O ruído é um sinal acústico aperiódico, originado da superposição de vários movimentos de vibração com diferentes frequências que não apresentam relação entre si (FELDMAN; GRIMES, 1985).
É formado por um espectro de frequências aleatórias, não harmônicas, e caracterizado pela intensidade, quantidade de energia vibratória que se propaga nas áreas próximas, a partir da fonte emissora, e pela frequência, representada pelo número de vibrações completas por segundo. Pode ser classificado como: estacionário, com variações dos níveis desprezíveis durante o período de observação; contínuo, cujo nível varia continuamente de um valor apreciável durante o período de observação; e de impacto, que se apresenta em picos de energia acústica de duração inferior a um segundo (SANTOS; MORATA, 1999).
Conforme a Portaria n° 3.214 (BRASIL, 1978), existem limites de tolerância à exposição ao ruído e o tempo de exposição deve reduzir à medida que a intensidade do ruído aumenta. Conforme tabela a seguir:
Quadro 1: Limite de exposição ao ruído em dB (A) x horas
NPS dB (A) Máxima exposição diária permissível (horas)
85 08 86 07 87 06 88 05 89 04,5 90 04
Adapatado do ANEXO I NR 15 Segurança e Medicina do Trabalho – Atividades e Operações Insalubres (BRASIL, 1978).
Quando o ruído é intenso e a exposição a ele é continuada, em média 85dB(A) por oito horas por dia, ocorrem várias alterações no indivíduo. Ele afeta o ser humano simultaneamente nos planos físico, psicológico e social. Os seus efeitos vão desde alterações passageiras até graves danos irreversíveis. Acima de 90 dB, o ruído afeta desfavoravelmente a produtividade, bem como a qualidade do produto em atividade de longa duração e que requerem contínua e muita atenção. Um indivíduo normal precisa gastar aproximadamente 20% de energia extra para realizar uma tarefa, sob o efeito do ruído perturbador intenso (BRASIL, 2006).
A exposição ocupacional ao ruído intenso está associada a várias manifestações sistêmicas, tais como elevação do nível geral de vigilância, aceleração da frequência cardíaca e respiratória, alteração da pressão arterial e da função intestinal, dilatação das pupilas, aumento do tônus muscular, aumento da produção de hormônios tireoidianos e estresse (COSTA; KITAMURA, 1995).
No que diz respeito à alteração da pressão arterial em decorrência do ruído, de acordo com VanKempen et al. (2002), tem sido sugerido que a exposição ao ruído está associada a alterações da pressão arterial e risco de doença cardíaca, mas a evidência epidemiológica ainda é limitada.
Corrêa Filho et al. (2002) estimaram a prevalência de perda auditiva induzida por ruído e hipertensão arterial, em 108 condutores de ônibus urbanos da cidade de Campinas, e encontram 32,7% com perda auditiva induzida por ruído e 13,2% de hipertensão arterial diastólica (PAD≥90 mmHG; PAS≥140 mmHG). Valores próximos ao estimado para o Brasil (15%) por Kholmann et al. (1999).
Seligman (2001) refere como sinais e sintomas auditivos a perda auditiva, zumbidos, dificuldades no entendimento de fala e outros sintomas menos frequentes como: plenitude auricular, dificuldade na localização da fonte sonora.
Ogido, Costa e Machado (2009), com o objetivo de estimar a prevalência de sintomas auditivos e vestibulares em trabalhadores expostos a ruído ocupacional, analisaram os prontuários de 175 trabalhadores com perda auditiva induzida por ruído, atendidos em um centro de referência de saúde ocupacional e como seus resultados obtiveram 74% casos de hipoacusia (diminuição auditiva), 81% com zumbidos e 13,2% com vertigem. No entanto, a associação entre hipoacusia e idade, tempo de exposição ao ruído e limiares auditivos tonais e entre vertigem e tempo de exposição ao ruído, não foram significantes.
O zumbido é um dos sintomas mais comumente relatados pelos portadores da perda auditiva induzida por ruído (PAIR), e provoca muito incômodo (KANDEL; SCHWARTZ; JUSSEL, 2003). Ele é definido como sendo a manifestação do mau funcionamento, no processamento de sinais auditivos envolvendo componentes perceptuais e psicológicos (VESTERAGER, 1997). Num estudo com 3.466 trabalhadores requerentes de indenização por PAIR, McShane, Hyde e Alberti (1988) observaram uma prevalência de zumbido de 49,8%. Destes, 29,2% afirmaram que o zumbido era o problema principal. Estima-se que a prevalência de zumbido aumenta de acordo com a evolução do dano auditivo, influenciado pela idade e tempo de exposição ao ruído (DIAS
et al., 2006).
