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3. GÖK VE YER İYELERİ

3.1. Gök İyeleri

3.1.2. Ay ve Yıldızlar

A relação que o movimento de Resistência italiano estabeleceu com a Igreja passa pela problemática ambígua entre o discurso institucional pregado e o comportamento dos sujeitos em pequenos povoados do norte da Itália. Como visto no primeiro capítulo deste trabalho, a Igreja, depois do 8 de setembro, viveu uma crise de consciência: se durante o fascismo a Guerra poderia ser entendida como sacrifício necessário, agora, com italianos lutando entre si, a Resistência viu uma Igreja silenciosa, sem discursos fortes, ocupada em contornar problemas dramáticos do cotidiano de um país em guerra civil.

Muitos padres se tornaram comunistas e se aliaram às formações resistentes dando-lhes auxílio com dinheiro, documentos falsos, esconderijo protegido, pois os fascistas ainda

162 ―Dei contadini vengono a dirci che oggi sulla sua aia è passato un tale che era certamente una spia e

che peccato che non ci fossero partigiani nei dintorni(...). Io fin da piccolo credevo che le spie avessero per forza una faccia tale da doversi riconoscere a prima vista. Adesso ho cambiato idea, perché non ho mai visto una di quelle faccie che parlano da sole, eppure le spie ci sono, perché sulle Langhe stanno succedendo cose che non si spiegano che con le spie‖ (FENOGLIO, 1994, p. 69).

respeitavam o lugar de Deus e os conventos, que abrigaram inúmeros partigiani nos últimos meses de Resistência.

Nos Appunti, a Igreja enquanto instituição e seu discurso oficial inexistem. Igreja, para o narrador Beppe, são os párocos dos pequenos povoados, todos sem opinião política – porque, claramente, se Beppe estava entre os Azzurri e não entre os comunistas, seus personagens nunca seriam comunistas, principalmente os que desempenhavam importante função social. Esses personagens estavam preocupados com a tragédia de uma guerra civil que acometia seu rebanho e ocupados em confessar os prisioneiros de ambos os lados, antes que eles fossem fuzilados.

O trecho a seguir é um parêntese na narrativa de Fenoglio, parêntese este de grande importância, pois é retomado em quase todos os romances longos. Uma cena surrealista e pouco explicada, em que uma freira insiste para que Beppe leve consigo o ―coração de Jesus‖; nela somos avisados da comunhão também entre indivíduos da Igreja e

partigiani, além de certo descaso do partigiano em relação à fé e às orações: como bom

partigiano, Beppe era ateu.

– Você já recebeu o Coração de Jesus? Digo que não, irmã.

– Sabe, aqui não tem partigiano que não o tenha. Porque tem a virtude de parar as balas – me faz sinal para esperar, que volta logo e com a surpresa. Olho em volta se vejo algum partigiano que me informe sobre esse Coração de Jesus. Agora a freira voltou, me estende um envelopinho de tela. O direito é todo bordado com no meio um coração vermelho muito macio com três gotas de sangue e uma coroa de espinhos. No verso está escrito em roxo: Para! O Coração de Jesus está comigo. Observo, palpo, depois aceno com a cabeça que entendi e digo obrigado. Mas a freira me convida a procurar no envelopinho. Tiro um panfleto levemente impresso: Prece e Convenção com o Coração Sagradíssimo de Jesus. Longa prece, mas a murmuro até o fim, depois digo que é muito bonita e eficaz. Enfio a mão na carteira no bolso da calça pra tirar ela de lá. Imediatamente ela diz que não ali, o seu lugar é sobre o coração, onde se espera que cheguem os golpes em guerra. Enquanto guardo o envelopinho no bolso interno do casaco, penso no partigiano

Bomba que recentemente recebeu uma fuzilada exatamente pros lados da carteira. A freira fica olhando, com um sorriso e as mãos cruzadas163.

Um momento de clara oposição entre a relação de Beppe com a Igreja e com o mundo, antes e depois da transformação que o tornou partigiano, nos é dada no trecho a seguir:

Na colina da frente vejo sair jorrando da igreja de Benevello o povo das Langhe vestido de preto. Oh, sim, domingo. Sinto vontade de me odiar se repenso como, quando civil, eu me deixava entediar por aqueles domingos na cidade, tanto que por ironia eu gritava a mim mesmo e aos amigos que encontrava pelo entorpecido caminho: – Mas chega dessa vida de contínuos prazeres!164.

A seguir, temos a descrição do pároco de S. Donato, ovelha negra do clero e adorado pelos seus paroquianos, que demonstra ter com o partigiano Beppe uma relação de intimidade e afeto.

Da soleira da igreja o pároco me chama, que acabou de varrer a sua igreja. Gordo como um porco, cabeça quadrada, ovelha negra de todo o clero diocesano, mas os seus paroquianos o adoram, e um pouco também nós que o chamamos Don Bestia. Desce até mim, deixada a vassoura em pé contra a grade da igreja. Diz que se por

163 ―– Ha già avuto il Cuor di Gesú?/ Dico che no, sorella./ – Sa, qui non c‘è partigiano che non l‘abbia.

