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A partir do século XVIII, em concordância com o espírito racional da época152, as

corridas de touros deixaram as praças públicas e ganharam um espaço construído

especificamente para o seu desenvolvimento – nas palavras de Antonio Bonet Correa, “la plaza de toros, fruto de la Ilustración, tiene la geometría más adecuada y

perfecta para su uso y función”153 (apud AMORÓS, 1998, p. 32). Os circos romanos constituíram um modelo quase obrigatório, já que a natureza e a organização de seus espetáculos apresentavam semelhanças importantes com as corridas; além disso, ainda restavam exemplares relativamente conservados dessas antigas edificações na Península Ibérica, que serviam de modelo e inspiração para uma arquitetura que, como a arte em geral, vivia um momento de retomada de valores e referências clássicas. A arena, ou ruedo, adquiriu sua forma circular para que, diferentemente das praças públicas geralmente retangulares, o touro não fizesse de algum canto ou irregularidade do perímetro um refúgio ou defesa que impossibilitasse a luta. Várias dependências internas foram racionalmente estabelecidas em função das necessidades de transporte e acomodação dos animais, touros e cavalos, e em função das diferentes atividades exercidas por funcionários, cavaleiros e assistentes. Ao mesmo tempo, ao lado da sala reservada aos toureiros, instalou-se uma capela para que pudessem exercitar sua devoção. Em algumas praças, estabeleceu-se a constante presença de um sacerdote, em local especificado, com a extrema-unção previamente preparada, e tornou-se indispensável a constituição de uma enfermaria bem equipada com os recursos da época. Quanto à plateia, ela foi organizada levando-se em conta as diferentes funções e o prestígio dos espectadores, com espaços claramente demarcados cujos preços variavam segundo sua localização: ao sol ou à sombra.154

Juntamente com a profissionalização dos atores e a valorização do toureio a pé, as

corridas viram o estabelecimento de um a série de regras canônicas que conferiram

ao espetáculo um rigor inédito. O evento foi dividido em partes bem delimitadas, os

152

Cf. AMORÓS, 1988, p. 32.

153

“a praça de touros, fruto da Ilustração, tem a geometria mais adequada e perfeita para seu uso e função”. (Tradução nossa)

154

tercios155, que tinham por objetivo preparar “a morte pública do herói, que não é outro senão esse semideus bestial, o touro”, explica Michel Leiris (2001, p. 18). Cada uma dessas etapas passou o ter um cerimonial que deveria ser rigorosamente observado e, dentro dele, cada lance, cada movimento executado, passou a ser avaliado levando-se em conta sua eficácia, justificação, integridade e elegância, abandonando cada vez mais a condição de um espetáculo rude e sanguinário para se transformar num acontecimento artístico de grande beleza plástica156.

Seguindo a mesma tendência, o touro assumiu uma identidade específica: a de toro

de lidia, ou toro bravo, variedade do Bos Taurus Ibericus que só é encontrada na

Espanha, em Portugal, no sul da França e em alguns países latino-americanos para os quais foi levada pela colonização espanhola157. Sua presença restrita a essas regiões geográficas se explica pelo fato de que só há toros de lidia onde há corridas, pois trata-se de uma variedade especialmente desenvolvida a partir de um longo processo seletivo cujo resultado é um animal vigoroso e valente, que “no es sólo

naturaleza, sino cultura: creación humana a partir de unos datos biológicos, elección voluntaria, selección refinadísima”158 (AMORÓS, 1988, p. 18). Tal seleção procurou desenvolver características muito particulares, diferentes das naturalmente encontradas nesses animais, que fizeram desse touro o único apto para as corridas159, como explica Cesáreo Sanz Egaña:

El toro es un rumiante naturalmente tímido; embiste obligado; no quiere siempre acometer; su instinto primario es flojo; reacciona con torpeza e irregularmente. Un animal así no asegura la lidia, no secunda la brega del toreo, y han sido los ganaderos españoles quienes, mediante una selección juiciosa y una crianza adecuada en un medio apropiado, han logrado toros que siempre quieren embestir; la bravura se ha impuesto como fuerza activa a la cobardía específica y sobresale en la conducta del toro de lidia, un dato para conceder origen intelectual a la bravura. (EGAÑA apud RUIZ, 1990, p. 20)160

155

Cada uma das partes de uma corrida, em que alternam picadores, banderilleros e o matador.

156

Cf. OLIVER, 1997, p. 21-23; LEIRIS, 2001, p. 23-24.

157

Todas as informações de natureza histórica, geográfica e zoológica sobre esse animal foram extraídas dos seguintes autores: AMORÓS, 1988; COSSÍO, 1951-1953; OLIVER, 1997; RUIZ, 1990.

158

“não é só natureza, mas cultura: criação humana a partir de alguns dados biológicos, eleição voluntária, seleção refinadíssima”. (Tradução nossa)

159

Cf. OLIVER, 1997, p. 13; RUIZ, 1990, p. 18.

