O processo político-institucional iniciado com o golpe militar de 1964 fez com que o Brasil, na década de 1970, ainda estivesse mergulhado em um regime autoritário de exceção. A opressão havia emudecido ou eliminado os canais de manifestações e impedia qualquer prática democrática.
Nesse contexto, na segunda metade dos anos 70, surgem nas grandes cidades, principalmente nas periferias, movimentos sociais de luta pela redemocratização e de conquista por melhores condições de vida. A identificação de interesses coletivos comuns possibilita uma organização a partir de temas importantes para as necessidades de sobrevivência cotidiana, como: custo de vida, transporte, moradia, saneamento básico e saúde. Como afirma Yasui (2006), esses novos sujeitos históricos se tornaram interlocutores no processo de reconstrução da cidadania, possibilitando a conquista de espaços políticos para reivindicar e exigir direitos do Estado, acelerando a transição democrática.
Dessa forma, é nesse cenário de busca pela democratização que surge a Reforma Sanitária, propondo a transformação das condições de saúde da população e criticando um modelo assistencial da saúde cheio de contradições e injustiças.
(...) Pensar o trabalho e a formação na saúde e enfrentar o pensamento autoritário. Essa grande questão deu origem ao movimento de medicina social, de saúde coletiva dentro dos departamentos de medicina preventiva que começaram a produzir reflexões e a realizar denúncias das contradições entre ditadura, pensamento autoritário e saúde no seu sentido mais amplo. (...) Era preciso pensar e atuar na sociedade, no tempo histórico em que se vivia. Também não era possível pensar no campo da saúde, apenas como um campo determinado por fatores eminentemente biológicos. A saúde tem determinantes sociais, o que implica em pensá-la como resultante da complexidade de fatores sociais, econômicos, culturais e políticos. Transformar a saúde é transformar a sociedade que a produz enquanto processo social (Yasui, 2006, p. 24-25).
Em consonância com Yasui, Ianni et al. (2014, p. 2299) afirma que a Reforma Sanitária foi um movimento social pautado em um “(...) um conjunto de ideias sobre as mudanças e transformações necessárias na área da saúde (...) direcionado à democracia, ao amplo acesso aos serviços de saúde e preocupada com a exclusão da participação dos trabalhadores e técnicos no processo decisório das políticas de saúde, que eram tomadas exclusivamente pelos governos autoritários”. Sendo assim, iniciado no período de transição democrática, nos anos 70, o movimento sanitarista luta não apenas por reformas da saúde, mas também contra a o regime militar.
Uma atenção à saúde efetiva dependia de um sistema de saúde democrático, viável somente em um regime democrático. O movimento tem, assim, como princípio o reconhecimento da saúde como direito universal a ser garantido pelo Estado através de um sistema de saúde universal e equânime (LOBATO, 2000, p.17).
A expressão Reforma Sanitária foi usada, pela primeira vez no país, nos debates prévios à VIII Conferência Nacional de Saúde (CNS), realizada em 1986. Os participantes dessa Conferência utilizaram o termo Reforma Sanitária para nomear um movimento que luta por mudanças e transformações no setor saúde, a partir da compreensão de que a reforma é consequência da melhoria das condições de vida da população. Esse movimento social surgiu na esteira da luta contra a ditadura e contou com participantes de diferentes setores da sociedade, como profissionais dos serviços públicos, professores e estudantes das universidades, integrantes do movimento sindical e lideranças do novo movimento urbano que apostavam na saúde como direito social e no desenvolvimento da cidadania do Estado Moderno (Teixeira, 1989). Dessa forma, entender saúde como bem público implicava a universalização do direito à saúde.
A Reforma Sanitária almejava um regime democrático, que consolidasse a cidadania no país, junto com um modelo de proteção social que garantisse o direito à saúde integral. Gastão (2007, p. 1869) afirma que:
O movimento sanitário articulou-se também para o ‘lado’ e para ‘cima’. Ainda durante os anos oitenta, participantes do movimento aproximaram-se de políticos, deputados constituintes e de gestores públicos, influenciando-os quanto à legislação e ao ordenamento legal do sistema (...) a motivação de amplo segmento do movimento sanitário era política, e o trabalho na saúde era utilizado como uma tática para enfrentamento contra a ditadura, de onde, é provável, ganhou relevância o lema que juntava ‘saúde e democracia’.
Buscavam também, além da reforma na saúde, a conscientização e a politização de camadas populares e dos trabalhadores de saúde:
(...) com o passar do tempo, esse movimento, com forte componente ‘instrumental’ (...) – muitos o pensavam como um ‘meio’ para fazer política junto ao povo e dentro de instituições – encontrou-se com outros sujeitos sociais, gente da universidade, de organismos internacionais, dos serviços de saúde, e operou-se uma síntese, teórico-prática, que constituiria o arcabouço do SUS (...) (GASTÃO, 2007, p. 1.869).