No que diz respeito à perda auditiva, são considerados como sinônimos: perda auditiva por exposição ao ruído, no trabalho, perda auditiva ocupacional, surdez profissional, disacusia ocupacional, perda auditiva induzida por níveis elevados de pressão sonora, perda auditiva induzida por ruído ocupacional, perda auditiva neurossensorial por exposição continuada a níveis elevados de pressão sonora de origem ocupacional.
Morata e Lemasters (1995) propuseram a utilização do termo “perda auditiva ocupacional”, por ser mais abrangente, considerando o ruído, como o agente mais comum. No entanto, o mesmo pode estar associado a produtos químicos e vibração, fatores que podem prejudicar mais ainda o trabalhador (SILVA, 2002).
No ano de 1996, o National Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH) publicou o Guia Prático para Prevenção de Perda Auditiva Ocupacional, utilizando o termo “perda auditiva ocupacional” para definir não só a perda auditiva induzida por ruído, como também as provocadas por exposições a solventes aromáticos, metais e alguns asfixiantes, e vibração (FIORINI; NASCIMENTO, 2001).
Além da perda auditiva propriamente dita, o indivíduo exposto ao ruído pode apresentar o trauma acústico, quando a exposição ao ruído é de forma súbita e muito intensa, lesando, temporária ou definitivamente, diversas estruturas do ouvido. Ou pode apresentar a mudança transitória do limiar que se caracteriza por uma diminuição da acuidade auditiva que pode retornar ao normal, após um período de afastamento do ruído (BRASIL, 2006).
Para Borchgrevink (2003), ruído é um risco para a saúde. E um dos efeitos do ruído mais divulgados e cientificamente provados é a perda auditiva. No entanto, o ruído pode causar efeitos psicossociais e orgânicos inespecíficos. Além disso, exposição crônica ao ruído, caracterizada por alta intensidade e frequência baixa pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares, como também, bioquímicas, gastrointestinais, respiratórias e afetar o sistema imunológico (HESSEL; SLUIS-CREMER, 1994; VAN KEMPEN
et al., 2002; VAN CAMPEN et al., 2002).
Seligman (2001) também refere como efeitos do ruído, chamados de extra-auditivos: Transtornos da comunicação; Alterações do sono; Transtornos neurológicos; Transtornos vestibulares; Transtornos digestivos; Transtornos comportamentais. E a exposição ao ruído pode induzir respostas psicossociais como aborrecimento, cansaço, distúrbios do sono e ansiedade (MILLER, 1974; MELAMED; BRUHIS, 1996).
Gitanjali e Ananth (2003) estudaram os efeitos do ruído (acima de 75 dB) em trabalhadores de indústria e observaram aumento significante do cortisol e estresse após a exposição, além de mudanças no sono e no batimento cardíaco.
Chiovenda et al. (2007) investigaram os efeitos neuropsicológico, neurofisiológico e estado emocional de guardas de trânsito, além de avaliar os efeitos do ruído ambiental a que os guardas de trânsito são expostos versos a tarefa de Stroop (ruído induzido), por meio do potencial cognitivo P300 e questionário IDATE. Obtiveram como resultado amplitudes rebaixadas do P300
mais evidentes em escores ansiedade estado elevado. E não houve diferença entre os dois grupos (guardas de trânsito e controle) nos resultados dos testes neuropsicológicos e psicológicos, apenas nas mensurações neurofisiológicas e essas variações estavam associadas com o humor e ansiedade dos guardas de trânsito.
Melamed e Bruhis (1996), ao estudarem 35 trabalhadores saudáveis de uma indústria têxtil, observaram atenuação do ruído maior que 85 dB (A) para 30 -33 dB com protetores auriculares em trabalhadores, reduziram o nível do cortisol na urina, além de diminuir o cansaço e irritabilidade após o trabalho
Fernandes e Morata (2002) com o objetivo de investigar as queixas de saúde e achados audiológicos de 73 trabalhadores expostos ao ruído e vibração (divididos em dois grupos), encontraram a ansiedade entre os problemas de saúde mais citados pelos trabalhadores do grupo exposto ao ruído e vibração de corpo inteiro. Enquanto que a porcentagem de audiogramas alterados foi mais elevada no grupo exposto a vibração transmitida por meio das mãos-braços. Andrade et al. (1998) também encontraram queixa de ansiedade entre os trabalhadores expostos ao ruído ocupacional. Entretanto, ambas as pesquisas não utilizaram questionário específico e auto-avaliação para mensuração da ansiedade.
