Apesar de quatro alunos evadidos do polo de Mossoró (26,67%) afirmarem que acreditam na EaD, quando analisamos as percepções do grupo de alunos evadidos acerca dessa modalidade educativa, percebemos que a forma como o curso foi desenvolvido no período em que esses alunos o frequentaram contribuiu para consolidar uma visão negativa acerca da EaD.
Isso fica evidente quando constatamos que, para a maioria dos alunos evadidos que fizeram parte da pesquisa, estudar no IFRN através da EaD não foi como esperado, pois não havia um planejamento capaz de preencher todas as lacunas e faltava qualidade no desenvolvimento do curso que se mostrou incapaz de alcançar seus objetivos.
Para alguns desses alunos, a EaD não substitui adequadamente o modelo presencial e não é adequada para cursos de graduação universitária.
Esses alunos afirmam que existem sérios problemas de comunicação com os professores, tutores e até com a coordenação do curso, de modo que é necessária uma maior integração entre professores, alunos e coordenadores e um acompanhamento adequado do aluno.
Além disso, os alunos evadidos do polo de Mossoró fazem críticas à maneira como os conteúdos são abordados afirmando que falta aprofundamento desses conteúdos. Esses alunos afirmam que, em alguns momentos, quando buscavam a ajuda de alguns professores para obter esclarecimentos acerca de determinados conteúdos, recebiam como resposta apenas a recomendação de realizar a leitura de textos complementares.
Vejamos o que nos falou um dos alunos durante a observação dos momentos presenciais:
Em algumas situações a atuação do professor mais atrapalha do que ajuda. Uma vez eu enviei uma dúvida sobre um texto e ele me mandou fazer a leitura dos textos complementares e me enviou um texto complementar com cerca de 500 páginas. (Sauron)
Diante de todos os problemas apresentados, alguns alunos evadidos afirmam que, na EaD, o aluno é responsável pela sua aprendizagem e que essa aprendizagem é mérito apenas do aluno, de modo que a instituição apenas valida o diploma.
Esses alunos ressaltam que:
Se todos os cursos a distância forem aplicados do mesmo modo, qualquer conhecimento que o aluno adquira é mérito apenas do mesmo. A instituição teria apenas o papel de validar o diploma. (Ceinwyn)
Vejo a formação acadêmica com muita seriedade, não sei se substituir o modelo de professor presente em sala de aula seja uma boa ideia. (Henry)
Não devo julgar a instituição pela experiência que tive, creio que em outra circunstancia pode ser diferente. Porém não tenho nenhum interesse em fazer outro curso a distancia, qualquer que seja. (Nimue)
Essas afirmações demonstram que, do modo como foi desenvolvido, o curso de Tecnologia em Gestão Ambiental do IFRN consolidou junto a muitos de seus alunos a ideia de que a EaD não é capaz de atender às necessidades educativas dos alunos dentro dos mesmos padrões de qualidade da educação presencial.
Essas percepções da EaD levaram alguns alunos evadidos a afirmar que não têm mais interesse em participar de outro curso através dessa modalidade educativa.
Não nos surpreende o fato de os alunos se sentirem responsáveis por sua aprendizagem, desenvolvendo a percepção de que na EaD a cobrança é maior do que na
educação presencial. O que nos preocupa é a afirmação recorrente de que os alunos não se sentem apoiados pelo IFRN, nem pelos professores.
Durante o período de observação da realidade, alguns alunos reclamaram da ausência de um tutor presencial para tirar dúvidas, de modo que eles se consideravam muito sozinhos, chegando a afirmar que
A coordenação em Natal deixa o polo de Mossoró um pouco de lado. (Capitu) Antes da implantação da Plataforma Moodle alguns professores não respondiam às dúvidas dos alunos. (Mariko)
Depois de conhecermos as percepções dos alunos evadidos do polo de Mossoró acerca da EaD, vejamos quais as percepções dos alunos evadidos do polo de Martins acerca dessa modalidade educativa.
