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2. BAYRAM/ KURBAN/ADAK/SAÇI VE BEREKET TÖRENLERİ

2.2. Kurban

Ironia e humor são os recursos fenoglianos de que faço uso neste ponto da análise como mediação entre os problemas temáticos e os formais, devido ao fato de que ambos os mecanismos se constituem numa tênue fronteira, ora mais próximos do conteúdo, ora da forma. A ironia, presente principalmente no interior dos diálogos, sejam diretos ou indiretos, consiste num instrumento para invocar o leitor a interagir com o texto, insinuando o destaque do narrador da coisa narrada, mas, quando analisado profundamente, constituindo, ao contrário do que tenta fazer parecer, o principal instrumento de posicionamento do narrador. Já o humor, extremamente sutil, atenua o peso da narrativa e serve também para ligar leitor e narrador numa relação de empatia cruel, pois o leitor é convidado a rir da dramaticidade de algumas cenas aterrorizantes.

Reforçando a escolha por uma análise que tente penetrar mais profundamente o texto dos Appunti de Fenoglio, mais uma vez realizo uma divisão forçosa e artificial entre conteúdo e forma, para tentar uma síntese posterior mais clara e potente.

Neste trabalho, por limitações de espaço e recorte metodológico, preferi ainda dar atenção à função desempenhada por esses mecanismos no interior do texto, não me atendo às suas respectivas conceituações teóricas. Também optei pela junção dos dois recursos – ironia e humor – num só item, desta vez guiada por uma exigência do próprio texto presente nos Appunti, já que nele os dois mecanismos exercem as mesmas funções: interrompem as situações dramáticas do livro, por vezes reforçando, noutras atenuando o peso na narrativa, sempre colocando graça num absurdo ou inesperado gesto ou fala diante da dramaticidade/violência das situações.

194 ―Moretto non deve aver goduto granché a fucilare quello straccio, e che lui si vergogna d‘essere

Como quando o narrador Beppe, subindo as montanhas, passa pelo cemitério de Treiso e, numa estratégia recorrente de transformar tragédia em graça, fechando o ciclo, por vezes, num efeito de ainda maior tragicidade, observa:

E à esquerda, não tem erro, aquele é o cemitério de Treiso. Ele foi desenhado um pouco grande demais para o povoado que é Treiso, mas em honrar todo aquele espaço providenciamos nós partigiani, de um pouco de tempo pra cá195.

Um recurso usado para conseguir o humor é ainda aquele de explicitar as fragilidades dos partigiani, suas dependências psicológicas de outros referenciais morais e ideológicos e sua participação na guerrilha com certa ingenuidade e emoção pueris. No trecho que segue, vemos abordado o tema dos nomes de batalha, sempre ingleses. Nele, o narrador argumenta por que não adotou um nome de batalha – porque luta perto de casa, motivo que justifica, ao longo da narrativa, apenas a sua escolha por não ter um nome de batalha, já que todos os outros partigiani, mesmo lutando perto de casa, adotaram um. Nele, Beppe diz ainda que se a batalha o tirasse de perto de casa obrigando-o, assim, a escolher um nome, escolheria o impronunciável Heathcliff, nome do protagonista do romance O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë:

Digo: – Mas se a guerra partigiana me leva pra fora daqui, vou ter um nome de batalha: Heathcliff.

– Como você disse?

– Um nome inglês. Vou ensinar a todos como pronunciá-lo, então.

Não lhe diga, Beppe, que o teu amor, uma noite de dezembro de 43, te disse que pra ela você parecia com o Heathcliff do famoso romance.

O Comandante diz:

– Tão usando muito os nomes ingleses entre os nossos partigiani. Eu tinha um

partigiano na brigada que tinha escolhido para si um tão difícil que nem ele sabia ensiná-lo. Os outros, cansados de ter que chamá-lo sempre você e coiso, convocaram conselho de equipe e o batizaram Stefano. Ele não aceita, propõe chamá-lo ao menos Fredrich; os outros insistem por Stefano. Ele faz relatório ao

195―E a sinistra, non c‘è da sbagliare, quello è il camposanto di Treiso. L‘han disegnato un pò troppo

grande per il paesello che è Treiso, ma a fare onore a tutto quello spazio ci pensiamo noi partigiani, da un pò di tempo in qua‖ (FENOGLIO, 1994, p. 8).

