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a. Yükseköğretim Üst Kurulu

O Brasil reproduziu o modelo hospitalocêntrico europeu do século 19. Os hospitais que eram administrados pelas Santas Casas de Misericórdias tinham como gestores a Igreja Católica. O Hospício Pedro II, inaugurado em 1852 na cidade do Rio de Janeiro, nasceu como resposta ao número crescente de pessoas ociosas que circulavam pelas ruas da capital e que eram consideradas loucas. Assim, tal como os asilos europeus, pode-se afirmar que aquele tinha como objetivo implícito assegurar a exclusão das pessoas denominadas improdutivas das ruas das cidades (TUNDIS & COSTA, 1987).

Esse novo segmento social, tido como não trabalhador e subversivo da ordem social, passou a ser visto como obstáculo ao crescimento econômico do país. Os “insanos”, internados nas santas casas de misericórdia ou em asilos sob sua administração, eram subdivididos em categorias como perigosos, criminosos, condenados e alienados comuns. Não recebiam qualquer tratamento médico, sendo, muitas vezes, acorrentados às camas quando se encontravam agitados (TUNDIS & COSTA, 1987, p. 31).

No decorrer da década de 1870, fortemente influenciadas pelos discursos dos alienistas franceses, surgem vozes dentre os médicos brasileiros que ecoam o pedido de criação, no curso de medicina, de um campo especializado no estudo da alienação mental. Em 30 de junho de 1878, o presidente da Academia Imperial de Medicina, Dr. José Pereira Rego, pronunciou um discurso em que reforçava a necessidade de estudos sobre a alienação. Como justificativa, enfatizou que a área jurídica precisava avaliar a presença ou ausência da alienação mental em criminosos, pois, como destaca Engel (2001, p. 16):

Se a responsabilidade de um fato criminoso é sempre uma questão grave, muito mais o é em face das presunções de ser o crime praticado por um louco; por isso que o desconhecimento dessa circunstância, por falta de convenientes pesquisas, pode dar lugar à imposição penal a homens que aparentem estar em condições normais da inteligência, mas que estão realmente loucos, e que, portanto, não podem ser responsáveis dos crimes e delitos que têm praticado, porque para sua execução não gozam de livre arbítrio.

A importância da criação de um curso de psiquiatria aparece na paisagem médica brasileira, portanto, aliada à necessidade de transformar o asilo em local de produção de saber sobre a loucura e de aprofundamento dos estudos sobre a avaliação da loucura. Machado de Assis, em O Alienista, já mostrava que a psiquiatria era uma área ainda pouco conhecida:

O nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção, – o recanto psíquico, o exame de patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada (ASSIS, 2002, p. 4).

Verifica-se, também, que a formalização da psiquiatria como área médica esteve intimamente vinculada à perspectiva de detectar a fronteira do território demarcado entre o crime e a loucura, assegurando o controle da avaliação pela área médica.

O Poder Legislativo aprovou a criação das cadeiras de psiquiatria no sétimo ano do curso de medicina, no decorrer da década de 1870. À medida que a psiquiatria se consolidava como saber especializado no Brasil, os estudos acerca das diversas formas de manifestação da loucura ganhavam espaço na academia médica (ENGEL, 2001).

Influenciados pela teoria da degeneração de Jacques Joseph Valentin Magman, a

partir do início do século 20, os psiquiatras brasileiros se debruçaram sobre os limites da normalidade e anormalidade e suas classificações. Em 1904 foi publicado o primeiro manual

de psiquiatria forense no Brasil, elaborado pelo psiquiatra paulista Francisco Franco da Rocha. Segundo sua formulação teórica, os indivíduos predispostos à loucura apresentavam um desvio que os inclinava à alienação, tornando-se, portanto, possíveis degenerados. Eram considerados fronteiriços e, por isso, não podiam ser considerados normais, nem alienados

(CARRARA, 1998).

O médico Nina Rodrigues (1899), fortemente influenciado pelas teorias deterministas e positivistas de Cesare Lombroso, afirmava que raças inferiores, como a dos negros, eram portadoras de tendências natas à impulsividade, à imoralidade e ao crime. O mestiço, segundo sua linha teórica, resultava na degeneração da raça branca. Dessa perspectiva, a pureza das raças seria a solução para o controle da imoralidade e das infrações no Brasil. A estrutura do aprisionamento emergiu como uma resposta ao anseio científico ligado à punição (CARRARA, 1998).

Nos anos seguintes, novas instituições psiquiátricas continuaram a surgir em São Paulo, Pernambuco, Bahia e Minas Gerais. O hospital psiquiátrico de Juquery, localizado no município de Franco da Rocha, em São Paulo, chegou a ser considerado um modelo de assistência psiquiátrica. A capacidade dos leitos do Juquery, que na época de sua criação (1898) era de 800 leitos, em pouco tempo superou seu limite, pois se em 1901 comportava 509 internos, em 1912 esse número atingiu 1.250 internos e, em 1950, 12 mil internos (LANCMAN, 1988; CUNHA, 1988).

No final dos anos de 1950, a situação nos hospitais psiquiátricos brasileiros era de superlotação, deficiência de trabalhadores, maus-tratos, falta de vestuário e alimentos e péssimas condições físicas.

A década de 1960 é marcada pelo golpe militar em 1964, e nesse período a assistência à saúde foi caracterizada por uma política de privatização maciça. Já a assistência à saúde mental, entre os anos 1960 e 1970, caracterizou-se pelo que se pode denominar de indústria da loucura. Essas instituições, legitimadas por um discurso preventista, utilizaram métodos de busca e internamento de pessoas para abastecerem os hospitais, fazendo, assim, prosperar as rendosas clínicas de repouso.

De acordo com Cunha (2004, p. 93), nos anos seguintes ocorreu um aumento do número de hospitais psiquiátricos e de leitos contratados pelo Estado: em 1971 eram 72 hospitais públicos e 269 privados, com 80 mil leitos; e em 1981, 73 hospitais públicos e 357 privados, chegando a 100 mil leitos.