TABELA 22 – PERCEPÇÕES DOS ALUNOS EVADIDOS DO POLO DE MARTINS ACERCA DA EAD
Percepções acerca da EaD Alunos
evadidos
% Modalidade educativa capaz de oferecer ensino de qualidade 08 80% Existe um distanciamento excessivo entre alunos e professores 06 60% A EaD transfere muita responsabilidade para o aluno 05 50% A instituição e os professores devem se qualificar para que o curso
funcione
04 40%
É mais difícil aprender através da EaD do que através do ensino presencial
03 30%
Entre os dez alunos evadidos que participaram da pesquisa no polo de Martins, a maioria (80,0%) apresenta percepções positivas acerca da EaD. Ao destacar as qualidades da EaD, alguns desses alunos afirmam que fariam outro curso a distância, pois consideram que a formação oferecida através da EaD pode ser tão boa quanto em um curso presencial. Além disso, esses alunos consideram que se deve incentivar o crescimento da EaD e lavá-la para locais onde ela ofereça oportunidades para as pessoas, pois se trata de uma modalidade educativa condizente com a realidade mundial atual.
Esses alunos afirmam ainda que a EaD exige muito dos alunos (tanto quanto o ensino presencial), ressaltando que a distância não atrapalha o aprendizado.
Alguns alunos chegam a afirmar que essa modalidade educativa pode ser considerada a educação do futuro, pois é capaz de oferecer um ensino de qualidade, desde que seja estruturada adequadamente.
A EaD é tão qualificada quanto o ensino presencial. (Merlin)
A EaD facilita o aprendizado dos alunos e a entrada dos mesmos em um curso superior. (Dúnia)
A educação a distância requer muita responsabilidade e competência na questão do gerenciamento dos horários no dia a dia. (Javert)
As percepções apresentadas por esses alunos acerca da EaD sintetizam muitos dos objetivos dessa modalidade educativa (oferecer uma educação de qualidade, facilitar o aprendizado e o acesso à educação superior), bem como a importância do desenvolvimento adequado das ações por parte da instituição promotora do curso, o comprometimento e a autonomia dos alunos no desenvolvimento das atividades propostas pelo curso.
Apesar de reconhecerem as qualidades, a importância e as potencialidades da EaD, alguns alunos evadidos fazem ressalvas à essa modalidade educativa. Eles afirmam que existe um distanciamento excessivo entre professores e alunos, gerando nos alunos a sensação de abandono.
Muitas das vezes fico decepcionado pela falta de comunicação por parte do corpo docente. (Grenouille)
A crítica acerca da questão da interação surge novamente, porém, é preciso ressaltar que os problemas envolvendo a interação entre professores e alunos não são inerentes a todos os cursos oferecidos através da EaD. Os problemas de interação apresentados pelo curso de Tecnologia em Gestão Ambiental poderiam ser resolvidos pelos próprios professores em parceria com os responsáveis pela coordenação do curso, criando-se condições adequadas para o envolvimento dos professores e tutores com as atividades do curso e através do uso de um suporte tecnológico adequado a realidade dos alunos.
Nesse sentido, concordamos com a ideia de que
O primeiro grande desafio a ser enfrentado pelas instituições provedoras de educação aberta e a distância refere-se, portanto, mais a questões de ordem socioafetiva do que propriamente a conteúdos ou métodos de cursos; mais a estratégias de contato e interação com os estudantes do que a sistemas de avaliação e de produção de materiais. (BELLONI, 2003, p. 45)
Além das dificuldades na interação, esses alunos afirmam que a falta da qualificação dos professores e tutores para atuar na EaD e a omissão da instituição em funções importantes para o funcionamento do curso fazem com que muitas responsabilidades sejam transferidas para os alunos.
