Vários medicamentos à base de ervas medicinais têm sido popularmente usados para o tratamento de patologias e produzindo efeitos satisfatórios sobre doenças do sistema cardiovascular como a hipertensão (VORA; MANSSOR, 2005).
Dessa forma, aliar o conhecimento cientifico ao popular em busca de novos medicamentos fitoterápicos é um dos principais caminhos para o sucesso de
pesquisas na área de plantas medicinais (DI STASI; HIRUMA-LIMA, 2002), que tem por objetivo avaliar a atividade biológica de plantas e seus constituintes químicos em sistemas, órgãos e tecidos com o intuito de descobrir substâncias que possam ser potencialmente utilizadas na terapêutica e/ou como ferramentas farmacológicas.
O Brasil, com a grandeza de seu litoral, de sua flora e, sendo o detentor da maior floresta equatorial e tropical úmida do planeta, não pode abdicar de sua vocação para os produtos naturais (PINTO et al., 2002). Nosso país possui a maior biodiversidade do mundo, estimada em cerca de 20% do número total de espécies do planeta. Esse imenso patrimônio genético, que nos países desenvolvidos encontra-se escasso, tem na atualidade valor econômico – estratégico inestimável em várias atividades, mas é no campo de novos medicamentos que onde reside sua maior potencialidade (CALIXTO, 2003).
Uma família amplamente estudada na área de pesquisas com plantas medicinais é a família Lauraceae, que segundo a Angiosperm Philogeny Group – APG (Grupo de Filogenia Angiospermática) é representada por mais de 2000 espécies em 40 gêneros. No Brasil, há aproximadamente 25 gêneros e 400 espécies, inúmeras dessas espécies são encontradas principalmente na Amazônia. Possui distribuição pantropical, sendo bem representada na América, Ásia tropical, Austrália e Madagascar, com pouca expressão no sul da África (ROHWER, 1993 apud QUINET, 2005). Habitam, em sua maior parte, as florestas pluviais, bem como as restingas e os cerrados, estando ainda presente em outros ecossistemas. São árvores ou arbustos geralmente aromáticos, monóicos, dióicos ou gimnodióicos, e apenas o gênero Cassita se apresenta como gênero produtor de espécies trepadeiras (BARROSO, 2002). O nome da família Lauraceae deriva de lauer = "verde", e laus = "louvor", que significa coroar ou cingir de louros.
Dentre os vários gêneros que constituem essa família podemos citar Ocotea, Aniba e Nectandra que possuem grande valor medicinal, além de Cinnamomum, Cryptocarya, Laurus e Sassafrás importantes fontes de compostos aromáticos (DI STASI; HIRUMA-LIMA, 2002). A culinária também utiliza várias espécies da família Lauraceae, tal como o fruto de Persea americana (abacate), o Laurus nobilis (louro) utilizado como condimento, e outras especiarias tais como as “canelas” Cinnamonum zeylanicum Breyne e C. Cassia (Nees) (MARQUES, 2001).
Em virtude da boa qualidade da madeira e dos óleos essenciais das plantas deste gênero, eles alcançam um alto valor no comércio, o que justifica sua intensa
exploração ao longo dos anos, colocando em risco a preservação de suas espécies (QUINET, 2005). A madeira das espécies dessa famíia são bastante utilizadas na marcenaria, construção civil e fabricação de papel. A produção de óleos essenciais provêm das espécies aromáticas pertencentes aos gêneros Aniba, Nectandra, Ocotea, Licaria e Dicypellium (ZOGHBI).
As Lauráceas destacam-se entre as demais famílias também pela sua importância medicinal. Segundo DI STASI e HIRUMA-LIMA (2002), na medicina popular o louro (Laurus nobilis) é utilizado para combater problemas hepáticos e intestinais, sendo considerado digestivo. As folhas do abacateiro (Persea americana) são utilizadas por possuírem funções diuréticas, analgésicas, especialmente contra diarréia e cálculo renal, ao passo que a infusão das folhas, além de atuar como diurético e analgésico, é também usada contra febres. Outra espécie utilizada na medicina popular é o Cinnamomum zeylanicum Blume, conhecido como canela, com ações antiespasmódica e ação antifúngica (LIMA, 2006).
Vários efeitos biológicos das espécies dessa familia são relatados na literatura científica, efeitos tais como atividade anticonvulsivante do óleo essencial de Laurus nobilis (SAYYAH et al., 2002), efeitos depressivos centrais de Ocotea duckei (MORAIS, 1998). No extrato aquoso de Persea americana Mill ação analgésica e anti-inflamatória (ADEYEMI et al., 2002), efeito hipoglicemiante (KIM et al., 2006) e inibição da xantina oxidase pela Cinnamonun cassia (KONG et al., 2000), ação antinociceptiva e remoção de radicais livres por alcalóides de Lindera angustifolia Chen (ZHAO, 2006), entre outros.
