2. BAYRAM/ KURBAN/ADAK/SAÇI VE BEREKET TÖRENLERİ
2.1. Bayramlar
2.1.2. Nevruz/Ergenekon/Ulus Günü
O tema dos fascistas e alemães é o tema que melhor se articula em oposição a outro, o tema dos seus opositores, os antinazifascistas, sendo que sob essa etiqueta estão tanto os civis que apoiavam a Resistência quanto os partigiani que combatiam nela.
O primeiro acontecimento do livro narra que um jovem simpatizante dos partigiani com um trapo azul no pescoço e uma pistola de ar na mão foi pego por fascistas e fuzilado na praça de S. Rocco com todos os habitantes, como era de costume, obrigados a assistir. Quando Beppe, passando por S. Rocco, a caminho das montanhas, é levado para ver o pequeno corpo estendido em praça pública – porque os fascistas proibiram os civis de o enterrarem – o leitor é convencido de que sua escolha pelo partigianato é justa e necessária:
– Diria que até o isqueiro tem medo. – Eu digo que isto serve pra tirar o medo187
.
Durante a perseguição de dezembro, Beppe, Cervellino, Piccàrd e Cosmo cruzam com um grupo de civis que estão fugindo e o diálogo entre eles – unidos em oposição aos
186―Oh, lupa, scendi giù che voglio mettermi col muso nel tuo pelo e star cosí a cercar di non pensare a
niente‖ (FENOGLIO, 1994, p. 65).
187 ―– Si direbbe che anche l‘accendisigari ha paura./ – Io dico che questo serve a toglier la paura‖
outros – demonstra os requintes de crueldade que fascistas e alemães adotavam contra eles:
Perguntam a nós o que fazer, se fugir até de noite ou se parar. Cosmo diz que eles civis, se eram prevenidos, nos tempos de calma faziam um buraco no chão e agora desciam pra lá com cobertores e comida e os velhos os cobriam com estrume. Respondem em muitos que quase todos tinham o buraco, mas que agora não serve mais porque os alemães levam diante deles cães que farejam a terra metro por metro e param e latem ao mínimo cheiro de cristão. Os alemães cavam certeiro, te puxam pelos cabelos, e fazem aparecer aquele pouco de cabeça que basta para colocar nela um tiro, tanto você já está embaixo da terra188.
E num inusitado encontro entre os opositores durante a caçada de novembro, a descrição irônica daquele absurdo: ―Nós e eles estamos a uma fração de segundo de nos olhar nos olhos, como conhecidos, de uma calçada para a outra, vendo quem acena primeiro‖189.
Quando a caçada de novembro finalmente acaba, o resumo das perdas mostra a dureza daquela guerra civil, principalmente sobre os civis:
Na manhã seguinte estava tudo acabado. Não houve mais um tiro no ar, mas foram necessárias doze horas para que nós partigiani e as pessoas nos convencêssemos daquela calmaria(...). Eles tinham matado, mais civis do que partigiani, tinham feito fogueira de fazendas, e saqueado, tinham forçado as mulheres, arregimentado homens e padres para que lhe levassem as munições e servissem de escudos contra nós. Tinham vindo em três divisões, para peneirar tudo e todos. Mas, peço perdão aos mortos e às suas famílias, desculpa àqueles que perderam a casa e os animais,
188 ―Domandano a noi il da fare, se scappare fino a notte o fermarsi. Cosmo dice che loro borghesi, se
erano previdenti, nei tempi di calma si facevano un buco in terra e ora ci si calavano con coperte e mangiare e i vecchi li coprivano col letame. Rispondono in molti che quasi tutti l‘avevano il buco, ma ora non serve più perché i tedeschi si portano avanti dei cani che annusano la terra metro per metro e si fermano e abbaiano al minimo odor di cristiano. l tedeschi scavano giusto, ti tirano per i capelli, e fanno sporgere quel pò di testa che basta a collocarci una rivoltellata, tanto sei già sotto terra‖ (FENOGLIO, 1994, p. 47).
