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2. BAYRAM/ KURBAN/ADAK/SAÇI VE BEREKET TÖRENLERİ

2.3. Yağmur Duası

A operação de invenção de uma nova língua literária deveria nascer da transposição da língua oral para o registro literário, o que levaria aqueles escritores imediatamente ao confronto estético e literário com o dialeto, que, por sua vez, estava intimamente ligado a um registro coloquial. As três operações reunidas têm diversos efeitos sobre o conjunto do texto dos Appunti.

Dentre as mais recorrentes, vemos a escolha pelo vocabulário de registro oral e das camadas menos favorecidas da população, as inversões e repetições, características das estratégias de ênfase na língua falada, a grafia diversa de palavras para marcar a distinta pronúncia em dialeto (o que será aprofundado no tópico ―Fonologia‖), as diversas escolhas por vocábulos dialetais, além da liberdade percebida na invenção dos neologismos. Os três mecanismos, frutos da operação de inserção da oralidade/dialeto/coloquialidade na literatura, são parte constituinte de todas as outras escolhas. Mais uma vez, a divisão por mim realizada para fins analíticos inexiste no texto fenogliano.

A gramática normativa de uma língua se divide, grosso modo e conceituando rapidamente, em fonologia – os sons de uma língua –, morfologia – a composição de seu léxico –, sintaxe – as orações e seus muitos componentes – e semântica – o campo do sentido218. Em todos os seus níveis Fenoglio buscou intervir 219.

3.3.1.1 Sintaxe

218

PERINI (1996).

219Pelo item ―Semântica‖ entendo todas as tentativas de ressignificação de termos e conceitos operadas

pelo autor em seu texto e neste estudo analisados nos itens até agora tratados, tais como ironia e humor, a Igreja etc.

Enquanto a língua italiana culta é cheia de orações subordinadas, Beppe Fenoglio, nos

Appunti, opta raramente pelo uso dessa relação entre as orações. A preferência recai primordialmente sobre as coordenadas, forma preferida da língua falada, cuja estrutura permite o uso de orações curtas e independentes. Da estrutura de subordinação, Fenoglio mantém apenas as orações relativas e alguns gerúndios.

O uso recorrente do tempo verbal futuro do indicativo em sua construção analítica, ao invés de sintética, também chama a atenção para certo caráter oral e dialetal. Em língua italiana, o futuro do indicativo é um tempo simples – ou seja, não necessita de verbos auxiliares em sua conjugação, do infinitivo do verbo chega-se, por um caminho mais ou menos regular, à sua conjugação no futuro220. O futuro sintético é um tempo extremamente usual em italiano e feito a partir do radical do verbo acrescido das desinências de futuro. Em língua italiana, para o futuro do indicativo, não é comum o uso do verbo auxiliar na sua construção. No entanto, nos Appunti, o autor muitas vezes recorre a essa construção (vado a dire, vado a fare), nuance que, quando traduzida para o português, fica imperceptível. O objetivo pretendido pelo autor é, mais uma vez, aquele de aproximar a língua falada daquela escrita e de atentar para um substrato dialetal da região norte da Itália: ―Mas Piccàrd diz que não conseguiria em tempo, mão nas pistolas e no chão atrás daquelas cássias e atenção àquilo que vai acontecer (va a succedere).‖221

Mais um recorrente recurso de inserção da fala na escrita é o uso abundante dos dêiticos. Os dêiticos são expressões que são interpretadas por referência a elementos do contexto extralinguístico em que ocorre a fala. Com função parecida com a dos pronomes referenciais – que se referem a um elemento anteriormente citado no texto para retomá-

220

Por exemplo, o futuro do verbo parlare – falar – é Io parl-erò, tu parl-erai, Lei parl-erà, noi parl-

eremo, voi parl-erete, loro parl-eranno, sendo as desinências usadas as paradigmáticas para verbos de 1ª conjugação (-are) no futuro do indicativo. A excepcionalidade da escolha de Fenoglio consiste em utilizar o futuro analítico, ou seja, a forma expandida do tempo verbal: ao invés de parle-erò, usa o verbo auxiliar

andare + o infinitivo do verbo principal parlare = vado a parlare. A forma sintética do futuro indicativo é muito comum em português, mas em italiano, ainda hoje, constitui um erro, mesmo no registro oral.

221 ―Ma Piccàrd dice che non farei in tempo, mano alle pistole e a terra dietro quelle gaggie e attenti a quel

lo – o dêitico retoma um elemento externo ao texto222. A dêixis diz respeito principalmente às pessoas que participam da interação verbal, ou a lugares e tempos que são inferidos a partir da situação de fala. Ela realiza uma espécie de ―ancoragem‖ da fala na realidade, no contexto, explicitando a tentativa de fazer o leitor participar daquele acontecimento.