Percebi que era um curso muito difícil, pois tínhamos que ser o ‘professor e o aluno’. Não tínhamos ninguém para tirar uma dúvida qualquer, pois acho que os tutores presenciais e a distância não tinham capacitação para exercer nenhum curso a distância. (Valerin)
Percebo que não me identifiquei com a EaD. Acho que ter um professor mais próximo é de fundamental importância para que haja um trabalho onde, enquanto aluna, possa existir esta troca de conhecimentos indispensáveis para o êxito de qualquer trabalho. (Lunete)
Além das dificuldades de adaptação a uma modalidade educativa onde professores e alunos estão separados no espaço e/ou no tempo durante a maior parte das atividades, a maior parte das ressalvas apresentadas se deve à forma como o curso de Tecnologia em Gestão Ambiental se desenvolveu, e isso fica evidente em afirmações como:
Achei negativo estudar através da EaD, pois sempre deixava a desejar. Depois que eu cheguei à UERN eu conheci outras pessoas que estudavam através da EaD. Só que era em instituições diferentes, como a UFRN, e eu vi que lá era diferente. Eu acho que, dependendo das instituições, existe uma diferença também. Eu acho que o erro não está na EaD, mas nas instituições. Acho que o IFRN ainda não está preparado para a EaD. Não se deve abrir a EaD só por abrir. Vamos porque a UFRN tem, porque as instituições grandes têm. Eu acho que deve abrir quando se sentir preparado, quando existir professores preparados para essas disciplinas. Eu tenho amigas que fazem Física a distância na UFRN e eu vejo que elas aprendem, elas me ensinam e elas tiram dúvidas diariamente com os professores e tutores. O tutor, quando pode, manda livros via correio, indica livros. Eu vejo que lá tem uma presença. É a distância, mas o tutor está presente. Existe essa diferença. Eu acho que no IFRN falta essa presença do tutor. É a distância e o tutor não está presente, nem através do e-mail ele está presente. Falta a presença do tutor através do e-mail, falta a presença do professor através da videoconferência. Eu acho que o IFRN precisa rever o método a distância deles, ver o que precisa melhorar para trazer benefícios para o curso e para a instituição. (Guinevere)
Esses dados, em conjunto com as afirmações apresentadas, permitem perceber que, para a maioria dos alunos evadidos do polo de Martins, os problemas apresentados e que exerceram influência sobre a decisão de evadir não são inerentes à EaD em si, mas ao modo como essa modalidade educativa se desenvolveu no curso de Tecnologia em Gestão Ambiental do IFRN.
Finalizamos essa etapa da coleta de dados solicitando aos alunos que identificassem os motivos que influenciaram na sua decisão pela evasão do curso de Tecnologia em Gestão Ambiental, justificando porque cada elemento identificado motivou essa evasão.
5 AS MOTIVAÇÕES PARA A EVASÃO NO CURSO DE TECNOLOGIA EM GESTÃO AMBIENTAL ATRAVÉS DA EAD NO IFRN: UM INTENTO DE COMPREENSÃO A PARTIR DAS PERCEPÇÕES DOS ALUNOS EVADIDOS DOS POLOS DE APOIO PRESENCIAL DE MOSSORÓ E MARTINS
Com base na nossa convivência com a realidade analisada e na literatura acerca da questão da evasão, destacamos a possibilidade de que a evasão discente no curso de Tecnologia em Gestão Ambiental poderia ser motivada por um conjunto de fatores intrínsecos ou extrínsecos ao curso, que poderiam atuar de forma combinada ou não, ou ainda pela combinação desses fatores com elementos inerentes ao contexto em que o curso e os alunos estão inseridos.
Tomando como referência as categorias destacadas no início deste trabalho para classificar os elementos motivadores de evasão, vejamos as principais justificativas para a evasão apresentadas pelos alunos evadidos dos polos de Mossoró e Martins.
5.1 Fatores inerentes ao desenvolvimento do curso que motivaram a evasão nos polos de