Comando Pelotão. Este, tudo bem, reprova, porque Fredrich soa alemão. Ele abandona todo mundo e passa pros Garibaldi196.

A escolha pelo nome Heathcliff não é, em nenhum momento, fundamentada pelo narrador e nem compreendida pelo seu comandante, num dos trechos mais explicitamente engraçados do livro, que tratando de um tema específico dos partigiani, também tece uma nítida separação entre os dois mundos, um da guerra civil e outro, da Literatura. Separação incorrigível, em que reside o esforço dialético de tentar abordá-las num mesmo esforço, aquele do texto dos Appunti.

A precariedade de condições também é, paradoxalmente, motivo para um tom mais leve na narrativa, como quando o narrador descreve o uso dado aos livros e às revistas ao longo dos meses de Resistência: ―uma prateleira vazia porque os livros e as revistas eles as levavam para fora para suas necessidades‖197.

Ou, ainda, quando fala dos veículos usados pelos partigiani e da escassez de combustível:

Esses carros partigiani funcionam a gasolina, a benzol, a álcool, a solvente, a licores de luxo e às vezes, parece, a ar 198.

(...)

Como todo carro partigiano, a nossa mil e quinhentos funciona a empurrógeno, quer dizer que se você não empurra por um bom tempo ela nem sonha em dar partida199.

196―Dico: – Ma se la guerra partigiana mi tira fuori di qui, avrò un nome di battaglia: Heathcliff./ – Come

hai detto?/ – Un nome inglese. Insegnerò a tutti a pronunciarlo, allora./ (…) Il Comandante dice: – Vanno molto i nomi inglesi tra i nostri partigiani. Avevo un partigiano in brigata che se n'era scelto uno cosí difficile che nemmeno lui sapeva insegnarlo. Gli altri, stufi di doverlo sempre chiamare tu e coso, montarono consiglio di squadra e lo battezzarono Stefano. Lui non ci sta, propone di chiamarlo almeno Fredrich; gli altri insistono per Stefano. Lui si mette a rapporto al Comando Plotone. Questo, d'accordo, boccia, perché Fredrich suona tedesco. Lui ci pianta tutti e passa alla Garibaldi‖ (FENOGLIO, 1994, p. 15).

197―Uno scaffale vuoto perché i libri e le riviste se le portavano fuori a finire i loro bisogni‖ (FENOGLIO,

1994, p. 24).

198 ―Queste macchine partigiane vanno a benzina, a benzolo, a alcol, a solvente, a liquori di lusso e

Além de certa ingenuidade pueril descrita nos personagens, os ragazzi partigiani são também caracterizados pelo narrador como jovens movidos por um sentido de aventura que nada a tem a ver com os moventes profundos daquela guerra civil. Ao longo de todo o livro, muitas vezes é abordado o tema da escolha daqueles jovens pela Resistência e muitas são as histórias que motivaram essas escolhas. Mas na Resistência de Fenoglio, até para gerar o efeito de eficiente contraste em relação ao seu narrador Beppe, a escolha pela Resistência tem muitas vezes motivos pouco ideológicos ou políticos, deixando a impressão no leitor de uma quase moda juvenil, que trazia benefícios e vantagens aos aventureiros naquele estreito contexto:

Piccàrd pula esgarranchado no paralama e fica ali se segurando num farol. Aquele é um lugar desconfortável mas glorioso no turismo partigiano. Quem tá lá faz sucesso, ele e aqueles que estão dentro, porque faz acreditar a quem olha que o homem em cima do paralama é o homen de confiança de algum grande comandante que viaja a bordo. E as moças das cidadezinhas por onde você passa não veem nada além de você e te admiram todo inteiro‖200

.

A narrativa oral que alcança a literatura é um tema recorrente também nas inúmeras anedotas (daquelas que, como afirmou Italo Calvino, eram contadas à noite, na beira da fogueira) dos partigiani. Em todas elas vemos sobressair um tom de alegria, incompreensível para a situação narrada se não levarmos em conta a idade dos protagonistas. O tom juvenil é reforçado pelo autor nas situações em que pretende uma distensão do texto, como, por exemplo, nos trechos de explícito efeito humorístico:

Cumprimentamos o partigiano Catone, que é dos nossos e trás largo e estendido o seu lenço azzurro em meio a todo aquele rosso. Dá o braço a uma garotinha que é talvez a mais feia da praça. E veste aquelas suas eternas calças que têm uma história. Em agosto, em uma surpresa republicana em Benevello, Catone foi o 199 ―Come ogni altra auto partigiana, la nostra millecinque è a spinterogeno, vale a dire che se non la

spingi per un bel pò di partire nemmeno si sogna‖ (FENOGLIO, 1994, p. 26).