A VIII CNS contou, em 1986, com mais de cinco mil representantes e conseguiu unificar as diversas tendências políticas representadas pelos inúmeros grupos que discutiram um novo modelo de saúde para o Brasil, além de garantir, na Constituição, por meio de emenda popular, que a saúde é um direito do cidadão e um dever do Estado. Com isso, o movimento sanitário chega ao processo constituinte com algumas proposições concretas:
A primeira delas, a saúde como direito de todo o cidadão, independente de ter contribuído, ser trabalhador rural ou não trabalhador. Não se poderia excluir ou discriminar qualquer cidadão brasileiro do acesso à assistência pública de saúde. A segunda delas é a de que as ações de saúde deveriam garantir o acesso da população às ações de cunho preventivo e/ou curativo e, para tal, deveriam estar integradas em um único sistema. A terceira, a descentralização da gestão, tanto administrativa, como financeira, de forma que se estivesse mais próximo da quarta proposição que era a do controle social das ações de saúde (...) (ENSP, s/d).
Segundo Paim (2007), a democratização da saúde ia além da formulação de uma política nacional de saúde. Significava a revisão critica de concepção, paradigma e técnicas da saúde, da relação do Estado com a sociedade. A Reforma Sanitária provocava uma reflexão buscando superar o modelo vigente de organização de serviços de saúde. Foram levantados conceitos e concepções desenvolvidos na Saúde Coletiva, tais como determinantes sociais da saúde, humanização dos serviços de saúde, promoção da saúde, consciência sanitária e política de saúde intersetorial.
O Movimento da Reforma Sanitária, juntamente com todo o movimento em prol da redemocratização do Brasil, teve grande influência na Assembleia Constituinte Brasileira de 1988, com resultados bastante promissores, como a criação do Sistema Único de Saúde (SUS).
Os artigos 196, 197, 198, 199 e 200 da Constituição Federal, em sua Seção II da Saúde, definem saúde como “direito de todos” e “dever do Estado”12. Trata-se de uma questão de relevância pública, que deve ser regulamentada fiscalizada e controlada pelo Poder Público, com acesso universal e igualitário às ações e aos serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Essas ações e serviços devem integrar uma rede regionalizada e hierarquizada e constituir um Sistema Único, com os seguintes princípios e diretrizes:
§ princípios: saúde como direito, universalidade, equidade, integralidade, resolutividade, intersetorialidade, humanização no atendimento e participação; § diretrizes: descentralização, hierarquização, regionalização, financiamento e
controle social.
Foi constituído um complexo sistema interdependente que compreende as instituições públicas do Poder Executivo em seus três níveis de governo (União, Estados e Distrito Federal, e Municípios).
É importante ressaltar que, nesse sistema, a descentralização e a municipalização adquirem grande importância, passando o Município a se responsabilizar por poderes e ações outrora referenciados aos Estados e à União. A valorização do território, a municipalização e o controle social são diretrizes que vêm ao encontro da luta pela organização da sociedade e pela conquista de cidadania da Reforma Sanitária. Dessa maneira, foram implantados conselhos populares, organismos que visam à participação da sociedade civil.
Enfim, a Reforma Sanitária foi o resultante de um movimento político da sociedade civil brasileira em defesa da democracia, dos direitos sociais e de um novo modelo de saúde pública. Segundo Paim (2007, p. 151),
(...) a Reforma Sanitária Brasileira como uma reforma social centrada nos seguintes elementos constituintes: a) democratização da saúde, o que implica a elevação da consciência sanitária sobre saúde e seus determinantes e o reconhecimento do direito à saúde, inerente à cidadania, garantindo o acesso universal e igualitário ao Sistema Único de Saúde e participação social no estabelecimento de políticas e na gestão; b) democratização do Estado e seus aparelhos, respeitando o pacto federativo, assegurando a descentralização do
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Art. 196 da Constituição Federal, 1988: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação” (Brasil, 1988).
processo decisório e o controle social bem como fomentando a ética e a transparência nos governos; c) democratização da sociedade e da cultura, alcançando os espaços da organização econômica e da cultura, seja na produção e distribuição justa da riqueza, seja na adoção de uma "totalidade de mudanças" em torno de um conjunto de políticas públicas e práticas de saúde, seja mediante uma reforma intelectual e moral.
Em consonância com esse processo, a Reforma Psiquiátrica no Brasil surge a partir da mobilização dos trabalhadores da saúde mental e começa a trilhar um caminho muito próximo, unindo-se à luta pela redemocratização.