BÖLÜM II: BALKAN SAVAŞLARI’NDA MEHMED ESAD PAŞA
2.3. Balkan Savaşları’nda Yanya’nın Coğrafî ve Stratejik Önemi
2.3.1. Seferberlik Döneminde Yanya’nın Durumu
1.3.1 Buscando explicações para as relações entre Bilingüismo e
desenvolvimento cognitivo
Antes de falarmos sobre relações entre Bilingüismo e desenvolvimento cognitivo a
partir da perspectiva piagetiana, é importante que façamos um esclarecimento. Entre as
pesquisas por nós encontradas acerca da interface entre Bilingüismo e desenvolvimento
cognitivo, sobressaíram-se estudos a partir da Teoria da Mente e da perspectiva Vygostkiana.
Várias pesquisas sobre habilidades metalingüísticas em bilíngües baseiam-se em
Vygotsky, como Ianco-Worral (1972), por exemplo. No item “Antecipação da Word
Awareness” (capítulo 4) apresentaremos tal ponto de modo mais detalhado. Bialystok (2001/2006, p. 191), ao discutir a questão do embasamento teórico a partir do qual se estudam
as relações entre Bilingüismo e cognição, deixa clara sua simpatia pelo modelo de Nelson
(1996, apud Bialystok 2001/2006, p. 191), que, por sua vez, baseia-se na perspectiva
Vygostkiana.
Em publicação bastante recente, Bialystok (2007a) apresenta sua perspectiva geral
sobre aquisição de língua, Bilingüismo e conseqüências para uma sociedade multilíngüe. A
autora parte do princípio de que a língua atua na interface entre a sociedade e o mundo
cognitivo. Como instrumento social, considera a língua o meio pelo qual o ser humano
interage, determinando posições sociais e definindo oportunidades educacionais. Como
significados, ao sistema lógico para a resolução de problemas e cria as bases organizacionais
para o conhecimento. Isso posto e partindo do princípio de que a aquisição da língua ocorre
necessariamente em contexto, defende a idéia de que a compreensão de como o ambiente
lingüístico afeta o desenvolvimento da criança requer que se examinem as interações entre as
dimensões social e cognitiva do desenvolvimento em diferentes ambientes de aprendizagem.
Tal perspectiva parece bastante interessante e, neste trabalho, a proposta de
aproximação entre o conceito de valorização afetiva de Piaget e o valor utilizado como
critério dentro do modelo das estratégias de aculturação de Berry segue esse mesmo intuito.
Com a ressalva de que, a partir da perspectiva piagetiana, não consideramos a língua como o
que permite acesso aos conceitos e aos significados, ao sistema lógico para a resolução de problemas e criando as bases organizacionais para o conhecimento. Isso porque, a partir do ponto de vista piagetiano, consideramos a formação de conceitos e de significados, bem como
o estabelecimento de relações e solução de problemas, fruto da construção de conhecimento
do mundo, que se relaciona com a linguagem verbal, mas não deriva dela. Tal questão será
aprofundada no próximo capítulo.
No que diz respeito à Teoria da Mente (doravante ToM), um exemplo de pesquisa
embasada nessa perspectiva teórica é relatado na publicação Bialystok & Senman (2004).
Como já foi apresentado anteriormente, tratam-se de duas pesquisas acerca do papel da
habilidade de representação e do controle de atenção na solução de tarefas de realidade e
aparência, baseadas em dois tipos de objetos, real e representacional. A primeira delas teve
foco no tipo de tarefa e no tipo de demanda cognitiva específica inerente a cada uma delas.
Nesse contexto, os autores apresentam a ToM, bem como duas linhas de interpretação dentro
da mesma, tornando questões metodológicas e interpretativas dentro da ToM o foco do
Dentro da mesma perspectiva teórica, Chan (2005) buscou verificar a hipótese de que
bilíngües seriam mais avançados em seu desenvolvimento cognitivo segundo a ToM.