200―Piccàrd salta a cavalcioni del parafango e ci sta tenendosi a un fanale. È quello un posto scomodo ma

glorioso nel turismo partigiano. Chi ci sta fa bella figura lui e quelli che son dentro, perché dà da pensare a chi guarda che l‘uomo sul parafango sia il fido di qualche gran comandante che viaggia a bordo. E poi le ragazze dei villaggi che passi non vedono che te e ti ammirano tutto intero‖ (FENOGLIO, 1994, p. 26).

único a conseguir escapar. Mas atiraram atrás dele por todo o vale. E um disparo lhe recortou as calças em duas em dois ou três pontos sem tocar as pernas. Aquelas calças desde então não trocou mais, nem mandou remendar, mas leva as calças pra passear pelas Langhe e mostra bem de perto às moças. Hoje pelos rasgos dá pra ver as cuecas de uma inacreditável cor de vinho201.

No já citado diálogo com Anna Maria em que a menina burguesa se diz a favor dos

partigiani sobra espaço para uma resposta rápida que corrobore para a descrição do personagem/narrador Beppe como um jovem galanteador, que faz sucesso com as mulheres e que passa domingos nas praças da região esbanjando o lenço azul no pescoço para impressionar as meninas do povoado. Aqui, Beppe confirma a opinião de Anna Maria, reafirmando, com o objetivo de impressioná-la, que ele corre os riscos daquela escolha:

– Sou eu quem não os quero ver. Não é decente ser civil, nesses tempos. Os jovens, se entende. Ou daqui ou de lá, mas com tantas armas e riscos. Não lhe parece? – Não lhe parece que me parece?‖202

.

A principal fonte de ironia, porém, é a pretensão dos partigiani de realizar uma grande batalha, descrita pelo narrador como um contínuo fugir de um lugar a outro, com raros episódios decisivos para o desenrolar da Guerra. No trecho a seguir, partigiani

inutilmente reunidos ao redor de um mapa, são ironicamente comparados a Napoleão Bonaparte, imperador francês: ―Consigo ver que sobre a mesa está dobrado um mapa

201 ―Salutiamo il partigiano Catone, che è dei nostri e porta largo e spiegato il suo fazzoletto azzurro in

mezzo a tutto quel rosso. Dà il braccio a una ragazzina che è forse la più brutta della piazza. E porta quei suoi eterni calzoni che hanno una storia. Nell‘agosto, in una sorpresa repubblicana a Benevello, Catone fu il solo a farcela a scappare. Ma gli spararono dietro per tutta la valle. E una raffica gli sforbiciò i calzoni in due o tre punti senza toccargli le gambe. Quei calzoni da allora non li ha più cambiati, né li ha fatti rammendare, ma li porta in giro per le Langhe e li fa vedere davvicino alle ragazze. Oggi per gli strappi gli vedi i mutandoni d‘un incredibile color vino‖ (FENOGLIO, 1994, p. 28).

202―– Sono io che non li voglio vedere. Non è decente esser borghesi, di questi tempi. I giovani, s‘intende.

O di qua o di là, ma con tanto d'arma e rischio. Non le pare?/ – Non le pare che mi pare?‖ (FENOGLIO, 1994, p. 29).

das Langhe, e muita gente em volta fala alto de setores e estradas de entrincheiramento, outra cala sempre e sempre olha o mapa, enrugados como muitos napoleões‖203.

Sobre o dia a dia da batalha, mais um exemplo de certa burocratização violenta da ação dos partigiani, da qual o leitor é convidado a rir:

Vira-se, vai até Franco, o pálido comandante do pelotão dos destruidores, meu amigo, e lhe diz que tem uma pontezinha para se explodir. Franco diz que ele de pontezinhas já explodiu trinta e seis, que está de s... cheio disso, mas que vai explodir só mais essa e depois descansa‖204.

Quanto mais dramática for a situação narrada, maior o efeito conseguido pela ironia e o humor. Aqui vemos a descrição de um prisioneiro sendo levado ao fuzilamento: ―O prisioneiro pergunta onde o estão levando, e um dos dois lhe diz que o levam pra colônia de férias‖205.

