4. ÜMMÜ EYMEN‟ĠN ġAHSĠYETĠ
1.4. YanlıĢlıkla Bevlin Ġçilmesi ile Ġlgili Hadis
Talvez relacionada à extensa utilização de critérios não técnicos sobre padrões de utilização de bebidas alcoólicas, percebemos que há uma supervalorização das visitas domiciliares e do papel dos ACS, no sentido de identificar as pessoas que fazem uso problemático de álcool. Prioriza-se a proximidade física e não a “proximidade” por meio de recursos semiológicos:
“(...) isso [rastreio de pessoas que fazem uso problemático de álcool] teria que ser feito um acompanhamento muito próximo, até no âmbito da visita domiciliar” (Ent. 1 - Odontólogo);
“... [por morar no bairro, uma ACS] até sabe como dizer que aquela pessoa tem problema com bebida ou não, as outras [ACS, que não moram lá] muitas vezes não têm, por mais que ela passe na casa ela não tem vínculo, ela não mora ali, ela passa uma vez por mês e aí a gente fala que verifica ‘nas coxas’” (Ent.2 - Enfermeiro);
“as agentes comunitárias precisam assim... ver direitinho onde tem um alcoólatra”
(Ent. 5 - ACS);
“Muito difícil [eles virem ao posto]. Na casa que a gente faz visita que a gente percebe” (Ent. 07 – ACS).
À medida que os critérios de avaliação do uso problemático utilizados são não técnicos e sim baseados no senso comum, a avaliação “poderia” ser feita por um trabalhador não profissional de saúde. Noutros termos, à medida que as representações sociais sobre uso problemático são baseadas no quanto e com que freqüência se usa álcool, bastaria alguém que fizesse tal aferição simples e, neste caso, nada melhor do que fazê-lo in loco, onde este uso acontece, no domicílio ou em suas vizinhanças. Neste sentido, o diagnóstico “poderia” também ser feito por um familiar.
Entretanto, obviamente, o Agente Comunitário de Saúde (ACS), que é quem faz o maior número de visitas domiciliares, não poderia ser responsável por diagnósticos clínicos, pois nas visitas ele poderia apenas identificar queixas relacionadas ao problema, para relatá-los aos profissionais clínicos da Unidade para que fosse feito o diagnóstico adequado. Esse tipo de intervenção, que consideramos ser a adequada ao papel das ACS, foi colocada em apenas um relato (da entrevistada 13):
“Funciona assim, eu visito né, eu constatava algum problema, ai eu vou tá levando para a enfermeira, ai ela vai passar por exame com o médico, ai agente junto vai ver o que pode estar fazendo, mas a palavra final é dela, eu só tenho que constatar o problema e trazer pra ela” [Ent. 13 - ACS];
Por vezes, a ineficácia dos ACS pode ser criticada:
“Ela não mora ali [na micro-área correspondente], ela passa uma vez por mês e aí a gente fala que verifica ‘nas coxas’”. (Ent. 2 – Enfermeira).
Fazendo uma reflexão sobre o trabalho do ACS, e recorrendo às considerações de Nogueira (2002), este trabalho veio “atender as necessidades de amenizar os efeitos deletérios à saúde, gerados pelo modelo hegemônico, centrado na figura do médico e em altas tecnologias e equipamentos que elevam os custos de sua manutenção” (p.92). Embora essas finalidades sejam plenamente defensáveis, elas não devem significar, ao nosso ver, a exclusão
de tecnologias clínicas na avaliação dos pacientes (no caso, tecnologias leve-duras – Merhy, 2002 – representadas pela correta aplicação de critérios diagnósticos). As falas da entrevistada 13 vão ao encontro dessas nossas considerações.
No que diz respeito à avaliação do UPA, é possível que as atribuições do trabalho dos ACS tendam a ser construídas sem uma orientação muito clara por parte das Equipes, com responsabilizações talvez excessivas.
Talvez haja uma desproporção entre o perfil real das Equipes e o perfil esperado, acarretando esforços dos ACS para superar incompetências dessas Equipes. Este descompasso existe de forma muito nítida e acredita-se que seja uma das maiores causas de sofrimento cotidiano do ACS, sobre os quais cotidianamente expectativas de várias naturezas são depositadas, como: observação, identificação, iniciativa, busca, difusão dos conhecimentos, integração, incorporação de valores, produtividade, postura profissional
equilibrada, dentre outras. Se não correspondidas, causariam desdobramentos significativos,
afetando o membro talvez mais estrutural da estratégia de Saúde da Família (MARTINES & CHAVES, 2007).
A valorização de visitas domiciliares, a serem feitas por membros das equipes sem formação específica em saúde, para suspeição de padrões problemáticos de consumo de álcool, ao nosso ver deve ocorrer em algumas situações, pois pode ocorrer que a pessoa que tem problema com álcool jamais compareça à Unidade. Caso não diretamente supervisionado, no entanto, esse recurso pode acarretar algumas consequências negativas, uma vez que não faz parte das competências dos ACS utilizarem padrões técnico-científicos para identificação ou suspeição de casos. Dentre os ACS entrevistados, perceberam-se elementos importantes, na esfera atitudinal, em suas falas, sobressaindo uma percepção de pertencimento às ESF:
“A gente já fez [grupos]. A gente já começou a fazer com que o Dr. X [médico] e com a Y [enfermeira], a gente fazia.” (Ent. 4 – ACS)
Porém, não se sentem, como até é esperado, competentes para as avaliações que deles por vezes é esperada pelos outros membros da equipe:
“O agente comunitário não tem essa capacitação para abordar o paciente alcoólatra.” (Ent. 4 – ACS)
Os parâmetros que eventualmente utilizariam carecem de maior fundamentação, mas por vezes diagnósticos são feitos, também “sensoriais”, prevendo a colaboração dos recepcionistas das Unidades:
“Não são dependentes, eles trabalham de segunda à sexta. [...] sempre caídos em algum lugar por aí. [...] Esse daqui, ele faz uso há muito tempo e ele já é dependente de álcool.” (Ent. 4 – ACS);
“O ACS ta dentro da casa, você vê [...] É toda uma questão para ser avaliada na frente, pela pessoa que está no balcão, que seria a recepcionista, que ela já tem uma pré... que é para poder avaliar a situação.” (Ent. 6 – ACS);
“Logo percebi que é um jovem dependente ... eu percebi que ele estava cheirando álcool.” (Ent. 6 – ACS);
“Geralmente a gente coloca na ficha de cadastro se ele é alcoólatra.” (Ent. 12 – ACS).