Perché ha la virtu di fermar le pallottole. – Mi fa cenno d‘aspettare, che torna subito e con la sorpresa. Guardo in giro se vedo qualche partigiano che m‘informi su questo Cuor di Gesú. Ora la suora è tornata, mi porge una bustina di tela. Il dritto è tutto ricamato con nel mezzo un rosso cuore morbidissimo con tre scoli di sangue e un giro di spine. Sul rovescio è stampato in viola: Ferma! Il Cuore di Gesu è con me. Osservo, palpo, poi accenno col capo che ho capito e dico grazie. Ma la suora m‘invita a frugare nella bustina. Ne sfilo un foglietto fittissimamente stampato: Preghiera e Convenzione col Cuore Sacratissimo di Gesú. Lunga preghiera, ma la brontolo fino in fondo, poi dico che è molto bella ed efficace. Metto mano al portafoglio nella tasca dei calzoni per ritirarvela. Súbito dice che non lí, il suo posto è sul cuore, dove s‘aspetta che arrivino i colpi in guerra. Mentre calo la bustina nella tasca interna della giacca, penso al partigiano Bomba che recentemente s‘è avuto una fucilata proprio dalla parte del portafoglio. La suora sta a guardare, con un sorriso e le mani intrecciate‖ (FENOGLIO, 1994, p. 20).

164―Sulla collina di fronte vedo uscire a fiotti dalla chiesa di Benevello la gente delle Langhe vestita di

nero. Oh sí, domenica. Mi vien da odiarmi se ripenso a come, da borghese, mi lasciavo annoiare da quelle mie domeniche cittadine tanto che per ironia gridavo a me stesso e agli amici che incontravo per la torpida strada: – Ma basta con questa vita di continui piaceri!‖ (FENOGLIO, 1994, p. 24).

acaso eu for requisitar tabaco de nariz, me lembre dele, e depois que vem um pouco passear comigo165.

A função desempenhada pelos párocos nos Appunti é ainda repleta de momentos dramáticos, como quando um italiano deve ser fuzilado pelos partigiani por ser republicano, logo fascista. Nesses casos, os párocos deviam confessá-los e lhes dar a tranquilidade de ter sido perdoados por Deus, mas, normalmente, eles presenciavam os momentos finais desse fiel e representavam os únicos personagens que não estavam tranquilos naquele ritual, embora partilhassem da opinião dos partigiani de que o fuzilamento deveria ocorrer:

Agora o armigero na porta vem recuando e depois dele vêm o pároco e o condenado. Enquanto o pároco mantém os braços altos tirando a estola, o outro o abraça quase sufocando-o, depois escorrega e lhe aperta os joelhos e grita que o salve ele, reverendo, que ele tem mulher e filhos e se não acredita agora lhe mostra a foto e que um padre não pode ser assim pelo amor de Deus e tantas outras coisas berra e chora. O pároco se contorce em vão, grita ao fascista que não o esprema assim e ao armigero que corra para fazê-lo respirar. Mas o armigero está estupidificado e não sabe fazer nada além de apontar e apontar de novo a arma. Don Bestia luta com o republicano e lhe grita que ele não tem nada a ver com isso, ele o seu dever já fez, resolveu seus problemas com Deus, mas com os homens não pode, não tem mais tempo, precisa ir fazer o catecismo das crianças, e depois a nós altíssimo: – Rapazes, façam o vosso dever!166.

165―Dalla soglia della chiesa il parroco mi chiama, che ha finito di scopare la sua chiesa. Grasso come un

porco, testa quadra, pecora nera di tutto il clero diocesano, ma i suoi parrocchiani lo adorano, e un poco anche noi che lo chiamiamo Don Bestia. Scende da me, lasciata la scopa ritta contro lo stipite della chiesa. Mi dice che se càpito a requisir tabacco da naso, mi ricordi di lui, e poi che viene un pò a spasso con me‖ (FENOGLIO, 1994, p. 35).

166 ―Adesso l‘armigero sulla porta viene rinculando e dopo lui vengono il parroco e il condannato. Mentre

il parroco tiene alte le braccia a sfilarsi la stola, quello lo abbraccia da soffocarlo, poi scivola a stringergli le ginocchia e grida che lo salvi lui, reverendo, che lui ha moglie e figli e se non gli crede ora gli mostra la foto e che un prete non può essere cosi per amor di Dio e tante altre cose urla e piange. ll parroco si divincola invano, grida al fascista di non spremerlo cosi e all‘armigero di correre a farlo respirare. Ma l‘armigero è istupidito e non sa far altro che spianare e rispianare l‘arma./Don Bestia lotta col repubblicano e gli grida che lui non c‘entra, lui il suo dovere l‘ha fatto, l‘ha messo a posto con Dio ma

Don Bestia volta à narrativa, no mesmo dia, poucas horas depois, quando o professor de Rocchetta deve ser fuzilado; apavorado, aparece na janela perguntando o que acontecia e com medo de ser chamado para, mais uma vez, presenciar um ato tão dramático. Diante do temor do pároco, Beppe reage com humor dessacralizante:

Don Bestia diante do clamor se fez na janela da canônica e me gritou: – Beppe, mas pra onde vocês ainda vão? – Eu não sei que lhe repetir que hoje é o dia das execuções. O pároco desmaia, mas eu lhe digo que essa é a vez do padre de Rocchetta e passo adiante167.

Finalmente, nos Appunti,a influência do catolicismo sobre famílias italianas é imensa e sobre a ruptura que a Resistência opera nos partigiani em relação a qualquer forma de hierarquia ou fé – que quando se trata da Igreja Católica implica sempre alguma relação hierárquica – está bem exemplificada no trecho transcrito, em que quase no fim do livro Beppe responde em pensamento à carta da irmã Marisa, que traz o pedido da mãe para que ele repita as orações, algumas noites: ―As orações, mamãe querida, eu esqueci. Tanto para dizer, tento o Pai Nosso e três vezes engasgo em venha a nós o vosso reino, e não me lembro de mais nenhuma palavra‖168.

Benzer Belgeler