O peso do acontecimento a ser narrado – um fuzilamento – é primeiro aliviado pela resposta irônica, para imediatamente depois tornar-se ainda mais dramático, pois, além de se tratar do fuzilamento de uma personagem a que não fomos convencidos pelo texto a odiar, o sentido de violência trágica é corroborado pela resposta irônica, mas principalmente tranquila e serena, de quem deve fuzilá-lo, explicitando a inexistência de sentimentos como compaixão ou mesmo pena.

Outro momento sereno, e por isso mesmo dramático, da narrativa é quando um civil, no fuzilamento de outra personagem, se preocupa apenas com o que o fuzilamento do personagem vai causar no seu muro: ―Aparece um civil e diz que por caridade, aquela é

203 ―Riesco a vedere che sul tavolo sta spiegata una carta delle Langhe, e molta gente intorno parla forte di

settori e di strade d‘arroccamento, altra tace sempre e sempre guarda la carta, aggrottati come tanti napoleoni‖ (FENOGLIO, 1994, p. 34).

204 ―Si volta, va da Franco, il pallido comandante del plotone guastatori, amico mio, e gli dice che ci

sarebbe un ponticello da far saltare. Franco dice che lui di ponticelli ne ha fatti saltare ben trentasei, che ne hai c... pieni, ma che fa saltare ancóra questo e poi si riposa‖ (FENOGLIO, 1994, p. 35).

205―Il prigioniero domanda dove lo stanno portando, e uno di quei due gli dice che lo portano in

sua casa, mandou refazer o reboco há menos de um mês e que existiriam tantos outros belos lugares. Mas alguém o empurra pra trás‖206.

Ou ainda quando, durante o julgamento dos partigiani traidores Blister e Jack, Beppe chega e pergunta por que os dois estão sendo julgados, se o motivo é aquele que ele imagina; na resposta, mais uma dose de desesperança e ironia:

– Ivan, é talvez porque na caçada Blister se vestiu de civil e perdeu a arma?

Diz Ivan que se fosse por aquilo, não se faria outra coisa além de processos até o fim da guerra e que se deveria chamar os fascistas para serem jurados207.

Com o desenrolar da narrativa, os outros temas vão sendo engolidos pelas ―caçadas‖, que se tornam cada vez mais próximas e violentas. As caçadas são as investidas minuciosas de alemães e fascistas em conjunto sobre um território. Elas visavam não apenas a captura dos partigiani, como também o assassinato de civis, que colaborassem ou não com a guerrilha, o estupro das mulheres, a prisão dos homens e a queimada de casas, além do roubo dos proventos, animais e colheitas: ―Tinham passado eles, tinham comido e colocado na mochila toda a gordura e os salames, galinhas e coelhos, bebido todos os ovos, em seguida partido novamente dizendo que mandassem a conta a Badoglio‖208.

Também aqui cabe um toque de ironia com a sugestão de quem pagaria a conta dos prejuízos deixados pelos fascistas nas casas civis que invadiam. Badoglio é o marechal nomeado pelo rei para ocupar o comando do Exército Régio após a queda de Mussolini (com a rápida mudança de lado desse exército, que deixava de ser aliado alemão para se tornar aliado dos Aliados). Os fascistas sugeriam, ironicamente, que o atual chefe do

206 ―Viene fuori un borghese e dice che per carità, quella è casa sua, ha fatto rifar l‘intonaco meno d‘un

mese fa e che ci sarebbero tanti altri bei posti. Ma qualcuno lo ricaccia indietro‖ (FENOGLIO, 1994, p. 41).

207 ―– Ivan, è forse per via che in rastrellamento Blister s‘è messo in borghese e ha perso l‘arma?/ Mi dice

Ivan che se fosse per quello, non si farebbe altro che processi fino alla fine della guerra e che si dovrebbe chiamare i fascisti a far da giurati‖ (FENOGLIO, 1994, p. 52).

208 ―Eran passati loro, avevano mangiato e messo in zaino tutto il lardo e i salami, galline e conigli, sorbite

exército que um dia foi o deles, pagasse a conta daqueles que continuavam lutando ao lado de Mussolini.