Pesquisou 31 bilíngües balanceados e 29 monolíngües em idade pré-escolar. Foram utilizadas
três tarefas cognitivas (que incluíam um teste de raciocínio – “Dimensional Change Card Sort
Task” - e dois testes de percepção metalingüística – “Moving Word Task” e “Synonym Production Task”) e quatro tarefas de ToM. Os resultados mostraram que os bilíngües foram mais adiantados no desenvolvimento cognitivo segundo a ToM quando se levava em conta o
efeito das variáveis idade, habilidade verbal e habilidade não verbal. Análises utilizando
“Hierarchical Multiple Linear Regressions” mostraram que a vantagem dos bilíngües no
contexto da ToM depende principalmente das vantagens no desenvolvimento cognitivo (por
exemplo, controle inibitório, raciocínio, percepção metalingüística).
A Teoria dos Sistemas Dinâmicos também aparece como um referencial teórico
importante a partir do qual se pode pesquisar o desenvolvimento e, especialmente, a aquisição
bilíngües. De Bote, Lowie e Verspoor (2007), em artigo sobre o tema, apresentam tal
perspectiva teórica como uma alternativa à abordagem de “Processamento de
Informações”65”, bastante utilizada para se pensar a aquisição bilíngüe. Stevens (2000), por
sua vez, faz uma leitura da perspectiva piagetiana a partir da Teoria dos Sistemas Dinâmicos.
Voltaremos a esse tema mais adiante nesse trabalho, no capítulo 3, ao apresentarmos a teoria
da equilibração.
O estudo do Bilingüismo a partir da perspectiva piagetiana não é algo novo. Quando
se coloca os termos “Bilingualism and Piaget” no PsycInfo (referência), a partir de 2000,
nada é encontrado. Porém, quando se amplia o período pesquisado por tempo indeterminado,
aparecem cinco obras, sendo a mais antiga delas de 1963. Katchan (1986) e Baker e Prys-
Jones (1998) referem-se especialmente a pesquisas sobre Bilingüismo a partir da perspectiva
65
piagetiana, todas elas mais antigas, em sua maioria referentes a pesquisas conduzidas entre as
décadas de 1960 a 1980.
O resultado do levantamento bibliográfico atual confirma que as pesquisas a partir da
perspectiva piagetiana tiveram maior expressividade nesse período. Esse levantamento foi
feito principalmente na base de dados ERL66 e foram encontrados itens referentes aos termos
“Bilingualism and Piaget” nas seguintes bases de dados: Francis, Modern Language
Association Abstracts, ERIC (CSA), Journals@Ovid Full-Text, Sociological Abstracts,
PsycInfo, e também no Pro-Quest Dissertation Abstracts67. Alguns textos interessantes da
década de 1990 foram encontrados, mais especialmente sobre a relação entre Bilingüismo e
Letramento68, tendo a perspectiva piagetiana como uma das referências.
Na Revista Child Development para o termo Bilingualism and Piaget aparecem 5
itens. Dentre elas, três pesquisas têm uma obra de Piaget como parte do referencial teórico,
porém, não estudaram o Bilingüismo. Quando se coloca o termo Piaget na Revista
International Journal of Bilingualism, aparece que não há itens encontrados. Na revista Bilingualism: language and cognition, a partir de 2000, aparecem 14 itens, porém nenhum deles tem Piaget nas referências bibliográficas. A grande maioria desses artigos refere-se a
reflexões sobre as diferenças entre semântica e conceitos, processamentos e representações,
tema bastante interessante, mas que não é o foco da presente pesquisa. No entanto, essas
pesquisas oferecem elementos interessantes para se pensar a partir de Piaget, servindo como
contraponto para a presente pesquisa. Além disso, refletem o panorama atual de pesquisas
sobre Bilingüismo e cognição que fazem referência à Piaget, sem contudo utilizar essa
perspectiva teórica para discutir os resultados por elas encontrados.
66
Disponível em <htttp:\\www.web5.silverplatter.com/webspirs/start.ws >, acessado em setembro/07.