Alguns gêneros da familia Lauraceae tem as suas ações sobre o sistema cardiovascular referidas na literatura. O extrato aquoso das folhas de Persea americana em aorta de ratos, produziu uma resposta vasorrelaxante dependente de concentração, na presença do endotélio funcional, com efeito relaxante atenuado após a remoção do entoléio, mostrando o efeito dependente deste (OWOLABI et al., 2005). Com envolvimento da síntese e liberação dos fatores relaxantes derivados do endotélio, e inibição da mobilização de cálcio através dos canais de CaV e, um menor efeito sobre os canais operados por receptores (OWOLABI et al., 2005). Outros estudos mostraram a capacidade deste extrato em causar hipotensão em ratos anestesiados, normotensos e hipertensos. E vasorrelaxamento em anéis da veia porta e de aorta de ratos normotensos, sendo o responsável por esse efeito a
produção de NO e liberação de GMPc, sem envolvimento dos receptores muscarinicos (OJEWOLE et al., 2007).
Dias e colaboradores (2004) verificaram que (S)-reticulina, causa hipotensão e bradicardia em ratos normotensos não anestesiados, além de inibir as contrações induzidas por fenilefrina e KCl em anéis de aorta de rato, dependente da presença do endotélio. Os possiveis mecanismos de relaxamento produzidos pela (S)- reticulina, isolada da planta Ocotea duckei Vattimo, foram estudados utilizando técnicas de patch clamp e cultura de células.. Alguns fatores suportam a hipótese de que a (S)-reticulina inibe a corrente de cálcio (ICa,L) provavelmente por uma interação com os canais de cálcio tipo L, além de uma pequena participação dos mecanismos dependentes de AMPc (MEDEIROS et al., 2009). Ocotea quixos, outra espécie do gênero Ocotea, no estudo de Ballabeni e colaboradores (2007) mostrou que o seu óleo essencial é um fitocomplexo antitrombótico livre do efeito colateral pro hemorrágico, na condição de administração subaguda (BALLABENI et al., 2007).
Vários compostos da espécie Cassyta filiformis Linn tiveram os seus efeitos testados em anéis de artéria aorta, de forma que alguns apresentaram um potencial vasorrelaxante. Mediante os compostos testados, os alcaloides tem um papel significante no efeito vasorrelaxante da C. filliformis (LIAO, 1996).
Estudos de Choi e colaboradores (2009) mostraram que Cinnamomum cassia e seu composto ativo, ácido cinâmico, promovem a formação de novos vasos, e também o aumento da proliferação celular tanto das células endoteliais da veia umbilical humana como das células endoteliais de aorta de boi. Ambos também induzem motilidade quimiotática e formação de uma rede nas células endoteliais.
Dentre os vários gêneros que constitui a família Lauraceae, estar o gênero Aniba, reconhecido como um dos principais gêneros da familia Lauraceae, constituido de 41 espécies de arbustos e árvores, e que se apresenta na diversidade na Amazônia Central e Guiana. É um gênero que se estende nos Andes, nas montanhas do norte da Venezuela, nas pequenas Antilhas e no leste e sul do Brasil (MELO et al., 2005).
Há várias décadas, estudiosos se dedicam ao estudo do gênero Aniba, que possui entre seus constituintes neolignanas, flavonóides e pironas (ROSSI, 1997). A existência de pironas é marcante no gênero Aniba, aonde estudos do químico Otto Gottlieb nos anos 70 já afirmavam que todas as espécies até aquele momento estudadas possuíam pironas como elementos constituintes (GOTTLIEB, 1972a). De
fato tem sido relatado na literatura a presença destas substâncias nas espécies de A. gigantifolia e A. guianensis (SUARÉZ, 1973), A. henrigeri, A. coto, A. pseudocoto, A. duckei, A.roseadora, A. firmula, A. parviflora, A. fragrans (VON BÜLLON, 1968) Aniba panurensis (MOTIDOME et al., 1982), A. kappleri (SANTOS, 1981).
Estudos científicos comprovam atividades biológicas referentes às espécies do gênero Aniba, tais como o efeito ansiolítico (MELO et al., 2005) e efeitos antidepressivos (SOUSA et al., 2004) de Aniba riparia, atividade antibiótica da Aniba riparia contra Candida albicans, Klebsiela pneumoniae e Staphylococcus aureus, Bacillus cereus (MARQUES, 2001).
Poucas dados da literatura fazem referências aos efeitos de algumas espécies do gênero Aniba sobre o sistema cardiovascular. O óleo essencial de A. canelilla apresentou efeitos cardiovasculares tanto em ratos normotensos e espontaneamente hipertensos, efeitos esses reproduzidos pelos seus principais constituintes isoladamente.