Ainda no julgamento de Blister e Jack, na tentativa de se defender, Blister insinua que a família que está afirmando que ele cometeu aquele crime, na verdade, é fascista. Em meio ao clima tenso construído para aquele julgamento, a resposta do comandante inviabiliza totalmente qualquer dramaticidade (il Duce era como Mussolini era chamado): ―Você não sabe, Cosmo, que são todos fascistas? A mulher chama o céu por testemunha, e Cosmo grita que se esta é gente fascista, ele Cosmo é o Duce‖209.

Quando Blister e Jack são condenados e fuzilados, a narração do acontecimento, mais uma vez, se encerra com crueza, violência e humor:

Assim eu vi que Blister estava bem coberto, mas Jack não tinha em cima mais que um véu de areia, lhe despontavam dois terços dos sapatos, escanchados. E a ninguém veio mais em mente voltar para melhorar sua sepultura. Tanto é verdade que na primavera, depois de neve e degelo, a mensageira Meris estava passando por ali e viu aqueles sapatos eretos entre as margaridinhas e desmaiou em cima. E acordou de manhã com o rosto a um palmo dos velhos sapatos do Jack210.

O fato de que a sepultura de um ex-companheiro de batalha tenha sido feita com tamanho descaso (a ponto de jogar sobre o corpo um ―véu de areia‖) reforça a impressão de brutalidade daquela guerra civil. O humor está sutilmente espalhado por todo o trecho, mas atinge seu ápice na oração ―e viu aqueles sapatos eretos entre as margaridinhas‖, com o diminutivo ―margaridinhas‖ como principal responsável pelo tom geral da oração.

209 ―Non lo sai, Cosmo, che son tutti fascisti? La donna chiama il cielo a testimonio, e Cosmo grida che se

questa gente è fascista, lui Cosmo è il Duce‖ (FENOGLIO, 1994, p. 54).

210 ―Cosí io ho visto che Blister era ben coperto, ma Jack non aveva sopra che un velo di terra, gli

spuntavano due terzi delle scarpe, divaricate. E a nessuno venne più in mente di tornare a migliorargli la sepoltura. Tant‘è vero che in primavera, dopo nevi e sgelo, la staffetta Meris si trovò a passar di lí e vide quelle scarpe ritte tra le margheritine e ci svenne sopra. E si svegliò la mattina col viso a una spanna dalle vecchie scarpe di Jack‖ (FENOGLIO, 1994, p. 59).

Sobre a chegada dos Aliados, mais demorada do que teriam preferido os civis envolvidos naquela guerra civil, também aqui, na boca de outra personagem, a desconfiança irônica da ação dos Aliados: ―Diz Maria Laò: – Se pelo menos em Neive se pudesse ouvir a Radio Londra pra saber em que ponto estamos. Vêm pra cima ou vão pra baixo esses Aliados de meia tijela?‖211.

Começa a segunda grande caçada narrada nos Appunti, o histórico ―rastrellamento de novembro‖. No final de um almoço surrealista, quando, em plena guerrilha, todo um pelotão participa de um banquete regado a vinho, nhoques e pêra com queijo parmesão, os partigiani precisam fugir desesperados porque os republicanos chegaram. Nesse trecho, volta o humor, na narrativa de uma fuga burlesca e desajeitada de cinco aventureiros: Beppe, Piccàrd e Cervellino, o partigiano Maria Laò e o comandante Cosmo. Mais uma vez o humor tem muitos objetivos: tirar peso do texto num momento reconhecidamente dramático para as formações dos resistentes partigiani, narrar os heróis da pátria como meros fugitivos desesperados e dar graça para esse desespero, aproveitando o fato de que o acontecimento narrado era já, a priori, dramático também para os leitores. Justo nesse momento dramático o autor conduz o leitor ao riso mais aberto de toda a narrativa:

Descemos, e eu me sinto pouco bem, maldito Otto e os seus nhoques, suo frio, o cérebro está congelando. Digo a Piccàrd pra me passar o seu capacete de aviador, me passa, coloco, tão pesado e aderente que eu sufoco dentro e não escuto mais nada, embora veja os meus quatro mover os lábios e fazer gestos.212

No trecho citado, os nhoques que o comandante Otto ofereceu durante o almoço demasiadamente farto começam a causar mal-estar em todos os quatro – a personagem Otto é descrita ao longo de toda a narrativa como escorregadia e culpada, não se sabe

211 ―Dice Maria Laò: – Se almeno a Neive si potesse sentire Radio Londra per sapere a che punto stiamo.

Benzer Belgeler