67
Disponível em <htttp:\\www.usp.br/sibi/biblioteca/dissertation_abstracts.htm >, acessado em setembro/07.
68
1.3.2 A perspectiva de Cummins
No artigo de Olga Katchan (1986), a autora expõe três hipóteses apresentadas por
Cummins (197669, apud Katchan, 1986) para explicar os resultados positivos encontrados
sobre Bilingüismo e Cognição:
Hipótese da troca70
: segundo esta hipótese, crianças bilíngües desenvolveriam um conjunto mais flexível de aprendizagens como resultado da troca entre línguas e do
uso de duas perspectivas diferentes.
Hipótese do enriquecimento experiencial71
: segundo esta hipótese, crianças bilíngües provavelmente passam por uma gama maior de experiências que podem
acelerar o padrão de desenvolvimento cognitivo. Cummins diz que não parece
haver evidências contra ou a favor disso.
Hipótese da objetificação72
: adotada por Cummins na versão de Uznadze (1966, citado em Cummins, 197673, apud Katchan, 1986, p. 678). O termo “objetificação”
refere-se ao processo pelo qual os objetos se tornam foco da atenção consciente,
originando-se no contexto de vida social, intimamente relacionado à linguagem.
Pensamos que as três hipóteses acima apresentadas são compatíveis com a perspectiva
interacionista piagetiana, e podem ser compreendidas a partir da teoria da equilibração de do
mesmo autor. Voltaremos a esse tema adiante.
69
Cummins, J. (1976). The influence of bilingualism on cognitive growth: A synthesis of research findings and explanatory hypotheses. Working Papers on Bilingualism, No. 9, 1-43.
70
Tradução nossa para “Switching Hyphotesis”
71
Tradução nossa para “Experiential Enrichment Hypothesis”
72
Tradução nossa para “Objetification Hypothesis”
73
Cummins, J. (1976). The influence of bilingualism on cognitive growth: A synthesis of research findings and explanatory hypotheses. Working Papers on Bilingualism, No. 9, 1-43.
1.3.2.1 Hipótese do Limiar74 (Cummins)
Katchan (1986) relata que Cummins chama atenção para o prestígio da segunda língua
em questão. Em situações aditivas, é provável que a criança bilíngüe tenha níveis
relativamente altos de competência nas duas línguas; enquanto em situações subtrativas,
muitos bilíngües podem ser caracterizados como inferiores ao nível nativo nas duas línguas.
Essa observação levou-o a postular que o nível de competência alcançado por cada bilíngüe
nas duas línguas age como uma variável que intervém ativamente no desenvolvimento
cognitivo, mediando os efeitos de sua experiência de aprendizagem bilíngüe sobre o mesmo.
A partir disso, Cummins formula a Teoria do Limiar75, segundo a qual haveria
limiares de competência lingüística que devem ser alcançados por bilíngües para evitar
deficiências cognitivas e permitir que aspectos potencialmente benéficos do tornar-se bilíngüe
influenciem positivamente o desenvolvimento cognitivo. Sugere que a hipótese do limiar mais
consistente com os dados disponíveis seria a de que haveria dois limiares: atingir um grau
baixo de Bilingüismo seria suficiente para evitar qualquer efeito cognitivo negativo, mas
alcançar um segundo limiar, um nível alto de competência, seria necessário para levar à
aceleração do desenvolvimento. Voltaremos a esse tema mais adiante, fazendo uma breve
leitura da hipótese do limiar a partir da teoria da equilibração.
