misturas de código aconteçam em

se fala garfo em inglês, dizer a frase “I want a garf129”. Com o passar do tempo, a diferenciação vai ficando cada vez mais clara, e as mudanças e misturas de código passam a

acontecer em casos em que o falante deseja transmitir alguma mensagem específica, muitas

vezes não intencional, aos seus interlocutores, e não necessariamente em decorrência da falta

de conhecimento específico em uma das línguas (Mello, 1999). Por exemplo, deixar claro no

discurso que ela relata o que uma terceira pessoa falou: “Minha mãe disse do not step on the

grass!”130.

Naturalmente, o bilíngüe que vive num contexto também bilíngüe, em que a mistura

de código é uma prática comum, usará essa estratégia comunicativa. Mas isso não significa

que ele não saiba diferenciar entre os sistemas lingüísticos. O importante para nós, nesse

momento, é o fato da diferenciação entre as línguas e sua integração em um sistema

lingüístico maior acontecer, como mostram os resultados de pesquisas (Genesee, Nicoladis &

Paradis, 1995; Meisel, 1989/2000, Meisel, 2007) já comentadas anteriormente.

Os subsistemas se constroem comumente em velocidades diferentes. Pensando em

nosso paralelo com o desenvolvimento bilíngüe, é comum encontrarmos crianças que falem

uma língua bem melhor do que a outra, ou ainda que, na fase de aquisição, a criança fale

frases inteiras em L1 e esteja no estágio de palavras isoladas ou frases de duas palavras em

L2.

3) Equilibração referente às relações entre a totalidade e os subsistemas

Trata-se de um equilíbrio progressivo entre diferenciação entre os subsistemas e

integração destes em totalidades superiores.

Piaget define totalidade:

Uma totalidade é caracterizada por suas leis próprias de composição, constituindo um ciclo de operações interdependentes e de ordem superior aos caracteres particulares dos subsistemas. (Piaget, 1975/1976, p. 16)

129

O correto seria, “I want a fork”: Eu quero um garfo

130

Piaget define integração:

Se denominarmos integração a assimilação recíproca (enquanto interações e conservação mútua) entre sistemas que não são de mesma classe mas um dos quais engloba o outro (total ou parcialmente) segundo as relações de subordinação. (Piaget, 1975/1976, p. 36)

3.2.4.1 - O todo é mais do que a soma das partes

Pensando na fórmula (A + A´= B): a síntese de dois sistemas (por exemplo, A = pegar

um objeto; A´= olhar um objeto) em uma totalidade (B) , comporta leis de composição

diferentes daquelas do subsistema. Por exemplo, “olhar para pegar” é possível dentro do

sistema total B, mas não dentro de cada subsistema isoladamente – A ou A´. Portanto, em B

há uma possibilidade de ação, um tipo de intencionalidade, e de atribuição de significados que

não há nos subsistemas isolados.

3.2.4.2 Comum aos três tipos de equilibração

Comum aos três tipos de equilibração é o fato de todas serem relativas ao equilíbrio

entre assimilação e acomodação. Além disso, toda equilibração comporta uma

correspondência entre caracteres positivos e negativos. Este ponto é fundamental dentro da

teoria da equilibração e em nosso trabalho, uma vez que as negações são um fator

fundamental para o desenvolvimento do pensamento operatório e para nossa argumentação

referente às possíveis vantagens cognitivas relacionadas ao Bilingüismo infantil a partir da

teoria da equilibração.

Buscando esclarecer o que significam os termos “negação” ou “caracteres negativos”

utilizados amplamente por Piaget nessa obra, pensamos ser interessante apresentar o

quadrado de Aristóteles, que diz respeito ao estabelecimento de relações dentro da lógica clássica.

3.2.4.2 Quadrado de Aristóteles

(A) Todo x é y (B) Nenhum x é y

(C) Algum x é y (D) Algum x não é y

Se tomamos (A) como verdadeiro (ou positivo), podemos concluir várias coisas a

respeito de (B), (C) e (D). Por exemplo, se (A) é positivo, (A) e (A) são idênticos. Se “todo x

é y” (A) é verdadeiro, então “nenhum x é y” (B) é necessariamente falso, o que faz com que

(A) e (B) sejam contrários. Se “todo x é y” (A) é verdadeiro, então “algum x é y” (C) é

necessariamente verdadeiro, o que faz com que (C) seja subalterno à (A). Em contrapartida,

“algum x não é y” (D) é falsa, de modo que (D) e (A) são contraditórios.

Da mesma forma, (B) e (C) também são contraditórios, ou seja, se “nenhum x é y” (B)

é falso, então “algum x é y” (C) também é falso. “algum x não é y” (D) é subalterno a

“nenhum x é y” (B). “Algum x é y” (C) e “algum x não é y” (D) são contrários.

Resumindo:

(A) --- (A) são idênticos

(A) --- (B) são contrários (A) --- (C) são subalternos (A) --- (D) são contraditórios (B) --- (C) são contraditórios (B) --- (D) são subalternos (C) --- (D) são subcontrários

Pensemos em um conteúdo para auxiliar a compreensão. Se tomarmos x como “ser um

cachorro” e y como “ser branco”, temos:

- Se “todo cachorro é branco” (A) é verdadeiro, então “nenhum cachorro é branco” (B)

é necessariamente falso;

- Se “todo cachorro é branco” (A) é verdadeiro, então “algum cachorro é branco” (C) é

necessariamente verdadeiro;

- Se “todo cachorro é branco” (A) é verdadeiro, então “algum cachorro não é branco”

(D) é necessariamente falso.

Assim, vemos um jogo complexo entre afirmações e negações, que, no quadrado de