Sabe-se que agentes físicos como o ruído estão presentes em vários locais de trabalho, mas ainda existem os estressores organizacionais, que são aqueles relacionados à organização do trabalho como, por exemplo, turnos, ritmo e ergonomia (FERNANDES; MORATA, 2002). Em se tratando de indivíduos que trabalham em indústrias, estes possuem escalas de trabalho não convencionais e existem evidências de que o esquema de organização dos cronogramas de trabalho é um fator que provoca níveis de estresse e ansiedade, afetando negativamente a saúde física e mental e o desempenho do indivíduo (MONK, 1988; OLSSON; KANDOLIN; KAUPPINEN- TOROPAINEN, 1989).
A explicação para essas consequências ao trabalhador seria: alteração do ciclo circadiano, alteração da homeostase e ausência de vida familiar/social (COSTA, 1996; HARRINGTON, 1994; MONK, 2000). Combinados, esses estressores (ruído e horários não convencionais) podem ter uma série de efeitos sobre a saúde e bem-estar dos trabalhadores, aumentando a
sensibilidade aos agentes estressores ambientais e, consequentemente, o risco de acidentes de trabalho (FERNANDES; MORATA, 2002).
Almondes e Araújo (2009) avaliaram ansiedade e estresse em 239 trabalhadores em diferentes esquemas de trabalhos, por meio do Inventário de Ansiedade Traço-Estado e Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp. Os resultados mostraram que os trabalhadores em turnos apresentaram maiores escores de Ansiedade Traço-Estado quando comparados com os trabalhadores diurnos fixos (t=-4,994, p=0,0001; t=-2,816, p=0,005, respectivamente). Os autores concluíram que esquemas de trabalhos em turnos causam mais ansiedade-estado e traço, mas não elevam significativamente níveis de stress quando comparados com diurnos fixos.
Dessa forma, além da exposição ao ruído que pode trazer consequências à saúde mental, como por exemplo, a ansiedade, citada na literatura, os trabalhadores ainda tem o fator horário de trabalho que também pode trazer consequências neste sentido.
4 OBJETIVOS
4.1 Geral
Avaliar o efeito do óleo essencial de Citrus aurantium L (CiaL.) extraído da casca da laranja na ansiedade de trabalhadores expostos a ruído ocupacional.
4.2 Específicos
Identificar trabalhadores com alta e baixa ansiedade;
Correlacionar o tempo de trabalho, idade e turno com momento de maior ansiedade e comportamento emocional;
Comparar as mensurações dos parâmetros psicológicos entre os grupos de trabalhadores com alta e baixa ansiedade;
Comparar as mensurações dos parâmetros fisiológicos entre os grupos de trabalhadores com alta e baixa ansiedade.
5 MATERIAL E MÉTODOS
5.1 Material
5.1.1 Sujeitos da pesquisa
A população do estudo foi formada por voluntários com alta e baixa ansiedade que trabalham em uma indústria de papel, localizada na BR 101 Km 06, Paraíba. A utilização desta população no estudo justificou-se pela constatação da presença de ansiedade em trabalhadores expostos a ruído ocupacional em estudos desenvolvidos por Andrade et al. (1998), Fernandes e Morata (2002) e Almondes e Araújo (2009).
A seleção dos sujeitos foi realizada através de triagem, durante avaliação audiológica demissional/periódica/admissional, entre setembro de 2010 a julho de 2011, na sala do setor médico da empresa. Foram aplicados, individualmente, o Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE) e o Self-
Report Questionnaire-SRQ 20 (Anexo B e Anexo A, respectivamente), por meio de entrevistas, ou seja, as perguntas dos questionários eram lidas em voz alta, o trabalhador respondia e a pesquisadora anotava. Caso, não entendesse a pergunta, a mesma era refeita sem alteração do sentido.
A aplicação do IDATE-traço teve o objetivo de identificar a presença e o grau de ansiedade (baixo ou alto) nos trabalhadores expostos ao ruído ocupacional. O SRQ-20 para detecção de distúrbios psiquiátricos menores. Além disso, durante a entrevista, questionou-se o momento de maior ansiedade do trabalhador: antes, durante ou após o trabalho, para a ocasião de exposição ao óleo essencial CiaL.
Foram triados 180 trabalhadores, dos quais foram excluídas cinco mulheres para que fatores relacionados ao gênero (fatores hormonais) não interferissem nos resultados, dois por não finalizarem a avaliação completa (ensaio clínico), 31 trabalhadores que foram desligados da empresa, um trabalhador por fazer uso de medicamento psicotrópico, oito por estarem em período de férias e 87 por não poderem ser liberados da produção, pois atrapalharia o andamento das atividades laborais.
A amostra foi constituída por 48 trabalhadores, todos do sexo masculino, com idade entre 20 e 51 anos, os quais se enquadram nos critérios de inclusão, como idade acima de 18 anos e sem antecedentes psiquiátricos; de exclusão, ou seja, não apresentavam doenças neurológicas, usuário de estimulantes, fitoterápicos, ansiolíticos, antidepressivos, portadores de rinites e sinusites e alérgicos a odores.
