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Hayızlı Kadının Mescitten Bir ġey Alması ile Ġlgili Hadis

4. ÜMMÜ EYMEN‟ĠN ġAHSĠYETĠ

1.3. Hayızlı Kadının Mescitten Bir ġey Alması ile Ġlgili Hadis

“A gente tá ligando, pedindo vaga, se não consegue aqui, ali, liga pro [hospital]. São os nossos recursos.” (Ent. 13, ACS).

Observamos, como regra, nas entrevistas, representações que consideramos baseadas em saberes eminentemente não técnicos sobre os padrões de consumo de álcool.

Quanto à representação sobre a etiologia da dependência de álcool, a menção de um entrevistado não se sustenta a partir do conhecimento teórico atual:

“...é uma doença genética, se tem o gene, isto vai despertar muito cedo, como a gasolina: encostou, pega fogo. Esse gene pode manifestar muito cedo numa criança e chegar [...] 16, 17 anos e ele já tá dependente.” (Ent. 1 – odontólogo)

Embora os entrevistados tenham identificado que há diversas “formas” de se fazer o uso desta substância, utilizaram basicamente conhecimentos que consideramos do senso comum sobre esses padrões, mesmo quando utilizando alguns termos de origem técnica:

“...o alcoolismo ou o consumo, vamos dizer, o alcoolismo: já seria outro patamar. [...] o beber social... é a pessoa ter controle de saber quando ela pode beber, porque... a tolerância ao álcool é muito particular.” (Ent. 1, odontólogo);

“Era alcoólatra, totalmente alcoolizado.” (Ent. 9 – enfermeira)

Os critérios utilizados para avaliar o padrão de uso de álcool foram variados, mas chamaram a atenção uma hierarquia de gravidade baseada nos incômodos que o indivíduo causa por seu comportamento, na freqüência, na quantidade e no tipo de bebida alcoólica ingerida:

“sinceramente eu não sei [o que é o uso problemático de álcool]....ela sofre por ter um marido assim" (Ent.2 - Enfermeiro);

“No meu conceito o uso é o uso social e consciente, a pessoa que toma uma cerveja numa festa ou uma taça de vinho antes do jantar ou numa festa [...] Agora a pessoa que estava em consumo já mais freqüente já não é considerada simplesmente um consumo sadio então, na verdade nenhum consumo é saudável né? [...] a pessoa que não consegue passar mais de uma semana sem beber nada já é dependente. E o abuso já é uma pessoa que chega a uma embriaguez, quando embriaguez já é abuso” (Ent.3 - Enfermeiro);

“... os jovens estão usando cada vez mais por ai, cada vez mais pessoal alcoolizado na rua e você vê não são alcoólatras, não são dependentes, eles trabalham de segunda a sexta, chega sexta feira a noite... bebe no sábado, bebe no domingo e tem a cervejinha todo dia no almoço, e começa assim” (Ent. 5 – Auxiliar de Enfermagem);

“Social, tudo bem [...] mas a gente vê uma turma aí bebendo garrafa de pinga” (Ent. 7 - ACS);

Essas percepções ou modos de expressão sobre o uso problemático do álcool demonstram uma fundamentação em conhecimentos não técnico-científicos. As definições atuais sobre padrões problemáticos (uso de risco, uso nocivo e dependência) não consideram, por si sós, a freqüência, quantidade ou tipo de bebida. Por outro lado, há evidências de que o consumo moderado de bebidas alcoólicas é fator de proteção para morbi-mortalidade cardíaca (COSTA et al, 2004), o que também não foi considerado pela amostra.

Sendo assim, a ancoragem deste tipo de conhecimento sobre padrões

avaliativos de consumo, tal como revelado pelos participantes, parece se dar em conhecimentos do senso comum. A objetivação do usuário que faz uso problemático parece, então, se dar a partir de elementos que, embora presentes em parte dos usuários que fazem este tipo de uso, não são os fenômenos que devem ser avaliados para assim caracterizá-los.

Essa constatação permite supor que o rastreio do uso de álcool entre membros da comunidade atendidos em seus serviços poderia ficar prejudicado, no sentido de que muitas pessoas que fazem o uso problemático do álcool não seriam identificadas e outras que

fariam um uso funcional podem ser erroneamente classificadas como bebedores problemáticos.