Em ratos normotensos não anestesiados, o óleo essencial de A. canelilla promoveu uma diminuição dose-dependente da pressão arterial média e da frequência cardíaca desses animais. Esse efeito não sofreu alterações após o bloqueio ganglionar com hexametônio, enquanto que foi parcialmente reduzido quando utilizado L-NAME (inibidor da sintase do óxido nítrico) e um bloqueador de receptor muscarinico (LAHLOU et al., 2005b). Essa hipotensão produzida envolve um relaxamento vascular, com dependência do endotélio funcional envolvendo a via NO/L-arginina, tal como a inibição da corrente de cálcio através dos canais de cálcio voltagem-dependentes (LAHLOU et al., 2005b).
A verificação isolada de um dos principais componentes do óleo essencial de A. canelilla, o 1-nitro-2-feniletano, foi feita em animais normotensos e espontaneamente hipertensos. Nestes dois tipos de animais, o principal composto do óleo essencial de A. canelilla foi capaz de induzir uma resposta cardiovascular caracterizada por uma bradicardia vago-vagal e reflexor depressor, que aparentemente resulta da estimulação vagal pulmonar do que pelas fibras C aferentes cardíacas. A segunda resposta hipotensora do 1-nitro-2-feniletano ocorre em parte por um efeito direto sobre o músculo liso vascular (INTERAMINENSE et al., 2011; SIQUEIRA et al., 2010).
O outro constituinte do óleo essencial de A. canelilla e de várias outras plantas, o metileugenol, em estudos com ratos normotensos não anestesiados, foi
capaz de promover uma queda na pressão sanguínea, provavelmente através de um vasorrelaxamento vascular, acreditando-se envolver a via L-arginina/ oxido nítrico (LAHLOU et al., 2004a).
Dentro do gênero Aniba existe a espécie Aniba panurensis (Meisn.) Mez (Lauraceae), objeto de nosso estudo, que tem por sinônimos A. gonggrijpii, Aniba mas, Aydendron panurense. É conhecida popularmente por louro amarelo (VIEIRA, 2006), visualizada na figura 3.
Figura 3 - Folhas e frutos da Aniba panurensis Fonte: Royal Botanic Gardens
Na caracterização fitoquimica do óleo essencial da A. panurensis foram identificados hidrocarbonetos sesquiterpênicos, cujas ações são antiinflamatória, antialérgica, anestésica local e antifúngica (ALCÂNTARA; YAMAGUCHI; VEIGA JÚNIOR, 2010). Nos testes de atividade antioxidante e agregação plaquetária foram necessárias grandes quantidades do óleo essencial para promover o efeito (ALCÂNTARA; YAMAGUCHI; VEIGA JÚNIOR, 2010). Apresentou também atividade antimicrobiana por um alcalóide indolizinico isolado da A. panurensis com ação sobre Candida albicans (KLAUSMEYER et al., 2004).
Dos frutos de A. panurensis foi identificada uma pirona natural, a 6 – [(E) – estiril] – 2 – pirona (Figura 3), possuindo o peso molecular de 198, cujo o procedimento foi descrito por BARBOSA-FILHO, 1986. Já tendo sido esta estrutura também identificada em A. parviflora (REZENDE et al., 1971) e A. permollis (MOTIDOME et al., 1982). Estrutura esta apresentada a seguir (figura 4).
Figura 4 - Estrutura química da 6 – [ (E) – estiril ] - 2 - pirona (pirona-198)
Estudos de Chaves e colaboradores (2010) mostraram que a 6-Esteril-2- pirona proveniente da Aniba panurensis foi capaz de aumentar os aminoácidos peptidérgicos, com ação inibitória, como taurina, GABA e glicina no hipocampo de camundongos.
Os efeitos biológicos desta espécie sobre o sistema cardiovascular são pouco relatados na literatura. Estudos anteriores realizados com a 6 – [(E) – estiril] - 2 - pirona proveniente dos frutos da A. panurensis, mostraram que em anéis de artéria mesentérica superior isolada de rato esta pirona foi capaz de promover um efeito vasorrelaxante dependente de concentração, e esse efeito foi mais potente quando os anéis foarm contraídos com um agonista α1– adrenérgico (fenilefrina) comparado
com os anéis contraídos com uma solução despolarizante (KCl 80mM). O efeito vasorrelaxante da pirona-198 também envolveu a liberação de cálcio dos estoques intracelulares através dos receptores sensíveis a IP3 como os receptores de rianodina, além de apresentar uma atenuação do influxo transmembranar de cálcio através de canais de cálcio dependentes de voltagem. Na presença do ortovanadato de sódio, um inibidor da miosina fosfatase, observou-se possivelmente uma interação desta pirona com o mecanismo de sensibilização da maquinaria contrátil (ASSIS, 2007).
3 OBJETIVOS