1.3.2.2 Contribuição de Cummins a partir da perspectiva piagetiana: precursora de nosso trabalho
Segundo Katchan (1986), ocorria, naquela época, uma revisão da teoria piagetiana no
que concerne à questão das relações entre linguagem e pensamento. A autora relata que
autores como Blank e Karmiloff-Smith criticam a perspectiva de Piaget alegando que ele teria
deixado a linguagem em segundo plano no que se refere à construção do conhecimento pela
74
Tradução nossa para “Threshold Hypothesis”
75
“Threshold Theory”, tradução nossa. Tal teoria tornou-se clássica, sendo comentada por vários autores no campo do Bilingüismo, como Baker & Prys-Jones (1998), Bialystok (2001/2006), Katchan (1986).
criança. Argumentam que a linguagem não seria somente resultado da necessidade de desligar
os objetos dos esquemas sensório-motores, mas também seria construtiva nesse processo de
desligamento.
Segundo Katchan, Cummins (197476, apud Katchan, 1986, p. 681) apresenta uma
contribuição importantíssima ao afirmar que as relações entre linguagem e pensamento não
são suficientes para explicar a influência do Bilingüismo sobre o pensamento, sugerindo que
fatores não-lingüísticos como estimulação cultural e interação social possam exercer
influência diferencial no desenvolvimento cognitivo de crianças bilíngües e monolíngües.
Sustenta que, a partir da perspectiva piagetiana, pode-se considerar o Bilingüismo como
representante de um instrumento lingüístico mais poderoso do que o de monolíngües para
operar no ambiente.
A presente pesquisa concorda com Cummins no que concerne aos dois pontos a
seguir: 1) a influência fundamental de fatores não-lingüísticos como estimulação cultural e
interação social, e 2) o Bilingüismo como instrumento lingüístico mais poderoso para operar
no ambiente. Como fundamentação teórica para embasar nossas reflexões nesse sentido,
trabalharemos a teoria da equilibração, de Piaget. Considerando a relevância dos aspectos
culturais, sociais e valorativos, será feita uma tentativa de aproximação entre o modelo de
estratégias de aculturação de Berry e o conceito de valorização afetiva, dentro da perspectiva
piagetiana sobre as relações entre afetividade e inteligência.
76
Cummins, J. (1974). Bilingual cognition: A reply to neufeld. Working Papers on Bilingualism, No 4, 99- 105.
1.3.3 Principais temas encontrados
Os temas encontrados na literatura tendo a perspectiva piagetiana como base teórica
serão brevemente apresentados nesse momento. No capítulo 4, trabalharemos os três temas77
que julgamos mais relevantes para nosso trabalho de modo mais aprofundado, elaborando
uma interpretação dos mesmos a partir da teoria da equilibração de Piaget. Devemos
acrescentar que, no referido capítulo, trabalharemos o tema “Aumento do controle inibitório”,
que foi apresentado anteriormente neste capítulo ao tratarmos das relações gerais entre
Bilingüismo e cognição. Por outro lado, não aprofundaremos o tema “letramento e
Bilingüismo”, mesmo tendo encontrado duas pesquisas sobre o tema relacionadas à
perspectiva piagetiana”, por uma necessidade de foco78.
1.3.3.1 Bilingüismo e habilidades metalingüísticas
Segundo definição de Bialystok (2001/2006), a habilidade metalingüística79“descreve
a capacidade de usar o conhecimento sobre línguas em oposição à capacidade de usar a
língua.”80 (Bialystok, 2001/2006, p. 124, tradução nossa)
De modo geral, diversos autores (como Katchan, 1986; Diaz e Klinger, 1991;2000;
Bialystok, 2001/2006; Baker e Prys-Jones 1998) concluem, a partir de revisão de literatura da
área, que a percepção da relatividade da relação entre o signo e o objeto por ele representado é
antecipada em crianças bilíngües.
77
Antecipação da superação do realismo nominal, aumento do controle inibitório e antecipação da entrada no pensamento operatório.
78
Bialystok (2001/2006) fez das relações entre letramento e Bilingüismo um de seus campos de estudo, em obra na qual conclui que, em diferentes campos de análise, a vantagem dos bilíngües refere-se às tarefas em que a demanda maior é de controle inibitório e controle de atenção. Sendo essa revisão crítica de literatura e conseqüente interpretação uma de nossas orientações básicas nesse trabalho, acreditamos que, de uma maneira indireta, o tema do letramento também seja considerado. Contudo, uma vez que o letramento configura um campo particular e bastante amplo, não aprofundaremos essa questão no presente trabalho.