189 ―Noi e loro stiamo un attimo a fissarci, come conoscenze da un marciapiede all‘altro, a vedere chi
mas eu acredito que na ocasião alemães e fascistas não tenham salvado as compras190.
Os Appunti, como toda a literatura de Fenoglio, nunca mostram apenas um lado da questão. Havia também a possibilidade de as mulheres italianas se apaixonarem por alemães (como de fato ocorreu), gerando um constrangimento indescritível para os envolvidos naquela guerrilha. Nos Appunti, nem o constrangimento permanece sem resposta: a quase graça com que o problema é narrado por Beppe e a frieza com que é resolvido por Cervellino pretendem tirar o peso dramático de todo acontecimento narrado, dando lugar para uma objetividade em que fosse possível reconhecer a dureza profunda do que estava sendo narrado:
A meeira olha por um bom tempo pra ela, depois se decide, nos diz que sua sobrinha fez amor com um operador de canhão alemão alto dois metros, amor até o fim. Cervellino diz que até o dia em que eles fuderem aquela coisa ali, nós não temos ciúme nenhum. A meeira diz que tudo não acabou ali, aquela desgraçada fala sempre do seu Mathias, e se chegar por acaso um partigiano com alguma coisa atravessada e ouvir, pode até machucar ela. Mas Cosmo diz que as mulheres são mulheres, e tudo isso não tem nada a ver, não deveria ter nada a ver com a guerra e a política191.
Os fascistas, nos Appunti, nunca têm nome. Os alemães também não. O Mathias da citação anterior é a única excessão voluntária a essa regra. Só os partigiani traidores
190―La mattina dopo era tutto finito. Non ci fu neanche piu un colpo in aria, ma ci vollero dodici ore
perché noi partigiani e la gente ci persuadessimo di quella quiete./ (...) Loro avevano ammazzato, piú borghesi che partigiani, avevano fatto falò di cascine, e razziato, avevano sforzato donne, intruppati uomini e preti perché gli portassero le cassette delle munizioni e gli facessero scudo da noi. Erano venuti in tre divisioni, per setacciare tutto e tutti. Ma, chiedo perdono ai morti e alle loro famiglie, scusa a quelli che ci han perduta la casa e il bestiame, ma io credo che allora tedeschi e fascisti non si siano salvate le spese‖ (FENOGLIO, 1994, p. 51).
191 ―La mezzadra la guarda a lungo, poi si decide, ci dice che sua nipote ha fatto l‘ amore con un
cannoniere tedesco grande due metri, l‘amore fino in fondo. Cervellino dice che finché i tedeschi ci fottono quella roba lí, noi non ne siamo per niente gelosi. La mezzadra dice che tutto non è finito lí, quella disgraziata parla sempre del suo Mathias, e se ci càpita un partigiano con qualcosa per traverso e la sente, può anche farle del male. Ma Cosmo dice che le femmine sono femmine, e tutto ciò non c‘entra, non dovrebbe entrarci con la guerra e la politica‖ (FENOGLIO, 1994, pp. 66-67).
tinham nome e já tinham aparecido antes na narrativa. Todos os outros personagens que são fuzilados, fossem republicanos fascistas ou alemães nazistas, permanecem na maior parte do tempo calados e nunca sabemos seus nomes. Os civis traidores têm tratamento levemente distinto, pois deles sabemos a função social que ocupam, o professor de Rocchetta, por exemplo. Isso pode acontecer por dois motivos: o primeiro, seguindo a lógica do narrador Beppe, que queima a carteira de identidade para que quem o mate não tenha o prazer de saber seu nome, porque o narrador não pode saber seus nomes, já que eles não tinham documentos consigo; ou porque, como fascistas e alemães, não merecem ter um nome ou ganhar lugar na memória daquela comunidade, já que eram capazes de tamanha violência para com ela. Os civis traidores são descritos sempre como que levados inconscientemente ou pelas precárias condições a cometerem seus crimes, mas nem por isso são poupados: em tempos de guerra civil, toda falha é grave.