Nos trechos a seguir, os dêiticos são os ―ali, ali‖, na primeira citação e o ―assim‖ na segunda. Ambos explicitam algo não dito anteriomente que pode ser compreendido pelo contexto (onde é este ―ali, ali‖ que a personagem indica e qual o comprimento do pescoço da galinha que é ―grande assim‖, são informações retomadas pelo contexto).

Mas no pátio daquela casa sai uma mulher, como nos vê fica fulminada, e nós daqui de cima vemos que quer gritar e não lhe vem a voz. Em seguida aponta o dedo a nos dizer que estão ali, ali. Assim nós voltamos a dar uma de corredores e parece que perdemos pedaços sobre pedaços do nosso corpo223

.

De todo lado nos perseguem os armigeri, levando cada um uma galinha com um pescoço longo assim224.

No trecho a seguir, mais um exemplo de construção típica do registro oral: ―E ci mettiamo a far scommesse, li arrivano, non li arrivano, e Claudia chiede ogni minuto quand‘è che sentiremo Ceng a sparare‖225

.

Nesse caso, antes do verbo ―chegar‖ na terceira pessoa do plural, ―chegam‖, a língua pede apenas um pronome pessoal que recupere o sujeito da frase, no caso, um ―eles‖ –

222

O termo de difícil tradução em italiano, ecco, por exemplo, é um dêitico.

223 ―Ma sull‘aia di quella casa esce una donna, come ci vede sta fulminata, e noi da quassù vediamo che

vuol gridare e non le vien la voce. Poi punta il dito a dirci che son lí, lí. Cosí noi torniamo a fare i corridori e ci pare di perdere pezzi su pezzi del nostro corpo‖ (FENOGLIO, 1994, p. 64).

224―Da tutte le parti ci rincorrono gli armigeri, portando ognuno una gallina con un collo lungo cosí‖

(FENOGLIO, 1994, p. 73).

225

Nesse caso a análise do trecho não fazia sentido em português, por isso consta em língua original. (FENOGLIO, 1994, p. 73).

loro– ou a repetição do sujeito ―os homens de Ceng‖. Mas, na língua falada, costuma-

se substituir o pronome pessoal por um pronome objeto direto – li –, no caso, o de

terceira pessoa do plural masculino, concordando com o sujeito ―eles‖, que, em português, seria o equivalente ao pronome ―os‖.

Merece atenção, ainda, a estreita relação entre registro coloquial e elipse sintática bem sucedida em registros escritos. Ou seja, o fato de que a elipse sintática, que é uma estratégia comum na língua falada e normalmente não aceita na língua escrita, tenha chegado ao registro literário indica que o registro coloquial estava alcançando o escrito. A isso corresponde, no plano temático, uma forte ligação entre emitente e destinatário, já que um autor havia levado para o registro escrito, com o objetivo de torná-lo exemplar, algo que pertencia anteriormente a seu leitor, num registro oral. Para fechar o ciclo, a autobiografia permite que esse escritor/narrador que realizou essa operação no ato da escrita seja visto por seu leitor como agente das ações e copartícipe dos acontecimentos no registro oral agora transposto para a escrita.

3.3.1.2 Morfologia

As escolhas morfológicas de Fenoglio nos Appunti são frutos da tentativa de realizar a inserção de uma certa língua falada pelos partigiani das montanhas das Langhe, mais especificamente do Cuneese, num registro literário. Mas essa inserção em registro escrito implicava sempre que a língua de base fosse o italiano culto, registro escrito. Nessa interação entre os dois registros se localiza a importância pela escolha de vocábulos dialetais em meio a frases em italiano, presente em tantos trechos do livro.

3.3.1.3 Fonética

A fonética, normalmente ligada a problemáticas da fala, tem importância nos Appunti

exatamente porque nele Fenoglio reproduz a fala de suas personagens, tentando retomar seus sotaques e variações fonéticas.

A estratégia mais recorente é aquela de grafar diversamente as palavras, marcando a pronúncia dialetal em oposição àquela do italiano culto. Para isso, Fenoglio acentua as palavras sem acento, para denotar que a sílaba tônica varia naquele dialeto ou que a pronúncia, mais fechada em italiano culto, naquele dialeto é aberta. No norte da Itália como um todo, a pronúncia das vogais é muito mais aberta e, embora não sejam acentuadas no italiano standart, no dialetal, caso se fizesse juz à sua pronúncia, bem poderiam ser. Assim, o autor acentua, entre tantas outras, as palavras appéna (p. 6) – assim que – e ancóra (p. 34) – ainda –; a primeira se pronuncia, em italiano culto, com a letra ―e‖ fechada, pronúncia aqui alterada pelo acento, e a segunda, com ―o‖ fechado, aqui escrito aberto.

Benzer Belgeler