79
Tradução nossa para Metalinguistic Ability
80
Por exemplo, Katchan (1986) faz uma revisão de literatura na qual apresenta várias
pesquisas (Feldman e Shen, 1971; Ianco-Worral, 1972; Ben-Zeev, 1979) indicando que
bilíngües superaram monolíngües em habilidades metalingüísticas, além de uma pesquisa que
critica tais resultados e metodologia (Rosenblum e Pinker, 1983). Essas pesquisas têm na
perspectiva piagetiana uma de suas bases.
A partir das pesquisas citadas acima, Katchan (1986, p. 674) questiona: uma vez que
se aceite uma antecipação da consciência metalingüística em crianças bilíngües, em que
efeitos no desenvolvimento cognitivo isso implicaria?Afirma que, como conseqüência,surgem
pesquisas a partir da hipótese de que o Bilingüismo também influenciaria a emergência do
pensamento operatório.
O campo da metalinguagem é um dos objetos de estudo de Bialystok (2001/2006) em
obra mais recente, na qual conclui que a vantagem de bilíngües refere-se às tarefas em que é
necessário o uso de controle inibitório, sobretudo em situações em que haja informações
conflitantes.
O tema “antecipação da superação do realismo nominal” será trabalhado no capítulo 4,
item 4.1, destinado à apresentação de pesquisas na área e interpretação das mesmas a partir da
perspectiva piagetiana, sobretudo no que diz respeito à teoria da equilibração.
1.3.3.2 Bilingüismo e Pensamento Operatório
De maneira geral, há pesquisas que apontam para a antecipação da entrada no
pensamento operatório por crianças bilíngües. Baker e Prys-Jones (1998), em sua
“Encyclopedia of Bilingualism and Bilingual Education”, dedicam um sub-capítulo ao tema
“Piaget e Bilingüismo”, no qual relatam que tal antecipação tem sido encontrada em estudos
Como explicitado anteriormente, Katchan (1986) apresenta a hipótese de antecipação da
entrada do pensamento operatório como decorrência de uma antecipação da constatação da
relatividade entre signo e referente no real. Ela (Katchan, 1986, p. 675) nos explica tal relação
a partir de Hakes alegando que a habilidade geral subjacente à emergência da performance
metalingüística desenvolvimental avançada seria a mesma subjacente à emergência do
pensamento operatório concreto, uma habilidade crescente de retomada mental de uma
situação e reflexão sobre ela, seja essa situação uma sentença a ser avaliada, um problema de
conservação, ou qualquer uma de um número sem limite. Nesse contexto, Katchan (1986, p.
675) cita a pesquisa de Liedtke & Nelson na qual se constatou uma antecipação da
conservação de comprimento (relacionado ao aparecimento das operações concretas) no
desempenho dos participantes bilíngües.
Novamente, é importante acrescentar que não se trata de uma unanimidade, de modo que
também há pesquisas em que não se constata tal antecipação. Saito-Horgan (1995) apresenta,
como ponto de partida para seu estudo, várias pesquisas nas quais se constatou uma relação
entre Bilingüismo e antecipação da entrada no pensamento operatório. Em sua pesquisa
conclui, todavia, que crianças bilíngües não tiveram vantagens nem desvantagens quanto à
entrada no pensamento operatório, num contexto em que o Bilingüismo estudado foi
subtrativo.