Ao longo do livro nos são contadas inúmeras atrocidades cometidas por fascistas ou alemães, a maioria delas cometida em grupo. A algumas o narrador dedica muito tempo e cuidado para dar ao leitor todos os detalhes sórdidos, que servem para colocar os opositores dos partigiani como seres humanos deturpados e cruéis. No trecho abaixo, tem-se a descrição de como os fascistas invadiam as chácaras durante a noite, matavam, estupravam e roubavam e o desenrolar de uma dessas invasões em uma chácara perto da Langa:
Mas às vezes eles vêm como ladrões assassinos, de noite, com os sapatos enfaixados de retalho, e fazem o anel em torno a uma casa que algum espião imundo lhe deu primeiro o esboço, e os homens que lá moram são todos mortos(...). Fizeram ele morrer três vezes, antes que fosse bem morto. Porque erravam de propósito o disparo. O primeiro um palmo acima da cabeça, o outro raspando num ombro, o terceiro a um pelo do quadril. E depois, à mulher dele que zanzava de camisola gritando o que fazia ela agora, lhe disseram que ser puta é ainda um bom ofício e ela estava já com o traje192.
192 ―Ma qualche volta ci vengono da ladri assassini, di notte, con le scarpe fasciate di stracci, e fanno
l‘anello intorno a una casa che qualche lurida spia gli ha fatto prima lo schizzo, e i maschi che ci abitano son tutti morti./ (...) L‘han fatto morire tre volte, prima che fosse ben morto. Perché sbagliavano apposta la raffica. Una a un palmo sopra la testa, l‘altra a rasargli una spalla, la terza a pelo da un fianco. E poi, a sua moglie che girava in camicia gridando cosa faceva lei adesso, le han detto che la puttana è ancora un buon mestiere e lei era già in costume‖ (FENOGLIO, 1994, p. 67).
Sobre as humilhações infringidas aos inimigos o livro é repleto de exemplos de ambos os lados. No geral, os fascistas são descritos como mais sofisticados no modo com que humilhavam os partigiani. Já os alemães são frios e calculistas (tiravam só a cabeça dos civis da terra e atiravam nela, porque o resto já estava enterrado); e os partigiani, quando em posse de algum prisioneiro, eram acometidos de tamanha raiva que sua especialidade era o espancamento, conjunto, por todos os que passassem por ali, num acesso de ira e revolta que não se dedicava a elucubrações sobre como humilhar o inimigo, mas se satisfazia em surrá-lo.
No trecho transcrito, um exemplo das humilhações dos republicanos fascistas para com os partigiani e das técnicas, diria surrealistas, utilizadas por eles para capturar e matar
partigiani:
Aqueles de Canelli, que são exploradores da Divisão S. Marco, acertaram um pouco dos nossos, e antes de fuzilar, eles estudaram bem bem e tiraram a roupa de todos eles. Em seguida se vestiram com a roupa deles e à moda deles, com um lenço azul no pescoço. E assim acontecem encontros muito estranhos, e sempre sobra um morto, e o morto é sempre nosso193.
Na narrativa dos Appunti, porém, nada é previsível, simples ou plano, mas toda regra estrutural da narrativa pode ter excessões e nuances, condizentes com o ambiente que descreve. Assim, quando o leitor acha que apreendeu a caracterização dos personagens e os respectivos tipos de crueldade atribuídos a eles pelo personagem-narrador, é supreendido com a inversão de todos os valores, como quando um partigiano afirma que ele acha que os alemães são mais corajosos para morrer do que os italianos, que ―Moretto não deve ter gozado grande coisa em fuzilar aquele trapo, e que ele se
193―Quelli di Canelli, che sono esploratori della Divisione S. Marco, hanno beccato un pò di nostri, e
prima di fucilarli, li hanno studiati ben bene e spogliati. Poi si son vestiti con la loro roba e alla loro moda, con un fazzoletto azzurro al collo. E cosí succedono degli stranissimi incontri, e ci scappa sempre il morto, e il morto è sempre nostro‖ (FENOGLIO, 1994, p. 69).
envergonha de ser italiano porque viu muito poucos italianos morrendo decentemente‖194.