2. BÖLÜM: AİLE NEDİR?
2.7 Aile Yaşam Döngüsü
O conceito de espaço pessoal, pode ser contextualizado no transitar de pessoas pelo CAERF, desde as relações pessoais estabelecidas nos abrigos de ônibus aos dribles
e ultrapassagens entre os usuários. O tamanho e forma dessa bolha variam de acordo com história individual e condições pessoais, mas quanto mais rápido a pessoa se locomove, mais deformada para frente fica essa “bolha”, pois a preocupação se volta a eliminar possíveis obstáculos pelo caminho. Quando acompanhadas, as pessoas tendem a ampliar mais seu espaço pessoal para incluir o interlocutor, pois há o distanciamento necessário para estar junto à outra pessoa (que também varia dependendo da atividade que ela está exercendo). Talvez daí derive a sensação de que acompanhadas as pessoas ficam “espalhadas” (Entrevista 15). Ou seja, o espaço pessoal do outro pode interferir positivamente ou negativamente no deslocamento da pessoa (Günther, 2003).
Tendo em vista o espaço pessoal como “zona emocionalmente carregada” (Sommer, 1973), o vazio físico entre duas pessoas que conversam no CAERF contém uma carga emocional, de modo que a reação da dupla à alguém que os ultrapasse por essa área central pode ser agressiva, principalmente quando se trata de um casal de namorados, pois o intruso está interferindo nas duas funções do espaço pessoal, auto- proteção e regulação da intimidade (Gifford, 1997). Isso também ocorre nas paradas de ônibus, quando desconhecidos regulam o grau de intimidade distancia entre eles. Hall (1977) em suas investigações sobre intrusão, mostrou que quando um sujeito se aproxima de outro em um lugar público, a pessoa que se sente invadida abandona o lugar, podendo expressar sua insatisfação verbalmente ou através de linguagem não- verbal. Quanto mais aproximada for a intrusão, mais rapidamente a pessoa se afastará.
Quando trafega acompanhada, a pessoa opta por se aproximar mais de seu parceiro do que de outras pessoas. A aproximação entre duas pessoas que percorrem o calçadão juntas, pelo fato de estarem em movimento, diferem um pouco em relação às distâncias apontadas por Hall (1977). A distância pessoal, estabelecida para conversas paralelas, pode aumentar se, na ocasião, as duas pessoas estiverem correndo, pois a
prioridade que determina essa distância é a ação “correr” e não “conversar”, além das medidas de segurança física necessárias para não haver que esbarrões.
A noção territorialidade, enquanto conceito que confere ao usuário uma defesa contra possíveis invasões, é observada no CAERF quando o usuário interpreta que aquela área é de seu uso exclusivo – mesmo que momentaneamente –, numa tentativa de “semi-privatizar” um espaço público. No caso das paradas de ônibus, o espaço físico delimitado para a espera é disputado entre os que esperam e os que cruzam o espaço em diferentes velocidades. Alguns entrevistados relataram se afastar ou ir para a avenida quando a parada está muito cheia. No entanto, o problema é que parte do espaço destinado à espera confunde-se com o passeio do calçadão, destinado a quem se desloca exercendo suas atividades. Nesse caso, a disputa é por um território de interação, ou seja, por uma área física temporariamente controlada por uma pessoa ou por um grupo de pessoas (Lyman & Scott, 1967, citado por Valera & Vidal, 1998, p. 138)
Lévy-Leboyer (1985, p.130) indica que as relações interpessoais não se limitam à comunicação verbal e que a possessão do espaço e sua defesa constituem uma modalidade importante dos intercâmbios sociais. Como, no CAERF, as pessoas normalmente estão de passagem, nem mesmo os usuários de paradas de ônibus “demarcam seu território” utilizando objetos. Geralmente é o próprio corpo que assume a posição do lugar disputado.