160

“O touro é um ruminante naturalmente tímido; investe obrigado; não quer sempre acometer; seu instinto primário é frouxo; reage com torpeza e irregularmente. Um animal assim não assegura a lida, não corresponde à luta do toureio, e foram os ganaderos espanhóis quem, mediante uma

A seleção efetuada pelos ganaderos161 teve por objetivo desenvolver no toro de lidia a valentia, que o faz avançar “cegamente” contra aquilo que se fixa em seu campo visual, e a regularidade de sua investida, quase sempre de frente e de cabeça baixa, para cornear, características que permitiram o estabelecimento do sistema de regras que fundamenta a tauromaquia. Além disso, a fisiologia desse animal também foi decisiva para que as corridas se constituíssem como um espetáculo formalmente organizado, permitindo aos matadores o desenvolvimento de sua arte precisa e calculada:

El toro de lidia es el único animal doméstico que conserva el dominio completo de sus actividades funcionales, de sus instintos primitivos, sin ninguna doma ni amansamiento. Animal criado para veinte minutos de espectáculo, llega a la plaza sin preparación y sin adiestramiento. [...] Los bovinos, por contextura anatómica, son cortos de vista; en algunos ejemplares, por efecto de esfericidad, la miopía es más intensa; son llamados vulgarmente burriciegos. [...] Entre los bovinos braquicéfalos, Sanson incluye la raza ibérica, cuyos genuinos representantes son los toros de lidia; la braquicefalia, la anchura del cráneo, distancia mucho los ojos, posición favorable para crear un vicio de refracción. Los toreros que se arriman saben que el toro acude mejor al engaño y siguen los lances con seguridad; en cambio, toreando a distancia, aumenta el peligro y es mayor la exposición a las cornadas162. El toro, animal miope, acercándole el trapo, acorta la distancia focal, lo que favorece la buena percepción de los objetos; se puede decir que ha enfocado el objeto en su retina [...]. (EGAÑA apud RUIZ, 1990, p. 19)163

seleção criteriosa e uma criação adequada num meio apropriado, alcançaram touros que sempre querem investir; a bravura foi imposta como força ativa à covardia específica, e sobressai no comportamento do touro de lida, um dado para se conceder origem intelectual à bravura.” (Tradução nossa)

161

Donos das ganaderias, das criações de gado [ganado] (Cf. COSSÍO, 1951-1953, v. 1, p. 71).

162

Como um iniciado no mundo da tauromaquia, Cabral conhecia essa característica dos touros, mencionando-a em um de seus poemas, no qual, inclusive, a morte do toureiro é atribuída à visão imperfeita do animal: “Quis tourear muito de perto / um touro míope (burriciego), // sem conseguir nele mandar, / fazê-lo investir, arrancar. // Cansado, se afasta do touro. / (“Fazê-lo touro não posso.”) // Mas o touro de longe o vê, / e o investe com todos os pés. // José o sente, estende a “muleta”, / para desviá-lo de sua meta; // o touro não a vê, já está perto, / vai no que vira, o talhe esbelto.” (“A Morte de ‘Gallito’” – MELO NETO, 2008, p. 595)

163

“O touro de lida é o único animal doméstico que conserva o domínio completo de suas atividades funcionais, de seus instintos primitivos, sem nenhuma doma ou amansamento. Animal criado para vinte minutos de espetáculo, chega à praça sem preparação e sem adestramento. [...] Os bovinos, por constituição anatômica, têm a visão deficiente; em alguns exemplares, por conta da esfericidade, a miopia é mais intensa; são vulgarmente chamados burriciegos. [...] Entre os bovinos braquicéfalos, Sanson inclui a raça ibérica, cujos representantes genuínos são os touros de lida; a braquicefalia, a amplitude do crânio, distancia muito os olhos, posição favorável para criar um vício de refração. Os toureiros que se aproximam sabem que o touro responde melhor ao engaño e seguem os lances com segurança; por outro lado, toureando à distância, o perigo aumenta e se fica mais exposto às cornadas. O touro, animal míope, aproximando-lhe o pano, encurta a distância focal, o que favorece a boa percepção dos objetos; pode-se dizer que ele focalizou o objeto em sua retina [...]”. (Tradução nossa)

Quando em ação, na arena, esse touro adota um comportamento ativo, bravio, marcado por um automatismo instintivo que o leva a atacar de forma direta e repetitiva o objeto para o qual está dirigida sua atenção. Esta se fixa mais facilmente pelo sentido da visão, e depois de fixada dificilmente se desvia. Ciente disso, o toureiro faz uso dos engaños, o capote ou a muleta, para que, atento a eles, o animal não arremeta contra o seu próprio corpo:

La atracción, mejor, la fijación de un órgano sensorial dirigida hacia un punto determinado, sin abandonarlo, anula a las demás tendencias que pueden llegar por otras vías sensoriales y son detenidas o desviadas. El animal fijo, como ocurre al toro en algunos tercios de la lidia, atraído por el capote o la muleta, rechaza las diversas impresiones que llegan a su organismo y rebotan en los sentidos sin traspasar a la consciencia; la atención sólo puede fijarse en una sensación y exige del animal una previa elección, siendo preferido el estímulo más fuerte, el más activo, el que más le atrae, y en estos casos sólo una fuerte sacudida puede romper el enlace psíquico entre el estímulo y la atención del animal. (EGAÑA apud RUIZ, 1990, p. 21)164

Assim, o animal que antes era escolhido por sua braveza, índice de poder e capacidade reprodutiva, passou a ser selecionado também em função de sua adequação ao espetáculo encenado nas modernas arenas; um lutador moldado pelo papel de deveria exercer nessa nova luta; a imagem exata de uma força cega e irracional, contraposta à lucidez e à racionalidade do seu adversário, o toureiro, inteligente e triunfante.