Anna Maria é uma garota burguesa, de belas pernas, que Beppe conheceu numa tarde de domingo na praça central de S. Stefano. Estudante de Química Industrial, Anna Maria é solitária e politizada, sabe cantar canções partigiane e, depois daquela tarde tranquila passada com Beppe em S. Stefano, a garota passa a desempenhar um papel crucial dentro da narrativa dos Appunti: é o pensamento nela que faz com que Beppe passe impunemente pelos momentos mais dramáticos da guerrilha. Sua memória funciona como um amuleto antitensão e tira a atenção do protagonista e do leitor das cenas mais animalescas. Quando o narrador volta a descrever as cenas de fuzilamento ou perseguição em que a lembrança de Anna Maria foi evocada para aliviar a tensão, seu efeito já foi conseguido e a tensão foi dissipada para novamente recomeçar a crescer. O mecanismo é sempre o mesmo, o protagonista se perde pensando em Anna Maria e quando se dá conta (―quando mi riscuoto‖) um outro momento da narrativa tem início (a expressão quando mi riscuoto chega a aparecer duas vezes na mesma cena, em que os
partigiani Blister e Jack devem ser fuzilados, momento longo e de grande tensão):
Vento atravessa da esquerda, vem me dizer que ele ontem passou em S. Stefano e que uma bela moça lhe perguntou se aquele partigiano Beppe que estava na Langa ainda está vivo. Cervellino escuta, pra dar uma de engraçado. Eu lhe chamo de idiota e lhe faço votos que seja sempre inteligente como eu em assunto de mulher. Depois me perco pensando em Anna Maria, naquele feliz domingo em S. Stefano. Quando me dou conta, estamos passando de Mango e a luz está voltando nos bastidores180.
Prova da função exercida por Anna Maria é o trecho a seguir, em que o narrador brinca e subverte essa função, num momento de provação física durante a perseguição de
180 ―Vento traversa da sinistra, viene a dirmi che lui ieri è passato a S. Stefano e una bella ragazza gli ha
chiesto se quel partigiano Beppe che stava alla Langa è ancora vivo. Cervellino sente, si ferma a far dello spirito. Io gli do del cretino e gli auguro di essere sempre intelligente come me in fatto di donne. Poi mi perdo a pensare ad Anna Maria, a quella felice domenica a S. Stefano.(...)/Quando mi riscuoto, stiamo passando a Mango e la luce sta tornando tra le quinte‖ (FENOGLIO, 1994, p. 57).
novembro: ―As três noites as passamos nos bosques, e eu pensava frequentemente em Anna Maria, mas dessa vez só por causa das luvas e do cachecol‖181.
Ou quando Beppe, na perseguição mais perigosa do livro, lembra de mandar em pensamento um pedido a Anna Maria, na última vez em que faz referência a ela nos
Appunti: ―Anna Maria, faça-me o favor de ficar quieta em casa. Estou já eu na rua‖182.
Também a Lupa, cadela da Chácara da Langa, desempenha um papel importante; sua presença é evocada e sua ausência sentida nos momentos de maior solidão. Como quando Beppe ainda está a caminho das montanhas e sente saudades dela:
Tivesse comigo, nessa noite e por essa estrada, a loba da Fazenda da Langa183, cadela de sete anos que se te ama você a comanda com os olhos, grandiosa na guarda e na caça de esquilos, animal combatente. Mas eu vou revê-la, o mais cedo possível, e vou fazer ela me lamber e um pouco morder184.
Ao contrário de Anna Maria, que chega nos momentos de tensão, a Lupa faz companhia nos momentos de calmaria, na rotina da Chácara da Langa e nas noites de sentinela dormidas ao relento, em que sua presença evoca o silêncio: ―Ela deve ter feito efeito sobre nós como dizem que fazem os cães e outros animais, porque repentinamente sentimos a necessidade de ficar calados e em seguida sozinhos‖185.
181―Le tre notti le passammo nei boschi, e io pensavo spesso a Anna Maria, ma stavolta solo per via dei
guanti e della sciarpa‖ (FENOGLIO, 1994, p. 49).
182 ―Anna Maria, fammi il favore di startene in casa. Ci son già io in giro‖ (FENOGLIO, 1994, p. 68). 183
O termo no original é cascina, que não possui correspondentes arquitetônicos em português. As
cascine são construções rústicas típicas da região do Piemonte. Nelas agricultores meeiros moram e executam as tarefas ligadas ao plantio e à colheita daquela espécie de fazenda não latifundiária. Aqui optei pelo termo ―fazenda‖ em detrimento de ―chácara‖ – que resolvia bem um aspecto sonoro do termo – pela forte ligação de ―fazenda‖ com a agricultura.
184 ―Avessi con me, stasera e per questa strada, la lupa della Cascina della Langa, cagna di sette anni che
se t‘ama la comandi con gli occhi, grandissima alla guardia e a cacciar scoiattoli, bestia combattente. Ma la rivedrò, al più presto, e mi farò leccare e un pò morsicare‖ (FENOGLIO, 1994, p. 8).
185 ―Costei deve averci fatto effetto come dicono che lo fa ai cani e altre bestie, perché tutto d‘un tratto
Ao longo de toda a narrativa a Lupa é personagem recorrente. O fato de a cadela se chamar Lupa não é irrelevante, já que em italiano significa apenas a raça da cadela: Cane Lupo é um modo coloquial de nominar a raça Pastor Alemão. A cadela sem nome é a companheira fiel de Beppe, por todo o livro, a ela são dedicadas as falas mais manhosas e românticas, indicando certa impossibilidade de os partigiani, em guerrilha, partilharem sentimentos parecidos com os de outros seres humanos: ―Oh, loba, desce aqui que eu quero enfiar a cara no teu pelo e ficar assim tentando não pensar em nada‖186.