O álcool é a substância psicoativa mais utilizada na maioria dos países e no Brasil é legalizada para comércio e consumo de adultos. O fato de ser uma substância lícita, e aceita socialmente, por um lado talvez confira algum tipo de “segurança” para as pessoas que avaliam clinicamente este uso: a priori, o sujeito que usa não estaria fazendo algo “de errado”. Porém, quando diante da necessidade de avaliar o quanto este uso prejudica a saúde, recorre-se a – ou seja, ancora-se em – parâmetros mais facilmente quantificáveis: avalia-se o quanto e quantas vezes (o que nos remete à idéia de que o “problema” estaria no “uso que intoxica ou envenena”, no “uso exagerado”). Menos comumente, avalia-se como este uso ocorre e, neste sentido, faz-se um contraponto a essa discussão: na entrevista 9, há referência a como o uso problemático pode ser feito:

“... ele tá vendo que tá hipertenso com diabetes e continua com o alcoolismo, ele está ciente daquilo, pq ele já foi orientado e ele continua aí eu acho que é um uso problemático” (Ent.9 - Enfermeiro).

Porém, no que pese ter, de fato, possivelmente mencionado um dos critérios de dependência (a pessoa continuar usando a substância a despeito de saber que um problema físico que possui pode decorrer deste uso), o enunciado foi expresso de uma forma que consideramos descontextualizada, pois parece utilizar “alcoolismo” como sinônimo de “uso” ou “uso problemático”. Os usuários que fazem uso problemático parecem, assim, ser

objetivados como uma categoria única.

Quanto às possibilidades de intervenção terapêutica em relação aos pacientes que fazem uso problemático de substâncias, alguns elementos de interesse foram identificados.

Chama a atenção que pode haver uma procura, a priori, pela “causa” do uso problemático, um “porquê” transcendente ao comportamento que, se descoberto, facilitaria a terapêutica:

“Tem muitos casos que a pessoa bebe não porque ela quer beber, às vezes tem que ver o que está acontecendo na casa dele.” (Ent. 4 – ACS);

“Você tem que entrar no contexto da família para ver... esse paciente bebe por quê? O paciente perdeu o trabalho?” (Ent. 8 – médico);

“Já vem a questão familiar, não só a ingestão, mas também os problemas familiares que levam ao abuso de álcool.” (Ent. 11 – Enfermeira).

As técnicas de intervenção breve (v. seção 1.3.5 da introdução) não são citadas. Em verdade, parece que em muitos momentos opta-se por não intervir, somente esperar:

“A gente fala: ‘volta outro dia, vai pra casa, espera passar [a intoxicação aguda], até pra gente poder orientar [...] a gente acaba fazendo a nossa parte do lado de cá, não fica muito em cima.” (Ent. 11 – enfermeira);

“A gente pede para eles irem pra casa, principalmente os homens.” (Ento. 12 – ACS)

Algumas idéias sobre como intervir estiveram presentes nas falas. Citam-se, por exemplo, encaminhamentos e propostas terapêuticas não sistematizadas (retirada gradual do álcool). Algumas vezes parece esperar-se pela demanda do paciente (a Estratégia da Saúde da Família não ajudaria a criar esta demanda):

“Tentar ir tirando aos poucos. Na hora que essa pessoa chega e fla ‘eu quero reabilitação’, eu fiz [o encaminhamento], eu consegui, ela foi.” (Ent. 2 – enfermeira);

“Se ele já ta nesse patamar de consumo, ele precisa de ajuda. [...] sendo uma droga, tem que ter auxílio especializado. [...] existem instituições, AA ... a pessoa tem que buscar ali, aquela ajuda.” (Ent. 1 – odontólogo).

Nesta última frase, observa-se uma representação de uma evolução linear dos problemas com álcool (“...já ta nesse patamar...”); só se precisaria de ajuda quando se está “nesse patamar” e, neste cãs, o ajuda tem que ser especializada. Portanto, a função da Unidade de Saúde da Família seria constatar e encaminhar, não percebendo o entrevistado como função sua o intervir de outro modo, nem a possibilidade de interrupção espontânea do uso problemático.