Baker e Prys-Jones (1998, p. 70-71) relatam ainda estudo feito a partir de uma linha de
pesquisa piagetiana (Duncan & De Ávila) no qual se encontrou correlação entre o nível de
proficiência dos bilíngües e a formação de conceitos. Nessa pesquisa, os autores comparam
cinco grupos lingüísticos diferentes, nas provas piagetianas de conservação de identidade,
número, comprimento, substância e distância. Os resultados obtidos foram: alta competência
em bilíngües balanceados com boa proficiência, e redução da competência na seqüência:
Tal pesquisa reforça a idéia de que nem todos os tipos de Bilingüismo são
positivamente relacionados a vantagens cognitivas e, mais do que isso, que seria necessário
atingir um certo nível de proficiência para que vantagens possam ocorrer. Importante
acrescentar, por outro lado, que Baker (2000, p. 39) relata pesquisa (Yelland, Pollard &
Mercury) mostrando que mesmo crianças com pouca proficiência em uma segunda língua
podem ter vantagens, como o aumento da percepção metalingüística.
As relações entre Bilingüismo e pensamento operatório serão trabalhadas no capítulo
4, item 4.3, interpretadas à luz da teoria da equilibração de Piaget.
1.3.3.3 Bilingüismo e reciprocidade de pontos de vista
Hamers e Blanc (1983/2003, p. 215) comentam pesquisas concluindo que bilíngües de
famílias mistas demonstram menos autoritarismo e etnocentrismo do que monolíngües.
Podemos interpretar isso como fruto de uma maior reciprocidade nos julgamentos e nos
comportamentos. Os autores citam duas pesquisas. Na primeira delas, Aellen & Lambert
(Hamers & Blanc, 1983/2003, p. 215), utilizando técnicas de diferenciação semântica e
escalas de distância social, observaram que adolescentes canadenses de famílias mistas inglês-
francês se identificaram harmonicamente com as duas culturas e demonstraram atitudes
autoritárias e escalas de etnocentrismo menos extremas do que monolíngües. Na segunda
pesquisa comentada, Lambert & Tucker (Hamers & Blanc, 1983/2003, p. 215), em estudo
longitudinal com crianças anglo-canadenses em programas de imersão em Montreal,
constataram que as crianças de língua majoritária com experiência bilíngüe foram capazes de
se identificar positivamente com as duas culturas.
Lambert & Tucker (1973), em artigo que relata a experiência pioneira de imersão de
anglófonos no francês no Canadá, afirmam, acerca de possíveis vantagens do Bilingüismo:
Fomos encorajados, contudo, por pesquisas recentes na Mc Gill que comparavam as habilidades de monolíngües e bilíngües franco-canadenses de 10 anos de idade, com famílias de níveis socioeconômicos comparáveis. [...] As análises mostraram que os
bilíngües foram muito superiores em medidas de inteligência, verificadas com segurança posteriormente nas notas escolares, significativamente melhores do que o trabalho escolar em geral de monolíngües, e mais empáticos em suas atitudes frente a canadenses falantes de inglês.81 (Lambert & Tucker, 1973, p. 90, tradução nossa)
Genesee, Tucker e Lambert (1978) estudaram a influência do tipo de educação
bilíngüe sobre o desenvolvimento da “habilidade de assumir papéis”82 e da identidade étnica.
Uma das hipóteses era a de antecipação da compreensão do princípio da reciprocidade,
baseada em Piaget. A metodologia consistia em que cada criança avaliasse, com valores de 1
a 20, diferentes “bonecas étnicas”, no que concerne à questões como: “Quanto cada uma
delas seria desejada como um(a) amigo(a)?” Não houve confirmação da hipótese da antecipação da compreensão do princípio de reciprocidade, mas demonstrou-se a influência
de fatores sócio-culturais sobre o desenvolvimento da identidade étnica e sobre a habilidade
de assumir papéis.
1.3.3.4 Bilingüismo e descentração espacial
A partir de Katchan (1986), encontramos uma pesquisa que busca verificar se há
relações entre Bilingüismo e “descentração espacial”. A hipótese do estudo de Gorrel,
Bregman, McAllister & Lipscomb (1982) de que haveria uma antecipação da descentração
espacial parece não ter sido confirmada, uma vez que a pesquisa não chegou a resultados
conclusivos. Por esse motivo, tal tema não será por nós aprofundado neste trabalho. Porém,