No tocante aos conceitos de aglomeração e densidade, observa-se que, nas passagens onde há um estreitamento do passeio destinado ao calçadão, pode ocorrer aglomeração, ou seja, um estado em que os aspectos restritivos de delimitação espacial são percebidos pelos indivíduos a eles expostos (Stokols, 1978). De forma semelhante, quando há um aumento da densidade física nas paradas de ônibus, por exemplo, os usuários sentem-me muito mais propensos a encarar os caminhantes e corredores como
“invasores” do seu espaço (pessoal ou simplesmente geográfico). Nota-se, portanto, que esses conceitos estão interligados.
O estresse causado pela aglomeração parece ser comum no CAERF, pois em várias situações, a pessoa pode se sentir-se observada (Tuan, 1983, p. 69) por outras pessoas no CAERF e pelos que passam nos carros pela avenida. Por outro lado, “estar perdido na multidão” parece gerar um certo grau de não-notoriedade agradável, talvez advinda de uma sensação de privacidade pelo anonimato, uma vez que é mais cômodo realizar os exercícios em um espaço onde se pode ter mais liberdade com as suas emoções e atitudes.
Lévy-Leboyer (1985, p. 106) relata que a densidade tem um aspecto subjetivo, uma dimensão interpessoal e possui conseqüências moduladas pelas atividades dos indivíduos. Ou seja, dependendo da ação que a pessoa desempenha, ela pode vir a sentir que o espaço está mais ou menos denso. Essa sensação de densidade, entendida em Psicologia Ambiental como aglomeração (Tuan, 1983; Hall, 1977; Valera & Vidal, 1998), independe da quantidade de pessoas por metro quadrado e varia em função da atividade que está sendo desenvolvida, de modo que, no caso do CAERF, a mobilidade afeta ainda mais essa sensação.
Nos espaços públicos, como o calçadão em questão, onde nem sempre há a possibilidade de isolar-se fisicamente, a privacidade pode ser mantida evitando-se estabelecer contato visual com as pessoas ao seu redor. De modo semelhante, uma pessoa que opta por não estabelecer contato verbal com um dos rostos familiares, evita que essa pessoa tente contatá-lo no futuro, evitando que haja uma interrupção da atividade física para “bater papo”.Assim, a privacidade é mantida. Isso vai ao encontro do que constataram Pinheiro e Elali (1998): ter privacidade é uma maneira das pessoas refletirem sobre sua interação com as outras pessoas e ponderar sobre contatos futuros.
A privacidade desenvolvida na dimensão interpessoal, pela ausência de elementos físicos que promovam essa separação no CAERF, ocorre através da possibilidade de aproximar-se ou afastar-se das outras pessoas. O uso do walk man pode sinalizar que a pessoa não pretende conversar com as demais e, portanto, reduzir o acesso de outras pessoas. Trata-se de um afastamento ocasionada por uma barreira invisível, mas bastante conhecida e relatada pelos entrevistados.
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Seguindo o diagrama de Valera e Vidal (1998), pode-se dizer que quando o usuário do CAERF utiliza walk man, a privacidade é entendida através da regulação da interação do contato com os outros, manifestada por uma pessoa (pois a pessoa acompanhada dificilmente vai com o aparelho), no aspecto de reserva, e alcançada por múltiplos mecanismos, incluindo o não-verbal e sócio-cultural.
A presença de um grande número de pessoas no CAERF, assim como o uso de
walk man, pode dar a sensação de redução do espaço e menor tempo para percorrê-lo.
Günther (2003) afirma que o movimento altera a densidade do recinto. No CAERF, a densidade altera a sensação de tempo, pois distrair-se com os outros faz o tempo parecer passar mais rapidamente.
Os usuários apontaram a ausência de ruas cruzando o CAERF como vantagem e confirmaram que a percepção do comprimento estimado de um trajeto cresce em função das interseções ao longo do trajeto Sadalla (citado por Okamoto, 1996). Quanto menos interseções, maior a sensação de um tempo reduzido para percorrê-la.
A mobilidade cotidiana é circunscrita ao espaço urbano e, ao mesmo tempo, conseqüência da organização urbana e fator de reorganização da cidade (Balbim, 2003, p. 5). Ou seja, é por mover-se nesse espaço que os usuários podem inferir percepções,
identificando possibilidades espaciais (vantagens), problemas (desvantagens), e sugerindo alterações.