Os voluntários que participaram do ensaio clínico (n=48) foram alocados de forma não-aleatória, de acordo com o grau de ansiedade (baixa ou alta), pareados por idade e conforme liberação do setor de produção que trabalha. Posteriormente, os sujeitos foram subdivididos em quatro grupos: grupo experimental alta ansiedade (n=8); grupo controle alta ansiedade (n=8); grupo experimental baixa ansiedade (n=16) e grupo controle baixa ansiedade (n=16). Conforme ilustrado no Fluxograma 1.
Fluxograma 1: Demonstrativo sujeitos e grupos da pesquisa.
TRIAGEM N=180 SRQ-20 IDATE- Traço Grupo experimental Baixa Ansiedade N=16 Grupo controle Alta Ansiedade N=8 Grupo experimental Alta Ansiedade N=8 Grupo controle Baixa Ansiedade N=16 SELECIONADOS N= 48
-De acordo com o grau de ansiedade (IDATE-traço); -Grupos pareados por idade -Liberação do trabalhador pelo setor de produção EXCLUÍDOS: 5-mulheres 31-desligados 1-uso psicotrópico 8-período de férias 87-não liberados do setor
5.1.2 Droga vegetal
Para a realização deste experimento clínico utilizou-se 10 mL de Óleo Essencial Citrus aurantium L. (CiaL-OE.), o qual foi cedido pelo International
Flavours and Fragrance Inc (IFF) de São Paulo – Brasil. O cálculo da concentração de CiaL. (10 mL) foi feito, pelo IFF, de acordo com área da sala em que foi realizado o ensaio clínico: 2,47 cm de largura, 3,72 cm de cumprimento, 2,63 cm de altura (referência da fita métrica: v12-3; starrett - 3M; EDP Nº67822)
O CiaL. foi extraído da casca da laranja e é composto por 98% de limoneno (figura 1).
5.1.2.1 Parâmetros cromatográficos do CiaL-OE.
Para verificação e confirmação da composição do CiaL-OE. foi realizada cromatografia no Laboratório de Controle de Qualidade de Produtos Farmacêuticos- LCQPF da Universidade Federal da Paraíba-UFPB, por dois farmacêuticos Fábio Santos de Sousa e Valmir Gomes de Souza. (Figura 1).
Os cromatogramas foram obtidos de um cromatógrafo a gás diretamente interfaciado com um espectrômetro de massas (Shimadzu GC-MS-QP5050A). Coluna capilar com fase estacionária de 5% fenil e 95% dimetilpolisiloxano com 30 m de comprimento, 0,25mm de diâmetro interno e 0,25 µm de espessura do filme, fabricada pela J & W Scientific.
A programação de temperatura inicial é de 70ºC a 105 ºC (8 ºC/min) depois segue até 250ºC (40ºC/min), e temperatura de interfaciamento de 250 ºC; apresentando tempo de programação de 9,0 min. A temperatura do injetor foi de 250º C, o hélio foi utilizado como gás de arraste a um fluxo de 1,5 mL/min, com razão de Split de 1:5. O volume de injeção foi de 10µL.
A ionização dos componentes foi realizada por impacto eletrônico a 70eV, com detector de 1,25Kv. O espectrômetro foi operado no modo SCAN, varrendo uma faixa de massas de 45 a 450 u.m.a. A temperatura da fonte de íons foi de 280 ºC. A identificação dos compostos foi realizada comparando
seus espectros de massas com os espectros existentes no banco de dados do equipamento (biblioteca Willey/NBS).
Figura 1. Cromatograma do CiaL apontando o pico do limoneno com tempo de
retenção em 4,5min.
5.1.3 Equipamentos
Utilizou-se um fisiógrafo Modelo I-330-C2+ da J&J Engineering para a
mensuração das medidas fisiológicas (temperatura de extremidade e condutância da pele) e tensiômetro digital de pulso Marca Techmed para avaliação da pressão arterial e freqüência cardíaca.
Para a vaporização do OE utilizou-se o aparelho de vaporização, fabricado pela World`s Natural Fragancies (WNF) Indústria e Comércio LTDa.- São Paulo/Brasil.
5.1.4 Local de realização do ensaio clínico
A pesquisa foi realizada em duas salas no setor médico da empresa, uma ao lado da outra. Na sala 1 foram realizadas as mensurações pré e pós inalação do CiaL. Na sala 2 foi realizada a inalação do odor do CiaL., a mesma continha uma maca e uma cadeira confortável. Em ambas as salas foram mantidas temperatura aproximadamente 23°C (ou confortável para o sujeito) e quanto à luminosidade, na sala 1 foi mantida a luz acesa e na sala 2, luz apagada, mantendo luz natural ambiente vinda da janela de vidro alta.